Na coleção… Pequena Miss Sunshine

Nos últimos anos, a comédia independente tornou-se um verdadeiro gênero. Basicamente, os exemplares desse estilo apresentam uma mesma forma de narrar histórias e de construir personagens. Se, por um lado, isso pode ser um ponto negativo (afinal, certos filmes parecem até insistentes em ser tão alternativos), não devemos deixar de nos lembrar que a popularização é também muito importante, uma vez que é difícil que esses filmes cheguem às nossas salas de cinema. E, recentemente, Pequena Miss Sunshine foi o grande responsável por essa total virada das comédias independentes. Conquistando importantes indicações ao Oscar, o filme da dupla Jonathan Dayton e Valerie Farris foi abraçado com entusiasmo pelo público e pela crítica. Nada mais merecido para esse que é, sem dúvida, o filme mais inesquecível dos últimos anos dentro de seu segmento.

Pensar em Pequena Miss Sunshine é pensar, primeiramente, em um elenco incrivelmente harmônico. De talentos já carimbados como Alan Arkin e Toni Collette, o filme também revelou outros nomes promissores (Abigail Breslin, Paul Dano), além de trazer uma notável interpretação de Steve Carell, que estava prestes a emergir com The Office. Apresentando uma química impecável, o elenco se sai muito bem quando todos dividem uma cena, mas é importante lembrar que eles ainda entregam performances individuais dignas de aplausos. Os atores divertem, emocionam e, acima de tudo, convencem. Pequenos estereótipos, assim, passam completamente despercebidos com esses profissionais que encarnam com perfeição uma problemática família que decide pegar a estrada com o objetivo de levar a filha caçula para um concurso de beleza.

Essencialmente cômico, outro aspecto importante de Pequena Miss Sunshine é a forma como ele também consegue ser um road movie melancólico e reflexivo. Apesar de tantas cenas hilárias, o premiado roteiro de Michael Arndt nunca esquece que está retratando uma família desestruturada, cheia de decepções e derretos. Isso fica evidente logo na sequência de abertura, quando o personagem de Steve Carell, em um quarto de hospital, está olhando pela janela com um olhar cheio de pesar e sequer reage ao abraço de sua irmã. Mas, por se tratar de uma comédia, o filme nunca pesa no drama, conseguindo deixar tudo subentendido, sem ter que encenar momentos apelativos ou sequer enfadonhos, onde até mesmo as lições de moral surgem muito discretas. É um texto que consegue casar todas essas abordagens com maestria, conseguindo alcançar, ainda, um ritmo ágil para a história que nunca perde o fôlego.

Diferente até mesmo em suas resoluções (talvez o grande público não consiga aprovar por completo certos desfechos que fogem do convencional), o debut de Jonathan Dayton e Valerie Farris no cinema é uma verdadeira pérola. É o caso raro de um filme que consegue reunir um roteiro repleto de inteligência com uma direção na medida e com um elenco muito especial. Pequena Miss Sunshine, em suas risadas e, por que não, lágrimas, tem um resultado de dar inveja. Da primeira à última cena (ambas contando com a ótima trilha de Mychael Danna e canções originais de DeVotchKa), o longa mostra que comédias podem – e devem – ir muito além do humor fácil. É uma experiência única e que, inclusive, merecia mais reconhecimento nas premiações: perdeu até mesmo o Globo de Ouro de comédia/musical para Dreamgirls – Em Busca de Um Sonho. Inclusive, deveria ter sido coroado no lugar de Os Infiltrados no Oscar (além de receber outras indicações para Carell e Dano, por exemplo). Sem dúvida, uma dessas surpresas cinematográficas que estão cada vez mais raras nos dias de hoje.

FILME: 9.5

7 comentários em “Na coleção… Pequena Miss Sunshine

  1. Hugo, e que bom que o Sundance continua firme e forte até hoje, né?

    Kamila, filme indispensável para se ter na coleção!

    Gustavo, concordo!

    Stella, algumas pequenas lições não me parecem tão naturais… E acho particularmente estranho o destino do Alan Arkin. Durante todo o filme, fiquei com a sensação de que aquilo era uma brincadeira…

    Baahonline, como disse para a Kamila, “Pequena Miss Sunshine” é indispensável para qualquer coleção!

  2. Preciso adquiri-lo na minha coleção. Vejo, revejo e não me canso !

  3. Você foi perfeito ao dizer que “Pequena Miss Sunshine” é uma daquelas surpresas cinematográficas que se tornam casos raros, especialmente nos dias de hoje. Filmes sobre famílias problemáticas existem aos montes por aí, mas o que me chama a atenção é que, a partir de cada vulnerabilidade de cada personagem, temos uma história que nos chama atenção demais pela forma como é contada, como faz uma unidade dessa família, mesmo com todas essas diferenças.

    Fora que este filme tem muitas cenas memoráveis e atuações sensacionais! Vejo e revejo sempre que posso!

  4. Um dos que muito ajudaram para o crescimento do cinema independente americano foi o ator Robert Redford, que nos anos oitenta foi um dos criadores do Festival de Sundance, que deu maior visibilidade aos novos projetos de baixo orçamento.

    Abraço

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