Cinema e Argumento

Apostas para o Emmy 2020

Uma cerimônia atípica para um ano atípico: devido à pandemia do Coronavírus, o Emmy revelará os vencedores de 2020 através de um em evento inteiramente virtual. Caso siga o exemplo dos prêmios técnicos entregues até aqui, tudo não passará de chamadas dos indicados gravadas anteriormente, cenas de cada um dos concorrentes e anúncio seguido de discursos também gravados com antecedência (os boatos dão conta de que a organização pediu para que todos os indicados gravassem um agradecimento caso vençam). Tudo sem muita graça, mas seguindo o formato daquilo que é possível realizar em tempos tão complexos.

No que se refere a apostas, o favoritismo está mais do que declarado para SuccessionWatchmen, ambas da HBO, líderes de indicações nos seus respectivos segmentos e merecedoras de toda e qualquer coração. Já entre as comédias, tudo indica que Schitt’s Creek seja reconhecida por sua última temporada, ainda que seja prudente não subestimar o carinho dos votantes por The Marvelous Mrs. Maisel. A TNT transmite a cerimônia virtual a partir das 21h deste domingo (20).

Confira a nossa lista de apostas:

MELHOR SÉRIE DE DRAMASuccession / alt: Ozark
MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE DRAMA: Laura Linney (Ozark) / alt: Jennifer Aniston (The Morning Show)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE DRAMA: Brian Cox (Succession) / alt: Steve Carell (The Morning Show)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE DE DRAMA: Meryl Streep (Big Little Lies) / alt: Julia Garner (Ozark)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE DE DRAMA: Billy Crudup (The Morning Show) / alt: Matthew Macfadyen (Succession)
MELHOR SÉRIE DE COMÉDIA: Schitt’s Creek / alt: The Marvelous Mrs. Maisel
MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA: Catherine O’Hara (Schitt’s Creek) / alt: Rachel Brosnahan (The Marvelous Mrs. Maisel)
MELHOR ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA: Ramy Yousseff (Ramy) / alt: Eugene Levy (Schitt’s Creek)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE DE COMÉDIA: Alex Borstein (The Marvelous Mrs. Maisel) / alt: Annie Murphy (Schitt’s Creek)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE DE COMÉDIA: Tony Shalhoub (The Marvelous Mrs. Maisel) / alt: Daniel Levy (Schitt’s Creek)
MELHOR MINISSÉRIE: Watchmen / alt: Mrs. America
MELHOR TELEFILME: Bad Education / alt: American Son
MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Regina King (Watchmen) / alt: Shira Haas (Unorthodox)
MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Mark Ruffalo (I Know This Much is True) / alt: Hugh Jackman (Bad Education)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Jean Smart (Watchmen) / alt: Toni Collette (Unbelievable)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Jovan Adepo (Watchmen) / alt: Yahya Abdul-Mateen II (Watchmen)

Os indicados ao Emmy 2020

Regina King em Watchmen: com 26 indicações, minissérie criada por Damon Lindelof e produzida pela HBO lidera lista e é favorita absoluta entre as minisséries.

Mesmo com o Coronavírus se alastrando de forma latente nos Estados Unidos, o Emmy permanece firme e forte com a data inicialmente programada para a sua cerimônia de premiação, seja ela em qual formato for. No dia 20 de setembro, portanto, conheceremos os vencedores da lista de indicados divulgada hoje (28), que traz Watchmen, da HBO, liderando com o maior número de menções entre todos os segmentos. Foram 26 indicações para a minissérie criada por Damon Lindelof, um número surpreendente até mesmo para os que estavam mais otimistas com a performance do programa entre os votantes. Essa imensa justiça se estende a outros dois seriados: Succession, também da HBO, e Ozark, uma produção original Netflix, ambas com 18 indicações cada no segmento dramático. Já entre as comédias, The Marvelous Mrs. Maisel lidera acumulando 20, mesmo em seu momento menos cativante. 

Há uma boa notícia a ser comemorada no Emmy 2020: 34,3% dos atores indicados este ano são negros, o maior número já registrado na premiação. Também há evolução no espaço para as mulheres: seis dos nove roteiros indicados por minisséries/telefilmes são assinados por mulheres, assim como quatro dos seis episódios indicados a direção. Sabemos que o caminho a ser percorrido ainda é longo e que muito dessa pluralidade vem do fato de que a TV e o streaming há muitos anos têm se mostrado mercados menos conservadores do que o cinema, mas é importante celebrar vitórias que já dão indícios de um futuro mais democrático, justo e igual em oportunidades. Ainda em números, a Netflix está no topo com 160 indicações para seus projetos contra 107 da HBO, invertendo o cenário de liderança visto no ano passado. No entanto, a Netflix ainda espera pelo dia em que uma de suas séries vencerá o prêmio principal. Parece que novamente não será dessa vez…

Por ora, aqui estão alguns comentários pontuais (e muito pessoais) sobre os indicados:

Watchmen e Succession são tudo isso que suas indicações sugerem, provando que a HBO ficou sem ressaca alguma após a era Game of Thrones. Na verdade, dá até para reivindicar mais indicações para ambas: enquanto a primeira deveria ter rendido a Tim Blake Nelson uma lembrança entre os coadjuvantes, a segunda poderia ter incluído Holly Hunter ao lado de Cherry Jones e Harriet Walter na disputa de atrizes convidadas. Em suma, qualquer resultado diferente da consagração de Watchmen e Succession será motivo de choque…

– Empatada com Succession no número de indicações, Ozark parecia destinada a render mais. Ainda que tenha, por exemplo, indicação tripla na categoria de roteiro, a série estrelada por Jason Bateman e Laura Linney ficou sem duas de suas indicações mais essenciais pela terceira temporada: ator coadjuvante para Tom Pelphrey e atriz coadjuvante para Janet McTeer;

– A briga será de foice entre as coadjuvantes de série dramática. Resultado de novas regras do Emmy, temos nada menos do que oito concorrentes: de Meryl Streep a Laura Dern por Big Little Lies, passando por grandes nomes como Helena Bonham Carter em The Crown e Fiona Shaw em Killing Eve, a antigas vencedoras como Thandie Newton (Westworld) e Julia Garner (Ozark), é praticamente impossível tentar adivinhar a futura vencedora. É o tipo de disputa que dá gosto de ver — não pela quantidade, e sim pela qualidade;

– Outra competição acirradíssima é a de atriz em série dramática. A categoria que nos reservou a surpresa de ver Zendaya (Euphoria) chegando de última hora após ter passado em branco nos demais prêmios televisionados confirmou o que era esperado: pelo menos três atrizes disputam o favoritismo. Será a vez de Olivia Colman (The Crown), vencedora do último Globo de Ouro? Ou então de Jennifer Aniston (The Morning Show), que já levou o Screen Actors Guild Awards para casa? E como não colocar Laura Linney (Ozark) na dianteira por sua melhor temporada na série e pelo seu histórico invicto no Emmy, onde já foi premiada por todos os papéis que concorreu?;

– Seguindo na pauta de atrizes, é criminoso o esquecimento de Merrit Wever e Kaitlyn Dever como protagonistas de Unbelievable no segmento de minisséries. Toni Collette, com uma pequena fraude de categoria, garantiu a lembrança entre as coadjuvantes, mas é a clássica situação em que as indicações só fazem real sentido quando todas estão na disputa. Não há justificativa para tal esquecimento, especialmente quando Unbelievable concorre como melhor minissérie, o que comprova o apreço dos votantes pelo programa em um ano muito disputado;

– Considerando as devidas dimensões, outras ausências e descompassos que me bateram de forma muito particular envolvem I Know This Much is True (concorre somente em melhor ator pelo grandioso desempenho de Mark Ruffalo quando merecia muito mais), Years and Years (uma das experiências mais marcantes da temporada e sequer citada em qualquer categoria) e The Great (série criada pelo roteirista de A Favorita que misteriosamente emplacou lembranças em direção e roteiro, mas não em melhor série ou para seu excelente elenco).

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Confira abaixo a lista de indicados: 

MELHOR SÉRIE DE DRAMA
Better Call Saul
The Crown
The Handmaid’s Tale
Killing Eve
The Mandalorian
Ozark
Stranger Things
Succession

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE DRAMA
Jennifer Aniston (The Morning Show)
Jodie Comer (Killing Eve)
Laura Linney (Ozark)
Olivia Colman (The Crown)
Sandra Oh (Killing Eve)
Zendaya (Euphoria)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE DRAMA
Billy Porter (Pose)
Brian Cox (Succession)
Jason Bateman (Ozark)
Jeremy Strong (Succession)
Sterling K. Brown (This is Us)
Steve Carell (The Morning Show)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE DE DRAMA
Fiona Shaw (Killing Eve)
Helena Bonham Carter (The Crown)
Julia Garner (Ozark)
Laura Dern (Big Little Lies)
Meryl Streep (Big Little Lies)
Samira Wiley (The Handmaid’s Tale)
Sarah Snook (Succession)
Thandie Newton (Westworld)

MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE DE DRAMA
Billy Crudup (The Morning Show)
Bradley Whitford (The Handmaid’s Tale)
Giancarlo Esposito (Better Call Saul)
Jeffrey Wright (Westworld)
Kieran Culkin (Succession)
Mark Duplass (The Morning Show)
Matthew Macfadyen (Succession)
Nicholas Braun (Succession)

MELHOR SÉRIE DE COMÉDIA
Curb Your Enthusiasm
Dead to Me
The Good Place
Insecure
The Kominsky Method
The Marvelous Mrs. Maisel
Schitt’s Creek
What We Do in the Shadows

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA
Catherine O’Hara (Schitt’s Creek)
Christina Applegate (Dead to Me)
Issa Rae (Insecure)
Linda Cardellini (Dead to Me)
Rachel Brosnahan (The Marvelous Mrs. Maisel)
Tracee Ellis Ross (Black-ish)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA
Anthony Anderson (Black-ish)
Don Cheadle (Black Monday)
Eugene Levy (Schitt’s Creek)
Michael Douglas (The Kominsky Method)
Ramy Yousseff (Ramy)
Ted Danson (The Good Place)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE DE COMÉDIA
Annie Murphy (Schitt’s Creek)
Alex Borstein (The Marvelous Mrs. Maisel)
Betty Gilpin (GLOW)
Cecily Strong (Saturday Night Live)
D’Arcy Carden (The Good Place)
Kate McKinnon (Saturday Night Live)
Marin Hinkle (The Marvelous Mrs. Maisel)
Yvonne Orji (Insecure)

MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE DE COMÉDIA
Alan Arkin (The Kominsky Method)
Andre Braugher (Brooklyn Nine-Nine)
Daniel Levy (Schitt’s Creek)
Kenan Thompson (Saturday Night Live)
Mahershala Ali (Ramy)
Sterling K. Brown (The Marvelous Mrs. Maisel)
Tony Shalhoub (The Marvelous Mrs. Maisel)
William Jackson Harper (The Good Place)

MELHOR MINISSÉRIE
Little Fires Everywhere
Mrs. America
Unbelievable
Unorthodox
Watchmen

MELHOR TELEFILME
American Son
Bad Education
Dolly Parton’s Heartstrings: These Old Bones
El Camino: A Breaking Bad Movie
Unbreakable Kimmy Schmidt: Kimmy vs. The Reverend

MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE/TELEFILME
Cate Blanchett (Mrs. America)
Kerry Washington (Little Fire Everywhere)
Octavia Spencer (Self Made)
Regina King (Watchmen)
Shira Haas (Unorthodox)

MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE/TELEFILME
Hugh Jackman (Bad Education)
Jeremy Irons (Watchmen)
Jeremy Pope (Hollywood)
Mark Ruffalo (I Know This Much is True)
Paul Mescal (Normal People)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME
Holland Taylor (Hollywood)
Jean Smart (Watchmen)
Margo Martindale (Mrs. America)
Toni Collette (Unbelievable)
Tracey Ullman (Mrs. America)
Uzo Aduba (Mrs. America)

MELHOR ATOR COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME
Dylan McDermott (Hollywood)
Jim Parsons (Hollywood)
Jovan Adepo (Watchmen)
Louis Gossett Jr (Watchmen)
Tituss Burgess (Unbreakable Kimmy Schmidt: Kimmy vs. The Reverend)
Yahya Abdul-Mateen II (Watchmen)

* Categorias de direção, roteiro, variedades, reality shows e outros segmentos técnicos podem ser encontrados no relação completa de indicados disponibilizada em inglês pelo Emmy.

Os vencedores do Oscar 2020

Bong Joon-ho subiu quatro vezes ao palco do Dolby Theatre para receber os prêmios de melhor filme, direção, roteiro original e filme internacional para Parasita.

Novos tempos pareciam chegar em Hollywood quando o Oscar premiou Moonlight em 2017. Um filme independente, dirigido por um cineasta negro e preocupado com causas importantíssimas com a devida representatividade? Coisa rara. No entanto, eis que dois anos depois, o Oscar premiava Green Book, um longa incrivelmente empoeirado que discutia questões raciais como se estivesse nos anos 1970, trazendo novamente o white savior para aliviar a consciência das plateias brancas em relação ao racismo. De que adiantou, portanto, premiar Moonlight se, logo em seguida, houve tamanho retrocesso com Green Book?

A partir desse cenário, era de se esperar que o Oscar 2020 seguisse a tendência de todos os outros prêmios e consagrasse 1917, mais um filme de guerra estrelado por pessoas brancas e reverenciado pelo grandioso espetáculo técnico que Hollywood gosta de premiar. Contudo, eis que a Academia, em um surto raro de lucidez, dá a volta por cima e premia Parasita com as estatuetas de melhor filme, direção, roteiro original e filme internacional. Em 92 anos, o Oscar nunca havia celebrado uma produção de língua não-inglesa na categoria principal. História foi feita. E Hollywood, de repente, saiu de seu próprio umbigo para descobrir que cinema é uma linguagem universal, independentemente de legendas. Não nos iluda, Academia. Isso precisa ser o sinal de novos tempos.

O que tal vitória de fato significa para o futuro e para a própria indústria hollywoodiana só o tempo poderá dizer, mas, a curto prazo, a vitória de Parasita dita tendências muito claras quando coloca os Estados Unidos a reverenciar uma produção asiática que transita pelos mais diferentes gêneros. Foi a compensação perfeita para uma cerimônia esquizofrênica do ponto de vista de entretenimento. Como explicar, por exemplo, Eminem cantando Lose Yourself sem a menor explicação em pleno 2020? Ou então o número de abertura que tem a cara de pau de fazer referências a MidsommarNósMeu Nome é Dolemite, filmes que sequer foram indicados em qualquer categoria? Excessivamente musical, assistir ao Oscar 2020 como um programa de TV foi uma tortura.

Na reta final, a situação mudou de cenário quando a cerimônia se dedicou mais aos prêmios e deixou os vencedores falarem (Renée Zellweger e, especialmente, Joaquin Phoenix deram discursos marcantes, desobedecendo o tempo limite de fala de 45 segundos). Ainda há muito o que se falar sobre o Oscar 2020, que, por exemplo, fez O Irlandês de Martin Scorsese sair de mãos abanando enquanto entregava duas estatuetas preguiçosas para Ford vs. Ferrari. Entretanto, por ora, a euforia com as vitórias sem precedentes de Parasita sintetiza muito bem as incríveis lembranças que ficam da cerimônia. Digam o que quiser do Oscar, mas, para o bem ou para o mal, ele segue sendo o prêmio mais autêntico e surpreendente da temporada.

Plateia do Oscar 2020 se mobiliza com a celebração de Parasita.

Confira abaixo a lista de vencedores:

MELHOR FILME: Parasita
MELHOR DIREÇÃO: Bong Joon-ho (Parasita)
MELHOR ATRIZ: Renée Zellweger (Judy: Muito Além do Arco-Íris)
MELHOR ATOR: Joaquin Phoenix (Coringa)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Laura Dern (História de Um Casamento)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Brad Pitt (Era Uma Vez Em… Hollywood)
MELHOR ROTEIRO ORIGINALParasita
MELHOR ROTEIRO ADAPTADOJojo Rabbit
MELHOR FILME INTERNACIONAL: Parasita
MELHOR DOCUMENTÁRIO: Indústria Americana
MELHOR ANIMAÇÃO: Toy Story 4

MELHOR TRILHA SONORA: Coringa
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “(I’m Gonna) Love Me Again” (Rocketman)
MELHOR MONTAGEM: Ford vs. Ferrari
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: Era Uma Vez Em… Hollywood
MELHOR FOTOGRAFIA: 1917
MELHOR FIGURINOAdoráveis Mulheres

MELHOR MIXAGEM DE SOM1917
MELHOR EDIÇÃO DE SOM: Ford vs. Ferrari
MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOSO Escândalo
MELHORES EFEITOS VISUAIS1917
MELHOR CURTA-METRAGEM: The Neighbors’ Widow
MELHOR CURTA-METRAGEM (ANIMAÇÃO)
: Hair Love
MELHOR CURTA-METRAGEM (DOCUMENTÁRIO)Learning to Skateboard in a Warzone (If You’re a Girl)

Apostas para o Oscar 2020 (e também palpites, impressões e preferências acerca dos indicados)

Mais curta do que o habitual (ainda bem, especialmente quando os vencedores são sempre os mesmos!), a temporada de premiações deste ano chega ao fim neste domingo (09), quando o Oscar revela os vencedores de sua 92ª edição. O histórico recente da Academia acusa a possibilidade de surpresas em comparação à maioria dos outros prêmios televisionados (Birdman, A Forma da Água e Green Book contrariaram o franco favoritismo de seus respectivos adversários), mas, até que se prove o contrário, 1917 é o filme a ser batido na cerimônia de 2020. Novamente sem apresentador (no ano passado aprendemos que isso não faz diferença alguma), o Oscar será transmitido a partir das 22h aqui no Brasil pela TNT. Para quem curte o tapete vermelho, a transmissão no canal começa às 21h. Já a Globo terá transmissão ao vivo e gratuita pelo G1 e pela Globoplay, dando início a sua cobertura às 20h. Até lá, como forma de tentar antecipar o que pode acontecer na cerimônia, deixo alguns comentários e impressões sobre as categorias, bem como as minhas preferências em cada caso. E não esqueçam: nos encontramos logo mais para comentar os vencedores!

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Parasita pode fazer história como a primeira produção em língua não-inglesa a faturar o Oscar de melhor filme, mas será mesmo que é possível desbancar 1917?

MELHOR FILME
Ainda sinto falta do tempo em que somente cinco filmes concorriam ao grande prêmio da noite. Com a possibilidade de até dez produções serem indicadas, sempre fica muito claro aquelas que estão sobrando na disputa. Apesar disso, essa parece ser a seleção mais equilibrada em anos, deixando a preferência, claro, para a identificação e o gosto pessoal de cada um. Não gosto de Era Uma Vez Em… Hollywood, que traz Quentin Tarantino mais uma vez afundado em longos excessos. Admiro determinados pontos de O Irlandês, mas não é o tipo de filme que me empolga ou muito menos me fascina. O franco favorito 1917 é um espetáculo técnico irrepreensível, só que tudo é tão planejado e ensaiado que acaba sem espontaneidade. Coringa, que é o líder de indicações, foi mais admirado do que deveria (são exageradas as menções em figurino e maquiagem, por exemplo), mas é uma produção que defendo por revigorar as fórmulas de filmes baseados em quadrinhos. Tenho um carinho imenso por Adoráveis Mulheres e fico feliz de ver um filme tão “simples” quanto História de Um Casamento chegar a esse nível de celebração. De qualquer maneira, nem somados esses filmes (e mais Ford vs. FerrariJojo Rabbit) chegam perto do impacto de Parasita. É um filmaço que ainda será muito reverenciado e citado. Tomara que os votantes se atentem a esse marco instantâneo e finalmente premiem pela primeira vez uma produção “estrangeira” na categoria principal.

MELHOR DIREÇÃO
É praticamente impossível Sam Mendes perder o Oscar de melhor direção, tanto pelos prêmios acumulados até aqui (Globo de Ouro, BAFTA, Sindicato dos Diretores e Critic’s Choice) quanto pelo fato de que a Academia adora um trabalho de “curiosidades”, onde cineastas falam pelos cotovelos sobre as dificuldades de produção, os meses de preparação e os contorcionismos para alcançar determinadas proezas técnicas. Como sempre, os prêmios gostam de mais direção e não da melhor direção. Tendo admirado o trabalho de Mendes pela técnica e não pela emoção, meu voto seria outro, e novamente destinado a Parasita. O que Bong Joon-ho faz praticamente em um único cenário, transitando entre gêneros tão diferentes, é coisa de mestre. Ele tem o espectador na mão durante todo o desenrolar da trama, sem precisar de muitas firulas para fazer um grande filme. Sua direção é de um rigor impressionante, embalada em um discurso urgente para o caos político e social que vivemos atualmente.

Com a melhor performance de sua carreira, Antonio Banderas chega pela primeira vez ao Oscar com Dor e Glória.

MELHOR ATRIZ
É a seleção mais fraca da categoria em muitos anos, e não por falta de opção: Lupita Nyong’o, por exemplo, poderia estar facilmente concorrendo por Nós, mas a Academia segue com dificuldades em reconhecer atrizes negras fazendo papéis que não são marginalizados ou sobre o período da escravidão (não à toa, justamente, a única interpretação negra na disputa entre todas as categorias de atuação este ano é a de Cynthia Erivo em Harriet). Com o que temos, torna-se impossível ter outra alternativa a não ser premiar Renée Zellweger por seu belo desempenho em Judy: Muito Além do Arco-Íris. É muito tocante a simbologia desse reconhecimento, por motivos que já discuti na crítica que escrevi para o filme. Ela não tem disputa, seja por merecimento ou por chances de vitória: a transformação de Charlize Theron é impressionante em O Escândalo, Scarlett Johansson tem um dos papéis de sua vida em História de Um Casamento e Saoirse Ronan segue trilhando uma bela carreira com Adoráveis Mulheres, mas Renée está um degrau acima.

MELHOR ATOR
O marasmo entre as atrizes é compensado pela seleção de atores. É óbvio e justo que Joaquin Phoenix vença por Coringa (além de ser uma interpretação muito autêntica, a celebração é uma boa reparação histórica para esse ator que sempre colecionou desempenhos marcantes), o que não deve ser motivo para diminuir seus concorrentes. Adam Driver tem o melhor momento de sua trajetória até aqui com História de Um Casamento, onde ele é grandioso fazendo o papel de um homem comum. Jonathan Pryce faz uma dobradinha incrível com Anthony Hopkins em Dois Papas, assim como Leonardo DiCaprio tem um excelente momento com Brad Pitt em Era Uma Vez Em… Hollywood. Entretanto, talvez seja Antonio Banderas o ator que ficará no meu coração com Dor e Glória. É o tipo de performance cuja indicação por si só já é uma vitória, a exemplo do que aconteceu com Charlotte Rampling em 45 Anos e Marion Cotillard em Dois Dias, Uma Noite, pois, em todos esses casos, a Academia jamais premiaria desempenhos tão sutis, econômicos e interiorizados. 

Florence Pugh concorre a melhor atriz coadjuvante como um dos destaques de Adoráveis Mulheres.

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Fico chateado com a futura vitória de Laura Dern (História de Um Casamento) por inúmeras razões. Primeiro porque se trata de prêmio de carreira e não de performance, o que é sempre desestimulante, especialmente quando é atribuído a grandes atrizes. Segundo porque ela sequer está entre as melhores performances do filme (além de Scarlett e Driver, ainda faltaram as devidas lembranças para Alan Alda). Terceiro porque o papel não tem vida própria, muito menos um arco dramático. E, por fim, Dern repete nele o que já havia feito em Big Little Lies. O quinteto selecionado não é dos mais fortes (se tivesse que escolher, votaria em Florence Pugh por Adoráveis Mulheres ou em Kathy Bates por O Caso Richard Jewell), e talvez essa seja a grande razão para o favoritismo de Laura. Entre as ausências, muito se fala em Jennifer Lopez, que, na verdade, tem praticamente o mesmo tempo de tela da protagonista Constance Wu em As Golpistas, mas, nesse limiar entre protagonista e coadjuvante, eu lembraria de Octavia Spencer em Luce, onde ela nunca esteve tão boa.

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Reduto de prêmios para quitar dívidas e consagrar protagonistas que desejam ganhar Oscar mas não têm chances na respectiva categoria, o segmento de coadjuvantes ganha outra seleção altamente duvidosa ao estilo do ano em que Rooney Mara (Carol) e Alicia Vikander (A Garota Dinamarquesa) concorreram com duas escandalosas fraudes de categoria. Em 2020, temos pelo menos dois protagonistas concorrendo como coadjuvantes: Brad Pitt (Era Uma Vez Em… Hollywood) e Anthony Hopkins (Dois Papas), com o primeiro sendo favoritíssimo para levar a melhor. Como tenho aversão a esse tipo de fraude, sequer incluiria os dois na disputa, por melhores que sejam os desempenhos. Com isso, sobram os dois coadjuvantes de O Irlandês (Joe Pesci e Al Pacino) e Tom Hanks em Um Lindo Dia na Vizinhança. Ficaria com Al Pacino, que tem um dos melhores personagens do filme de Martin Scorsese e rouba as atenções toda vez que entra em cena. Vale lembrar ainda duas performances esquecidas e dignas de estarem aqui: Song Kang-ho por Parasita e Sam Rockwell por O Caso Richard Jewell. 

OUTRAS CATEGORIAS
Temos duas brigas interessantes entre os roteiros. Na categoria original, Quentin Tarantino vinha colecionando estatuetas nos prêmios televisionados (levou o Globo de Ouro e o Critics’ Choice), mas, nas últimas semanas, viu Parasita brilhar no BAFTA e no Sindicato dos Roteiristas. Fico, obviamente, com a produção sul-coreana. Já em roteiro adaptado, tudo indica que Jojo Rabbit leve a melhor, mas desconfio que Adoráveis Mulheres possa surpreender, beneficiado pelas amplas críticas que seguem sendo feitas a um circuito de premiações sem muita representatividade. Também seria a chance de compensar o fato de Greta Gerwig não ter levado nenhum prêmio por Lady Bird e a absurda estatística de que nenhuma mulher ganhou Oscar roteiro nos últimos dez anos. Entre as categorias técnicas, uma boa quantidade de estatuetas deve ir para 1917, entre elas fotografia, edição de som, mixagem de som, design de produção e efeitos visuais. Animação está entre Toy Story 4Klaus. Documentário tem a disputa centrada entre For Sama Honeyland, mas com boas chances de Democracia em Vertigem surpreender (não é bairrismo: lembram como o cenário político entregou o Oscar de melhor filme estrangeiro para O Apartamento em 2017?).

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Confira abaixo a nossa lista de apostas:

APOSTAS

MELHOR FILME: 1917 / alt: Parasita
MELHOR DIREÇÃO: Sam Mendes (1917) / alt: Bong Joon-ho (Parasita)
MELHOR ATRIZ: Renée Zellweger (Judy: Muito Além do Arco-Íris) / alt: Scarlett Johansson (História de Um Casamento)
MELHOR ATOR: Joaquin Phoenix (Coringa) / alt: Adam Driver (História de Um Casamento)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Laura Dern (História de Um Casamento) / alt: Scarlett Johansson (Jojo Rabbit)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Brad Pitt (Era Uma Vez Em… Hollywood) / alt: Al Pacino (O Irlandês)
MELHOR ROTEIRO ORIGINALParasita / alt: Era Uma Vez Em… Hollywood
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Jojo Rabbit / alt: Adoráveis Mulheres
MELHOR FILME INTERNACIONAL: Parasita / alt: Dor e Glória
MELHOR DOCUMENTÁRIO: For Sama / alt: Democracia em Vertigem
MELHOR ANIMAÇÃO: Toy Story 4 / alt: Klaus

MELHOR TRILHA SONORA: Coringa / alt: 1917
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “(I’m Gonna) Love Me Again” (Rocketman) / alt: “Stand Up” (Harriet)
MELHOR MONTAGEM: Parasita / alt: Ford vs. Ferrari
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: 1917 / alt: Parasita
MELHOR FOTOGRAFIA: 1917 / alt: Coringa
MELHOR FIGURINO: Adoráveis Mulheres / alt: Jojo Rabbit

MELHOR MIXAGEM DE SOM: 1917 / alt: Ford vs. Ferrari
MELHOR EDIÇÃO DE SOM1917 / alt: Ford vs. Ferrari
MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS: O Escândalo / alt: Judy: Muito Além do Arco-Íris
MELHORES EFEITOS VISUAIS: 1917 / alt: Vingadores: Ultimato

Os vencedores do BAFTA 2020

Seguindo a tendência de outras premiações, 1917 foi o melhor filme no BAFTA 2020.

Na reta final rumo ao Oscar, o BAFTA revelou neste domingo (02) os vencedores de sua criticada seleção de 2020. Sem mulheres concorrendo na categoria de direção e somente com atores brancos na disputa entre protagonistas e coadjuvantes, o prêmio britânico seguiu com sua recente tendência de apenas tentar prever o Oscar ao invés de seguir suas próprias intuições. Frente a esse cenário, 1917 foi o grande vencedor da noite, levando sete estatuetas para casa, entre elas a de melhor filme e direção para Sam Mendes. Os atores consagrados também foram os mesmos de outras premiações: Renée Zellweger (Judy), Joaquin Phoenix (Coringa), Laura Dern (História de Um Casamento) e Brad Pitt (Era Uma Vez Em… Hollywood).

A única surpresa que o BAFTA proporcionou e que pode ser um sinal diferenciado para o Oscar foi prêmio de melhor roteiro original entregue a Parasita. O filme de Bong Joon-ho já havia faturado o mesmo prêmio junto ao Sindicato de Roteiristas no sábado (01), mas lá o favorito Quentin Tarantino (Era Uma Vez Em… Hollywood) estava fora de competição por não ser filiado ao Sindicato. Tarantino, que conquistou o Globo de Ouro e o Critics’ Choice Awards, de repente viu a boa fase do seu filme se dissipar. Com a dupla vitória de Parasita, não será mais surpresa ver Bong Joon-ho levando a melhor na disputa de roteiro original. Em tempos mais autênticos, o BAFTA talvez tivesse levado a produção sul-coreana ainda mais longe…

Confira abaixo a lista completa de vencedores:

MELHOR FILME1917
MELHOR FILME BRITÂNICO1917

MELHOR DIREÇÃO: Sam Mendes (1917)
MELHOR ELENCOCoringa
MELHOR ATRIZ: Renée Zellweger (Judy: Muito Além do Arco-Íris)
MELHOR ATOR: Joaquin Phoenix (Coringa)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Laura Dern (História de Um Casamento)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Brad Pitt (Era Uma Vez Em… Hollywood)
MELHOR ROTEIRO ORIGINALParasita
MELHOR ROTEIRO ADAPTADOJojo Rabbit
MELHOR TRILHA SONORACoringa
MELHOR FOTOGRAFIA1917
MELHOR MONTAGEMFord vs. Ferrari
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO1917
MELHOR FIGURINOAdoráveis Mulheres
MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS: O Escândalo
MELHOR SOM1917
MELHORES EFEITOS VISUAIS1917

MELHOR FILME EM LÍNGUA NÃO-INGLESAParasita (Coréia do Sul)
MELHOR DOCUMENTÁRIOFor Sama
MELHOR ANIMAÇÃO: Klaus
MELHOR ESTREIA DE UM DIRETOR, PRODUTOR OU ROTEIRISTA BRITÂNICO: Bait (Mark Jenkin, diretor e roteirista; Kate Byers; Linn Waite, produtor)
MELHOR CURTA BRITÂNICO: Learning to Skateboard In A Warzone (If You’re A Girl)
MELHOR CURTA BRITÂNICO: Grandad Was a Romantic
EE RISING STAR AWARD: Micheal Ward

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