Cinema e Argumento

Livro – Um Homem Só

Eu costumava dizer que apenas os tolos recebem o dia com um sorriso. Apenas os tolos escapam da simples verdade que o agora não é simplesmente agora. É um lembrete frio: um dia depois de ontem, um ano após o ano passado e, eventualmente, ela virá.

É até estranho ler Um Homem Só depois que você já assistiu Direito de Amar, a versão cinematográfica da obra de Christopher Isherwood. Estranho no sentido de que o filme e o livro possuem abordagens completamente diferentes. Enquando o produto de Tom Ford adota um tom bastante melacólico, o texto de Isherwood utiliza o amargo para descrever a rotina solitária de um homem que acabou de perder o seu companheiro. Portanto, foi no mínimo decepcionante ver aquela história sentimental que eu conhecia em um livro tão seco como esse. Nesse sentido, Tom Ford fez um belíssimo trabalho de adaptação.

Um Homem Só traz um protagonista que lida com a morte de forma ríspida. A mágoa de George Falconer ou toda a dor que essa tragédia trouxe para a sua vida não ficam evidentes. O que acompanhamos no livro é um homem que, talvez por não saber lidar com isso, adota uma ótica sarcástica e pessimista demais do mundo. Mas em momento algum esse pessimismo tende para o lado do drama. A impressão que a obra deixa é que George é um sujeito gratuitamente desagradável e, acreditem ou não, chato por pura implicância com o mundo. Boa parte da decepção que o livro causa é em relação ao protagonista. Quem lê a história já tendo visto o filme não consegue associar o que está sendo descrito com a figura que Colin Firth retratou.

Foi uma escolha mais do que acertada do diretor e roteirista Tom Ford transformar George Falconer em um sujeito que tem os sentimentos à flor de pele. O personagem do filme demonstra humanidade em cada olhar e em cada expressão. Já o do livro permanece com a mesma visão seca do mundo o tempo inteiro. O autor Christopher Isherwood não faz questão de mostrar que Falconer é assim por causa da morte de seu companheiro. Às vezes, fica a sensação de que ele é assim porque simplesmente é. A morte, ao menos para mim, não teve ecos narrativos no livro. Parece um fato isolado na vida do protagonista.

Ao passo que Isherwood acerta ao relembrar os momentos do casal e também ao criar algumas reflexões existenciais, peca quando detalha demais algumas cenas. Não no sentido de descrever cenários ou pessoas, mas no sentido de metaforizar cada ação ou acontecimento. Aclamado pela audácia de retratar um romance gay na literatura inglesa dos anos 60, o autor pode até ter seus méritos ao tratar desse assunto. Mas, nos dias de hoje, soa como uma obra acadêmica demais. Já vimos tantas outras histórias gays cheias de sentimento que essa se torna fria – somente na literatura, claro. Sem pensar duas vezes, sou mil vezes mais o filme de Tom Ford.

Livro – Os Famosos e os Duendes da Morte

Se tu sentir saudade, deita na minha cama e olha para o teto do meu quarto. Tu vai ver, talvez pela primeira vez, que as estrelas que o velho colou não estão mais lá. Faz tempo que isso aconteceu. Chove toda vez que eu sinto saudade, mas algumas coisas ficam mais bonitas quando se transformam em lembranças. A última caiu, não faz muito tempo. Ela está no bolso de trás da minha calça e vai ficar aqui até quando eu voltar e te abraçar de um jeito tão mais forte do que tu poderá entender…

Identificação é algo essencial para quem quer apreciar a história de Os Famosos e os Duendes da Morte. Identificação não só com a história apresentada mas, também, com o estilo de escrita apresentado pelo autor Ismael Caneppele. O gaúcho parece captar como nenhum outro autor brasileiro a essência das angústias adolescentes e o mundo isolado de pessoas que vivem em sociedades longínquas.

Caneppele, antes de escrever Os Famosos e os Duendes da Morte, já havia percorrido esses horizontes com outra obra, Música Para Quando as Luzes Se Apagam, que também adota um estilo confessional em primeira pessoa (sempre lembrando bastante a narrativa de O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D. Salinger) e versa sobre os momentos de reflexão do protagonista em relação ao mundo à sua volta.

Os Famosos e os Duendes da Morte surgiu da própria vivência de Caneppele na cidade de Lajeado, onde viveu durante anos. O autor, que já confessou que o enredo é uma espécie de ode ao lugar onde um dia viveu e uma crônica de despedida das lembranças que tem de lá, calcou a sua escrita na vivência que tinha com os amigos que nunca saíram da cidade interiorana e nos primos que enxergavam o mundo através da internet.

Portanto, é muito fácil perceber, em cada página, um ponto de vista quase que autobiográfico (talvez, “pessoal”, seja uma palavra mais apropriada). Os Famosos e os Duendes da Morte dialoga com bastante intensidade com as pessoas que, assim como Caneppele, possuiram ou possuem algum tipo de vivência ou identificação com o mundo do protagonista. De forma alguma isso invalida a leitura para os outros públicos, mas, a aceitação da obra é muito mais abrangente para aqueles que se identificam com a proposta.

O livro, mesmo que não chegue a ter nem cem páginas, deixa a sensação de que tem muito mais. No entanto, esse aspecto não pode ser considerado algo negativo. A linguagem extremamente metafórica e as inúmeras reflexões filosóficas do narrador-protagonista exigem a atenção do leitor e isso, no final das contas, torna a leitura mais lenta e dedicada. Mas, esse era um dos principais objetivos de Caneppele. Ele não queria facilitar nada. Ele queria ter liberdade de criação junto com a possibilidade de inventividades.

Encerrando com uma carta de despedida arrebatadora, o livro de Os Famosos e os Duendes da Morte é uma experiência, no mínimo, curiosa. Assim como o filme, é impossível ficar indiferente com o resultado. Quer você goste ou não, nunca poderá ser dito que algo como esse livro/filme já foi feito anteriormente. É algo totalmente novo e original. Não tanto no conteúdo, mas bem mais no que se diz respeito à forma.

Em uma última análise, o que me incomodou no resultado foi o último ato da história, quando o “menino sem nome” embarca em um passeio com Julian. A partir do momento em que essa parte se instala, o livro perde o ritmo e fica figurativo demais para o meu gosto. Então, ao meu ver, Caneppele pecou no encerramento da história. Mas, com a carta final, os deslizes, de certa forma, puderam ser perdoados. Aliás, seria preciso de muito mais para apagar toda a boa sensação que tive ao me identificar com o enredo…

Livro – Conversas Com Almodóvar

Lia o tempo todo. Devia ter nove anos quando comprei meu primeiro livro. Como ninguém me disse o que devia ler, nem me recomendou o quer que fosse, fiz minhas descobertas sozinho. Não sei se eu era maduro, mas hoje percebo que as coisas que me interessam agora já me interessavam naquela época. Não precisei de educação para descobri-las; elas me foram reveladas muito cedo. Eu estava sozinho, completamente sozinho. Houve poucas trocas nas relações que tive com os meus colegas, nossos interesses não eram os mesmos. Entrei em contato com tudo que gostava na mais absoluta solidão. Mas as crianças desenvolvem uma grande força na solidão. Também podem desenvolver uma grande neurose, mas por sorte não foi o que me aconteceu, com certeza porque era também um espectador muito bom da vida dos outros. Mas, apesar de tudo, uma testemunha, nunca um participante.

– Pedro Almodóvar

Um livro que vale muito a pena.

Quem sabe você também não se identifica com alguma coisa?

Adaptação – The Bear Came Over The Mountain

thebear

“You’ve been gone a long time, I’m so happy to see you… You could have just driven away without a care in the world and forsaken me.”

O conto de Alice Munro se chama “The Bear Came Over The Mountain” e conta a história de Grant e Fiona. Eles são casados faz quarenta anos e apresentam uma notável estabilidade sentimental. Porém, Fiona começa a apresentar alguns lapsos de memória, preocupando seu marido. Quando ambos decidem procurar ajuda, acabam por descobrir que ela é vítima do mal de Alzheimer (doença mental que vai graduamente apagando a memória). A própria Fiona decide que será internada em um instituição para idosos especializada no assunto, Meadowlake. Por causa de uma regra do lugar, Grant fica impossibilitado de visitar Fiona durante trinta dias. Quando ele finalmente consengue voltar a vê-la, ela já não sabe mais quem ele é. Além disso, se afeiçoou a um outro paciente do lugar.

Baseado em minha convivência com uma portadora em estado avançado do mal de Alzheimer, posso dizer que, do ponto de vista técnico, The Bear Came Over The Mountain não condiz muito com as realidades do mal de Alzheimer. O primeiro deslize é o fato da própria Fiona aceitar o fato de sua doença. Se o Alzheimer apaga a memória (em potencial as mais recentes), ela não iria se esquecer do diagnóstico? E, além do mais, não creio que alguém possa realmente estar consciente de que já não possui mais determinada sanidade. Outro aspecto um pouco errado é como Fiona perde a memória facilmente. Em um mês ela já esqueceu completamente quem é o marido com quem ela ficou casada por mais de quarenta anos. Isso só deveria ocorrer após muito, mas muito tempo depois do diagnóstico. O conto (assim como o filme) deixa de lado alguns detalhes da doença – os pacientes perdem até mesmo a capacidade de andar e de falar. Sem falar da total falta de noção de sensações como dor, calor ou frio. A abordagem da doença foi limitada, escolhendo apenas os obstáculos da doença que eram conveniente para a história.

Deixando de lado os aspectos técnicos (que são pouco relevantes para a história), The Bear Came Over The Mountain é um conto, no mínimo, estranho. Estranho no estilo de contar histórias de Alice Munro. Fiquei incomodado com a linguagem extremamente adjetivada que é usada, que acaba dificultando muito a leitura. Ela também não narra da forma mais adequada determinados momentos que poderiam causar emoção (por alguma razão, tende a não se utilizar muito de diálogos), como nas interações entre Grant e Fiona. A trajetória de amor deles, então, fica fraca. Mas tudo mudo quando a personagem Marian entra na história. Ela é a esposa do paciente que criou certo afeto com Fiona. Quando Grant e Marian se encontram, dá pra notar talento na narrativa e um sentimentalismo subjetivo.

The Bear Came Over The Mountain é um conto sentimental sem sentimentalismo. Escrito pra emocionar, mas sem a devida emoção. Não tem brilhantismos, nem uma escritora adequada. Mas ainda assim é um bom material, perfeito para virar filme. A atriz Sarah Polley resolveu ter sua estréia na direção adaptando esse conto. Polley selecionou as principais fontes da trama que poderiam derivar emoções e construiu seu filme de forma muito superior ao conto. A história de The Bear Came Over The Mountain é muito mais aproveitável (e significativa) em estruturas mais longas. Caso fosse um livro, por exemplo, seria muito melhor. No filme, ficou excelente. Nesse caso, o filme fica superior ao conto. Ambos são bem parecidos, mas devido às diferentes estruturas, ficam com qualidades bem diferentes.