Cinema e Argumento

Vamos falar sobre o Emmy? – Parte 2

Sejamos sinceros: as intenções eram ótimas. Ora, uma série de terror! Mas AMERICAN HORROR STORY é comandada por Ryan Murphy, sujeito que nunca consegue dar boa continuidade ao que cria. Além de ter arruinado Nip/Tuck (que teve duas ótimas temporada iniciais e depois terminou no fundo do poço), ainda fez Glee ser esquecida com a mesma velocidade com se tornou um sucesso. Não é novidade, então, ver uma excelente parte técnica e uma ótima Jessica Lange a serviço de um programa tão problemático e irregular como American Horror Story. Ao invés de ser um guilty pleasure, o programa é mal contado e se perde no meio de tantas subtramas e personagens (prejudicando, inclusive, ótimos atores, a exemplo de Frances Conroy, que não tem maiores chances). O Emmy parece ter se empolgado com a história (aqui classificada como minissérie), que conseguiu algumas indicações completamente inexplicáveis, como a de melhor atriz para Connie Britton. A única que deve ganhar algo – merecidamente – é Jessica Lange, o único ponto realmente positivo desse programa disléxico.

Pela falta de opções em seu respectivo segmento, HEMINGWAY & GELLHORN conseguiu indicações importantíssimas. Quero acreditar nessa teoria de falta de opções. Digo isso porque não consigo entender como um filme tão tedioso, repetitivo e nada interessante conseguiu ser nomeado a melhor telefilme, direção, atriz, ator, fotografia, trilha, etc. Nem mesmo os bons atores (incluindo David Strathairn e a própria Kidman) conseguiram dar gás a esse trabalho completamente antiquado. Se existia qualquer dúvida que Julianne Moore fosse perder o Emmy desse ano em função de Kidman, elas terminaram quando Hemingway & Gellhorn foi exibido. Talvez mereça algumas menções técnicas, mas não tudo o que recebeu. Certamente, não consegue sequer chegar perto da eficiência de Virada no Jogo, o melhor telefilme da temporada.

Apesar de ainda ser indicada a melhor série de comédia e ter vários atores concorrendo – incluindo convidados – parece que 30 ROCK já morreu para o Emmy. Claro que a série já reinou soberana durante três anos consecutivos, mas a sexta temporada foi particularmente inspirada e digna de trazer 30 Rock de volta aos holofotes. Alec Baldwin e Tina Fey estão no grupo dos melhores comediantes da TV e é uma pena ver que até mesmo eles já não possuem grandes chances de serem consagrados novamente. A maior injustiça, no entanto, é ver que Jane Krakowski, sempre um destaque da série, nunca ganhou quando indicada e, agora, sequer foi nomeada. Em um ano repleto de séries novatas e de outras que não precisam têm mais o mesmo gás (Modern Family), um retorno de 30 Rock não seria nada injusto – principalmente quando o seriado está prestes a encerrar sua jornada de uma vez por todas (a sétima temporada é a última).

DEXTER já foi um dos melhores seriados em exibição e, inclusive, merecia ter conquistado vários prêmios no Emmy. Hoje, no entanto, amarga uma sucessão de episódios covardes e redundantes. A quinta temporada e, agora, a sexta (que está concorrendo), foram dois exemplos de como a popularidade pode prejudicar um programa: depois das ousadias do quarto ano, os escritores retrocederam descontroladamente ao não movimentar mais a vida do protagonista para não correr o risco de perder audiência. Tudo é uma variação do que já vimos antes, o protagonista deixou de ser fascinante, as investigações são corriqueiras e nem as narrações em off são mais inspiradas. Portanto, a indicação para Michael C. Hall é no mínimo injusta, já que ele tem pouco a fazer com seu personagem que nunca se abala ou se transforma com as situações da vida. A única lembrança deveria ser para Jennifer Carpenter, que nunca esteve tão bem como Debra Morgan. Se não fosse por ela, Dexter já seria 100% dispensável.

Vamos falar sobre o Emmy? – Parte 1

Durante alguns anos, escrevi sobre séries em um blog que era uma extensão do Cinema e Argumento. Agora, com pouco tempo para manter dois blogs atualizados, tive que abandonar o Séries e Argumento. Mas é época de Emmy e, como bom fã de séries que sou, não posso deixar de dar meus palpites e minhas opiniões não só sobre quem deve vencer a premiação, mas também sobre os trabalhos concorrentes em particular. Por isso, começo essa série de posts que tem como objetivo falar sobre todas as séries, minisséries e telefilmes que tive a oportunidade de conferir. No último post dessa série, claro, farei minha lista de apostas. Lembrando que o Emmy 2012 acontece no dia 23 de setembro, às 20h (horário de Brasília). A lista completa de indicados pode ser conferida aqui. Os comentários não têm spoilers.

BREAKING BAD teve a primeira parte de sua quinta (e final) temporada exibida recentemente, mas as indicações ao Emmy ainda são pelo quarto ano – que é, possivelmente, o ponto alto do programa criado por Vince Gilligan. Bryan Cranston é aposta certa como melhor ator: suas três vitórias consecutivas são mais do que merecidas e a matemática não tende a falhar, já que, além de Cranston estar extraordinário (como sempre), submeteu Crawl Space, um episódio que termina com uma de suas cenas mais antológicas em Breaking Bad. Giancarlo Esposito pode ser considerado o favorito na categoria de ator coadjuvante em drama, mas é bem provável que o Emmy volte a premiar Aaron Paul (que também já venceu o prêmio antes). Anna Gunn ainda pode fazer parte da festa não pelo quarto ano, mas sim pela boa quantidade de votos que pode arrecadar devido aos seus incríveis momentos nos episódios da quinta temporada exibida recentemente. Mark Margolis, como o inesquecível tio Salamanca, também é aposta fácil como ator convidado. O Emmy não costuma premiar séries que já estão em temporadas mais avançadas, mas, caso queiram deixar Mad Men de lado (o que é improvável), Breaking Bad seria uma opção diferente e, acredito eu, inquestionável a todos.

THE BIG C nunca foi uma queridinha do Emmy, mas deixar Laura Linney sem indicação é absurdo. Tudo bem que o ótimo nível caiu na segunda e terceira temporada, mas Laura Linney é Laura Linney, independente de estar em um programa irregular ou não. Ela, de fato, é a luz de The Big C e mesmo que seu papel seja essencialmente dramático, não é injusto defini-la como atriz de comédia. Ela, que salva grande parte dos episódios da série, merecia a lembrança, especialmente depois ter inexplicavelmente perdido para a superestimada Melissa McCarthy ano passado e pelo fato da categoria ter achado espaço para sete concorrentes em 2012. Por isso, é no mínimo estranho ver a lembrança de The Big C na categoria de melhor elenco de comédia, enquanto a estrela absoluta do programa sequer foi lembrada. Se fosse para a série aparecer em outra categoria, que indicassem, então, Gabourey Sidibe como atriz convidada. Ela, ao lado de Linney, é sempre uma constante na história.

Telefilme com maior audiência da história da HBO, VIRADA NO JOGO já seria sucesso garantido no Emmy em função de Jay Roach, diretor especializado em tramas políticas que já se consagrou anteriormente na premiação com Recontagem, também da HBO. Agora, além de sua habitual competência para histórias do gênero, ele vem ajudado pelo sucesso de audiência e pela impecável performance de Julianne Moore, unanimidade entre público e crítica. O prêmio para a atriz já é mais do que certo (e vale lembrar que ela está em um dos melhores momentos de sua carreira) e é fácil entender o porquê do favoritismo de Virada no Jogo nas categoria principal – sem falar direção e roteiro – no ano em que American Horror Story alcançou incontáveis indicações. Reconhecimento merecido para um trabalho muito interessante, objetivo, acessível e cheio de boas interpretações (não será surpresa alguma caso Ed Harris e Woody Harrelson também sejam consagrados).

Só a pompa do nome de Glenn Close explica sua indicação como melhor atriz em drama pela quarta temporada de DAMAGES (única indicação da série). A atriz é sempre incrível e, como Patty Hewes, ainda mais fascinante. Só que, de todos os momentos da série – incluindo a temporada final, que acabou de ser exibida – esse é o mais desinteressante não só de Damages, mas da própria atriz. Além da história do quarto ano não acrescentar nada ao arco dramático das personagens, Glenn Close tem pouquíssimas chances na trama sonolenta e sem ousadias. E olha que ainda estamos falando de uma temporada em que ela contracena com o ótimo John Goodman. Caso Glenn Close, preterida pela terceira temporada depois de duas vitórias, volte a vencer, será pela quinto ano – que, mesmo exibido nos últimos meses, concorrerá oficialmente ao Emmy apenas ano que vem. É nele que ela está, de fato, sobrenatural.

40º Festival de Cinema de Gramado: resultados

“Colegas” foi o melhor filme pelo júri oficial

O Festival de Cinema de Gramado renasceu. Se exista qualquer dúvida sobre a nova curadoria formada por José Wilker, Rubens Ewald Filho e Marcos Santuário, ela foi esquecida durante todo o desenrolar do evento. Agora, Gramado livrou-se das amarras de filmes excessivamente alternativos (e, por isso mesmo, incompreensíveis em muitas vezes) para abraçar o cinema de boa qualidade, independente de gênero ou formato. A 40ª edição trouxe dramas, comédias, documentários e muitas surpresas agradáveis para o público cinéfilo que compareceu à cidade gaúcha de 10 a 18 de agosto.

Se o primeiro dia de exibição não foi lá muito inspirado, com o decepcionante filme de abertura, 360, de Fernando Meirelles, e o apenas simpático Eu Não Faço a Menor Ideia do que Eu Tô Fazendo Com a Minha Vida, de Matheus Souza, a programação, posteriormente, trouxe obras com diferentes olhares e que fazem uma interessante radiografia do cinema brasileiro contemporâneo: O Que se Move falou sobre intensos dramas femininos; Colegas é uma comédia sensível de fazer qualquer um sair leve e renovado do cinema; O Som ao Redor fez mais o estilo da crítica; e a música invadiu o Palácio dos Festivais com Futuro do Pretérito: Tropicalismo Now! e Jorge Mautner: O Filho do Holocausto.

Andrea Marquee e Cida Moreira receberam o prêmio de melhor atriz representando Fernanda Vianna, por “O Que se Move”

Como qualquer premiação do mundo, o Festival de Cinema de Gramado teve suas injustiças na hora de escolher os melhores do ano. Porém, nenhuma tão grave a ponto de sequer chegar perto de abalar a nova reputação construída pelo evento. Mas algumas injustiças foram mais sentidas entre os premiados. A maior delas, sem dúvida, foi a premiação para a atriz Fernanda Vianna, de O Que se Move. Injusta no sentido de que ela deveria dividir o prêmio com as suas duas companheiras de tela, Cida Moreira e Andrea Marquee. Todas estão sobrenaturais nesse filme em que, assim como no impecável As Horas, é impossível dizer que uma é melhor do que outra – especialmente quando elas, no filme de Caetano Gotardo, possuem histórias dividas em três blocos, que nunca se cruzam.

E se a crítica não ficou lá muito empolgada com a vitória de Colegas como melhor filme pelo júri oficial – confirmando o bobo preconceito com comédias mais “comerciais” para o grande público (o que também mostra a falta de compreensão com o novo olhar da curadoria) -, os especializados não podem reclamar muito, já que O Som ao Redor conquistou importantes prêmios do júri popular e da crítica. Entre os curtas, Menino do Cinco foi soberano, em parte ao seu polêmico e impactante desfecho. Meu favorito, por outro lado, Um Diálogo de Ballet, saiu de mãos vazias. O conflito de gerações entre dois homossexuais narrado de forma bastante lírica parece não ter conquistado os votantes.

César Charlone dominou os prêmios latinos com seu “Artigas, La Redota”

A mediana seleção de filmes latinos desse ano se refletiu na própria cerimônia de premiação. César Charlone executa Artigas, La Redota com sua habitual competência, mas parece que os júris se apaixonaram excessivamente com o filme, que não deu qualquer chance para outros exemplares se destacarem na distribuição de Kikitos. Assim, é de se lamentar que o belíssimo Leontina, documentário muito pessoal do diretor Boris Peters sobre sua solitária avó, tenha saído com uma mísera (mas merecida) lembrança na categoria de melhor fotografia. Pela forma contemplativa com que traz belas imagens e usa a impecável trilha de Jorge Aliaga como elemento fundamental para a cadência do filme, Leontina merecia, inclusive, superar o filme de Charlone. Seria mais original, menos previsível e, claro, merecido.

Tudo isso, porém, são questões de preferência mesmo e que não diminuem a boa posição que o 40º Festival de Cinema de Gramado alcançou em seus oito dias de programação. Fora os problemas técnicos, como a falta de energia e as falhas sonoras (perfeitamente corriqueiras em vários festivais), Gramado alcançou, realmente, um nível surpreendente se comparado ao que vinha apresentando em anos anteriores. Agora, o cinema apresentado no Festival é universal. Os ingressos a preços populares, a proximidade entre realizadores e público em debates e a constante presença de toda a equipe do evento deram ao Festival o pontapé inicial para a retomada de sua carreira de referência no cenário da cinematografia latino-americana. Confira, no site oficial, a lista completa de vencedores.

40º Festival de Cinema de Gramado: Mostra Gaúcha – Prêmio Assembleia Legislativa

Foto: Edison Vara/Pressphoto

Na noite desse domingo (12), já foram revelados os primeiros vencedores do 40º Festival de Cinema de Gramado. Em cerimônia realizada no Palácio dos Festivais, conhecemos os vencedores do Prêmio Assembleia Legislativa da Mostra Gaúcha. A programação, que trazia 21 curtas-metragens realizados no Rio Grande do Sul, teve muitos altos e baixos, mas, no geral, a lista de vencedores ficou de acordo com o oferecido.

Elefante na Sala foi escolhido o melhor curta da mostra 2012. Inferior a outros em competição (que serão citados mais adiante), esse curta, a princípio, parece ser apenas mais uma história sobre jovens inquietos. E, durante um bom tempo, ao mostrar um dia na vida de um jovem que não tem outras atividades além daqueles que realiza dentro de casa (refeições, filmes, piscina), dá a impressão de que o resultado é convencional. Mas o curioso mesmo é acompanhar a “revelação” do desfecho, que muda o jogo e traz interessantes abordagens que engrandeceriam o curta caso tivessem mais espaço. Elefante na Sala ainda ganhou a categoria de melhor roteiro.

Na parte técnica, Casa Afogada, de Gilson Vargas, foi o grande destaque, conquistando as categorias de edição de som, direção de arte e produção executiva. Nada mais justo, uma vez que esse excelente curta já é capaz de causar impacto visual logo na primeira cena. Destaque também para a facilidade com que leva o espectador ao ambiente da história (a excelente fotografia tem papel fundamental nisso) e a forma muito contida como mostra a história de um homem vendo sua frágil casa – e consequentemente suas lembranças – desmoronar em um riacho.

Garry – um dos melhores em exibição – também foi bastante celebrado, vencendo  melhor montagem, direção e o especial Prêmio Exibição Curtas Gaúchos. O trabalho da dupla Richard Tavares e Bruno Carboni faz um paralelo entre cinema, xadrez e a própria vida. Mostrando uma dupla de cineastas que resolve fazer um filme com Garry Kasparov, o melhor jogador de xadrez do mundo, o curta apresenta discussões sobre o que significa ganhar, perder e, mais importante, tentar. Com um tom documental, o curta aproveita demais a figura do jogador de xadrez, que é o fio condutor da história muito bem arquitetada e que é certeira nas analogias que propõe.

O injustiçado da noite, em contrapartida, foi 24 Horas Com Carolina, o trabalho mais sutil da mostra. De tantas categorias que o curta de Eduardo Wannmacher merecia vencer, consagrou-se logo na mais inusitada: melhor ator para Gutto Zuster (roubando, assim, o prêmio de João Carlos Castanha pelo também injustiçado Paraphilia). É estranho ver 24 Horas Com Carolina ganhar logo essa categoria tendo tantas virtudes merecedoras de honrarias, como o próprio roteiro, que nunca é tendencioso demais para o drama ou para o romance. O curta encontra o tom exato para sua história que envolve nostalgia e o prazer de pequenos momentos com aquela pessoa que faz muita falta. Não foi valorizado. Confira a lista completa de vencedores:

MELHOR FILME: Elefante na Sala, de Guilherme Petry

MELHOR MÚSICA: Bunker Studio (Fez a Barba e o Choro)

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Iara Noemi e Gilka Vargas (Casa Afogada)

MELHOR MONTAGEM: Bruno Carboni (Garry)

MELHOR FOTOGRAFIA: Bruno Polidoro (Fez a Barba e o Choro)

MELHOR ROTEIRO: Guilherme Petry e Samir Arrage (Elefante na Sala)

MELHOR DIRETOR: Richard Tavares e Bruno Carboni (Garry)

PRÊMIO EXIBIÇÃO CURTAS GAÚCHAS: Garry, de Richard Tavares e Bruno Carboni

MELHOR ATRIZ: Fernanda Carvalho Leite (Lobos)

MELHOR ATOR: Guto Zuster (24 Horas Com Carolina)

O que esperar do 40º Festival de Cinema de Gramado?

O Festival de Cinema de Gramado tenta se recuperar de tempos turbulentos. E os problemas vão muito além das dívidas acumuladas. Nos últimos anos, o evento cinematográfico mais famoso do sul do Brasil – e também um dos maiores e mais tradicionais de todo o território nacional – sofreu com uma forte crise de personalidade. Dentro do Palácio dos Festivais, lugar onde ocorre a exibição das mostras competitivas, filmes restritos demais e que em nada dialogam com o público. Do lado de fora, no tapete vermelho, ex-atores de Malhação e recentes participantes do Big Brother tirando fotos com o público que, claramente, só está ali pelo rebuliço. Com preços exorbitantes em suas sessões, o Festival de Cinema de Gramado correu o risco de não acontecer em 2012. E se, de fato, não acontecesse, o vexame teria um gosto ainda mais amargo, uma vez que a derrota aconteceria justamente na comemoração de seus 40 anos.

Só que Gramado venceu. Unindo esforços, o Festival chega nessa simbólica edição totalmente reestruturado. Com mudanças que vão desde a coordenação até a própria curadoria, o evento promete novos ares – e muito esperançosos, diga-se de passagem. Logo de cara, tomou a óbvia e acertada decisão de tornar o Festival mais atraente o público: os ingressos agora custam de 10 a 20 reais. Também formou uma curadoria mais eclética: o trio José Wilker, Rubens Ewald Filho e Marcos Santuário possui formações em diferentes áreas, o que, certamente, dá um tom mais abrangente à seleção. E o resultado já foi sentido desde a coletiva de imprensa de divulgação do evento, que deixou de acontecer no hotel Sheraton, de Porto Alegre, para acontecer em um tradicional ponto de encontro dos cinéfilos da capital gaúcha: a Cinemateca Paulo Amorim. Anunciou-se, também, a efetiva participação das entidades de cinema no processo de realização do Festival e a vontade de tornar o evento mais democrático.

Por isso, a 40ª edição, que começa no próximo dia 10 e se estende até 18, promete uma nova fase para esse histórico Festival que tem uma história merecedora de aplausos. Não é qualquer evento cinematográfico que consegue durar tanto tempo em nosso país, sobrevivendo, ao longo das décadas, a todo tipo de censura e problemas financeiros. Muito mais do que isso, o Festival de Gramado ainda tem ampla visibilidade internacional, já que reserva uma mostra competitiva exclusiva para os filmes latinos. Em toda sua trajetória, exibiu filmes brasileiros históricos e premiou grandes atores como Marília Pêra, Lima Duarte e Marieta Severo. Outros cineastas de renome vieram à serra gaúcha para homenagens e exibições especiais de seus filmes, a exemplo de Eduardo Coutinho com Jogo de Cena. No segmento latino, Gramado já havia premiado Pedro Almodóvar antes mesmo dele ter um Oscar. E Juan José Campanella ainda nem sonhava com O Segredo dos Seus Olhos quando foi aplaudido na serra gaúcha com O Filho da Noiva.

Ou seja, é uma boa notícia o Festival de Cinema de Gramado ter sobrevivido. Uma história como essa não poderia ser interrompida. O que se percebe, em 2012, é a vontade do Festival de se livrar das amarras negativas das edições anteriores, deixar de lado a atenção excessiva a estrelas que só vão passear em Gramado e abraçar uma seleção de longas mais de acordo com o que o cinema nacional produz. Falando mais especificamente sobre os filmes selecionados, é perceptível a vontade da curadoria de não afastar o interesse do público aos longas em exibição. Entre documentários e ficção, filmes que fazem retratos de figuras e momentos históricos. Trabalhos mais intimistas e pessoais, com temas universais sobre famílias e o cotidiano comum a todos. O novo posicionamento do Festival está sendo sentido. E o Cinema e Argumento, que estará presente na serra gaúcha para acompanhá-lo, só torce para que o evento retome suas origens. No ano em que o Festival de Paulínia foi cancelado, é muito importante ver que a cinematografia brasileira ainda tem um lugar importante como esse para ser celebrada. Confira no site oficial a programação completa.