Cinema e Argumento

O que esperar da temporada de verão 2013 nos Estados Unidos?

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Homem de Ferro 3Velozes e Furiosos 6Meu Malvado Favorito 2Kick-Ass 2… Números, números e mais números. Assim podemos definir os lançamentos previstos para o próximo verão estadunidense. Aqui no Brasil não temos tanto essa cultura de ter uma época específica do ano para grandes lançamentos (talvez janeiro e fevereiro, com os filmes do Oscar), mas lá nos Estados Unidos é tradição: os estúdios programam suas principais produções para o verão, quando o cinema vira um verdadeiro campo de batalha nas bilheterias. E o Adoro Cinema fez um apanhado dos principais lançamentos previstos para o verão lá de fora, com uma matéria que pode ser conferida aqui

Importante perceber que o significado de grande bilheteria está, de uma vez por todas, diretamente ligado às continuações. Não será diferente em 2013. Ora, até a Pixar entrou nessa onda! Monstros S.A. pode ser um grande marco do estúdio, mas precisava mesmo de uma sequência? Sou da lógica de que não se deve mexer com clássicos (e aqui no Brasil ainda colocaram Michel Teló na dublagem!). Fora as sequências que já sabemos que devem ser altamente irrelevantes, existem alguns títulos que trazem ligeiras expectativas. Para o bem ou para o mal. O Grande Gatsby é um deles: se vem de Baz Luhrmann, é ame ou odeie, pode contar. Wolverine: O Imortal tenta dar algum sentido para a carreira-solo do personagem, cujo primeiro filme era pavoroso. Depois da Terra é outro abacaxi de M. Night Shyamalan? Guerra Mundial Z finalmente será o filme decente sobre o fim da raça humana que esperamos há anos? Círculo de Fogo é um Transformers de Guillermo del Toro?

Particularmente, dois filmes têm a minha total atenção. O primeiro é Star Trek – Além da Escuridão, essa sim uma merecida continuação do bem sucedido filme de J.J. Abrams (que volta à cadeira de direção). Tem tudo para agregar pontos positivos ao que foi apresentado anteriormente e colocar a história sob os holofotes como uma nova franquia de qualidades. Em segundo lugar, minha grande curiosidade por O Homem de Aço, longa com a missão de recolocar o Super-Homem entre os herois que renasceram com dignidade nos últimos anos. Deixando de lado o esquecido longa dirigido por Bryan Singer em 2006, Clark Kent agora vem com novo intérprete (Henry Cavill), Amy Adams como Lois Lane e Christopher Nolan na produção. Não tem tudo para dar certo? Agora passo a bola: quais os filmes que vocês mais esperam do verão estadunidense?

Novidade!

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Desde o último fim de semana, vocês devem ter percebido que o logo do site Adoro Cinema passou a fazer parte da barra lateral aqui do blog. Pois fico feliz de anunciar que a razão é muito gratificante: o Cinema e Argumento agora passa a fazer parte da “Comunidade Adoro Cinema” – que, segundo o site, seleciona os “melhores blogs de cinema do Brasil”. Antes de mais nada, é uma honra receber esse convite. Primeiro porque sempre tive o Adoro Cinema como referência na minha formação de cinéfilo. E segundo porque, atualmente, esse é o site número um de cinema do Brasil, com uma média de quatro milhões de acessos/mês. Portanto, fiquem ligados aqui no blog: essa parceria também se estenderá a vocês, leitores!

Rapidamente…

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A CAÇA (Jagten, 2012, de Thomas Vinterberg): Em A Caça – longa exibido na última edição do Festival de Cannes – o diretor Thomas Vinterberg se utiliza da mentira inconsequente e rancorosa de uma criança e de pessoas que ajustam fatos e informações para moldar verdades absolutas para desafiar o público a acompanhar um  incômodo retrato incômodo da vida de um homem injustiçado. A forma como o diretor mastiga além do necessário alguns aspectos (o desfecho não precisava ter um arco tão dramático tão esmiuçado) e entrega todas as cartas em determinados momentos (mais dúvidas e questionamentos perante a veracidade do principal conflito cairiam melhor à proposta) tira um pouco a chance do resultado ser mais brilhante. Porém, Mads Mikkelsen segura muito bem a barra como protagonista, o texto desenvolve sem maiores problemas as delicadas propostas (abuso, mentira, violência, injustiça) e a aproximação com a realidade torna tudo ainda mais interessante.

DARLING – A QUE AMOU DEMAIS (Darling, 1965, de John Schlesinger): Foi por esse filme que Julie Christie ganhou o seu Oscar de melhor atriz – e não por Doutor Jivago, como normalmente é confundido. A concorrência naquele ano não justifica sua vitória, especialmente porque outra Julie (a Andrews, por A Noviça Rebelde) tinha um papel muito mais icônico e, como o próprio tempo mostrou, inesquecível. Prêmios à parte, Christie é mesmo a estrela de Darling, esbanjando sua habitual beleza (intacta com o tempo, como vimos em Longe Dela) e segurando bem o protagonismo da história, que é totalmente entregue a sua figura. É provável que o filme de John Schlesinger tivesse se saído melhor caso não investisse em tantas elipses (especialmente quando a Diana Scott de Christie muda de amantes), mas nada que prejudique a presença da atriz – que, no final das contas, é quem faz Darling valer a pena.

INDOMÁVEL SONHADORA (Beasts of the Southern Wild, 2012, de Benh Zeitlin): Em pequenos detalhes, Indomável Sonhadora lembra outros filmes recentes. No primeiro longa-metragem de Benh Zeitlin, está presente a relação conturbada de uma jovem com uma figura familiar extremamente problemática (Preciosa – Uma História de Esperança) e também a dura realidade contada através de um ponto de vista “fabulesco” (Quem Quer Ser Um Milionário?). Tais semelhanças não são um problema, mas também não conseguem ser necessariamente um bônus para esse filme apenas correto, onde pouco acontece. A trilha sonora é um destaque, mas, aqui, o único ponto mais especial a ser celebrado é a atuação da jovem Quvenzhané Wallis. Fora as desnecessárias discussões sobre ela merecer ou não indicações a prêmios por ser uma criança, não há nada a ser questionado na figura da garotinha, que é um verdadeiro furacão em cena e também responsável por tornar Indomável Sonhadora um filme no mínimo curioso.

KILLER JOE – MATADOR DE ALUGUEL (Killer Joe, 2011, de William Friedkin): Nas más línguas, Killer Joe será criticado pelo final inconclusivo ou pela repulsa que causa em uma cena particular (a da coxinha de frango). Mas é justamente a meia hora do desfecho que eleva o novo filme de William Friedkin a outro patamar. Não vale, no entanto, depreciar o resto: a história parece repetida (um plano infalível para matar um familiar e ficar com sua apólice), só que Killer Joe trilha caminhos diferentes – e resta ao espectador aprovar ou não um estudo maior de personalidade dos personagens do que do plano em si. Por falar em personagens, os atores conseguem dar bastante verossimilhança a esse mosaico de figuras extremas: do pai boboca vivido por Thomas Haden Church ao misterioso matador de aluguel do título conduzido com notável segurança por Matthew McCounaghey, todos parecem imprevisíveis – sejam por suas inteligências ou por suas particulares demências. Isso por si só já deixa o filme com um quê de tensão, onde o ápice está, como já dito, no final (o jantar cordial mas sarcástico posteriormente banhado em sangue também funcionou muito bem recentemente em Django Livre).

SONATA DE OUTONO (Höstsonaten, 1978, de Ingmar Bergman): Só os fortes conseguem sobreviver ao que o diretor Ingmar Bergman apresenta em Sonata de Outono. É aquele tipo de filme pesado, denso, sufocante – e que nunca se preocupa em fazer concessões para falar sobre as mágoas da vida. Isso mesmo: o longa estrelado por Ingrid Bergman (em impecável atuação) e Liv Ullman é inteiramente sobre relações familiares mal resolvidas, feridas nunca cicatrizadas e erros que ainda trazem tristezas. Não é nada fácil acompanhar a degradação de Charlotte e Eva, mãe e filha, respectivamente, que se reencontram com as intenções mais amigáveis, mas que, conforme passam os dias, começam a libertar todas as dores silenciadas durante anos. Com um texto extremamente forte e uma direção notável (percebam como a fotografia também é um primor), Sonata de Outono talvez seja uma experiência para ficar apenas na memória, porque haja força para rever um filme maravilhoso mas incrivelmente depressivo como esse. Curiosamente, no mesmo ano, Woody Allen realizou Interiores, sua obra máxima, claramente uma homenagem a esse universo de Bergman.

A Busca

Quanto menos se tem, menos se perde.

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Direção: Luciano Moura

Roteiro: Eliza Soares e Luciano Moura

Elenco: Wagner Moura, Mariana Lima, Brás Moreau Antunes, Lima Duarte, Abrahão Farc, Rui Rezende, Lúcia Bronstein, Edmilson Cordeiro, Max Huszar, Paschoal Villaboim, Thierry Trémouroux, João Fábio Cabral

Brasil, 2013, Drama, 96 minutos

Sinopse: Um pai – o médico Theo Gadelha, 35 anos – é obrigado a jogar-se na estrada em busca de seu filho Pedro que desaparece no fim de semana em que completaria 15 anos. O repentino e inexplicável sumiço do filho é a última carta a desabar no castelo de Theo. Seu casamento de 15 anos com Branca – médica como ele – acaba de ruir. Theo saiu em busca do filho, mas acaba encontrando seu pai, com quem não fala há vários anos. De cara para o pai, enxerga a si mesmo, redescobre o filho e se desarma com a mulher que nem por um momento deixou de amar.

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Quando cai na estrada para procurar seu filho desaparecido, Theo (Wagner Moura) não se lembra de pedir a ajuda para polícia mesmo depois de dias. Ele também não carrega uma foto atual do filho, mas todas as pessoas que ele encontra no caminho viram o garoto ou dão alguma dica de como encontrá-lo. Por sinal, Pedro (Brás Moreau Antunes), o filho, não saiu de casa em um carro ou em um ônibus: ele resolveu andar a cavalo – facilitando, assim, a busca de Theo. E a boa notícia é que, mesmo com esses detalhes que poderiam minar a boa vontade de qualquer um, A Busca nunca chega perto de perder a plateia. Principalmente porque o primeiro filme de Luciano Moura orquestra com segurança os mais importantes elementos de um road movie e também as dramaticidades secundárias que permeiam a história.

Das (re)descobertas paternas ao casamento decadente, o roteiro escrito por Moura, em parceria com Eliza Soares, aplica a devida sutileza no clássico processo de transformação necessário a um road movie: o protagonista que chega ao final da estrada não é o mesmo que nela entrou. E nós, em A Busca, conseguimos sentir e aceitar isso. Muito em função, claro, de Wagner Moura, que, formando uma ótima dupla com Mariana Lima, entrega mais um excelente desempenho e se reafirma como o melhor ator brasileiro em atividade. É por acertar em praticamente todos os pontos básicos da dramaticidade que A Busca se distancia do selo Globo Filmes que carrega. Ou seja, por mais que volta e meia a produção coloque personagens que não têm muito a dizer (a galera do festival de música Mimoso serve basicamente como alívio cômico), tudo consegue funcionar de um jeito ou de outro.

Sobre a busca do título, é importante ressaltar que ela nunca perde o ritmo, sempre instigando com reflexões e pequenas doses de angústia, já que até mesmo a cena inicial, um batido flashforward, tem seu valor. E é exatamente por ter seus acertos – com a proposta de transformação do protagonista bem mastigada e com situações dramáticas eficientes – que o desfecho não parece à altura do que vimos durante aproximadamente 100 minutos de filme. Em contramão, sua brevidade o livra da possibilidade de testar a paciência do espectador, que poderia muito bem achar as soluções fáceis, previsíveis e até mesmo sentimentalóides caso as cenas finais se prolongassem mais do que deveriam – o que não acontece, sendo assim mais um atestado de controle do roteiro e da direção.

Desde que entrou em cartaz aqui no Brasil, A Busca não vem recebendo a devida atenção – seja em termos de bilheteria ou de crítica. Está certo que o trabalho de Luciano Moura não é grandioso em nenhum aspecto, mas a forma como ele estrutura bem essa história, que poderia ser facilmente superficial, merecia um pouco mais de reconhecimento. É um filme que cumpre bem o que promete e que parece ser resultado da vontade genuína dos roteiristas de contar uma história. Em tempos que beneficiados pela Globo Filmes saem pela internet falando besteiras para cineastas como Kléber Mendonça Filho, todos deveriam conferir A Busca com certa boa vontade. Afinal, ainda que lhe falte um brilhantismo extra para se tornar indispensável, consegue ser um bom momento desta marca que – em sua maior parte – só faz barulho com continuações e comédias irrelevantes.

FILME: 8.0

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A Hora Mais Escura

It’s cool that your strong and I respect it. I do. But, in the end, everybody breaks.

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Direção: Kathryn Bigelow

Roteiro: Mark Boal

Elenco: Jessica Chastain, Kyle Chandler, Joel Edgerton, Reda Kateb, Jason Clarke, Jennifer Ehle, Harold Perrineau, Jeremy Strong, J.J. Kandel, Yoav Levi, Scott Adkins, Eyad Zoubi, Lauren Shaw, Eyad Zoubi

Zero Dark Thirty, EUA, Drama, 2012, 157 minutos

Sinopse: Os ataques terroristas sofridos pelos Estados Unidos em 11 de setembro de 2001 deram início a uma época de medo e paranoia do povo americano em relação ao inimigo, onde todos os esforços foram realizados na busca pelo líder da Al Qaeda, Osama bin Laden. Maya (Jessica Chastain) é uma agente da CIA que está por trás dos principais esforços em capturar Laden, por ter descoberto os interlocutores do líder do grupo terrorista. Com isso ela participa da operação que levou militares americanos a invadir o território paquistanês, com o objetivo de capturar e matar bin Laden. (Adoro Cinema)

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A Hora Mais Escura fez barulho nos Estados Unidos pelos motivos errados. Nada de grandes comentários sobre o trabalho de Kathryn Bigelow atrás das câmeras ou sobre o desempenho de Jessica Chastain. A nova parceria da diretora com o roteirista Mark Boal entrou em cartaz cercado de polêmicas por supostamente incentivar (?!) a tortura de terroristas e outros detalhes políticos que só viram fiasco nas mãos dos estadunidenses. Se A Hora Mais Escura incentiva a tortura, o seriado 24 Horas, então, é uma verdadeira celebração a ela. Bobagem à toa do povo de lá. Mas isso me leva a uma questão que, ao meu ver, sabota o longa de Bigelow: a vida real. A morte de Osama Bin Laden foi muito diferente do que imaginávamos quando ele passou anos sendo procurado: anunciada surpreendentemente em uma madrugada, sem momentos gloriosos ou grandes alardes. Para o caos que causou nos Estados Unidos, Bin Laden teve um fim muito discreto, o que até hoje causa a desconfiança de algumas pessoas. Por isso mesmo A Hora Mais Escura parece um tanto over, enfeitando esse desfecho que, para boa parte do mundo que acompanhou apenas pela TV, não foi tão tumultuado assim.

Curioso mesmo é descobrir que Boal tinha escrito um roteiro diferente para o filme anos atrás. A Hora Mais Escura era para existir antes da morte de Bin Laden. O terrorista, todavia, foi morto nesse meio tempo, o que obrigou Boal a reelaborar todo o seu trabalho. É de se perguntar se ele e Bigelow acharam que esse fato tenha contribuído para o filme – que, como já mencionado, é todo encenado durante uma preparação de décadas para culminar em um momento que, ao contrário do que a diretora quer emular com a sua câmera, foi nada menos do que discreto. Mas sejamos justos: fora essa certa incoerência da grandiosidade da investigação e a simplicidade da resolução do conflito, o roteiro de Boal serve para esmiuçar toda a logística da caçada que, segundo o material de divulgação do filme, foi a maior da história (precisava dessa hipérbole?). E só a diretora do cultuado Guerra ao Terror poderia contar essa história, seja por ela estar se especializando em filmes do estilo ou por ter uma habilidade muito especial: a de dar um tom extremamente documental sem nunca deixar com que o resultado pareça um documentário.

Em cada cena de A Hora Mais Escura dá para notar o envolvimento da diretora e do roteirista com o tema. Isso é algo que se reflete não somente na riqueza de detalhes, mas na própria forma como eles não tornam o resultado exclusivo ao público de lá. Bigelow deixa mais do que evidente a sua segurança atrás das câmeras, conseguindo conduzir perfeitamente cenas mais ambiciosas (o ataque à casa de Bin Laden é o ponto alto do filme) e outras internas, onde personagem apenas traçam estratégicas de ataque e investigação em um simples escritório. Não dá para negar a mão firme da diretora, que, apesar de tantos méritos, realiza, bem como em Guerra ao Terror, um filme, digamos, mais lógico. Tem momentos de tensão, tomadas bem dirigidas, uma excelente montagem de William Goldenberg e Dylan Tichenor e plena segurança sobre o tema que desenvolve, mas não é um filme mais denso dramaticamente – e a tentativa da diretora em querer criar um momento lacrimoso da protagonista nos momentos finais é quase falha. Tal caráter mais “calculado” pode não cativar muita gente (como é o meu caso).

Ainda em tempo, A Hora Mais Escura é narrado a partir das situações vividas por Maya, nome fictício usado para não revelar a identidade do (a) agente que ainda está em atividade na CIA. Ela é interpretada pela estrela em ascensão Jessica Chastain, que custa a se encontrar no papel (em certos momentos chega a estar até meio “careteira”), o que é uma clara reflexão do próprio filme, prejudicado pelos constantes avanços no tempo em sua primeira hora. Mesmo não protagonizando um filme de atuações, ela, pouco a pouco, passa a tomar as rédeas da história e, no final, dá para dizer que Chastain consegue comandar muito bem a história. Por fim, é um longa bem realizado e que conta com a habitual competência de Bigelow atrás das câmeras. Apesar das exageradas polêmicas que criou quando entrou em cartaz, A Hora Mais Escura conseguiu fazer uma boa carreira na temporada de premiações, mas sem vitórias (com exceção de Chastain, que chegou a vencer o Globo de Ouro). Alguma relação com o fato do frescor de Guerra ao Terror já ter passado?

FILME: 7.5

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