Cinema e Argumento

Jogo de Cena

Direção: Eduardo Coutinho

Elenco: Andréa Beltrão, Marília Pêra, Fernanda Torres, Mary Sheyla, Débora Almeida, Lana Guelero, Marina D’Elia

Brasil, 2007, Documentário, 105 minutos, 12 anos

Sinopse:Atendendo a um anúncio de jornal, 83 mulheres contaram sua história de vida em um estúdio. 23 delas foram selecionadas, em junho de 2006, sendo filmadas no Teatro Glauce Rocha. Em setembro do mesmo ano várias atrizes interpretaram, a seu modo, as histórias contadas por estas mulheres.


Se existe um gênero de cinema que os brasileiros sabem fazer de forma segura, esse é o documentário. O Cárcere e a Rua, Doutores da Alegria e Do Luto à Luta são apenas alguns dos bons exemplos já produzidos pela indústria cinematográfica nacional. Entretanto, nenhum se compara a esse Jogo de Cena, um emocionante longa-metragem que fala sobre as dores da vida, as frustrações amorosas e outras tantos desafios emocionais que somos obrigados a enfrentar durante a nossa estadia aqui na Terra.

Na realidade, esse trabalho de Eduardo Coutinho não chega bem a ser um documentário na sua essência. O que assistimos na tela são histórias das mais variadas sendo narradas por algumas mulheres. Algumas são simples desconhecidas e outras atrizes de calibre, como Marília Pêra. O que acontece é que ficção e realidade se misturam, construindo assim, uma situação muito interessante envolvendo as figuras em cena. Quem está interpretando? Quem está contando realmente uma história pessoal?

O maior mérito de Jogo de Cena é apresentar histórias muito emocionantes, que são contadas de forma verdadeira – tanto por quem está dizendo a verdade ou por quem está interpretando. No final das contas, isso é o que menos interessa no resultado final. O interessante são as histórias e o que esses acontecimentos podem trazer de lições para o espectador. Além de ser muito bem conduzido pelo diretor, Jogo de Cena é uma jornada exemplar sobre como fazer drama e brincar com uma narrativa num estilo original. O longa, portanto, quer mostrar que, em certos casos, a realidade é mais emocionante que a ficção. Porque ali tudo é verdade, mesmo que seja apresentado com uma estrutura embaralhada.

Maravilhoso a cada minuto e totalmente sincero, o produto final é extremamente recomendável. Inclusive, o filme pode ser considerado um dos melhores já produzidos na história do nosso cinema. É refrescante, emocionante e ao mesmo tempo realista, além de conter tudo aquilo que se pode esperar dentro de um tradicional documentário. É um filme a ser reconhecido e muito aplaudido. Fazia bastante tempo que o cinema nacional não me empolgava tanto. Fico feliz de ter sido surpreendido.

FILME: 9.0

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Tinha Que Ser Você

Direção: Joel Hopkins

Elenco: Dustin Hoffman, Emma Thomspon, Eileen Atkins, Kathy Baker, Daniel Lapaine, Richars Schiff, James Brolin

Last Chance Harvey, Inglaterra, 2008, Drama Romântico, 92 minutos, Livre

Sinopse: Harvey Shine (Dustin Hoffman) está em Londres por causa do casamento de sua filha. É quando o inesperado acontece e ele conhece Kate Walker (Emma Thompson), uma inglesa que desperta no protagonista sentimentos há muito tempo esquecidos.

É bem apropriado afirmar que Tinha Que Ser Você é somente mais um filme sobre estranhos que se conhecem e acabam se afetuando ao longo dos momentos que compartilham. É difícil alguém se empolgar um longa tão simples como esse, onde cada segundo é de uma grande previsibilidade. O que acontece é que temos dois grandes atores como protagonistas. Dustin Hoffman e Emma Thomspon – ambos vencedores do Oscar – são o que dão para história um charme todo especial. É exclusivamente por causa dele que vamos torcer do início ao fim para que tudo dê certo no final.

Se não fosse pelos dois atores, estariamos diante de um filme corriqueiro, onde praticamente nada seria admirável. Até porque Tinha Que Ser Você, além de óbvio, tem algumas falhas. A primeira dela é a de juntar os protagonistas só depois de meia hora de filme (vale constatar que a duração não chega nem a 90 minutos). Depois, cria histórias que não vão a lugar nenhum (Eileen Atkins, por exemplo, está incrivelmente perdida em cena) e não tem diferencial significativo no seu jeito de contar a história. Nós sabemos o que vai acontecer e como tudo vai terminar, exatamente como constantamos na maioria de filmes desse estilo.

Tinha Que Ser Você, portanto, é simpático e funciona – mas pelos motivos errados. É uma típica situação em que, se tirarmos o principal coringa do longa-metragem – nesse caso Hoffman e Thompson – o castelo inteiro de cartas cai.  Não conseguiria se sustentar sozinho. No entanto, com atores tão talentosos e competentes, fica fácil perdoar os defeitos do filme. A verossimilhança do relacionamento dos dois é tão sincera que, no final das contas, o espectador até esquece que a história comandada por Joel Hopkins é simples como qualquer outra da Sessão da Tarde.

FILME: 7.0

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Dez Atuações Femininas da Década

Ainda falta o ano inteiro para que completemos uma nova década, mas já começo a esboçar o que o cinema trouxe de mais marcante para a próxima geração de cinéfilos nessa primeira década do segundo milênio.Essa série de posts, então, reflete o que o Cinema e Argumento considerou de melhor durante esse tempo. O primeiro post dessa série é sobre dez atuações memoráveis de atrizes que com certeza serão sempre lembradas. A ordem é aleatória.

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Foi um trabalho que impressionou muita gente, até mesmo que não é cinéfilo crítico de plantão – minha avó, por exemplo, ficou boquiaberta com a interpretação de Marion Cotillard. Não é pra menos – considero essa a maior representação de um artista dessa década. É um mergulho profundo no corpo e na alma da cantora francesa Edith Piaf. Premiada com o Oscar, o Globo de Ouro e o BAFTA de melhor atriz, Marion nos presenteou com uma das atuações mais arrepiantes dos últimos tempos e, provavelmente, da história do cinema.

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Outra atriz que se entregou de corpo e alma para compor sua personagem foi Felicity Huffman. Em Transamérica, ela interpreta um homem que quer ser mulher e descobre um filho que não sabia que tinha. É impressionante o trabalho de Felicity nesse longa, especialmente porque ela vai muito além do duro trabalho de voz ou da maquiagem – ela molda uma figura totalmente simpática mas que nunca deixa de mostrar que tem suas complicações e inseguranças. Difícil é entender como o Oscar premiou uma certa Reese Witherspoon no ano em que Felicity concorria.

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Não sei porque tenho a impressão de que Julianne Moore foi a atriz do elenco de As Horas que mais entrou no íntimo de sua personagem. Talvez esse seja um atestado do grande desempenho de Julianne Moore como Laura Brown. Julianne encontra aqui o melhor papel de sua carreira, onde transita com uma segurança absurda em um filme com gente muito talentosa. Inegável é o talento da atriz que, em Laura Brown, apareceu em cada minuto da aparição da atriz. Outro trabalho que não foi celebrado como deveria.

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Sutileza é uma palavra que define o trabalho de Imelda Staunton em O Segredo de Vera Drake. É incrível a naturalidade com que Imelda interpreta a generosa senhora que ajuda garotas a abortarem na década de 50. A atriz passa toda a inocência de Vera sem que ela pareça ingênua demais, em uma composição perfeita. Também transmite toda a dor da personagem quando o seu segredo é descoberto – mas faz isso sem chorar copiosamente e sem exageros. Mais uma prova de que, às vezes, uma grande atuação não depende necessariamente da história e sim da habilidade de uma profissional.

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É um imenso choque ver a bela Charlize Theron em Monster – Desejo Assassino. 14 quilos mais gorda, com uma pesada maquiagem e um jeito masculino, Charlize tem uma performance arrebatadora nesse difícil longa-metragem que é bem restrito. Charlize constrói uma personagem muito complicada, que a vida acabou transformando na primeira serial killer mulher dos Estados Unidos. Abusada pelo pai, maltratada pelos homens, apaixonada por uma jovem garota e prostituída para ganhar dinheiro, a personagem foi perfeitamente interpretada por Theron.

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Medo, insegurança, severidade e angústia. Esse é, provavelmente, o papel mais completo de toda a carreira de Nicole Kidman. Aqui ela tem a oportunidade de explorar todo o seu talento, nas mais diversas nuances, especialmente porque a peronagem dá diversas oportunidades para isso. Kidman encabeça Os Outros com extrema segurança, em uma atuação realmente memorável. Pena que tal aparição da atriz foi ofuscada por ela mesma no mesmo ano em que Moulin Rouge! – Amor em Vermelho entrou em cartaz.

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Só uma atriz com a experiência de Meryl Streep cairia com uma luva para interpretar a madura Clarissa Vaughan em As Horas. Considerada por muitos como a figura menos interessante do longa – algo que eu discordo – Streep dá uma aula de atuação e, assim como todo o elenco do filme, cria momentos memoráveis. Só as conversas com Richard (Ed Harris) e a visita de Louis (Jeff Daniels) já compravam o quão detalhista é a sua composição. Cada gesto e cada palavra diz muito para o espectador.

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Não poderia faltar nessa lista uma interpretação da atriz mais talentosa da nova geração. Kate Winslet encontrou na Clementine Kruczynski de Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças uma personagem única, marcante a cada instante. Winslet, com toda sua versatilidade, está visivelmente à vontade em cena, com uma naturalidade surpreendente e uma simpatia absurda. Em um filme cheio de tantos méritos – incluindo o surpreendente Jim Carrey – a atriz achou um jeito de conseguir brilhar em cada aparição.

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Barbara Covett é uma professora rígida que vive uma vida muito solitária. Complexa e amargurada, Barbara ganhou contornos notáveis nas mãos de Judi Dench – indicada a diversos prêmios sua atuação. Sem dúvida é um papel difícil, que exige total entrega sentimental da atriz. Mas tudo pareceu perfeito em Judi, que absorveu toda as confusões da personagem, explorando cada técnica de seu talento para compor a figura antipática de Barbara – que, no final das contas, acaba sendo até uma pessoa interessante devido a seus problemas emocionais.

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Das dez selecionadas nesse post, a que tem o trabalho mais sutil é Helen Mirren. Ela não chora copiosamente, não dá ataque de raiva e muito menos apela para o trabalho de semelhança física com a figura que representa para engrandecer sua atuação. O trabalho de Mirren é contido, onde ela se arma de cada diálogo para criar uma ótima interpretação dotada de minuciosidade. Mirren foi vencedora de todos os prêmios da temporada quando concorreu por esse seu trabalho e a excelência de seu trabalho é simplesmente inquestionável.

Opinião – A escolha de Francesca

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Atenção! Se você não assistiu ao filme “As Pontes de Madison”, não continue! O texto possui spoilers.

Francesca (Meryl Streep, indicada ao Oscar por seu desempenho) tem uma vida correta para a sua época. Ela é uma dona-de-casa em uma fazenda no condado de Madison e mora com seu marido (Jim Haynie) e seus dois filhos. (Christopher Kroon e Sarah Kathryn Schmitt). A princípio, ela tem uma vida satisfatória, onde seu cotidiano se resume em cuidar da casa e de suas famílias. É o ideal de felicidade para os anos 60. Um dia, a família parte para um concurso de novilhos em uma outra cidade e Francesca fica em casa. Pareciam ser quatro dias solitários, mas eis que um fotógrafo da National Geographic, Robert Kincaid (Clint Eastwood), bate à sua porta pedindo por informação. Ele quer fotografar as pontes do condado, mas não está se situando. Francesca se oferece para ajudar o fotógrafo, mostrando-lhe as pontes das redondezas.

Eles passam a tarde juntos, trocando algumas opiniões e fotografando paisagens. Contudo, ambos marcam um jantar – já que ambos estão sozinhos. E é nessa noite que tudo muda. As simples conversas passam a se transformar em íntimas confissões, relatos sentimentais e outras tantos diálogos sobre sonhos e amor. Surgem confidências. Surge uma música. Surge uma dança. E ambos se beijam. A partir daí, Frances e Robert estão apaixonados. Ela, uma mulher presa a uma vida já definida. Ele, um homem livre que está disposto a fazer qualquer coisa. O principal mérito do roteiro de As Pontes de Madison, escrito por Richard LaGravanese (diretor de longas como Escritores da Liberdade e P.S. Eu Te Amo), é conferir muita humanidade aos dois. Não estamos assistindo um amor à primeira vista ou muito menos uma atração física. Robert e Francesca se apaixonaram pelos verdadeiros seres humanos que existem em cada um deles.

Tudo muito romântico e verossímil, dotado de belos diálogos que são pontuados por uma inesquecível Meryl Streep e um surpreendente Clint Eastwood – no papel mais diferente de toda a sua carreira. Entretanto, chega um momento decisivo para ambos. O marido e os filhos de Francesca estão voltando e Robert tem que ir embora. Agora ela tem uma difícil escolha: permanecer em Madison com as pessoas com quem construiu a sua vida até agora ou sair a viajar pelo mundo com Robert, uma intensa e verdadeira paixão? A jornada de escolha da personagem é extremamente dolorosa. Ela tem a oportunidade de viver o grande amor da sua vida. Mas, para isso, ela terá que abandonar o seu lar e as pessoas com quem sempre viveu. Nos extras do dvd, o escritor LaGravanese disse que a maioria das pessoas com menos de 30 anos radicalmente condenam a escolha que ela toma no filme – a de permanecer com sua família. Já a maioria das pessoas acima de 30 anos, afirmam que sua decisão foi correta.

É uma indecisão mortal, já que é extremamente difícil se colocar na posição da protagonista. O problema é que o roteiro não faz da família de Francesca um conjunto de pessoas que a fazem infeliz. Eles são boas pessoas, que se contentam com o banal. Ela é a diferente. Ela quer paixão, sentimento, algo diferente do que vive e que teve a oportunidade de provar a sensação quando conheceu Robert. Colocando-me na posição dela, eu teria feito o mesmo que ela fez, acredito. Dá pra se levar de base o que Francesca diz para Robert, que sua família não iria aguentar a dor, a vergonha, a fofoca que a sua decisão de fugir iria causar. Principalmente em uma época conservadora como aquela. E uma frase do filme exemplifica bem isso: “Robert, você não entende. Quando uma mulher toma a decisão de se casar e ter filhos… Por um lado a sua vida começa. E por outro lado a sua vida termina“. Mas, é claro, que eu não posso negar que não ficaria com vonde de abrir a porta daquele carro e sair correndo no meio da chuva. Afinal, esse tipo de certeza só aparece uma vez na vida. Ainda assim, eu faria o mesmo que ela fez. Por mais doloroso que seja.

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E você? Acha que Francesca deveria ter fugido com Robert ou ela estava certa em ficar em Madison com sua família? Dê a sua opinião! =)

ps: e a minha querida Susan Sarandon que me perdoe, mas aquele Oscar era todo da Meryl Streep!

Os visitantes do Cinema e Argumento concordaram com a escolha de Francesca. Abaixo, o resultado da enquete:

Francesca deveria…

ter ficado com sua família. 65% (15 votes)

ter fugido com Robert. 35% (8 votes)

O segundo cinecast!

A turma do primeiro cinecast está de volta, só que dessa vez falando sobre continuações. Dessa vez temos um convidado especial, o Pedro Henrique do Tudo é Crítica. Apesar de eu ter falado significativamente pouco, de debocharem de mim porque entenderam “Bento” ao invés de “Pedro” e de eu ser o estranho no ninho que não gostou de O Poderoso Chefão, vale a pena conferir esse segundo volume. Contamos com a participação de vocês!

Para ouvir a nossa segunda edição do projeto, clique aqui.