Cinema e Argumento

O Mestre

Do your past failures bother you?

themasterposter

Direção: Paul Thomas Anderson

Roteiro: Paul Thomas Anderson

Elenco: Joaquin Phoenix, Philip Seymour Hoffman, Amy Adams, Laura Dern, Mike Howard, Jillian Bell, Kevin J. O’Connor, Patty McCormack, Barbara Brownell, Brady Rubin, Christopher Evan Welch, Barlow Jacobs

The Master, EUA, 2012, Drama, 144 minutos

Sinopse: Ao término da Segunda Guerra Mundial, o marinheiro Freddie Quell (Joaquin Phoenix) tenta reconstruir sua vida. Traumatizado pelas experiências em combate, ele sofre com ataques de ansiedade e violência, e não consegue controlar seus impulsos sexuais. Um dia, ao acaso, ele conhece Lancaster Dodd (Phillip Seymour Hoffman), uma figura carismática e líder de uma organização religiosa conhecida como A Causa. Reticente no início, ele se envolve cada vez mais com este homem e com suas ideias, centradas na ideia de vidas passadas, cura espiritual e controle de si mesmo. Freddie torna-se cada vez mais dependente deste estilo de vida e das ideias de seu Mestre, a ponto de não conseguir mais se dissociar do grupo. (Adoro Cinema)

mastermovie

Com apenas 42 anos, Paul Thomas Anderson já tem uma das mais respeitáveis e consistentes carreiras entre os cineastas da atualidade. Responsável por dois grandes clássicos dos anos 1990 (Boogie – Nights – Prazer Sem LimitesMagnólia), ele volta e meia apresenta filmes que podem até não ser unânimes (Sangue Negro não tem o meu entusiasmo), mas que serão lembrados como alguns dos mais importantes de suas respectivas época. E Anderson volta a alcançar esse feito com O Mestre, um longa-metragem mais independente que não fez grande carreira nos Estados Unidos e que, mesmo não recebendo o merecido reconhecimento, é um verdadeiro arraso.

É complicado rivalizar com o desafio temático de Boogie Nights ou com a magnitude narrativa de Magnólia, mas é bem possível que O Mestre seja o filme mais difícil da carreira de seu diretor, especialmente por causa do roteiro – escrito pelo próprio Anderson – que é repleto de metáforas acerca dos temas que estão ali camuflados. Seria fácil defini-lo como um relato sobre o surgimento da Cientologia  (que ganhou maior visibilidade devido aos devaneios de Tom Cruise em programas de TV), apelidada de “A Causa”, em O Mestre. O retrato feito por Anderson é muito maior, podendo se encaixar em qualquer definição: é sobre o poder da palavra? Inquietações? Fragilidades? Manipulação? Sim, tudo isso e muito mais, em um resultado que pede revisões.

O melhor de tudo é que o diretor constrói uma trama complexa sem se utilizar de grandes artifícios (pelo contrário: percebam como ele usa recursos até mesmo batidos como o flashback de forma arrebatadora), nunca abandonando a aritmética básica dos melhores dramas, onde roteiro, direção e atuação caminham juntos e se complementam. O Mestre, portanto, é simples, sobre pessoas e processos, apoiado muito mais nos três aspectos citados do que em qualquer outro artifício. Isso se reflete na própria figura do mestre do título, o Lancaster Dodd vivido por Philip Seymour Hoffman: afinal, qual é a dele? Estamos diante de um oportunista ou de um visionário? Tanto Hoffman quanto Anderson no roteiro e na direção nos levam para essa inquietação orquestrando os elementos mais básicos de um drama com uma segurança assombrosa.

Assim como o protagonista Freddie Quell (Joaquin Phoenix) entra no mundo d’A Causa muito mais pelo acaso e pela curiosidade, nós também vamos juntos com ele, até que, aos poucos, mergulhamos cada vez mais fundo naquele mundo. Especialmente porque o mestre de Hoffman não é unidimensional: conforme o filme se desenvolve, mais sabemos sobre ele – e também sobre as suas inquietações, contrariedades e intolerâncias. A Cientologia/A Causa é, claramente, uma alusão a qualquer religião: todos nós precisamos de um mestre, seja ele quem for, para termos certo conforto nesse mundo? Mas até que cheguemos a esse ponto do filme, onde o filme alcança o auge do envolvimento, O Mestre é bastante subjetivo, deixando o espectador decidir por si só o que significa tudo aquilo – e talvez seja justamente essa falta de respostas fáceis que tenha feito o filme naufragar lá fora.

Inegavelmente, é um roteiro muito bem pensado e intrigante, que só poderia ser conduzido com igual maturidade por um sujeito como Paul Thomas Anderson que, aqui, repete outro de seus mais incríveis talentos: a direção de atores. E quanto aos desempenhos… Que show! Que talento! Joaquin Phoenix, todo corcunda e estranho para mostrar a vida autodestrutiva do protagonista, consegue driblar com maestria o papel do sujeito difícil, inconsequente e que parece sem salvação, em uma interpretação superlativa. E o mesmo pode se dizer de Philip Seymour Hoffman, que aqui volta a reafirmar seu posto de melhor ator em atividade. Com a missão mais difícil de O Mestre, ele nunca transforma o seu Lancaster em um sujeito caricato ou inexpressivo demais para trabalhar as suas sutis dubiedades. Com esse furacão todo da dupla, Amy Adams é um ponto de equilíbrio, fazendo um tipo diferente do angelical que já virou uma de suas marcas ao conjugar discrição, força e complexidade nas mesmas proporções.

Todavia, é a dinâmica entre Phoenix e Hoffman que se torna o ponto-chave de O Mestre. “Quem gosta de você a não ser eu?”, grita Dodd em um determinado momento para o inconsequente Freddie, explicitando um outro questionamento extremamente interessante do filme: afinal, por que alguém inteligente como ele decidiu acolher um sujeito que parece ter só a tragédia como destino? Uma vontade genuína de ajudar? Ou uma forma de salvar a vida de alguém e usar esse exemplo para prosperar com A Causa? Juntos, eles trazem os melhores momentos de O Mestre, com várias cenas dramaticamente intensas (a primeira “sessão” entre os dois é um primor), mas não conseguem livrar o filme de um difícil fardo: o de ser uma experiência para poucos. Nunca prejudicado pela sua duração, o novo trabalho de Anderson, em contramão, faz um estudo temático fascinante e ainda tem a seu serviço um elenco simplesmente extraordinário. O tempo deve fazer justiça a O Mestre.

FILME: 9.0

45

O Voo

I drank the night before the flight.

flightposter

Direção: Robert Zemeckis

Roteiro: John Gatins

Elenco: Denzel Washington, Don Cheadle, Kelly Reilly, John Goodman, Melissa Leo, Tamara Tunie, Conor O’Reilly, Brian Geraghty, Nadine Velazquez, Charlie E. Schmidt, Adam Tomei, Boni Yanagisawa, Dane Davenport

Flight, EUA, 2012, Drama, 138 minutos

Sinopse: Whip (Denzel Washington) é um piloto de aviação comercial que, com a queda iminente de um avião, assume o comando e consegue salvá-lo com danos mínimos. Logo ele se torna um herói nacional, mas uma investigação interna revela que ele estava voando sob o efeito de drogas e álcool. Tendo consciência disto, Whip não se sente bem com todas as homenagens que recebe, por não se considerar merecedor delas. (Adoro Cinema)

flightmovie

No recente Guerreiro, lançado diretamente em home video no Brasil, Nick Nolte interpreta um solitário homem que, após anos de alcoolismo, retomou as rédeas da sua vida e, agora, apesar de sóbrio, já não tem mais ninguém ao seu lado. Ele tenta, a todo custo, recuperar a confiança dos filhos adultos. Nolte é um coadjuvante na história e a escolha é acertada, visto que Guerreiro tem mais de duas horas de duração e, certamente, poderia perder boa parte de seu impacto se a storyline do pai ex-alcoolista fosse mais esmiuçada. Por ter pouco espaço em cena, Nolte escapa das armadilhas e, em uma única cena (aquela com Tom Hardy no quarto do hotel) conseguiu impressionar muito mais que o próprio Denzel Washington nos quase 140 minutos desse O Voo, novo filme do diretor Robert Zemeckis que comete, justamente, os erros que Guerreiro não comete: dar atenção demais a uma proposta que já foi trabalhada à exaustão.

Não vamos, no entanto, desmerecer Denzel, que, apesar de apenas correto (e não muito merecedor da indicação ao Oscar 2013 de melhor ator), praticamente segura o filme inteiro sozinho. Ele é Whip, um piloto viciado em álcool e drogas que consegue fazer uma façanha incrível e salvar um avião com defeito de uma catástrofe ainda maior. Mas, antes de pilotar, Whip tinha tomado umas e outras e os investigadores querem responsabilizar alguém. Basta um teste de sangue para que ele seja considerado o principal culpado do acidente. A partir daí, o piloto jura que não vai mais beber e, enquanto enfrenta todas as investigações, resolve se isolar de todos para abandonar o álcool. E aí O Voo se torna um filme convencional sobre um sujeito que luta contro algo maior do que si: no caso, o alcoolismo. Além disso, não poderia faltar o clichê do protagonista problemático que se envolve com uma mulher também em recuperação. O longa de Zemeckis não chega a ser exagerado e muito menos força a barra com a história dos vícios. Porém, fica no lugar comum, o que é um problema para Denzel, que fica sem ter muito o que desenvolver ali.

Não fosse a circunstância extraordinária (o acidente de avião e a tal investigação), O Voo seria ainda mais convencional do que já é. Isso porque, tratando-se do conflito em si, mastigado durante mais de duas horas, o roteiro de John Gatins (também misteriosamente indicado ao Oscar 2013), não faz questão alguma de se esquivar das formalidades da temática: das constantes recaídas à relutância a frequentar uma reunião de AA, o texto ainda faz questão de colocar em cena personagens que só aparecem para maximizar a desgraça do personagem, como a ex-esposa e o filho, que não têm função alguma a não ser mostrar como o Whip de Denzel sofre por ter uma família que desistiu dele. Além desse roteiro linear, existem também outros furos, como a personagem da ruiva Kelly Reilly, que recebe bastante atenção durante certo tempo, indicando que será uma peça fundamental na conclusão da história e que, do nada, é esquecida sem uma explicação realmente consistente para o arco que estávamos acompanhando até então. Enfim, são dramalhões e problemas comuns que todos nós já conhecemos em histórias do tipo e que, aqui, mesmo que tratados de forma menos melodramática, não chegam a entusiasmar.

Com a tradicional trajetória de redenção que vai agradar várias plateias afeitas a esse tipo de história, O Voo não pode ser considerado um filme ruim, já que o problema da sua narrativa é querer repetir acertos de filmes bem sucedidos com a temática, mantendo-se bastante acomodada, sem vontade de ousar. Para o nível de filmes que Denzel Washington costuma fazer, esse é mais diferenciado, calcado na emoção e não na ação. Mas para o nível geral fica no mediano. Não dá, no entanto, par falar de O Voo sem mencionar a cena do acidente de avião. É realmente um grande momento, eletrizante na medida certa, além de durar o tempo necessário para colocar o espectador no lugar dos passageiros. Executada com grande segurança por Zemeckis, a cena engana bastante: por vir logo no início, esperamos que o resto também apresente outras surpresas do estilo. Porém, qualquer indício delas (a entrada de ótimos atores em pequenas participações, como John Goodman e Melissa Leo) logo se une às normalidades de um filme inofensivo e, por isso mesmo, repleto de desperdícios.

FILME: 6.5

3*

Django Livre

Django. The D is silent.

djangoposter

Direção: Quentin Tarantino

Roteiro: Quentin Tarantino

Elenco: Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio, Samuel L. Jackson, Kerry Washington, Jonah Hill, Walton Goggins, Dennis Christopher, James Renar, David Steen, Dana Michelle Gourrier, Nichole Galicia

Django Unchained, EUA, 2012, Aventura, 165 minutos

Sinopse: Django (Jamie Foxx) é um escravo liberto cujo passado brutal com seus antigos proprietários leva-o ao encontro do caçador de recompensas alemão Dr. King Schultz (Christoph Waltz). Schultz está em busca dos irmãos assassinos Brittle, e somente Django pode levá-lo a eles. O pouco ortodoxo Schultz compra Django com a promessa de libertá-lo quando tiver capturado os irmãos Brittle, vivos ou mortos. Ao realizar seu plano, Schultz libera Django, embora os dois homens decidam continuar juntos. Desta vez, Schultz busca os criminosos mais perigosos do sul dos Estados Unidos com a ajuda de Django. Dotado de um notável talento de caçador, Django tem como objetivo principal encontrar e resgatar Broomhilda (Kerry Washington), sua esposa, que ele não vê desde que ela foi adquirida por outros proprietários, há muitos anos. (Adoro Cinema)

djangomovie

Os montadores e roteiristas da temporada 2013 de premiações parecem ter selado um pacto: não finalizar um filme sem que ele tenha, no mínimo, 150 minutos de duração. Só isso para explicar a quantidade de trabalhos desnecessariamente longos que podemos encontrar neste início de ano. A exemplo de LincolnOs Miseráveis A Hora Mais EscuraDjango Livre, o novo trabalho de Quentin Tarantino, também perde a chance de ser mais memorável em função dos excessos e da falta do poder de síntese. Mas sejamos justos: a vontade, após a sessão, é de sair correndo do cinema para rever Kill Bill. E isso é, no mínimo, um baita elogio, já que a saga de vingança de A Noiva (Uma Thurman) é, disparado, o grande momento de Tarantino como realizador. Django Livre não chega a alcançar o mesmo nível de empolgação, mas traz o que existe de melhor naquela história – e também o pior de Bastardos Inglórios, por exemplo, o filme que mais trouxe Tarantino flertando perigosamente com a monotonia devido a sua obsessão com diálogos e cenas que desejam ser cults a todo custo.

É por ser tão comprido (quase três horas) que Django Livre não se torna mais um clássico da carreira de Quentin Tarantino. Mas, acreditem, chega perto. Muito mais do que apenas uma homenagem ao chamado western spaghetti, seu mais novo filme traz todo o senso de diversão de Kill Bill, onde os banhos de sangue impactam com a mesma proporção que divertem. A violência, antes de tudo, é um alento nos filmes de Tarantino, especialmente quando ele fala sobre vingança e mais especificamente sobre a crueldade da escravidão – que é retratada de forma nunca vista. Esse, aliás, é um poder que só o diretor parece ter: o de conseguir fazer humor em qualquer situação. Dê qualquer lugar e época para Tarantino e não pense duas vezes: ele vai conseguir fazer algo completamente novo. Só que, como um cinéfilo inveterado, Tarantino também sabe a hora de parar, nunca deixando que seus filmes se tornem meramente paródias vazias. Django Livre não escapa da fórmula, apresentando-se como, sim, uma experiência divertidíssima, mas também como um interessante retrato da escravidão e dos extremos racistas dessa época.

Como um cineasta sempre repleto de referências e estilos facilmente reconhecíveis, Tarantino poderia se acomodar e fazer reciclagens. Django Livre dá pequenos indícios disso, mas tal ideia nunca se confirma: vários momentos lembram sim outros filmes do diretor (uma cena no final nos remete ao duelo de Kill Bill com os Crazy 88), entretanto, o resultado tem personalidade. Os próprios atores entraram no clima. Eles, inclusive, são um show à parte. Impossível falar de Django Livre sem mencionar cada um deles. Começando pelo protagonista, Jamie Foxx, que parecia destinado a um looping eterno de canastrice e que entrega aqui o seu melhor desempenho desde… Ray? Ele faz uma bela parceria com o ótimo Christoph Waltz, ator que contraria qualquer expectativa que seu dr. King Schultz poderia ser repetição do Hans Landa, de Bastardos Inglórios: ele volta a surgir carismático e irônico, com um personagem que, assim como o de Foxx, conquista a nossa torcida. Logo também surge Samuel L. Jackson, surpreendente como o perigoso empregado puxa-saco que é, ao meu ver, o verdadeiro vilão da história (até o “acerto de contas” final é com ele!). Por falar em vilão, quem supostamente ocupa esse cargo é Leonardo DiCaprio, que já provou ser um ator muito seguro há anos, mas que aqui é, possivelmente, o menos interessante do filme – muito prejudicado pelo próprio roteiro, que constantemente lhe sabota com a figura de Jackson, cujo personagem é muito mais esperto que o seu (o que praticamente castra a figura de DiCaprio, já que ele sim deveria ser o mais temido).

Os personagens marcantes de Django Livre e os afiadíssimos atores são bem comandados por Tarantino, integrando uma história bastante simples que ganha contornos pra lá de especiais nas mãos de seu comandante. O problema, todavia, como já ressaltado, é o frequente prolongamento do filme. Em um primeiro momento, o espectador pode estranhar que a premissa apresentada nos primeiros minutos termine com basicamente meia hora de filme. Nem sempre é uma jogada esperta apresentar um conflito, terminá-lo logo em seguida para, depois, mostrar que ele era apenas um pretexto para que a grande problemática começasse de fato. Não foi um grande incômodo (apenas um estranhamento), até porque o problema real vem depois: a introdução do personagem de Leonardo DiCpario. É nesse momento que Django Livre perde o passo, dando destaque demais para uma apresentação que não impacta e para um personagem não se diferencia em nada das crueldades de nenhum outro que simboliza racismos na trama. Esse tempo perdido é precioso, o que podemos atestar nos últimos momentos, quando o roteiro se dá conta que ainda tem muito a contar e faz tudo às pressas para chegar a uma conclusão. Aí Django Livre deixa aquela estranha sensação de que tem vários finais…

É por casos como os de Django Livre que sempre sou a favor de filmes enxutos. Quanto mais se corta, mais a essência fica evidente. E a nova história contada por Tarantino merecia ser mais objetiva. No entanto, estamos falando dele, que vez em quando tem seus excessos no roteiro, mas que nunca erra na direção. Não é diferente nesse longa. É um universo tão particular de Tarantino, um humor executado de forma tão interessante com caricaturas  e insanidades bastantes eficientes que, no final das contas, os méritos falam mais alto, principalmente porque eles subvertem com inteligência todo um tema e uma época. Sem falar que, em Django Livre, o negro tem personalidade e não é totalmente vitimizado. Mesmo ajudado por um branco (no caso, o personagem de Waltz, que odeia a escravidão e trata os negros com normalidade mas que tampouco é vendido como o herói do dia), o negro faz sua própria justiça, sua própria história. E isso é o verdadeiro Tarantino: ousadia, originalidade, homenagem, subversão e… diversão. Alguém consegue lembrar de outro diretor que faça parecido?

FILME: 8.5

4

Os Miseráveis

There are storms we cannot weather…

miserablesposter

Direção: Tom Hooper

Roteiro: William Nicholson, baseado no espetáculo “Les Misérables”, de Alain Boublil e Claude-Michel Scönberg, e na obra homônima de Victor Hugo, com canções adaptadas para o inglês por Herbert Kretzmer

Elenco: Hugh Jackman, Russell Crowe, Eddie Redmayne, Amanda Seyfried, Anne Hathaway, Helena Bonham Carter, Sacha Baron Cohen, Samantha Barks, Aaron Tveit, Colm Wilkinson, Georgie Clen, Andy Beckwith

Les Misérables, Inglaterra, 2012, Musical, 158 minutos

Sinopse: Adaptação do musical da Broadway, que por sua vez foi inspirado em clássica obra do escritor Victor Hugo. A história se passa em plena Revolução Francesa do século XIX. Jean Valjean (Hugh Jackman) rouba um pão para alimentar a irmã mais nova e acaba sendo preso por isso. Solto tempos depois, ele tentará recomeçar sua vida e se redimir. Ao mesmo tempo em que tenta fugir da perseguição do inspetor Javert (Russell Crowe). (Adoro Cinema)

miserablesmovie

Os musicais contemporâneos desaprenderam a desenvolver aquela que é a principal lógica do gênero: a de que a música é o principal elemento narrativo, servindo para expressar pensamentos e sentimentos dos personagens. Da TV ao cinema, de GleeMamma Mia!, os musicais foram reduzidos a meras homenagens de grandes sucessos, onde a trama se adaptava completamente a qualquer situação só para que canções como Hey Jude e Dancing Queen pudessem aparecer. Por isso, nos últimos anos, fomos acostumamos a ver musicais completamente superficiais, quando não exclusivamente comerciais. É por isso que Os Miseráveis, novo longa do diretor Tom Hooper, consegue ser um verdadeiro espetáculo: nele, a música guia todos os momentos e personagens do filme, sendo utilizada, enfim, com o seu verdadeiro propósito.

É bom, porém, estar avisado: Os Miseráveis vai além do simples musical onde, frequentemente, os atores abandonam os diálogos para fazer parte de um número colorido e encenado com precisão. Mais do que nunca, a música é a narração. São 158 minutos de pura cantoria, onde os próprios diálogos são musicalizados e os atores devem falar normalmente durante, no máximo, 5% do filme. Por isso, há de se admirar a coragem do diretor em fazer essa ópera filmada, que deve despertar o ódio e a admiração dos espectadores na mesma proporção. E ainda em tempo: as canções (com letras adaptadas para o inglês por Herbert Kretzmer) foram interpretadas ao vivo pelos atores, sem as tradicionais gravações em estúdio posteriormente. Ou seja, todas essas escolhas fazem de Os Miseráveis um longa bastante polêmico: não existe meio termo, é ame ou odeie.

De qualquer forma, o filme é repleto de elementos dignos do reconhecimento de todos. A começar por aquele que, claro, vem sendo unanimidade: o elenco. O fato do filme ter músicas ao vivo causa estranhamento no início e, certamente, evidencia quais atores cantam melhor (e isso é bom, fugindo da eterna fábula dos musicais onde todos soltam a voz em impecáveis execuções das músicas), mas logo dá para se adaptar a esse formato e passar a admirar o notável trabalho dos atores. Hugh Jackman, como o sempre ansioso Jean Valjean, tem o momento de sua carreira, Anne Hathaway arrepia e emociona em I Dreamed a Dream (e talvez seja apenas isso), Eddie Redmayne surpreende como um coadjuvante de consistência (com direto a um belo momento solo em Empty Chairs at Empty Tables), Samantha Barks é a revelação da vez e outros fazem o que podem com papeis menores. O único porém é Russell Crowe. Não necessariamente por sua voz, mas por não dar a força necessária ao unidimensional inspetor Javert: seus momentos sozinhos são os mais monótonos do longa e fica escancarado o fato de que outro ator teria feito um trabalho muito melhor.

Então, ok, ponto para Tom Hooper que acertou no elenco. Mas também ponto para o próprio trabalho dele atrás das câmeras. Alvo de duras críticas por seus enquadramentos estranhos, suas câmeras angulares e seus primeiríssimos planos, ele se sai admiravelmente bem ao conduzir com plena segurança o lado musical – o que me leva a crer que, sim, todos os prêmios que levou por O Discurso do Rei (não apenas o Oscar, lembrando) foram injustos, mas que ter essa implicância cega com ele em função de prêmios é  resultado de uma percepção muito limitada. Seus maneirismos ainda são incompreensíveis, porém, em Os Miseráveis, ele consegue se sair muito melhor que um Rob Marshall da vida, dando consistência à narração musical e imergindo completamente os atores na proposta diferenciada do filme. Ele também não confunde as linguagens, fazendo um musical de personalidade própria, distanciando-se de outros exemplares que se perderam por cometer exatamente esse pecado: ainda em Marshall, lembram de Nine, que era quase um sonífero por ter quase todos os seus números em um mesmo cenário (no caso, um teatro)?

Hooper vai pagar caro por todas essas escolhas musicais e por continuar sendo o mesmo de outros filmes, mas também vai proporcionar um deleite para os fãs do gênero – como é o meu caso: saí completamente em êxtase após a sessão, onde o público chegou a aplaudir o resultado no final. Independente das opiniões divergentes, há de se reconhecer pelo menos a ousadia do diretor, que saiu de um singelo filme de época para a adaptação de um musical mundialmente conhecido e cultuado. Os caminhos fáceis estão ali (existe escolha mais simplória do que tomadas aéreas com letreiros pra mostrar a passagem do tempo?), as questões políticas são apenas pano de fundo e os diálogos cantados cansam em certo momento (dá para diferenciar quais são os números mais “importantes” e as meras conversas cantaroladas que não precisavam ser necessariamente assim)… Só que Os Miseráveis não se perde no meio de tantos personagens (até o alívio cômico de Helena Bonham Carter e Sacha Baron Cohen não chega a incomodar) e alcança tons frequentemente épicos, seja em termos de produção ou de momentos dramáticos. É preciso embarcar nesse melodrama, nesse exagero, até porque não faz muito sentido esperar outra coisa de um musical com tal título.

Obrigando o espectador preguiçoso com o gênero a prestar atenção nas letras para compreender tudo o que se sucede na tela, Os Miseráveis, vale sempre repetir, é uma experiência única, mas para poucos. Pouquíssimos, melhor dizendo. Entretanto, a história não seria mesma sem a música porque nada ali chega a ser mais instigante. Se fosse contado de forma convencional, seria quadrado, monótono e muito mais suscetível a exageros e clichês. A música torna Os Miseráveis grandioso, dá um outro tom, faz o espectador entrar com mais emoção naquele mundo. Aliado, claro, a um design de produção impecável, que tem o poder de transportar qualquer um para dentro da Revolução Francesa, que está bem tematizada nas figuras dos jovens revolucionários. Os detratores de Tom Hooper que me desculpem, mas não é qualquer um que consegue segurar um filme como esse. E, bem como o último grande musical que vimos (Moulin Rouge! – Amor em Vermelho), Os Miseráveis é assim: para se abraçar completamente ou para se renegar com todo o fervor.

FILME: 9.0

45

Lincoln

Do you think we choose the times into which we are born? Or do we fit the times we are born into?

lincolnposter

Direção: Steven Spielberg

Roteiro: Tony Kushner, baseado no livro “Team of Rivals: The Genius of Abraham Lincoln”, de Doris Kearns Goodwin

Elenco: Daniel Day-Lewis, Sally Field, Tommy Lee Jones, David Strathairn, Joseph Gordon-Levitt, Lee Pace, John Hawkes, Hal Holbrook, Jackie Earle Haley, Dane DeHaan, Joseph Cross, Jared Harris

EUA, 2012, Drama, 150 minutos

Sinopse: Baseado no livro “Team of Rivals: The Genius of Abraham Lincoln”, de Doris Kearns Goodwin, o filme se passa durante a Guerra Civil norte-americana, que acabou com a vitória do Norte. Ao mesmo tempo em que se preocupava com o conflito, o 16º presidente norte-americano, Abraham Lincoln (Daniel Day-Lewis), travava uma batalha ainda mais difícil em Washington: ao lado de seus colegas de partido, ele tentava passar uma emenda à Constituição dos Estados Unidos que acabava com a escravidão. (Adoro Cinema)

lincolnmovie

O ano é 1865, mas o momento retratado por Lincoln levanta questões que ainda hoje são inexplicavelmente motivos de discussões fervorosas ao redor do mundo. Está certo que a escravidão chegou ao fim, mas ainda vivemos em um mundo onde direitos básicos são negados a várias minorias. Que digam, por exemplo, os homossexuais, frequentemente mortos pelo simples fato de gostarem de pessoas do mesmo sexo. Negros deixando de ser escravos, mulheres alcançando o direito ao voto e, agora, gays querendo o mínimo de respeito perante a lei… Pense em tudo isso e Lincoln se mostra ainda atual e, por que não, urgente. O filme mostra que a escravidão foi moralmente superada – em um passado não muito distante (há menos de dois séculos!) – e que batalhas parecidas por direitos continuam acontecendo. Mais do que isso, ressalta a necessidade de vivermos em harmonia numa sociedade justa para todos.

Lincoln é interessante justamente por retratar um momento historicamente excepcional dentro da história dos direitos humanos: aquele em que o presidente estadunidense Abraham Lincoln conseguiu finalmente aprovar a emenda que abolia a escravidão em seu país. Uma conquista que deixou um legado inegável não só para os Estados Unidos, mas para o mundo inteiro. Porém, em termos cinematográficos, Lincoln não chega a ter o mesmo espírito das ideias revolucionárias do protagonista ou o mesmo frescor das questões que suscita. Escrito por Tony Kushner (da antológica minissérie Angels in America e de Munique, o último grande filme de Spielberg), com base no livro “Team of Rivals: The Genius of Abraham Lincoln”, de Doris Kearns Goodwin, o roteiro de Lincoln é tudo aquilo que sua duração (150 minutos) sugere: uma lenta e patriota história política contada exclusivamente em diálogos. Ou seja, quem não tem paciência com o formato e não conhece pelo menos a base da política estadunidense corre o sério risco de não aguentar o filme até a metade.

Mas digamos que você dê uma chance a Lincoln… A boa notícia é que o longa tem sim pontos positivos. Além do valor especial pelo momento que encena, o resultado apresenta uma boa disciplina de Steven Spielberg atrás das câmeras: ao contrário do que vimos em Cavalo de Guerra, aqui ele mostra maior controle dos tons que emprega na dramaticidade. Também não dá para ser ingênuo e deixar de perceber frequentemente o patriotismo enaltecido (o filme se prolonga desnecessariamente só para trazer um momento “emocionante” nos minutos finais, para citar um caso mais escancarado), mas vale a pena reconhecer seu auto-controle e também o de toda a equipe, começando pela trilha de John Williams, muito mais discreta que o habitual, e pelo próprio design de produção, outro elemento que não quer sufocar o filme. E Kushner, mesmo não tendo escrito um roteiro necessariamente instigante e enxuto, também tem a consciência de não cair na tentação em vários momentos e açucarar a história – o que se reflete na Mary Todd Lincoln, de Sally Field, que poderia facilmente se tornar uma caricatura. Spielberg soube ser menos melodramático e isso é, no mínimo, um ponto positivo para esse diretor que não entregava um trabalho realmente relevante há anos.

A disciplina também se estende ao elenco, repleto de nomes consagrados e outros que despontaram nos últimos anos. É um grupo de respeito, o que certamente fortalece o filme. Se o show é mesmo de Daniel Day-Lewis (assim como Meryl Streep, ele é geneticamente incapaz de entregar um desempenho sequer abaixo da média), Lincoln nunca é prejudicado por sua inifinita lista de atores, principalmente porque todos eles – dada a dimensão de suas importâncias no enredo – são bem aproveitados pelo roteiro de Kushner. Por isso mesmo, é bom ver Day-Lewis contracenando com profissionais tão competentes, entre eles David Strathain, Hal Holbrook, Tommy Lee Jones e Sally Field – esta última saindo um pouco do tipo “Regina Duarte” que repetiu diversas vezes em pequenos filmes e no seriado Brothers & Sisters. Portanto, se existe um aspecto incontestável a Lincoln, esse é o competente trabalho de elenco.

Lincoln, em suma, é um trabalho simbólico para a recente carreira de seu diretor (e também para Abraham Lincoln, que aqui recebe o seu maior e mais bem sucedido filme), mas excetuando todas as reflexões que levanta e os atores em cena, essa cinebiografia não se diferencia muito entre as milhares que vimos na última década. Talvez seja culpa do zelo com algumas abordagens, da narrativa bastante linear ou da falta de preocupação em ser mais ambicioso tematicamente (percebam que, no filme, o resto do mundo não existe, a escravidão só existe nos Estados Unidos e toda a glória é somente deles pelo fim da mesma). Mas tem seu público, o que pode ser comprovado nas 12 indicações que recebeu ao Oscar 2013, incluindo uma para outro belo momento da carreira de Daniel Day-Lewis. O ator, que recusou o papel várias vezes exigindo mudanças no roteiro, era a única escolha de Spielberg para o papel.  E ele entrou nos moldes do ator para tê-lo em seu filme. Não é qualquer intérprete que tem – e merece – esse poder. Mas Day-Lewis pode. Não tem como questionar.

FILME: 7.5

3*