Cinema e Argumento

Os indicados ao Screen Actors Guild Awards 2025

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Wicked lidera a lista de indicados ao Screen Actors Guild Awards 2025.

Há um grande desnivelamento nas cobranças feitas ao Globo de Ouro em comparação ao Screen Actors Guild Awards, quando, na verdade, a imprensa estrangeira tem feito escolhas bem mais interessantes do que o tradicional sindicato de atores dos Estados Unidos. Isso porque foram poucas as mancadas do SAG nos últimos anos, quando, por exemplo, não indicou Regina King, a vencedora do Oscar por Se a Rua Beale Falasse. Ou porque vem confirmando reiteradamente a sua problemática relação com atores em performances de língua não-inglesa: para ficar somente em casos recentes, nomes como Antonio Banderas (Dor e Glória), Sandra Hüller (Anatomia de Uma Queda), Isabelle Huppert (Elle), Emmanuelle Riva (Amor), Yalitza Aparicio (Roma) e, agora, a nossa Fernanda Torres (Ainda Estou Aqui) ficaram de fora da disputa. Esses e outros equívocos da premiação nunca se deram em prol de escolhas inspiradas, e sim apenas a favor de ampliar as indicações de filmes já confirmados na disputa, o que sublinha a falta de criatividade do Sindicato.

Em 2025, todas as “chamadas” surpresas não chegam a influenciar no cenário da temporada de premiações. Afinal, é difícil acreditar que  Jonathan Bailey consiga emplacar uma indicação ao Oscar por sua interpretação como coadjuvante em Wicked, assim como parece improvável que, de agora em diante, o nome de Jamie Lee Curtis (The Last Showgirl) esteja carimbado para ser lembrado por demais premiações. Somente em termos de vitórias o SAG poderá influenciar de verdade a corrida pelo Oscar, seja em um eventual reconhecimento que impulsionará ainda mais a trajetória de Demi Moore (A Substância) ou, quem sabe, uma virada de jogo para Ralph Fiennes em melhor ator com Conclave. Por ora, a lista de indicados é frustrante, inclusive no campo de séries, minisséries e telefilmes, onde há nomeações de previsíveis para baixo, quando não inexplicáveis, caso de Kathy Bates concorrendo em performance feminina por The Great Lillian Hall, telefilme em que o brilho absoluto fica não com ela, uma coadjuvante sem história própria, mas sim com a protagonista Jessica Lange, em desempenho marcante. Os vencedores do SAG serão conhecidos no dia 23 de janeiro.

Confira a lista de indicados:

CINEMA

MELHOR ELENCO
Anora
Um Completo Desconhecido
Conclave
Emilia Pérez
Wicked

MELHOR ATRIZ
Cynthia Erivo (Wicked)
Demi Moore (A Substância)
Karla Sofía Gascón (Emilia Pérez)
Mikey Madison (Anora)
Pamela Anderson (The Last Showgirl)

MELHOR ATOR
Adrien Brody (O Brutalista)
Colman Domingo (Sing Sing)
Daniel Craig (Queer)
Ralph Fiennes (Conclave)
Timothée Chalamet (Um Completo Desconhecido)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Ariana Grande (Wicked)
Danielle Deadwyler (Piano de Família)
Jamie Lee Curtis (The Last Showgirl)
Monica Barbaro (Um Completo Desconhecido)
Zoe Saldaña (Emilia Pérez)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Edward Norton (Um Completo Desconhecido)
Jeremy Strong (O Aprendiz)
Jonathan Bailey (Wicked)
Kieran Culkin (A Verdadeira Dor)
Yura Borisov (Anora)

MELHOR ELENCO DE DUBLÊS
Deadpool & Wolverine
O Dublê
Dune: Parte 2
Gladiador II
Wicked

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR ELENCO EM SÉRIE DE DRAMA
Bridgerton
O Dia do Chacal
A Diplomata
Slow Horses
Xógum: A Gloriosa Saga do Japão

MELHOR ELENCO EM SÉRIE DE COMÉDIA
Abbott Elementary
The Bear
Hacks
Shrinking
Only Murders in the Building

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE DRAMA
Allison Janney (A Diplomata)
Anna Sawai (Xógum: A Gloriosa Saga do Japão)
Kathy Bates (Matlock)
Keri Russell (A Diplomata)
Nicola Coughlan (Bridgerton)

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA
Ayo Edebiri (The Bear)
Jean Smart (Hacks)
Kristen Bell (Nobody Wants This)
Liza Colóns-Zayas (The Bear)
Quinta Brunson (Abbott Elementary)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE DRAMA
Eddie Redmayne (O Dia do Chacal)
Gary Oldman (Slow Horses)
Hiroyuki Sanada (Xógum: A Gloriosa Saga do Japão)
Jeff Bridges (The Old Man)
Tadanobu Asano (Xógum: A Gloriosa Saga do Japão)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA
Adam Brody (Nobody Wants This)
Harrison Ford (Shrinking)
Jeremy Allen White (The Bear)
Martin Short (Only Murders in the Building)
Ted Danson (A Man on the Inside)

MELHOR PERFORMANCE FEMININA EM MINISSÉRIE OU TELEFILME
Cate Blanchett (Disclaimer)
Cristin Milioti (Pinguim)
Jessica Gunning (Bebê Rena)
Jodie Foster (True Detective: Terra Noturna)
Kathy Bates (The Great Lillian Hall)
Lily Gladston (Under the Bridge)

MELHOR PERFORMANCE MASCULINA EM MINISSÉRIE OU TELEFILME
Andrew Scott (Ripley)
Colin Farrell (Pinguim)
Javier Bardem (Monstros – Irmãos Menendez: Assassinos de Pais)
Kevin Kline (Disclaimer)
Richard Gadd (Bebê Rena)

MELHOR ELENCO DE DUBLÊS EM SÉRIE
The Boys
A Casa do Dragão

Fall Out
Pinguim

Xógum: A Gloriosa Saga do Japão

Os vencedores do Globo de Ouro 2025 (e obrigado por tanto, Fernanda Torres!)

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As recentes reformulações no corpo de votantes do Globo de Ouro, ampliando a diversidade de perfis e nacionalidades, já surte efeito na prática, a começar pelo que pontuei na minha publicação anterior: como a primeira premiação televisionada da temporada, o Globo de Ouro pode mudar muitos caminhos antes dados como certos. E os efeitos percebidos, felizmente, são muito positivos, uma conquista importante para um prêmio que, apesar de tradicional, já cometeu muitos erros a ponto de perder imensa parte de sua credibilidade.

Dois nomes, em particular, começam a traçar uma nova rota a partir dos prêmios entregues neste domingo (05). A primeira, considerando a ordem cronológica da cerimônia realizada em Los Angeles, é Demi Moore, consagrada como melhor atriz em filme de comédia/musical por A Substância. A vitória se deu em um cenário onde Mikey Madison (Anora) era tida como favorita e resultou em um lindo discurso de Demi, que revelou ter houvido de um produtor que ela estaria fadada a ser apenas uma triz de filmes-pipoca. Após de quatro décadas atuando na indústria, ela finalmente conquista o seu primeiro grande reconhecimento — e por um filme arriscado, fora da caixa e que lhe diz muito do ponto de vista pessoal e profissional. Era a plataforma que Demi precisava para também impulsionar sua campanha para o Oscar.

E o que dizer da vitória de Fernanda Torres como melhor atriz em filme de drama por Ainda Estou Aqui? Tudo é cercado de simbolismos: ganhou na categoria que sua mãe Fernanda Montenegro perdeu 26 anos atrás por Central do Brasil, derrotou grandes nomes do porte de Nicole Kidman, Angelina Jolie, Kate Winslet e Tilda Swinton, marcou época como a primeira brasileira a ganhar um prêmio de interpretação no Globo de Ouro (por um filme falado em português!), e chegou lá com os próprios pés, sem nunca, ao longo de uma prolífera carreira, ter ficado à sombra da lendária Fernandona. Nunca vivi uma emoção como essa em quase 20 anos acompanhando e escrevendo sobre a temporada de premiações. É um prêmio que ilumina o nosso país e o nosso cinema, além de aumentar consideravelmente as chances da atriz na disputa por uma indicação ao Oscar. Obrigado por tanto, Fernanda Torres!

Outras escolhas inspiradas marcaram a cerimônia. Ainda no campo das atuações, foi inspirado o prêmio de melhor ator em filme de comédia/musical para Sebastian Stan por Um Homem Diferente. Reconhecimento merecido para um ator que teve excelente ano no cinema e concorria também em melhor ator em filme de drama por O Aprendiz. Ver o lindo Flow reconhecido como melhor filme de animação foi mais uma escolha inspirada do Globo de Ouro porque é muito difícil um longa independente desse gênero, vindo da Letônia e inteiramente sem diálogos ganhar o espaço que costuma ser cativo para Disney, Pixar e outros grandes estúdios. Ainda teve láurea para a trilha de Rivais, que sequer apareceu nas pré-listas do BAFTA, por exemplo. E eu poderia falar sobre Emilia Pérez, musical que adoro, mas a internet já me deixou exausto demais para comentar algo por ora…

Confira abaixo a lista completa de vencedores:

CINEMA

MELHOR FILME DE DRAMAO Brutalista
MELHOR FILME DE COMÉDIA/MUSICALEmilia Pérez
MELHOR DIREÇÃO: Brady Corbet (O Brutalista)
MELHOR ATRIZ EM FILME DE DRAMA: Fernanda Torres (Ainda Estou Aqui)
MELHOR ATRIZ EM FILME DE COMÉDIA/MUSICAL: Demi Moore (A Substância)
MELHOR ATOR EM FILME DE DRAMA: Adrien Brody (O Brutalista)
MELHOR ATOR EM FILME DE COMÉDIA/MUSICAL: Sebastian Stan (Um Homem Diferente)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Zoe Saldaña (Emilia Pérez)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Kieran Culkin (A Verdadeira Dor)
MELHOR ROTEIRO: Peter Straughan (Conclave)
MELHOR FILME EM LÍNGUA NÃO-INGLESAEmilia Pérez (França)
MELHOR ANIMAÇÃO: Flow
MELHOR TRILHA SONORA: Trent Reznor e Atticus Ross (Rivais)
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “El Mal” (Emilia Pérez)
CONQUISTA CINEMATOGRÁFICA E DE BILHETERIAWicked

SÉRIES, MINISSÉRIES, ANTOLOGIAS E TELEFILMES

MELHOR SÉRIE DE DRAMAXógum: A Gloriosa Saga do Japão
MELHOR SÉRIE DE COMÉDIA/MUSICAL: Hacks
MELHOR MINISSÉRIE, ANTOLOGIA OU TELEFILMEBebê Rena
MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE DRAMA: Anna Sawai (Xógum: A Gloriosa Saga do Japão)
MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA/MUSICAL: Jean Smart (Hacks)
MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE, ANTOLOGIA OU TELEFILME: Jodie Foster (True Detective: Terra Noturna)
MELHOR ATOR EM SÉRIE DE DRAMA: Hiroyuki Sanada (Xógum: A Gloriosa Saga do Japão)
MELHOR ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA/MUSICAL: Jeremy Allen White (The Bear)
MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE, ANTOLOGIA OU TELEFILME: Colin Farrell (Pinguim)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Jessica Gunning (Bebê Rena)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Tadanobu Asano (Xógum: A Gloriosa Saga do Japão)
MELHOR PERFORMANCE DE COMÉDIA DE STAND-UP: Ali Wong (Single Lady)

Apostas para o Globo de Ouro 2025

O Globo de Ouro costuma ser o ponto de virada em muitas temporadas. É com ele que as premiações televisionadas começam, e elas funcionam de forma muito diferente em comparação às dezenas de associações de críticos que revelam suas listas desde novembro e dezembro. No Globo de Ouro, por exemplo, Laurie Metcalf começou a ver seu favoritismo como coadjuvante por Lady Bird dissipar após liderar as láureas entre os críticos. A estatueta acabou indo para Allison Janney (Eu, Tonya), bem como o SAG e o Oscar. Timothée Chalamet também acabou não vingando com Me Chame Pelo Seu Nome quando, pelos olhos dos críticos, era um grande queridinho da temporada. E o que dizer de Kristen Stewart, que, com Spencer, liderou as vitórias como melhor atriz entre as mesmas associações, e não ganhou um prêmio televisionado sequer?

É importante essa contextualização para termos a noção de que muita coisa pode vir a se confirmar no Globo de Ouro, como o favoritismo de Emilia Pérez em várias categorias, mas que também podemos ver novos caminhos sendo traçados a partir daqui. Na minha lista de apostas disponível abaixo, tentei considerar essa mistura entre o esperado e o surpreendente, além da personalidade por vezes imprevisível do Globo de Ouro. Como brasileiro, meu coração se divide: ao mesmo tempo em que o meu coração quer que Ainda Estou Aqui vença as duas categorias em que concorre (filme internacional e melhor atriz em filme de drama para Fernanda Torres), sei que a realidade é bem diferente e que, apesar das chances existirem, elas são realmente mínimas. Nossas dúvidas serão desvendadas logo mais, quando, a partir das 22h (horário de Brasília), o Globo de Ouro começa a revelar seus vencedores com transmissão pela TNT e pelo Max.

Eis as minhas apostas:

CINEMA

MELHOR FILME DE DRAMA: O Brutalista / alt: Conclave
MELHOR FILME DE COMÉDIA/MUSICAL: Emilia Pérez / alt: Anora
MELHOR DIREÇÃO: Brady Corbet (O Brutalista) / alt: Coralie Fargeat (A Substância)
MELHOR ATRIZ EM FILME DE DRAMA: Angelina Jolie (Maria Callas) / alt: Fernanda Torres (Ainda Estou Aqui)
MELHOR ATRIZ EM FILME DE COMÉDIA/MUSICAL: Karla Sofia Gascón (Emilia Pérez) / alt: Demi Moore (A Substância)
MELHOR ATOR EM FILME DE DRAMA: Ralph Fiennes (Conclave) / alt: Adrien Brody (O Brutalista)
MELHOR ATOR EM FILME DE COMÉDIA/MUSICAL: Hugh Grant (Herege) / alt: Sebastian Stan (Um Homem Diferente)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Zoe Saldaña (Emilia Pérez) / alt: Ariana Grande (Wicked)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Kieran Culkin (A Verdadeira Dor) / alt: Denzel Washington (Gladiador 2)
MELHOR ROTEIRO: Sean Baker (Anora) / alt: Peter Straughan (Conclave)
MELHOR FILME EM LÍNGUA NÃO-INGLESA: Emilia Pérez (França) / alt: Tudo Que Imaginamos Como Luz (Índia)
MELHOR TRILHA SONORA: Conclave / alt: Rivais
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “El Mal” (Emilia Pérez) / alt: “Mi Camino” (Emilia Pérez)

CONQUISTA CINEMATOGRÁFICA E DE BILHETERIA: Wicked / alt: Gladiador 2

SÉRIES, MINISSÉRIES, ANTOLOGIAS E TELEFILMES

MELHOR SÉRIE DE DRAMA: Xógum: A Gloriosa Saga do Japão / alt: Round 6
MELHOR SÉRIE DE COMÉDIA/MUSICAL: Hacks / alt: The Bear
MELHOR MINISSÉRIE, ANTOLOGIA OU TELEFILME: Bebê Rena / alt: Pinguim
MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE DRAMA: Anna Sawai (Xógum: A Gloriosa Saga do Japão) / alt: Keri Russell (A Diplomata)
MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA/MUSICAL: Jean Smart (Hacks) / alt: Kathryn Hahn (Agatha Desde Sempre)
MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE, ANTOLOGIA OU TELEFILME: Jodie Foster (True Detective: Terra Noturna) / alt: Cate Blanchett (Difamação)
MELHOR ATOR EM SÉRIE DE DRAMA: Hiroyuki Sanada (Xógum: A Gloriosa Saga do Japão) / alt: Eddie Redmayne (O Dia do Chacal)
MELHOR ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA/MUSICAL: Jeremy Allen White (The Bear) / alt: Jason Segel (Shrinking)
MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE, ANTOLOGIA OU TELEFILME: Richard Gadd (Bebê Rena) / alt: Colin Farrell (Pinguim)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Jessica Gunning (Bebê Rena) / alt: Liza Colón-Zayas (The Bear)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Harrison Ford (Shrinking) / alt: Javier Bardem (Monstros – Irmãos Menendez: Assassinos dos Pais)
MELHOR PERFORMANCE DE COMÉDIA DE STAND-UP: Jamie Foxx (What Had Happened Was) / alt: Ali Wong (Single Lady)

Os indicados ao Globo de Ouro 2025

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Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, marca o retorno do cinema brasileiro ao Globo de Ouro.

Após um hiato de mais de 20 anos, o Brasil está de volta à disputa do Globo de Ouro, curiosamente, nas mesmas categorias de quando concorreu pela última vez. Ainda Estou Aqui e Fernanda Torres concorrem, respectivamente, a melhor atriz em filme de drama e filme internacional, extamente como aconteceu com Central do Brasil e Fernanda Montenegro. É um momento de glória para o cinema brasileiro, que, com o mais recente longa de Walter Salles, vem conquistando importantes espaços no cenário internacional, ao mesmo tempo em que ultrapassa mais de 2,5 milhões de espectadores no Brasil. A visibilidade do Globo de Ouro é particularmente especial porque Fernanda, por exemplo, se vê indicada no mesmo grupo que atrizes do calibre e do estrelado de Nicole Kidman, Tilda Swinton, Kate Winslet, Angelina Jolie e Pamela Anderson. Considerando as dimensões que o cinema brasileiro tem atualmente no mundo, a própria indicação já é uma vitória.

Feita essa observação celebrativa, vamos aos demais indicados e ao que essa lista – a primeira dos prêmios televisionados da temporada -, traz de indícios e tendências do que podemos esperar (ou não) de mais uma corrida pelo Oscar. Abaixo, fiz um compilado dos pontos que mais chamaram a minha atenção na seleção, além de alguns comentários e preferências:

– O hate de internet e do Letterboxd não teve vez: Emilia Pérez, de Jacques Audiard, recebeu dez indicações e, de quebra, tornou-se o filme mais indicado de todos os tempos no segmento de comédia ou musical. Conquista importante para a Netflix, já que esse é o carro-chefe do streaming em termos de campanha para o Oscar. Vale lembrar, no entanto, que o filme de Jacques Audiard não foi produzido pela Netflix, apenas teve sua distribuição adquirida por ela em Cannes;

– O recorde de Emilia Pérez é a sinalização de um ano forte para o segmento de comédia ou musical: além dele, títulos como Anora A Substância trazem musculatura para uma competição que abrange desde musicais autorais e populares até bons filmes queridos por público e crítica;

– Ainda assim, Wicked, que chegou a vencer o prestigiado National Board of Review nas categorias de melhor filme e direção, performou abaixo do que as bolsas de apostas vinham projetando. Foram somente quatro indicações, menos da metade de Emilia Pérez, também um musical;

– As estatísticas de Duna 2 foram ainda piores, com menções apenas nas categorias de melhor filme de drama e melhor trilha sonora – que, aliás, já está desqualificada do Oscar em função do alto percentual de reutilização da trilha do longa anterior. A Academia deve dar mais atenção ao blockbuster de Denis Villeneuve em função das categorias técnicas, mas as expectativas agora são bem comedidas;

– No entanto, poucos saíram perdendo tanto com essa lista quanto Saturday Night e Saoirse Ronan. O primeiro é o mais recente longa de Jason Reitman. A homenagem ao programa Saturday Night Live parece não ter entusiasmado sequer os estadunidenses, e acabou ficando apenas com a indicação de melhor ator para Gabriel LaBelle. Já Ronan, cotada para atriz e atriz coadjuvante por The OutrunBlitz, não emplacou nenhuma das possibilidades, saindo enfraquecida para as demais premiações;

Sebastian Stan, por outro lado, foi agraciado merecidamente com indicação dupla: uma em melhor ator de drama por O Aprendiz e outro em melhor ator de comédia por Um Homem Diferente. São trabalhos distintos e muito bem defendidos pelo ator, que, com eles, inaugura uma nova fase na carreira;

– Entre as ausências, impossível deixar de citar Marianne Jean-Baptiste, fenomenal em Hard Truths e que vem fazendo excelente circuito com os críticos; e Danielle Deadwyller, destaque do mediano Piano de Família e, anos atrás, já esnobada por se grande trabalho em Till

Ariana Grande (Wicked), Margaret Qualley (A Substância) e Zoe Saldaña (Emilia Pérez) também foram reconhecidas por suas ótimas interpretações, mas a um custo que não me agrada: o de serem indicadas como coadjuvantes quando, na verdade, são co-protagonistas de seus respectivos filmes;

– Grata surpresa da lista, a dupla aparição feminina entre os indicados de melhor direção mostra que o Globo de Ouro tem mudado para melhor. Isso porque a francesa Coralie Fargeat (A Substância) e a indiana Payal Kapadia (Tudo Que Imaginamos Como Luz) estavam longe de serem consideradas para a categoria, além de dirigirem filmes provocadores e de língua não-inglesa, respectivamente, ambos obstáculos para reconhecimento no circuito.

Confira abaixo a lista completa de indicados:

CINEMA

MELHOR FILME DE DRAMA
O Brutalista
Um Completo Desonhecido
Conclave
Duna 2
Nickel Boys
September 5

MELHOR FILME DE COMÉDIA/MUSICAL
Anora
Emilia Pérez
Rivais
A Substância
A Verdadeira Dor
Wicked

MELHOR DIREÇÃO
Brady Corbet (O Brutalista)
Coralie Fargeat (A Substância)
Edward Berger (Conclave)
Jacques Audiard (Emilia Pérez)
Payal Kapadia (Tudo Que Imaginamos Como Luz)
Sean Baker (Anora)

MELHOR ATRIZ EM FILME DE DRAMA
Angelina Jolie (Maria)
Fernanda Torres (Ainda Estou Aqui)
Kate Winslet (Lee)
Nicole Kidman (Babygirl)
Pamela Anderson (The Last Showgirl)
Tilda Swinton (O Quarto ao Lado)

MELHOR ATRIZ EM FILME DE COMÉDIA/MUSICAL
Amy Adams (Canina)
Cynthia Erivo (Wicked)
Demi Moore (A Substância)
Karla Sofía Gascón (Emilia Pérez)
Mikey Madison (Anora)
Zendaya (Rivais)

MELHOR ATOR EM FILME DE DRAMA
Adrien Brody (O Brutalista)
Colman Domingo (Sing Sing)
Daniel Craig (Queer)
Ralph Fiennes (Conclave)
Sebastian Stan (O Aprendiz)
Timothée Chalamet (Um Completo Desonhecido)

MELHOR ATOR EM FILME DE COMÉDIA/MUSICAL
Gabriel LaBelle (Saturday Naight – A Noite Que Mudou a Comédia)
Glen Powell (Assassino Por Acaso)
Hugh Grant (Herege)
Jesse Eisenberg (A Verdadeira Dor)
Jesse Plemons (Tipos de Gentileza)
Sebastian Stan (Um Homem Diferente)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Ariana Grande (Wicked)
Felicity Jones (O Brutalista)
Isabella Rossellini (Conclave)
Margaret Qualley (A Substância)
Selena Gomez (Emilia Pérez)
Zoe Saldaña (Emilia Pérez)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Denzel Washington (Gladiador 2)
Edward Norton (Um Completo Desconhecido)
Guy Pearce (O Brutalista)
Jeremy Strong (O Aprendiz)
Kieran Culkin (A Verdadeira Dor)
Yura Borisov (Anora)

MELHOR ROTEIRO
Brady Corbet e Mona Fastvold (O Brutalista)
Coralie Fargeat (A Substância)
Jacques Audiard (Emilia Pérez)
Jesse Eisenberg (A Verdadeira Dor)
Peter Straughan (Conclave)
Sean Baker (Anora)

MELHOR FILME EM LÍNGUA NÃO-INGLESA
Ainda Estou Aqui (Brasil)
Emilia Pérez
(França)

A Garota da Agulha (Dinamarca)
A Semente da Figueira Sagrada (Alemanha)
Tudo Que Imaginamos Como Luz (Índia)
Vermiglio (Itália)

MELHOR ANIMAÇÃO
Divertida Mente 2
Flow
Memórias de Um Caracol
Moana 2
Robô Selvagem
Wallace & Gromit: Avengança

MELHOR TRILHA SONORA
O Brutalista
Conclave
Duna 2
Emilia Pérez
Robô Selvagem
Rivais

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“Beautiful That Way” (The Last Showgirl)
“Compress/Repress” (Rivais)
“El Mal” (Emilia Pérez)
“Forbidden Road” (Better Man – A História de Robbie Williams)
“Kiss the Sky” (Robô Selvagem)
 “Mi Camino” (Emilia Pérez)

CONQUISTA CINEMATOGRÁFICA E DE BILHETERIA
Alien: Romolus
Deadpool & Wolverine
Divertida Mente 2
Os Fantasmas Ainda se Divertem: Beetlejuice Beetlejuice
Gladiador 2
Robô Selvagem
Twisters
Wicked

SÉRIES, MINISSÉRIES, TELEFILMES E ANTOLOGIAS

MELHOR SÉRIE DE DRAMA
O Dia do Chacal
A Diplomata
Round 6
Slow Horses
Sr. e Sra. Smith
Xógum: A Gloriosa Saga do Japão

MELHOR SÉRIE DE COMÉDIA/MUSICAL
Abbott Elementary
The Bear
The Gentlemen
Hacks
Nobody Wants This
Only Murders in the Building

MELHOR MINISSÉRIE, ANTOLOGIA OU TELEFILME
Bebê Rena
Difamação
Monstros – Irmãos Menendez: Assassinos dos Pais
Pinguim 
Ripley
True Detective: Terra Noturna

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE DRAMA
Anna Sawai (Xógum: A Gloriosa Saga do Japão)
Emma D’Arcy (A Casa do Dragão)
Kathy Bates (Matlock)
Keira Knightley (Black Doves)
Keri Russell (A Diplomata)
Maya Erskine (Sr. e Sra. Smith)

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA/MUSICAL
Ayo Edebiri (The Bear)
Jean Smart (Hacks)
Kathryn Hahn (Agatha Desde Sempre)
Kristen Bell (Nobody Wants This)
Quinta Brunson (Abbott Elementary)
Selena Gomez (Only Murders in the Building)

MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE, ANTOLOGIA OU TELEFILME
Cate Blanchett (Difamação)
Cristin Milioti (Pinguim)
Jodie Foster (True Detective: Terra Noturna)
Kate Winslet (O Regime)
Naomi Watts (Feud: Capote vs. The Swans)
Sofía Vergara (Griselda)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE DRAMA
Billy Bob Thornton (Landman)
Donald Glover (Sr. e Sra. Smith)
Eddie Redmayne (O Dia do Chacal)
Gary Oldman (Slow Horses)
Hiroyuki Sanada (Xógum: A Gloriosa Saga do Japão)
Jake Gyllenhaal (Acima de Qualquer Suspeita)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA/MUSICAL
Adam Brody (Nobody Wants This)
Jason Segel (Shrinking)
Jeremy Allen White (The Bear)
Martin Short (Only Murders in the Building)
Steve Martin (Only Murders in the Building)
Ted Danson (A Man on the Inside)

MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE, ANTOLOGIA OU TELEFILME
Andrew Scott (Ripley)
Colin Farrell (Pinguim)
Cooper Koch (Monstros – Irmãos Menendez: Assassinos dos Pais)
Ewan McGregor (Um Cavalheiro em Moscou)
Kevin Kline (Difamação)
Richard Gadd (Bebê Rena)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Allison Janney (A Diplomata)
Dakota Fanning (Ripley)
Hannah Einbinder (Hacks)
Jessica Gunning (Bebê Rena)
Kali Reis (True Detective: Terra Noturna)
Liza Colón-Zayas (The Bear)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Diego Luna (La Máquina)
Ebon Moss-Bachrach (The Bear)
Harrison Ford (Shrinking)
Jack Lowden (Slow Horses)
Javier Bardem (Monstros – Irmãos Menendez: Assassinos dos Pais)
Tadanobu Asano (Xógum: A Gloriosa Saga do Japão)

MELHOR PERFORMANCE DE COMÉDIA STAND-UP
Adam Sandler (Love You)
Ali Wong (Single Lady)
Jamie Foxx (What Had Happened Was)
Nikki Glaser (Someday You’ll Die)
Ramy Youssef (More Feelings)
Seth Meyers (Dad Man Walking)

52º Festival de Cinema de Gramado #6: “Oeste Outra Vez”, de Erico Rassi

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Somente uma mulher aparece nos 90 minutos de Oeste Outra Vez. Ela não tem uma fala sequer e aparece por meros minutos na tela. Em tese, isso nunca é um aspecto positivo, mas, no caso do novo filme de Erico Rassi (Comeback, o canto de cisne do grande Nelson Xavier), trata-se de uma exceção. A tal mulher, ao ver dois homens brigando por ela, dá as costas e desaparece. Logo entendemos a razão: todas as figuras masculinas de Oeste Outra Vez são patéticas e decadentes, incapazes de entender a mulher como um ser humano e não um objeto ou propriedade. A briga que a faz desertar diz muito mais sobre a tolice de dois homens que precisam provar um para o outro a quem aquela mulher pertence do que sobre ela própria, que nem mesmo é levada em consideração no meio daquele embate. Não é difícil compreender a sua decisão de ir embora.

Povoado, portanto, por homens, Oeste Outra Vez é uma inteligente reflexão sobre as inabilidades masculinas e como eles utilizam a violência para extravasar ou resolver conflitos existenciais. Essa engrenagem é movida a partir do momento em que todos eles são abandonados, trocados — é melhor dizer que a companheira morreu do que admitir que ela foi embora, diz um dos personagens em certo ponto. Rassi não deseja humanizar homens no sentido de transformá-los em vítimas ou pobres coitados. Sua intenção é mostrar como o universo masculino age de forma medíocre diante de questões emocionais, especificamente no que tange os relacionamentos amorosos.

Se os homens costumam tratar mulheres como objetos — são vários os momentos em que eles as tratam como passíveis de serem “roubadas”, por exemplo —, a situação parece mudar de cenário quando eles se veem sem elas. Magoados e com o ego ferido, sacam armas, perseguem uns aos outros e dão socos e pontapés para recuperar o que perderam. Ou simplesmente atropelam uns aos outros no próprio dia a dia, em atividades tolas. É por isso que Oeste Outra Vez potencializa o feminino: antes tidas como propriedades ou dadas como certas, as mulheres passam a exercer imensa influência na vida dos homens quando decidem se ausentar. Fica escancarado o quanto todos os personagens não sabem caminhar com as próprias pernas e lidar com a solidão.

A reação ao desertar feminino leva os personagens a uma espécie de faroeste à la irmãos Coen, com perseguições, matadores de aluguel e uma violência seca, próxima à realidade e com o mínimo de interferências técnicas, coreografias ou malabarismos do gênero. A violência, ao invés de mostrar a força de cada um deles, acaba relevando apenas fraquezas. É mais fácil, por exemplo, se envolver em um emaranhado perigoso de perseguição do que sentar com um amigo para falar sobre suas angústias. E a cena em que um dos personagens acorda e diz querer conversar, mas não consegue sequer dizer sobre o quê, é a perfeita representação da inabilidade masculina de falar sobre seus dilemas internos.

Oeste Outra Vez se constrói assim: no não-diálogo e na insignificância desses homens que o filme observa com um tom crítico e de forma desprezível. O roteiro, escrito pelo próprio diretor, contribui para a ideia de que uma história se movimenta de outras formas para além dos diálogos. Verborragia não é necessariamente sinônimo de bom roteiro. Tantos silêncios usados para desenhar a inflexão dos personagens traz um desafio tremendo para a montagem, que precisar buscar cadência e coesão em gestos e ações, não em palavras. E os atores também merecem nota aqui por serem tão exitosos na construção das figuras que interpretam, com destaque mais do que especial para Rodger Rogério, que rouba a cena como o homem que não foi abandonado por nenhuma mulher — mas porque nunca se permitiu viver uma paixão, provando, mais uma vez, a conflitante relação masculina com sentimentos.

E Oeste Outra Vez não poderia terminar de forma melhor, com os versos da clássica canção “Tudo Passará”, de Nelson Ned, tocando em um bar com os personagens, solitários, jogando sinuca sem muito propósito e não economizando na cachaça: “Só se encontra a felicidade / Quando se entrega o coração”, coisa que nenhum dos homens do filme verdadeiramente faz — e que, por fim, revela a vida de pessoas que cavaram a desgraça do qual tanto tentam não se responsabilizar.