CLOSE 2013: Mostra Paralela I

Karine Teles e Otto Jr. são os protagonistas de Os Desconhecidos, curta baseado no conto homônimo de Caio Fernando Abreu
Começando ontem com a exibição de Sete Ondas Verdes Espumantes, fora de competição, o CLOSE 2013 agora dá início as suas tradicionais mostras paralelas e competitivas. O pontapé inicial foi dado hoje, no Museu dos Diretos Humanos do Mercosul, com a primeira leva de filmes da mostra paralela. Os curtas apresentaram uma grande variedade de temas: prostituição, sentimentos reprimidos, relacionamentos que deram errado e o que é considerado masculino ou feminino na infância. A qualidade dos curtas-metragens, no entanto, em sua maioria, não acompanha as propostas diferenciadas das histórias. Abaixo, breves comentários sobre a primeira noite da mostra paralela do CLOSE 2013.
VIDA FÁCIL – O INÍCIO, de Dimas Oliveira Junior: Curioso como esse curta se transforma ao longo de seus 24 minutos. No início, com uma narração em off, parece algo mais contemplativo. Logo, tudo indica que é um documentário. Até que, por fim, descobrimos que se trada de uma ficção sobre prostituição masculina. Intenções válidas e tudo mais, só que Vida Fácil – O Início deixa a impressão que é um trabalho de calouros de cinema – no pior sentido dessa comparação. Péssimas interpretações, transições mal executadas, enquadramentos amadores e resoluções clichês. Uma pena, pois o tema – que raramente tem uma abordagem masculina – merecia um curta melhor elaborado e menos novelesco e amador.
PRISMA, de Matheus Marco Moraes: A relação do que interiorizamos e exteriorizamos quanto aos nossos sentimentos é bem explorada por esse curta que basicamente é uma conversa em tempo real entre dois amigos. Um deles chama o outro para uma conversa a sós e, logo nos primeiros segundos, já percebemos o que está prestes a revelado. A forma como Prisma se inicia, com um segmento chamado Faces, dá a entender que o curta será uma viagem que fica entre o pretensioso e o contemplativo, mas basta começar o encontro entre os dois personagens para que o filme nos ganhe com a simplicidade e com a delicada situação que retrata. Apesar das tentativas, Prisma não chega a ser complexo ou mais elaborado, mas é eficiente quando se apoia pura e simplesmente no conflito sentimental que se propõe a retratar.
AMARELINHA, de Rafael Jardim: Um menino tenta jogar bola com seus amigos e não tem a menor desenvoltura para a atividade. Zombado por eles, acaba expulso do jogo e encontra consolo na figura de uma menina que joga amarelinha. E, com ela, ele é zombado novamente. Não é um curta cuja temática da sexualidade esteja necessariamente escancarada, mas basta parar para pensar na máxima que assombra a infância de que “meninos brincam com meninos e meninas brincam com meninas” (a sinopse de Amarelinha, diga-se de passagem) para que sua presença no CLOSE faça total sentido. Já sobre o curta em si, existe pouco a ser dito: a história é contada de forma linear, sem diálogos e com uma trilha exagerada que parece não casar com a proposta. Por sorte, é rápido, direto ao ponto e até instigante sensorialmente. Mas não passa disso.
OS SOBREVIVENTES, de Daniel Nolasco e Marcela Coppo: Caio e Jane tentaram. Durante anos. Mas não deram certo. Chegada a hora do adeus, tentam avaliar o que deu errado. E, na conversa, percebem que foi um pouco de tudo: sexualidade, excesso de intelectualidade, visões de mundo conflituosas… Os Sobreviventes, baseado no conto homônimo de Caio Fernando Abreu, consegue fazer um bom panorama de todas essas questões que assolaram o casal durante anos. Questionamentos levantados de forma breve mas críveis (o da sexualidade é particularmente interessante). Só fica estranha mesmo a forma como os diretores e roteiristas preservaram a linguagem literária: muitas vezes, os protagonistas falam de forma muito elaborada, com um vocabulário que não se encaixa com a vida real. Assim, Os Sobreviventes nos tira um pouco do filme e parece mais um exercício para mostrar a intelectualidade de seus realizadores.
CALE-SE!, de Vlademir Gomes: A revelação final até que dá o tom e justifica a presença desse curta no CLOSE, mas, no geral, Cale-se! é raso e pouco envolvente. Tudo indica que seja a duração (são meros sete minutos para mostrar o teste de uma amizade em uma mesa de bar), mas a verdade é que o roteiro – que sabe-se lá porque reuniu quatro pessoas para escrever algo tão óbvio – pouco diz sobre as motivações dos personagens. Ao fim do curta, só sabemos que ambos são tipos extremos: de um lado, o homem casado que acha certo sair para farrear; de outro, o comportado e julgado como careta pelo amigo. A dinâmica entre os dois também é mal estabelecida e, por mais que o final justifique tantos conflitos até então sem razão aparente, o filme em si não se sustenta sem a revelação derradeira.
4ª edição do CLOSE começa nesta terça-feira (03)

Pelo segundo ano consecutivo, o Cinema e Argumento tem o prazer de acompanhar mais uma edição do CLOSE – Festival Nacional de Cinema da Diversidade Sexual. Antes de mais nada, porto-alegrenses, agendem-se: o Festival acontece de 3 a 8 dezembro, celebrando sua quarta edição. Co-realização da Avante Filmes, SOMOS – Comunicação, Saúde e Sexualidade e Museu dos Direitos Humanos do Mercosul, o CLOSE tem exibições no Cinebancários (rua General Câmara, 424) e no Museu dos Direitos Humanos do Mercosul (Praça da Alfândega – Centro).
Ampliando e se renovando ano a ano, o CLOSE tem merecidamente se firmado como um dos principais eventos cinematográficos do circuito alternativo de Porto Alegre. Na última edição, o Festival alcançou uma média de 52 por pessoas por sessão – o que é notável, considerando o tamanho do CineBancários. Neste ano, o público poderá conferir na programação dez filmes brasileiros de curta-metragem incluindo a mostra competitiva, além de várias outras produções que integram a mostra Panorama e a mostra Cinema Social.
A programação do CLOSE 2013 destaca o cinema nacional, que, no último ano, abordou temáticas LGBT com um número surpreendente de produções. Vale lembrar que, aqui no sul, o próprio Festival de Cinema de Gramado elegeu, em 2013, um filme da temática como seu grande vencedor: Tatuagem, de Hilton Lacerda. No CLOSE, as produções ligadas à memória também ganham atenção especial com a valorização de figuras, espaços e lugares representativos para a cultura LGBT em produções ficcionais como Joshua Tree, 1951: A Portrait of James Dean, de Matthew Mishory, sobre a vida de James Dean, e documentais, a exemplo de A Volta da Pauliceia Desvairada, de Lufe Steffen, sobre a cena LGBT paulista nas décadas de 60 a 80 e na atualidade.
A sessão de abertura da quarta edição do CLOSE acontece no dia 3 de dezembro, terça-feira, às 19h, no CineBancários, com a exibição do longa gaúcho Sobre Sete Ondas Verdes Espumantes, de Bruno Polidoro e Cacá Nazário, sobre a vida e obra do escritor Caio Fernando Abreu, também selecionado para a mostra gaúcha da edição deste ano do Festival de Cinema de Gramado. Todas as atividades são gratuitas, com distribuição de senhas a partir de uma hora antes de cada sessão. A programação completa pode ser conferida no site do evento http://www.somos.org.br/close.
Durante os próximos dias, confira aqui, no Cinema e Argumento, a nossa cobertura do CLOSE!
Rapidamente: 2013
Parece mentira, mas 2013 já está quase acabando. Até agora, tem sido um ano de pequenas grandes surpresas e, em um balanço mais breve, superior a 2012. Se você está querendo colocar os filmes desse ano em dia e não sabe por onde começar, preparamos esse especial com rápidos comentários sobre as 54 estreias de 2013 que conferimos até agora. Boa leitura =)
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J.J. Abrams reafirmou ser o grande nome da ficção científica contemporânea com Além da Escuridão – Star Trek. Depois do surpreendente A Pele Que Habito, Pedro Almodóvar errou feio com Os Amantes Passageiros. As dores de envelhecer nunca foram tão realistas como em Amor. Os rodopios no mato e a excessiva contemplação aborrecem o repetitivo Amor Pleno. Rachel Weisz é o grande motivo para se conferir Amor Profundo. Joe Wright só melhora como diretor de filmes de época, mas Anna Karenina carece de um roteiro melhor. A desconstrução de um amor cercado de idealizações ganha um retrato lindo e doloroso em Antes da Meia-Noite. Mais uma vez Sofia Coppola fala sobre o nada e se perde nesse mesmo vazio com Bling Ring – A Gangue de Hollywood. Wagner Moura dá mais uma prova do porquê é considerado o melhor ator brasileiro em atividade como o protagonista de A Busca. Mesmo não sendo necessariamente original, A Caça é um interessante retrato de uma vida interrompida. Poucas vezes grandes atores se reuniram para protagonizar um desastre como O Casamento do Ano. No contido A Coleção Invisível, Vladimir Brichta tem a chance de sua vida.

O espirituoso Colegas tem leveza e ingenuidade de sobra, e resta a você saber até que ponto julgá-lo por isso. Depois de Lúcia certamente é um dos filmes mais incômodos do ano. O subestimado Detona Ralph tem aquele sopro de originalidade que está faltando à Pixar. Django Livre é cheio de excessos, mas é mais um ótimo Tarantino. Poucas vezes o cinema brasileiro viu uma homenagem tão sincera como Elena. Menos é mais surge como primeira ordem no excelente Ferrugem e Osso. Bruno Barreto tem o momento de sua carreira com Flores Raras. José Wilker inventa de ser diretor e se sai muito mal com o péssimo Giovanni Improtta. Baz Luhrmann se desapega da obra original e dá o seu tom – para o bem e para o mal – a O Grande Gatsby. Alfonso Cuarón dá uma aula de direção em Gravidade, o filme-evento do ano. Hitchcock é uma das grandes decepções de 2013. Denise Fraga mostra que merecia outras grandes chances como a que recebeu em Hoje. Em A Hora Mais Escura, Kathryn Bigelow dá um tom grandioso demais a um tema que, na vida real, há muito já estava praticamente esquecido. Indomável Sonhadora é todo de Quvenzhané Wallis.
O óbvio ganha tons muito nervosos em Invocação do Mal. Para os apreciadores de música, Jorge Mautner: O Filho do Holocausto pode ser bastante interessante. William Friedkin volta a apresentar um vigor surpreendente com Killer Joe – Matador de Aluguel. Em todos os sentidos, O Lado Bom da Vida é um dos filmes mais superestimados de 2013. Historicamente, Lincoln tem seu valor, mas está longe de ser um grande longa. Repleto de surpresas, O Lugar Onde Tudo Termina consolida o nome de Derek Cianfrance. Mama não assusta ninguém. O melhor filme do Oscar 2013 nem concorria nas categorias principais: O Mestre, de Paul Thomas Anderson. Os Miseráveis é o melhor musical desde… quando mesmo? A Morte do Demônio é pura agonia. Joseph Kosinski ainda vai longe, mas, com Oblivion, prova que precisa de melhores roteiros. Os fetiches de Lee Daniels atrapalham por completo o desfocado Obsessão. Mais um documentário musical dirigido aos fãs, assim é One Direction: This is Us. Poucas vezes a vergonha alheia foi tão grande como em Para Maiores.
Maria de Medeiros se sai bem ao retratar a ditadura com Repare Bem. Maggie Smith reina no singelo O Quarteto. O Que se Move é um dos filmes mais recompensadores de 2013 para quem se propõe a embarcar em seus difíceis dramas femininos. Uma das eras de ouro da fórmula 1 é relembrada de forma bastante digna por Rush – No Limite da Emoção. O coreano Park Chan-Wook não debutou em Hollywood com grande estilo. O roteiro pouco aprofundado impede que Serra Pelada seja um filme mais interessante. As Sessões é um verdadeiro banho de sutileza. Renato Russo nunca foi tão chato como em Somos Tão Jovens. Kleber Mendonça Filho marca época no cinema brasileiro com O Som ao Redor. A equipe de O Tempo e o Vento deveria entender que dois séculos de história não podem ser devidamente contados em meras duas horas. Steven Soderbergh se despede – mais uma vez – com o regular Terapia de Risco. Betse de Paula tem seus momentos com Vendo ou Alugo. Apenas a cena-título surpreende em O Voo.
Um intervalo…
…mais uma vez, para colocar a vida em dia e voltar ao ritmo de sempre do blog. Porque prefiro ficar ausente por alguns dias e voltar com tudo do que postar só quando dá tempo, sem poder revisar os textos ou planejar o que publico por aqui. Logo logo voltaremos! =)
Um intervalo…

…para colocar a vida em dia, produzir textos e ficar alinhado com o ritmo do blog. Voltamos em alguns dias!