Behind the Candelabra
I love to give the people a good time.

Direção: Steven Sodebergh
Roteiro: Richard LaGravenese, baseado no livro “Behind the Candelabra”, de Scott Thorson com Alex Thorleifson
Elenco: Michael Douglas, Matt Damon, Rob Lowe, Debbie Reynolds, Scott Bakula, Eric Zuckerman, Pat Asanti, Casey Kramer, Randy Lowell, Eddie Jemison, Jane Morris, Garrett M. Brown, Cheyenne Jackson, John Smutny
EUA, 2013, Drama, 118 minutos
Sinopse: Antes de Elvis, Elton John, Madonna e Lady Gaga, existiu Liberace (Michael Douglas), pianista e estrela de teatro e televisão que abraçou uma vida de excessos nos palcos e fora deles. No verão de 1977, um bonito jovem chamado Scott Thorson (Matt Damon) entrou em seu camarim, e eles, apesar da diferença de idade e dos mundos completamente diferentes, embarcaram em um romance que durou cinco anos.

Terapia de Risco foi, na realidade, o último filme de Steven Soderbergh para as salas de cinema. Em termos de produção de longas-metragens para qualquer plataforma, o diretor supostamente se despede com esse Behind the Candelabra, estrelado por Michael Douglas e Matt Damon. Particularmente, gosto mais dessa despedida, que conta com o tradicional requinte de uma produção da emissora HBO. E o melhor de tudo: fora os detalhes técnicos, o filme tem uma história bem contada e cheia de atrativos – diferentemente do recente Phil Spector, também da HBO, que decepcionou profundamente ao desperdiçar excelentes atores e personagens. Em Behind the Candelabra, exibido dia 26 de maio nos Estados Unidos e ainda sem previsão de lançamento no Brasil, acompanhamos a história real de Liberace (Michael Douglas), pianista e showman que, antes de Elvis, Madonna, Elton John e Lady Gaga, já fazia barulho com seu talento musical – e, principalmente, com suas extravagâncias na vida e no guarda-roupa.
Liberace diz ter inventado a moda de tocar piano acompanhado de candelabros. E o trabalho de Steven Soderbegh mostra, como o próprio título indica, o que acontecia atrás dos tais candelabros: a vida profissional do protagonista está ali com várias apresentações e até uma especial atenção para a vez que ele se apresentou no Oscar, mas o que importa mesmo é o recorte que mostra o seu relacionamento amoroso de cinco anos com o jovem Scott Thorson (Matt Damon). Liberace por si só já era uma figura curiosíssima (ele faleceu em 1987), já que sempre foi escancaradamente gay, com maquiagens, figurinos e performances que davam esse atestado. No entanto, mesmo vivendo anos com um homem e também falecendo em função da AIDS, misteriosamente nunca teve coragem de se assumir (para a imprensa, ordenou que relacionasse seu óbito a uma doença cardíaca). Inclusive, a negação de Liberace ia além: em uma autobiografia, escreveu sobre um casamento de anos com uma mulher – o que, claro, nunca aconteceu.
Do outro lado, temos um personagem que não é espalhafatoso como Liberace, mas que também tem suas particularidades. É Scott, jovem loiríssimo do interior que, com um visual à la Mark Wahlberg em Boogie Nights – Prazer Sem Limites, sai de uma vida ordinária para conhecer um mundo cheio de dinheiro e possibilidades. E quem o apresenta a tudo isso é Liberace, levando-o para sua vida pública como secretário e assistente mas para a pessoal como amante e seu “Adônis” particular. Não bastasse a relação dos dois por si só já ser riquíssima em termos de dramaturgia, o filme faz questão de tornar a figura individual do jovem suscetível a várias interpretações: ele dizia ser bissexual mas nunca se relacionava com mulheres, fazia todas as vontades de seu companheiro (inclusive inúmeras cirurgias plásticas!) e não dava muitos indícios de ter qualquer personalidade. Deslumbre, amor, gratidão? Você escolhe.
O trabalho realizado por Michael Douglas e Matt Damon para dar vida a esses dois personagens é de tirar o chapeu. O primeiro já pode reservar espaço na estante para vários prêmios, já que está excepcional como o extravagante protagonista. Muito mais do que segurar com firmeza um papel que não cai em exageros ou em tons insuportáveis, Michael Douglas, entendendo por completo as alegorias de Liberace, se entrega inteiramente a essa experiência gay, que exige não apenas um trabalho gestual minucioso como também um preparo para cenas bastante íntimas com Matt Damon. E, para um ator de seu nome e idade, só o fato de ele ter aceitado o papel sem qualquer vaidade ou preconceito já demonstra uma coragem que poucos teriam. Entretanto, se Douglas tem o papel mais chamativo, não dá pra diminuir Matt Damon em função disso. A falta de personalidade de Scott nunca vira inocência exacerbada nas mãos do ator, que consegue estar sempre à altura de Douglas – trabalhando, inclusive, com um personagem que talvez exija muito mais dramaticamente.
Behind the Candelabra pode até perder um pouco o fôlego na sua última meia hora e não ser um filme revolucionário, mas o que conta aqui é o fato da história não ser quadrada – o que é um grande alívio para os dias de hoje, quando as biografias infestam as salas de cinema parecendo cópias umas das outras. É uma boa união entre o roteiro de Richard LaGravenese (baseado no livro do próprio Scott Thorson) e a direção de Soderbergh. Dos figurinos coloridos à direção de arte cheia de requinte, Behind the Candelabra ainda consegue controlar esse mundo gay da história, onde nada fica over, com tudo sendo muito fiel ao que Liberace era e representava. Se Soderbergh não primou por qualidade x quantidade nos últimos anos, conseguiu pelo menos dirigir seu último filme com bastante êxito. Por fim, também já lanço aqui uma campanha para que os filmes da HBO sejam exibidos no cinema. Caso fosse assim, ano passado Julianne Moore teria vencido todos os prêmios da temporada e, em 2014, Michael Douglas já despontaria como favorito para conquistar sua segunda estatueta.
FILME: 8.0
Além da Escuridão – Star Trek
The needs of the many outweigh the needs of the one.

Direção: J.J. Abrams
Roteiro: Roberto Orci, Alex Kurtzman e Damon Lindelof, baseado na série de TV “Star Trek”
Elenco: Chris Pine, Zachary Quinto, Benedict Cumberbatch, Zoe Saldana, Anton Yelchin, Karl Urban, Simon Pegg, Bruce Greenwood, John Cho, Peter Weller, Alice Eve, Noel Clarke, Nazneen Contractor, Amanda Foreman, Jay Scully
Star Trek – Into Darkness, EUA, 2013, Ficção Científica, 132 minutos
Sinopse: Em sua nova missão, a tripulação da nave Enterprise é enviada para um planeta primitivo, que está prestes a ser destruído devido à erupção de um vulcão. Spock (Zachary Quinto) é enviado para dentro do vulcão, onde deve deixar um dispositivo que irá congelar a lava incandescente. Entretanto, problemas inesperados fazem com que ele fique preso dentro do vulcão, sem ter como sair. Para salvá-lo, James T. Kirk (Chris Pine) ordena que a Enterprise saia de seu esconderijo no fundo do mar, o que faz com que a nave seja vista pelos seres primitivos que habitam o planeta. Esta é uma grave violação das regras da Frota Estelar, o que faz com que Kirk perca o comando da nave para o capitão Pike (Bruce Greenwood). A situação muda por completo quando John Harrison (Benedict Cumberbatch), um renegado da Frota Estelar, coordena um ataque a uma biblioteca pública, que oculta uma importante base da organização. Não demora muito para que Kirk seja reconduzido ao posto de capitão da Enterprise e enviado para capturar Harrison em um planetóide dentro do império klingon, que está à beira de uma guerra com a Federação. (Adoro Cinema)

Se Steven Spierlberg é responsável por grandes clássicos da ficção, J.J. Abrams pode muito bem estar no caminho de ser o sujeito que será a grande referência do gênero no cinema contemporâneo. Sim, o que menos importa na carreira desse nova-iorquino é o que ele fez no superestimado seriado Lost. Abrams achou seu lugar de verdade como realizador no cinema, especialmente quando se envolveu com a adaptação de Star Trek. Existe um mediano Super 8 entre o primeiro filme e, agora, Além da Escuridão – Star Trek, mas todo o talento do diretor para alinhar os principais elementos de uma boa ficção continua intacto. No mesmo nível – se não superior – ao filme anterior, essa continuação traz um inigualável senso de diversão e é aquele tipo de experiência que dá grande fôlego a um cinema blockbusters que cada vez menos surpreende.
O longa de 2009 já havia sido sucesso de crítica e público, desvinculando-se de maiores comparações com a obra original e trazendo um produto de personalidade própria. Por isso mesmo, as expectativas em torno de Além da Escuridão – Star Trek não eram poucas. E elas foram atendidas. Aqui, permanecem os pontos que fizeram do primeiro filme um acerto e outros são ampliados. Isso quer dizer que Star Trek segue pegando vários elementos da série clássica original e trazendo para a atualidade. Com isso, Abrams conquista novas plateias e ensina que é possível sim esquecer o universo comum de blockbusters meramente explosivos. Toda essa conquista acontece, claro, sem nunca perder os fãs do produto original – o que é um delicado e difícil exercício que hoje o diretor já executa com maestria.
Em Além da Escuridão – Star Trek, já estamos mais cientes dos perfis dos personagens e das dinâmicas estabelecida por eles – o que certamente abre espaço para que o roteiro de Roberto Orci, Alex Kurtzman e Damon Lindelof se aproveite mais do carisma de cada um e para que os atores se aproximem ainda mais do espectador. Vale mencionar como Chris Pine tem cada vez mais desenvoltura como Kirk ou como cada coadjuvante contribui para o conjunto – nem que seja apenas descontraindo com momentos de humor avulsos mas que, sim, funcionam. Nessa continuação, a história ainda tem uma ótima aquisição: Benedict Cumberbatch, da série Sherlock, que imprime uma frieza certeira ao eficiente vilão. Todos à serviço de uma boa história que consegue balancear com bastante ritmo os conflitos e as cenas de ação.
Impossível falar de Além da Escuridão – Star Trek sem passar pelo impecável trabalho técnico realizado. Para quem for conferir o filme em 3D ou em IMAX (tive minha primeira experiência nesse formato e saí da sessão ainda mais abismado), o longa se torna uma verdadeira experiência de imersão. E esse elogio vai muito além dos efeitos especiais (que atingem um nível absurdo de perfeição), mas também ao notável detalhismo da direção de arte ou ao impressivo trabalho de som (incluindo a excelente trilha de Michael Giacchino), que são fundamentais para colocar o espectador dentro da ótima ação da história que merece ser conferida na melhor sala de cinema possível. Se a história não tem lá muitos mistérios – e isso não é necessariamente um problema – logo a técnica trata de deixar tudo grandioso.
Firmando a franquia desde já como uma das mais interessantes da atualidade, Além da Escuridão – Star Trek tem ritmo e personalidade, apresentando um resultado muito completo que, como já citado anteriormente, atesta a preciosa capacidade de J.J. Abrams de orquestrar com precisão todos os elementos de uma boa ficção. É por ser tão disciplinado e original durante todo o tempo que o desfecho do filme acaba de certa forma assustando. Não dá para acreditar que Além da Escuridão – Star Trek conclui suas histórias de forma tão desleixada e quase clichê. Em mais ou menos cinco minutos, tudo se resolve rapidamente, o que incomoda por deixar a sensação de que o longa foi finalizado de última hora, sem qualquer planejamento. Nada disso combina com o que vimos anteriormente, mas tampouco apaga o brilho dessa série pra lá de especial. De certo Abrams tirou férias nos últimos dias de gravação.
FILME: 8.5
O Lugar Onde Tudo Termina
If you ride like lightning, you’re going to crash like thunder.

Direção: Derek Cianfrance
Roteiro: Derek Cianfrance, Ben Coccio e Darius Marder, baseado em história de Derek Cianfrance e Ben Coccio
Elenco: Ryan Gosling, Bradley Cooper, Dane DeHaan, Eva Mendes, Ray Liotta, Craig Van Hook, Rose Byrne, Mahershala Ali, Olga Merediz, Harris Yulin, Bruce Greenwood, Emory Cohen, Ephraim Benton, Luca Pierucci
The Place Beyond the Pines, EUA, 2012, Drama, 140 minutos
Sinopse: Luke (Ryan Gosling) é um motociclista misterioso, que pilota dentro de globos da morte para um circo itinerante. Quando descobre que sua ex-namorada, Romina (Eva Mendes), teve um filho seu, ele tenta se reaproximar dela. Sua intenção é mostrar-se um pai capaz de sustentar o filho e, para isso, Luke decide participar de uma série de roubos a bancos. O problema é que Luke não consegue reprimir seu lado violento, o que lhe traz problemas não apenas com Romina mas também com Robin (Ben Mendelsohn), seu parceiro de assaltos. Apesar dos vários problemas inesperados que surgem, ainda assim Luke resolve realizar sozinho um assalto a banco. Perseguido pela polícia, ele vira alvo de Avery Cross (Bradley Cooper), um policial que cumpria sua rotina fazendo a ronda diária. (Adoro Cinema)

Foi com Namorados Para Sempre que o diretor Derek Cianfrance conseguiu chamar a atenção de plateias ao redor do mundo. Antes, ele já havia dirigido curtas e documentários para a TV, mas foi com esse difícil filme estrelado por Ryan Gosling e Michelle Williams que ele se lançou como uma das promessas do cinema contemporâneo. E não por menos: Namorados Para Sempre é um longa incrivelmente maduro, além de doloroso e franco em relação aos altos e baixos de um casamento problemático. Agora, dois anos depois, Cianfrance volta com este O Lugar Onde Tudo Termina, que em nada se parece com o seu filme anterior. Aliás, eis aí uma de suas tantas qualidades: ele consegue repetir qualidades sem copiar estilo, produzindo algo inteiramente novo e que só atesta o seu crescente talento como realizador.
Mais ambicioso atrás das câmeras e também na própria estrutura que adota no roteiro para desenvolver uma história ao longo de 140 incansáveis minutos, Cianfrance faz de O Lugar Onde Tudo Termina uma experiência completamente surpreendente. É aconselhável não ler nada sobre o filme antes de assisti-lo, mas, ainda assim, você pode ser pego de surpresa em vários momentos. Isso porque o longa faz questão de pegar o espectador pela mão, levá-lo por um certo caminho durante um bom tempo para depois, do nada, seguir uma trajetória oposta, onde as resoluções não são as esperadas e os acontecimentos só atestam a capacidade de Cianfrance de conseguir ousar sem nunca sequer dar sinais de que está perto de se perder. Se parece que a premissa principal de O Lugar Onde Tudo Termina está acabada aos 40 minutos, logo o roteiro dá uma guinada que conduz o espectador para uma outra trama que, mesmo diferente, dá sequência uma saga e retoma cada detalhe do que estávamos acompanhando até então.
O trabalho de direção é particularmente contundente, bem como o roteiro escrito por Cianfrance em parceria com Ben Coccio e Darius Marder. Tudo o que aparece tem uma razão para estar ali e mesmo situações perfeitamente deduzíveis (quem não adivinhou logo de cara o propósito do personagem vivido pelo jovem Dane DeHaan?) ganham contornos interessantíssimos, seja em função de uma admirável dimensão dramática ou de um clima de tensão constantemente presente. Afinal, apesar de O Lugar Onde Tudo Termina adotar um ritmo relativamente pausado para desenvolver uma ou outra storyline, sempre temos a sensação de que algo está prestes a explodir – seja com uma tragédia que posteriormente se confirma ou com mudanças que redefinem o rumo de todos os personagens. Mais importante ainda, é preciso tirar o chapéu para a sintonia entre a direção e o texto: juntos, eles fazem com que a experiência seja sempre surpreendente e consistente na medida exata.
A trilha de Mike Patton dá o clima para O Lugar Onde Tudo Termina (atenção para a bela composição instrumental The Snow Angel) e é um dos elementos que ajuda o filme a ter essa tensão dramática que se sustenta ao longo dos seus três blocos. Sim, a história tem partes bem distintas e você pode até gostar mais de uma do que de outra, mas nunca poderá dizer que a produção perde o ritmo ou não tem harmonia entre tudo o que é desenvolvido. A disciplinada direção tem papel fundamental nesse sentido, até porque ainda consegue tornar todas as histórias perfeitamente palpáveis ao comandar seus intérpretes: Ryan Gosling está sempre presente na mente do espectador mesmo quando não aparece em cena, Bradley Cooper dá continuidade a boa fase de sua carreira como um sujeito que se vê em uma situação completamente inesperada e Dane DeHaan pode repetir um pouco o papel de garoto problemático, mas, como sempre, se sai muito bem com essa construção.
Frequentemente inesperado, O Lugar Onde Tudo Termina foge do convencional e consegue entrar na cabeça do espectador, que não consegue deixar de se sentir envolvido por cada personagem e cada avanço do roteiro. Será fácil encontrar quem não se empolgue com uma certa divisão de estilos do filme: ele, na realidade, não é inteiramente um drama ou exclusivamente um filme de crime ou suspense. Porém, chega a ser até uma heresia não reconhecer a força narrativa desse longa-metragem muito bem realizado que mostra uma versatilidade muito grande de seu comandante. É por tudo que vemos em O Lugar Onde Tudo Termina que não é nenhum exagero dizer que, se continuar nesse ritmo, Derek Cianfrance logo se firma de vez como um dos grandes nomes de sua geração. Desde já, espero ansioso pelo seu próximo filme.
FILME: 9.0
Segredos de Sangue
Personally speaking, I can’t wait to watch life tear you apart.

Direção: Park Chan-Wook
Roteiro: Wentworth Miller, com a colaboração de Erin Cressida Wilson
Elenco: Mia Wasikowska, Matthew Goode, Nicole Kidman, Jacki Weaver, Dermot Mulroney, Phyllis Somerville, Harmony Korine, Lucas Till, Alden Ehrenreich, Tyler von Tagen, Thomas A. Covert, Lauren E. Roman, Peg Allen
Stoker, EUA/Inglaterra, Suspense, 99 minutos
Sinopse: Em pleno luto por causa da morte de seu pai, India (Mia Wasikowska) deve lidar com o novo comportamento agressivo de sua mãe (Nicole Kidman) e com a chegada inesperada de um tio que ela nem sabia que existia, Charlie (Matthew Goode). Este homem sombrio esconde as reais motivações de sua visita, enquanto seduz as duas mulheres da família. (Adoro Cinema)

Segredos de Sangue sempre foi, para o escriba que vos fala, um dos filmes mais aguardados de 2013. Muito em função, claro, dos trailers, que traziam uma Nicole Kidman hipnotizante (e com uma frase já inesquecível: “pessoalmente, mal posso esperar para ver a vida te destruir”, em tradução literal), uma estética completamente instigante e um clima de suspense que prometia trazer o coreano Park Chan-Wook para o cinema estadunidense em grande estilo. Entretanto, a expectativa é a mãe da decepção e, infelizmente, Segredos de Sangue está longe de ser o filme que poderia ser, desapontando em vários sentidos e, principalmente, desperdiçando a oportunidade de realizar um thriller cheio de inspiração com nomes de respeito.
Desde os créditos iniciais é possível perceber que o debut de Park Chan-Wook nos Estados Unidos será cheio de estilo. Só que a má notícia é que, se os enquadramentos diferenciados e as rimas visuais conquistam em um primeiro momento, logo tudo se torna um pouco distante da história, fazendo com que ela seja sufocada pela vontade do diretor de fazer de Segredos de Sangue uma experiência mais visual. Por isso, diálogos perfeitamente corriqueiros são quase atrapalhados por uma câmera inquieta (percebam como Park volta e meia faz movimentos desnecessários durante as conversas) e cenas mais intensas não surtem o devido efeito em função de cores ou closes que desviam a atenção do espectador.
Quem sai perdendo? O roteiro de Wentworth Miller (para quem não lembra, ele foi o protagonista do extinto seriado Prison Break), que, infelizmente, tem interessantes análises diluídas por esse filme mais preocupado em instigar com outros artifícios. Texto e direção simplesmente não combinam, especialmente porque a proposta de Segredos de Sangue merecia um viés mais dramático e psicológico e não de uma tensão que raramente casa com um ritmo pausado. O suspense está ali, mas não conseguimos necessariamente senti-lo, e isso é um problema. Vale lembrar ainda que a chave de todo o conflito pouco contribui: o personagem de Matthew Goode não é necessariamente instigante, especialmente porque o tipo robótico interpretado por ele cai no lugar-comum. Isso é até um pouco imperdoável, pois a proposta da trama é, justamente, mostrar como a protagonista tem sua vida alterada pela presença da figura vivida por Goode. Nesse sentido, a ótima trilha de Clint Mansell se sai muito melhor ao criar tensão e nervosismo nessa dinâmica entre os dois.
Park Chan-Wook tem uma marca muito forte como diretor, mas o enredo de Segredos de Sangue precisava de outro realizador. É particularmente frustrante como alguns arcos não são tão interessantes quanto deveriam ser. A quebra de inocência da protagonista vivida por Mia Wasikowska tem seus momentos de inspiração (a cena no chuveiro é executada de forma surpreendente), mas, no geral, é executada de forma quase inverossímil e abrupta. O retrato familiar também é superficial, uma vez que os conflitos com a mãe se resumem a implicâncias pouco esmiuçadas. E, por isso mesmo, quando Nicole Kidman diz a tal frase que mal espera para ver a vida destruir a filha, é possível ficar um pouco confuso com o repentino ódio da personagem. Afinal, de onde vem isso tudo? E por que o filme não se aproveita de outras cenas como aquela em que a protagonista penteia o cabelo da mãe frente ao espelho, num raro momento de complexidade entre as duas? Essa dinâmica traria mais intensidade ao conjunto e preencheria muitas das lacunas dramáticas e também de suspense do filme.
Em termos de elenco, Segredos de Sangue também tem suas decepções. O destaque, sem dúvida, é Nicole Kidman, que parece estar consolidando uma boa fase novamente. O espaço em cena é limitado (ela merecia chances ainda maiores), mas sua presença é marcante, seja pela beleza impressionante (como se isso fosse novidade) ou pela expressividade em momentos-chave. Já Mia Wasikowska segura o filme, mas frequentemente confunde o gênio difícil de sua personagem com o tipo enjoado que já trabalhou em outras produções. De resto, Segredos de Sangue subutiliza nomes como Jacki Weaver, Phyllis Somerville e Dermot Mulroney em aparições que não chegam a se destacar. Por fim, é óbvio que Segredos de Sangue tem ótimos atributos, mas é o típico caso em que a decepção fala mais alto. Park Chan-Wook e Wentworth Miller acertam individualmente, mas não deveriam ter trabalhado juntos. Faltou química entre roteiro e direção, deixando a forte impressão de que Segredos de Sangue seria um instigante estudo dramático e psicológico nas mãos de outra dupla.
FILME: 6.0
Antes da Meia-Noite
And what about this time machine? How does it work?

Direção: Richard Linklater
Roteiro: Richard Linklater, Ethan Hawke e Julie Delpy
Elenco: Ethan Hawke, Julie Delpy, Jennifer Prior, Charlotte Prior, Seamus Davey-Fitzpatrick, Xenia Kalogeropoulou, Walter Lassally, Yiannis Papadopoulos, Athina Rachel Tsangari, Panos Koronis, Ariane Labed
Before Midnight, EUA, 2013, Drama/Romance, 109 minutos
Sinopse: Nove anos após os eventos de Antes do Pôr-do-sol, Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) vivem juntos em Paris, ao lado das filhas gêmeas que tiveram. Ele busca sempre manter contato com Hank (Seamus Davey-Fitzpatrick), o filho adolescente que teve com a ex-esposa e que vive em Chicago com a mãe. Quando o casal resolve ir à Grécia com as filhas, Jesse decide também convidar Hank para a viagem. Neste contexto, Jesse segue tentando se tornar um romancista de sucesso, enquanto que Celine considera seriamente a possibilidade de aceitar um emprego junto ao governo francês. (Adoro Cinema)

* Se você não assistiu aos filmes As Pontes de Madison, Encontros e Desencontros e aos longas da trilogia Antes… (incluindo a estreia da última sexta-feira), não prossiga. O texto contém spoilers.
“Nunca na vida você pensa que um amor como esse pode acontecer com você. E eu quero mantê-lo para sempre. Quero amá-lo do jeito que amo agora para o resto da minha vida. Você não entende? Vamos perder isso se partirmos. Eu não posso fazer uma vida inteira desaparecer para começar uma nova. Tudo que eu posso fazer é me agarrar a nós dois. Me ajude… Me ajude a não deixar de te amar”. Essa passagem é de um dos meus filmes favoritos: As Pontes de Madison, de Clint Eastwood. Meu apreço por ele é muito em função de sua dolorosa proposta exemplificada na passagem citada: a de mostrar um sentimento avassalador que, devido a várias circunstâncias, nunca poderia ser colocado em prática. Assim são os meus filmes prediletos: sobre amores incompletos e afetos minados pela distância e pela vida. E Antes do Amanhecer e Antes do Pôr-do-Sol, ambos de Richard Linklater, seguem basicamente a mesma proposta. São filmes cheios de beleza porque fogem do convencional ao não se entregarem necessariamente a finais felizes.
Por isso, foi no mínimo um choque saber sobre essa continuação chamada Antes da Meia-Noite, responsável por mostrar como foi a vida de Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) quando… eles decidiram ficar juntos! Foi um choque no sentido de que a magia poderia ser quebrada: afinal, por que dar respostas desnecessárias para um amor que era tão inesquecível justamente por ser impossível? Seria, assim, como ver Francesca (Meryl Streep) saltando do carro em As Pontes de Madison para fugir com Robert (Eastwood). Ou, quem sabe, ver, em Encontros e Desencontros, um final alegre para Bob (Bill Murray) e Charlotte (Scarlett Johansoon) nas ruas de Tóquio ao som da inesquecível Just Like Honey. Dessa forma, fui conferir Antes da Meia-Noite cheio de receios, esperando que toda aquela incompletude sentimental dos filmes anteriores fosse apagada por uma continuação açucarada que teria apenas como missão colorir os sonhos apaixonados do público que desejava um desfecho idealizado para os personagens de Hawke e Delpy.
Ledo engano. Richard Linklater, em parceria com os dois protagonistas, conseguiu construir uma história que, sim, de certa forma satisfaz o coração de quem desejava ver Jesse e Celine juntos, mas que também traz um certo desconforto para esse público ao mostrar que nem tudo na vida é um mar de rosas. A boa notícia é que essa continuação segue basicamente o mesmo perfil dos filmes anteriores. Isso quer dizer que as plateias impacientes com filmes inteiramente trabalhados em diálogos vão cair na monotonia. E também que o longa é uma experiência ainda mais especial para quem tem sensibilidade e, principalmente, uma história remotamente parecida com a de Jesse e Celine. Por isso, com a alegria e a tristeza de já ter passado por algo do tipo, acompanhei Antes da Meia-Noite com o mesmo afeto que cultivei pelos filmes anteriores. Agora com a diferença de que o agridoce não está no amor incompleto e sim no relacionamento plenamente realizado que perdeu o seu encanto.
Não à toa o cenário é a Grécia, volta e meia mostrada com suas várias ruínas – e elas, dependendo do ponto de vista, podem ser uma metáfora para o casal protagonista daquilo que se perdeu… ou do que permaneceu. Essa é a verdadeira moral de Antes da Meia-Noite: parar, olhar para trás e fazer um balanço daquilo que se conquistou e daquilo que já se foi. Essa lista de perdas e ganhos é claramente mostrada pelo roteiro de Linklater, Hawke e Delpy, que dedica a sua primeira metade para a vida completa dos protagonistas em uma temporada de férias e outra ao eterno apego deles a uma imagem idealizada que há muito já deixou de existir. Sim, Jesse e Celine continuam falando sobre a vida, trocando algumas palavras e demonstrando carinho. Entretanto, também caíram na normalidade: tiveram filhos, encontraram empregos e, assim, construíram uma rotina como qualquer outra. Mas será mesmo que participar dessas etapas é cair na normalidade? Ou será que é apenas uma previsível consequência do fato de que eles não são mais jovens indestrutíveis que podem passar a vida viajando e se apaixonado pelas ruas de Viena e Paris? Envelhecer e assumir compromissos é necessariamente se fechar para o mundo? Ou querer viver eternamente de sonho em sonho é sinal de imaturidade?
Na verdade, não existem julgamentos ou respostas certas em Antes da Meia-Noite. O que o filme quer realmente mostrar é muito simples: nada dura para sempre. E não é porque uma história começou cheia de encantamento que ela vai brilhar até o último de seus dias. A vida não é assim. Principalmente quando você assume um relacionamento, por mais esperado que ele seja. O que fez a diferença nesse processo é saber a hora de se desapegar do passado e encarar a vida como ela é – o que está perfeitamente representado na cena em que uma senhora comenta que, mesmo já em uma nova vida, volta e meia se força a lembrar dos detalhes do rosto de um antigo amor que nunca mais voltará. Essa mensagem, bem como várias outras apresentadas nesse texto, são muito bem desenvolvidas por esse longa bastante sentimental que mostra dois protagonistas parados no tempo e que parecem viver o presente no piloto-automático, criando as filhas e cumprindo as formalidades do cotidiano. É reconfortante ver que, de vez em quando, algumas histórias de amor podem dar certo no sentido de duas pessoas colocarem em prática algo sonhado há anos. Mas também é necessário força para ver que, em determinado ponto, defeitos e insatisfações virão à tona sem qualquer concessão.
Desta forma, Antes da Meia-Noite sabe como envolver o espectador nessa ideia de que Jesse e Celine deram certo para, depois, fazer uma completa desconstrução desse sonho. Essa ruptura de quase-fábula dos dois acontece em um hotel da Grécia, onde o casal, inicialmente programado para ter uma bela noite de amor, acaba externalizando insatisfações e decepções em horas que se tornam, como o próprio Jesse diz, intermináveis – no mau sentido, claro. É nessa longa sequência do filme (que, assim como muitas outras, dura vários minutos) que Antes da Meia-Noite sai do clima dos longas anteriores para lembrar Namorados Para Sempre, de Derek Cianfrance, filme que também tem uma cena de hotel planejada para ser uma noite romântica mas que logo vira um jogo de franquezas. Portanto, cabe ao espectador decidir até que ponto se abalar com o fato de que os protagonistas passaram por traições, carências, silêncios e insatisfações sexuais e também qual o momento de finalmente aceitar esse novo retrato do casal. Até porque rejeitar essa nova etapa de Antes da Meia-Noite é ser tão negligente quanto Jesse e Celine, que ficam juntos pelas memórias daquele romance cheio de juventude que começou anos atrás na Áustria.
No mais, a estrutura idêntica (nesse longa, a única diferença é que os protagonistas interagem mais com outros personagens) não se mostra desgastada e a bela química de Ethan Hawke e Julie Delpy permanece intacta mesmo depois de quase 20 anos. São elementos que comprovam, junto com as análises suscitadas pelo roteiro, que Antes da Meia-Noite, primeiramente cercado de desconfianças, consegue se justificar perfeitamente e, acima de tudo, fazê-lo com maturidade e honestidade. Nunca seremos jovens para sempre e certas histórias têm seu tempo e espaço para acontecer. O desfecho da obra, positivo em um primeiro momento ao mostrar Celine cedendo para dar continuidade àquele relacionamento problemático mas agarrado à memórias bonitas demais para serem apagadas, logo também se mostra um tanto desesperançoso. Isso porque os dois continuam sem viver o presente e sem assumir o que eles de fato passaram a significar um para o outro. É duro aceitar, mas, talvez, alguns sonhos devessem ficar só na teoria. Seria mesmo verdade que só o amor não realizado pode ser romântico, como discursava Maria Elena (Penélope Cruz) em Vicky Cristina Barcelona?



