52º Festival de Cinema de Gramado #6: “Oeste Outra Vez”, de Erico Rassi

Somente uma mulher aparece nos 90 minutos de Oeste Outra Vez. Ela não tem uma fala sequer e aparece por meros minutos na tela. Em tese, isso nunca é um aspecto positivo, mas, no caso do novo filme de Erico Rassi (Comeback, o canto de cisne do grande Nelson Xavier), trata-se de uma exceção. A tal mulher, ao ver dois homens brigando por ela, dá as costas e desaparece. Logo entendemos a razão: todas as figuras masculinas de Oeste Outra Vez são patéticas e decadentes, incapazes de entender a mulher como um ser humano e não um objeto ou propriedade. A briga que a faz desertar diz muito mais sobre a tolice de dois homens que precisam provar um para o outro a quem aquela mulher pertence do que sobre ela própria, que nem mesmo é levada em consideração no meio daquele embate. Não é difícil compreender a sua decisão de ir embora.
Povoado, portanto, por homens, Oeste Outra Vez é uma inteligente reflexão sobre as inabilidades masculinas e como eles utilizam a violência para extravasar ou resolver conflitos existenciais. Essa engrenagem é movida a partir do momento em que todos eles são abandonados, trocados — é melhor dizer que a companheira morreu do que admitir que ela foi embora, diz um dos personagens em certo ponto. Rassi não deseja humanizar homens no sentido de transformá-los em vítimas ou pobres coitados. Sua intenção é mostrar como o universo masculino age de forma medíocre diante de questões emocionais, especificamente no que tange os relacionamentos amorosos.
Se os homens costumam tratar mulheres como objetos — são vários os momentos em que eles as tratam como passíveis de serem “roubadas”, por exemplo —, a situação parece mudar de cenário quando eles se veem sem elas. Magoados e com o ego ferido, sacam armas, perseguem uns aos outros e dão socos e pontapés para recuperar o que perderam. Ou simplesmente atropelam uns aos outros no próprio dia a dia, em atividades tolas. É por isso que Oeste Outra Vez potencializa o feminino: antes tidas como propriedades ou dadas como certas, as mulheres passam a exercer imensa influência na vida dos homens quando decidem se ausentar. Fica escancarado o quanto todos os personagens não sabem caminhar com as próprias pernas e lidar com a solidão.
A reação ao desertar feminino leva os personagens a uma espécie de faroeste à la irmãos Coen, com perseguições, matadores de aluguel e uma violência seca, próxima à realidade e com o mínimo de interferências técnicas, coreografias ou malabarismos do gênero. A violência, ao invés de mostrar a força de cada um deles, acaba relevando apenas fraquezas. É mais fácil, por exemplo, se envolver em um emaranhado perigoso de perseguição do que sentar com um amigo para falar sobre suas angústias. E a cena em que um dos personagens acorda e diz querer conversar, mas não consegue sequer dizer sobre o quê, é a perfeita representação da inabilidade masculina de falar sobre seus dilemas internos.
Oeste Outra Vez se constrói assim: no não-diálogo e na insignificância desses homens que o filme observa com um tom crítico e de forma desprezível. O roteiro, escrito pelo próprio diretor, contribui para a ideia de que uma história se movimenta de outras formas para além dos diálogos. Verborragia não é necessariamente sinônimo de bom roteiro. Tantos silêncios usados para desenhar a inflexão dos personagens traz um desafio tremendo para a montagem, que precisar buscar cadência e coesão em gestos e ações, não em palavras. E os atores também merecem nota aqui por serem tão exitosos na construção das figuras que interpretam, com destaque mais do que especial para Rodger Rogério, que rouba a cena como o homem que não foi abandonado por nenhuma mulher — mas porque nunca se permitiu viver uma paixão, provando, mais uma vez, a conflitante relação masculina com sentimentos.
E Oeste Outra Vez não poderia terminar de forma melhor, com os versos da clássica canção “Tudo Passará”, de Nelson Ned, tocando em um bar com os personagens, solitários, jogando sinuca sem muito propósito e não economizando na cachaça: “Só se encontra a felicidade / Quando se entrega o coração”, coisa que nenhum dos homens do filme verdadeiramente faz — e que, por fim, revela a vida de pessoas que cavaram a desgraça do qual tanto tentam não se responsabilizar.
Os vencedores do Oscar 2024

Oscar de melhor filme concluiu trajetória invicta de Oppenheimer na temporada.
Só não pontuou bem nas apostas do Oscar 2024 quem resolveu apostar em alguma surpresa fora da caixinha. Previsível do início ao fim, a cerimônia revelou vencedores há muito já esperados e, mesmo quando não confirmou aparentes favoritos, optou por candidatos facilmente identificáveis como alternativa. Previsibilidade, contudo, não deve ser sinônimo de injustiça, especialmente em um ano de concorrentes fortes, como o próprio Oppenheimer, grande vencedor da noite.
Goste-se ou não, Christopher Nolan é o diretor de uma geração. Entre erros e acertos, fez seu nome e se comunica com público e crítica. Sendo um reflexo da indústria cinematográfica norte-americana, o Oscar foi, sim, coerente ao premiá-lo. Isso sem falar no fato de Oppenheimer, um filme com três horas de duração, ter arrecadado quase um bilhão de dólares nas bilheterias. Ou seja, a Academia, tão cobrada por não se conectar com o grande público, também consagrou um sucesso comercial com Oppenheimer.
Por outro lado, concordo que a lista de vencedores poderia ser mais equilibrada, descontando uma ou outra estatueta do filme de Christopher Nolan para, por exemplo, o Oscar não carregar o vexaminoso fato de Assassinos da Lua das Flores ter saído da festa de mão abanando. Para parte do público que admira o filme de Scorsese, a conta foi parar nos ombros de Emma Stone, que levou seu segundo troféu para casa ao desbancar Lily Gladstone. Trata-se de uma injustiça com Emma, fenomenal em Pobres Criaturas e uma bela representante do excelente ano para a categoria de melhor atriz.
Entre os prêmios técnicos, duas vitórias me deixaram particularmente felizes: a de Zona Interesse em melhor som e a de Godzilla Minus One em melhores efeitos visuais. A primeira por ser o reconhecimento ao trabalho excepcional desse segmento no filme de Jonathan Glazer e por mostrar que a Academia, vez ou outra, entende que melhor som não é sinônimo de apenas barulheira. E a segunda por lançar luz sobre uma equipe japonesa que, com baixo orçamento comparado aos padrões hollywoodianos, não ficou devendo nada ao cinemão estadunidense.
Confira abaixo a lista completa de vencedores:
MELHOR FILME: Oppenheimer
MELHOR DIREÇÃO: Christopher Nolan (Oppenheimer)
MELHOR ATRIZ: Emma Stone (Pobres Criaturas)
MELHOR ATOR: Cillian Murphy (Oppenheimer)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Robert Downey Jr. (Oppenheimer)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Da’Vine Joy Randolph (Os Rejeitados)
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Anatomia de Uma Queda
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Ficção Americana
MELHOR FILME INTERNACIONAL: Zona de Interesse (Reino Unido)
MELHOR ANIMAÇÃO: O Menino e a Garça
MELHOR DOCUMENTÁRIO: 20 Days em Mariupol
MELHOR MONTAGEM: Oppenheimer
MELHOR FOTOGRAFIA: Oppenheimer
MELHOR FIGURINO: Pobres Criaturas
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: Pobres Criaturas
MELHOR SOM: Zona de Interesse
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “What Was I Made For?” (Barbie)
MELHOR TRILHA SONORA: Oppenheimer
MELHORES EFEITOS VISUAIS: Godzilla Minus One
MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS: Pobres Criaturas
MELHOR CURTA-METRAGEM: The Wonderful Story of Henry Sugar
MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO: War is Over!
MELHOR CURTA-METRAGEM DE DOCUMENTÁRIO: The Last Repair Shop
Apostas para o Oscar 2024

Há poucos mistérios a serem resolvidos na cerimônia do Oscar 2024 que será realizada neste domingo (10). Com o favoritismo absoluto de Oppenheimer em categorias centrais, como as de melhor filme e direção, a disputa que mais se destaca acaba sendo a de melhor atriz, onde Lily Gladstone (Assassinos da Lua das Flores) e Emma Stone (Pobres Criaturas) protagonizam uma corrida apertadíssima e, por isso mesmo, tão interessante. Resta saber também se Barbie sairá da cerimônia apenas com o troféu de melhor canção como esperado ou se pode surpreender em categorias como as de melhor roteiro adaptado e design de produção. No mais, é bobeira perder o bolão em várias categorias.
Confira abaixo as minhas apostas:
MELHOR FILME: Oppenheimer / alt: Pobres Criaturas
MELHOR DIREÇÃO: Christopher Nolan (Oppenheimer) / alt: Martin Scorsese (Assassinos da Lua das Flores)
MELHOR ATRIZ: Lily Gladstone (Assassinos da Lua das Flores) / alt: Emma Stone (Pobres Criaturas)
MELHOR ATOR: Cillian Murphy (Oppenheimer) / alt: Paul Giamatti (Os Rejeitados)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Robert Downey Jr. (Oppenheimer) / alt: Ryan Gosling (Barbie)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Da’Vine Joy Randolph (Os Rejeitados) / alt: America Ferrera (Barbie)
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Anatomia de Uma Queda / alt: Vidas Passadas
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Ficção Americana / alt: Barbie
MELHOR FILME INTERNACIONAL: Zona de Interesse (Reino Unido) / alt: Dias Perfeitos (Japão)
MELHOR ANIMAÇÃO: O Menino e a Garça / alt: Homem-Aranha: Através do Aranhaverso
MELHOR DOCUMENTÁRIO: 20 Days em Mariupol / alt: As 4 Filhas de Olfa
MELHOR MONTAGEM: Oppenheimer / alt: Assassinos da Lua das Flores
MELHOR FOTOGRAFIA: Oppenheimer / alt: Pobres Criaturas
MELHOR FIGURINO: Pobres Criaturas / alt: Barbie
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: Pobres Criaturas / alt: Barbie
MELHOR SOM: Oppenheimer / alt: Zona de Interesse
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “What Was I Made For?” (Barbie) / alt: “I’m Just Ken” (Barbie)
MELHOR TRILHA SONORA: Oppenheimer / alt: Pobres Criaturas
MELHORES EFEITOS VISUAIS: Godzilla Minus One / alt: Resistência
MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS: Maestro / alt: Pobres Criaturas
MELHOR CURTA-METRAGEM: The Wonderful Story of Henry Sugar / alt: Invincible
MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO: Ninety-Five Senses / alt: Letter to a Pig
MELHOR CURTA-METRAGEM DE DOCUMENTÁRIO: The ABCs of Book Banning / alt: The Last Repair Shop
Independent Spirit Awards 2024: diretamente de Los Angeles, um resumão do arrivals carpet e da cerimônia de premiação
Maior premiação do cinema independente norte-americano, o Independent Spirit Awards realizou a sua edição de 2024 no dia 25 de fevereiro e teve como grande vencedor o longa-metragem Vidas Passadas, de Celine Song, além de destaques para Ficção Americana, Segredos de Um Escândalo e Os Rejeitados.
Esse resumão em vídeo da premiação mostra as equipes dos filmes que passaram pelo arrivals carpets e traz comentários sobre a seleção. Descubra mais sobre o trabalho da Film Independent e confira os depoimentos da atriz Judy Reyes (Birth/Rebirth) e do montador Jon Philpot (Acampamento de Teatro).
Todos os direitos das imagens da premiação reservados para a Film Independent e de trechos dos filmes para as respectivas produtoras e distribuidoras.
Apresentação e roteiro: Matheus Pannebecker
Imagens: Guilherme Peracetta
Edição: Acauã Brondani
Independent Spirit Awards 2024: os meus votos nas categorias de cinema

Ainda que critérios como criatividade e representatividade sejam colocados pela Film Independent como norte para a votação dos Spirit Awards, nunca é fácil a missão de enfim sacramentar escolhas. Devemos votar simplesmente comomanda o coração? Ou é justo abrir mão de certas preferências para equilibrar uma composição mais representativa de filmes?
Enfim, qual o sentido que buscamos quando tomamos perspectiva e vemos a lista de escolhas que serão submetidas. Tarefa complicada. Entretanto, fiquei para lá de satisfeito com os meus votos para os Spirit Awards de 2024 porque consegui reunir muito do que eu queria dizer com eles. Abaixo, compartilho com vocês as minhas escolhas nas categorias de cinema.
MELHOR FILME
Venceu: Vidas Passadas
Votei: Todos Nós Desconhecidos. A seleção era tão boa que aqui não passava de uma questão identificação. Vidas Passadas é, sem dúvida, um belo vencedor, mas Todos Nós Desconhecido conversa de forma mais íntima comigo.
MELHOR DIREÇÃO
Venceu: Celine Song (Vidas Passadas)
Votei: Andrew Haigh (Todos Nós Desconhecidos), que já vinha trilhando uma bela carreira com filmes como Weekend e 45 Anos. Em Todos Nós Desconhecidos, ele não só mantem o alto nível como se esmera ainda mais no sensorial e na estética.
MELHOR PERFORMANCE PROTAGONISTA
Venceu: Jeffrey Wright (Ficção Americana)
Votei: Trace Lysette (Monica). Fiquei com o coração partido por não votar em Andrew Scott (Todos Nós Desconhecidos), mas Trace Lysette dá show em Monica, um filme denso e que escapa dos caminhos óbvios de filmes sobre redenção. Ela é forte e multifacetada ao navegar nas várias facetas da protagonista-título.
MELHOR PERFORMANCE COADJUVANTE
Venceu: Da’Vine Joy Randolph (Os Rejeitados)
Votei: Ben Whishaw (Passagens), que tem o complicado trabalho de trazer à tona os afetos e as contradições de um personagem preso em um relacionamento tóxico e que, por diversas vezes, atormenta sua vida e suas escolhas aparentemente tão seguras.
MELHOR PRIMEIRO FILME
Venceu: A Thousand and One
Votei: A Thousand and One, em que a diretora A.V. Rockwell dá conta do furacão que é a protagonista e faz excelente parceria com a cantora Teyana Taylor (em seu primeiro papel protagonista no cinema). Um filme simples e cotidiano, mas que traz um diretora com plena propriedade de seus temas e personagens.
MELHOR FILME INTERNACIONAL
Venceu: Anatomia de Uma Queda
Votei: Zona de Interesse, que me assombra mesmo semanas após a sessão, mas fico igualmente feliz pelo vencedor, outro trabalho que considero excepcional.
MELHOR PERFORMANCE REVELAÇÃO
Venceu: Dominic Sessa (Os Rejeitados)
Votei: Dominic Sessa (Os Rejeitados), uma barbada na categoria. Sessa não se apequena ao lado do sempre ótimo Paul Giamatti e tanto conquista terreno próprio no filme de Alexander Payne como estabelece uma excelente sintonia com o seu parceiro de cena.
MELHOR ROTEIRO
Venceu: Cord Jefferson (Ficção Americana)
Votei: Celine Song (Vidas Passadas), que conjugou sobriedade e emoção com imensa delicadeza, fazendo um retrato muito verdadeiro sobre as escolhas que (não) fazemos na vida.
MELHOR PRIMEIRO ROTEIRO
Venceu: Samy Burch (Segredos de Um Escândalo)
Votei: Samy Burch (Segredos de Um Escândalo), que parece ter a experiência de uma veterana com esse roteiro de temas difíceis e que se equilibra em muitas camadas tênues, além do tratamento tão sedutor quanto capcioso dado aos personagens.
MELHOR MONTAGEM
Venceu: Daniel Garber (How to Blow Up a Pipeline)
Votei: Jon Philpot (Acampamento de Teatro), que costuma uma série de histórias e personagens com timing e harmonia. Parte da graça de Acampamento de Teatro se deve ao momo como Philpot administra o estilo de mockumentary com grande êxito.
MELHOR FOTOGRAFIA
Venceu: Eigil Bryld (Os Rejeitados)
Votei: Pat Scola (We Grown Now), pelo contraste entre o lúdico e realista que remonta ao delicado coming of age de dois garotos negros nos Estados Unidos dos anos 1990.