Cinema e Argumento

Rapidamente: “Batman vs Superman”, “Eu, Daniel Blake”, “Mulher do Pai” e “Mulheres do Século 20”

Mais um filme muito íntimo e pessoal do diretor Mike Mills, Mulheres do Século 20 se destaca pelo excelente trabalho do elenco feminino e de suas inteligentes referências e contextualizações.

BATMAN VS SUPERMAN: A ORIGEM DA JUSTIÇA (Batman v Superman: Dawn of Justice, 2016, de Zack Snyder): Foi massacrado mundo afora, e com toda razão, já que só deve perder para Esquadrão Suicida como o pior filme de super heróis dos últimos anos. A lista do que não funciona é imensa: dos protagonistas inexpressivos (Ben Affleck não traz personalidade ao icônico Batman, enquanto Henry Cavill nunca funcionou mesmo como Superman) aos coadjuvantes que variam de caricaturas ineficientes (Jesse Eisenberg tenta fazer algo divertido, mas sem sucesso) a presenças desperdiçadas (dá pena ver Amy Adams tendo que se contentar com o papel da mocinha que só vive em função de seu homem), Batman vs Superman tem um roteiro dos mais problemáticos, onde nada é suficientemente consistente para nos convencer do confronto entre os herois. Porém, o mais decepcionante deve ser a concepção estética completamente pobre do filme, pois, se os universos dos dois heróis já não conversam direito, a situação só se agrava com uma direção que comanda cenas de ação no piloto-automático e apostando na velha e já inaceitável fórmula de cidades sendo inteiramente destruídas durante os confrontos só para mostrar algum tipo de grandiosidade. A própria luta entre os dois protagonistas é concebida de forma preguiçosa, como se fosse apenas uma brincadeira onde os dois alteram porradas com diversos poderes e artimanhas. E mais: o conflito tem uma solução das mais esfarrapadas imagináveis. Talvez Batman vs Superman não chegue a aborrecer tanto quanto Esquadrão Suicida, mas é um aventura ultrapassada demais, o que não nos dá nem desculpa de classificá-lo como uma homenagem ou uma experiência nostálgica para tentar defendê-lo.

EU, DANIEL BLAKE (I, Daniel Blake, 2016, de Ken Loach): Não está entre os casos mais graves, mas a Palma de Ouro para Eu, Daniel Blake não deixa de contribuir para as escolhas extremamente irregulares do júri presidido pelo cineasta australiano George Miller no Festival de Cannes em 2016. O novo filme de Ken Loach é muito simbólico e relevante em tempos que discutimos tanto os direitos trabalhistas no Brasil e no mundo, mas, em termos de execução, o resultado é bastante decepcionante. Acompanhando os difíceis dias de Daniel Blake (Dave Johns), que, após ficar desempregado em função do diagnóstico de um problema cardíaco, enfrenta as burocracias do governo para receber seus auxílios por direito, Eu, Daniel Blake não exige que a plateia já tenha compartilhado da mesma situação do protagonista para se indignar e até reconhecer as inúmeras situações absurdas relacionadas ao descaso do governo com a classe trabalhadora. O que acontece é que Eu, Daniel Blake, apostando em um ritmo bastante lento, se repete demais e, sempre que procura dar alguma guinada na trama, soa artificial. Por mais comovente que seja a interpretação de Hayley Squires como Katie, a amiga de Daniel que passa por problemas bastante semelhantes, seu conflito com o protagonista a respeito da profissão que resolve adotar para resolver problemas financeiros é executado com arbitrariedade. Mais decepcionante ainda é o desfecho que, nada sutil e imprevisível, ainda reserva uma última cena repleta de drama que, justamente, por ser consequência de uma escolha conduzida apressadamente pelo roteiro, não surte efeito algum. Em tese, Eu, Daniel Blake é necessário. Na prática, beira o esquecível. 

MULHER DO PAI (idem, 2017, de Cristiane Oliveira): Rodado na região de Dom Pedrito, no Rio Grande do Sul, Mulher do Pai faturou os prêmios de melhor direção, fotografia e atriz coadjuvante no Festival do Rio 2016, além de ter feito trajetória internacional ao ter sido selecionado para a mostra Generation do Festival de Berlim deste ano. Ao contrário dos festivais, já não compartilho o mesmo entusiasmo com esse trabalho de estreia da diretora Cristiane Oliveira, que, também autora do roteiro, opta por um caminho nobre em seu debut (o de economizar ao máximo as emoções de uma história que, centrada nas descobertas e no amadurecimento de uma jovem do interior que precisa cuidar do pai cego), mas que, por isso mesmo, resvala em outro o problema: o de que, muitas vezes, menos realmente é menos. Marat Descartes, como o pai da protagonista, é sempre ótimo, e Mulher do Pai ambienta muito bem a vida no interior. Mas falta visceralidade aqui, inclusive nas sutilezas: um exemplo claro disso é a relação da protagonista com a professora de artes (a ótima Verónica Perrota, vencedora do Kikito de melhor atriz em Gramado ano passado pelo uruguaio Las Toninas Van al Este), que, inicialmente interessante e cercada de delicadezas, se desenrola de forma previsível e nada catártica ao se transformar em conflito quando a professora se interessa pelo pai da menina. Existem outros problemas, como a geografia não ser devidamente explorada (a protagonista quer desesperadamente conhecer o Uruguai por questões culturais e, quando viaja até lá, quase nada é mostrado do país), que me desconectam bastante do filme. Tratando-se de um relato sobre a transição da adolescência para a vida adulta, o cinema brasileiro já nos trouxe histórias muito mais envolventes nos últimos anos.

MULHERES DO SÉCULO 20 (20th Century Women, 2016, de Mike Mills): Não é preciso retroceder tanto a carreira do diretor Mike Mills para constatar o quanto ele é apaixonado por histórias íntimas. Basta lembrar de Toda Forma de Amor, filme que rendeu o Oscar ao veterano Christopher Plummer pela personificação de um pai de família que, após a descoberta de um câncer, resolve finalmente sair do armário para o filho. Agora, Mills sai da relação de um personagem com o pai para falar sobre a influência de uma mãe (e de várias outras figuras femininas) na vida de um garoto adolescente. É bonito como o diretor consegue imprimir uma assinatura sem nunca se repetir, e Mulheres do Século 20 é particularmente marcante do ponto de vista pessoal, já que essa é uma história baseada na vida do próprio diretor. Pop e recheado de referências e contextualizações das mais variadas naturezas (da música ao cinema, passa até pelo marcante documentário Koyannisqatsi – Uma Vida Fora de Equilíbrio, de 1982), o relato é delicado ao retratar as relações familiares, especialmente nos momentos em entre mãe e filho. Falando em mãe, ela é vivida com talento e elegância por Annette Bening, com uma figura interessantíssima e que, aos poucos, parece também fazer parte da nossa família. Para não ser injusto, vale mencionar ainda Elle Fanning e Greta Gerwig, ambas em plena sintonia com Bening em um elenco feminino para lá de especial.

A Bela e a Fera

I want so much more than they’ve got planned!

Direção: Bill Condon

Roteiro: Evan Spiliotopoulos e Stephen Chbosky

Elenco: Emma Watson, Dan Stevens, Luke Evans, Josh Gad, Kevin Kline, Ewan McGregor, Ian McKellen, Emma Thompson, Audra McDonald, Stanley Tucci, Nathan Mack, Haydn Gwynne, Hattie Morahan, Ray Fearon 

Beauty and the Beast, EUA, 2017, Musical, 129 minutos

Sinopse: Moradora de uma pequena aldeia francesa, Bela (Emma Watson) tem o pai capturado pela Fera (Dan Stevens) e decide entregar sua vida ao estranho ser em troca da liberdade dele. No castelo, ela conhece objetos mágicos e descobre que a Fera é, na verdade, um príncipe que precisa de amor para voltar à forma humana. (Adoro Cinema)

Sem reajuste de inflação, a versão live action de A Bela e a Fera ostenta, até o momento, o status de maior musical já produzido mundialmente para o cinema. Foram nada menos do que 160 milhões de dólares investidos nessa adaptação da animação homônima de 1991 dirigida pela dupla Gary Trousdale e Kirk Wise! O retorno financeiro que obviamente veio pelas bilheterias já era esperado pela Disney, mas o que justamente faz a diferença para o sucesso dessa versão dirigida por Bill Condon é o salto ambicioso dado pelo estúdio, o que, para total surpresa de quem assiste ao filme, logo se descobre que tem pouco a ver com dinheiro. Na verdade, A Bela e a Fera se diferencia do insosso Cinderela, por exemplo, ao redimensionar a animação em uma série de aspectos, principalmente no de dar ainda mais ênfase à música como pilar fundamental para a jornada da protagonista.

É o tipo de caso que vale alertar: A Bela e a Fera, muito antes de ser apenas uma transposição de um universo animado para outro de carne e osso, é um grande musical, com direito a diálogos cantados e até resoluções que se desenham a partir da música. Isso mesmo, a adaptação de Bill Condon se sustenta a partir de uma cantoria quase incessante, o que revela primeiro a já comentada ambição do estúdio de fazer algo diferenciado e segundo a confiança em um diretor que foi chamado justamente por sua aproximação com o gênero (para quem não lembra, Condon dirigiu, em 2006, Dreamgirls – Em Busca de um Sonho). Missão duplamente cumprida: não só A Bela e a Fera consegue brilhar no universo de repetitivas adaptações de animações como também tem pleno domínio da narrativa musical. E o fato do mestre Alan Menken, compositor do longa de 1991, ter retomado seu posto só qualifica ainda mais o projeto.

Mais longo do que a animação (são 45 minutos a mais, com três novas canções, três outras estendidas, novos personagens e detalhes adicionais sobre a vida dos protagonistas), A Bela e a Fera chegou a ser idealizado pela Warner Bros. com Guillermo Del Toro na direção. A ideia, entretanto, acabou ficando mesmo com a Disney, que custou a comprar a ideia de que a adaptação deveria ser um musical, algo rapidamente incentivado por Condon em suas conversas com o estúdio. O longo processo de idealização e o alto investimento financeiro são percebidos na tela muito mais pelo alinhamento técnico de todo o filme do que pela extensa etapa de pós-produção (as gravações terminaram em agosto de 2015!): é digna de nota a grandiosidade estética da adaptação, que, com figurinos exuberantes de Jaqueline Durran e imponente design de produção de Sarah Greenwood, faz jus ao imaginário de toda uma geração apaixonada pela animação e também de quem é fã de musicais. 

Em termos de história há de se considerar leituras cada vez mais consideradas nos dias de hoje como A Bela e a Fera narrar um romance que nasce a partir do aprisionamento da mocinha por um príncipe que logo a encantará com um castelo imenso e bibliotecas impressionantes. Ainda é válido questionar o quanto a representação de LeFou (Josh Gad) é correta, uma vez que ele não passa de um personagem gay que, obcecado pelo amigo hétero, unidimensional e até mesmo machista, abre mão a todo momento de sua própria personalidade para causar algum tipo de impressão ao moço. De resto, A Bela e a Fera, mesmo com alguns excessos na história, é uma experiência encantadora aos olhos e aos ouvidos, entregando, com doses certeiras de ambição, a transposição para o live action que há tempos merecíamos conferir. 

Um Mergulho no Passado

We’re all obscene. Everyone’s obscene. That’s the whole fucking point.

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Direção: Luca Guadagnino

Roteiro: David Kajganich, baseado em história de Alain Page

Elenco: Tilda Swinton, Matthias Schoenaerts, Ralph Fiennes, Dakota Johnson, Corrado Guzzanti, Aurore Clément, Lily McMenamy, Elena Bucci, Salvatore Gabriele, Francesco Lo Pinto, Youness Zrhaiba

A Bigger Splash, Itália/França, 2015, Drama, 125 minutos

Sinopse: A estrela do rock Marianne Lane (Tilda Swinton) passa férias em uma ilha italiana na companhia de seu parceiro (Matthias Schoenaerts) quando é surpreendida por Harry (Ralph Fiennes), um ex-caso que aporta no paraíso com a filha (Dakota Johnson) e desencadeia uma onda de nostalgia e perigosos jogos de sedução. (Adoro Cinema)

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Vivida por Tilda Swinton, a estrela do rock Marianne Lane é a perfeita síntese de toda a dramaticidade de Um Mergulho no Passado, longa que marca a quarta colaboração entre a atriz e o diretor italiano Luca Guadagnino. Recuperando-se de uma cirurgia nas cordas vocais, a cantora praticamente não consegue falar e precisa evitar ao máximo qualquer expressão de voz. Para tanto, Marianne opta por se refugiar com o namorado Paul (Matthias Schoenaerts, o par romântico de Marion Cotillard em Ferrugem e Osso) em uma belíssima ilha italiana, onde, por coincidência, acaba vivendo justamente o contrário, pois é lá que também está de férias o excêntrico Harry Hawkes (Ralph Fiennes), ex-marido da artista que também produziu e agenciou sua carreira musical durante anos. E se grande parte dos cineastas faria desse encontro um verdadeiro melodrama sobre um amor mal resolvido que renasce a partir do acaso, Guadagnino usa um pincel muito mais fino: quando Harry canta, dança, fala o tempo inteiro e faz o que bem entende em qualquer lugar como um verdadeiro furacão para qualquer círculo social, Um Mergulho no Passado se torna um estudo sobre tudo o que nasce a partir do silêncio em meio ao caos – e por isso é tão simbólico uma estrela da música se encontrar praticamente muda em um turbilhão interno tão intenso.

Inteligentemente, Harry está longe de ser um sujeito meramente insuportável. Sua necessidade de estar constantemente falando e chamando atenção revela, na verdade, uma autenticidade que, sim, extrapola a paciência e o limite de muita gente, mas que não deixa de ser… autenticidade. O próprio personagem questiona: por que ele precisa pedir desculpas por simplesmente ser quem é? Isso nos leva à ideia de que Harry tem um mérito que, parando para pensar, é raríssimo em boa parte das relações que estabelecemos. A própria Marianne compreende isso (e não à toa esse parece um dos aspectos que fizeram com que ela um dia caísse de amores por ele), o que, em contraste, não amortece a incômoda sensação de tê-lo de volta em sua vida que, no exato momento retratado por Um Mergulho no Passado, é muito bem estabelecida do ponto de vista profissional e amoroso. Toda a ação do filme de Luca Guadagnino parte dessa chegada turbulenta de Harry, que ainda viaja com uma filha adolescente (Dakota Johnson) que diz recém ter descoberto existir. Na convivência do quarteto (Marianne e seu namorado, Harry e sua filha), o longa apresenta dilemas sexuais, amorosos e até mesmo sociais partindo de cotidianidades. Os sub-textos que surgem desde uma mera diversão no karaokê até um duvidoso passeio de campo reforçam o naturalismo do longa, que, como outros do diretor italiano, prefere lançar um olhar microscópico para situações corriqueiras ao invés de apostar em reviravoltas para criar estofo dramático.

Saindo dos registros bucólicos de Um Sonho de Amor para as paisagens veranis de Um Mergulho no Passado, Luca Guadagnino segue filmando histórias com grande requinte estético. Se Tilda Swinton novamente é um deslumbre com figurinos invejáveis (todo o guarda-roupa dela foi desenhado pela Gucci, incluindo o icônico óculos de sol usado do início ao fim) e as paisagens litorâneas da Itália são de encher os olhos, o diretor nunca deixa que a estética seja apenas um personagem extra do filme ou que  sirva apenas para tornar ainda mais atraente a inegável beleza de Matthias Schoenaerts, por exemplo. Tudo tem um propósito: a sofisticada roupagem de Tilda justifica seu status de estrela da música mundialmente reconhecida e as praias criam um clima de despojamento que é fundamental para a o desejo físico que se cria secretamente ou não entre os personagens. Afinal, assim são os filmes que reverberam como Um Mergulho no Passado: grandes também nos detalhes técnicos e não apenas no roteiro. Por falar em texto, aqui o roteirista David Kajganich revela um talento surpreendente. Responsável pelos péssimos Invasores (a ficção estrelada por Nicole Kidman e Daniel Craig em 2007) e Renascido das Trevas (mais uma bagunça dirigida por Joel Schumacher, dessa vez um terror com Henry Cavill), Kajganich é pontual ao administrar a ciranda de sentimentos entre os personagens, todos muitíssimos bem desenvolvidos em suas personalidades e na forma como elas se afetam.

Muito da verossimilhança de Um Mergulho no Passado se dá pelo alto nível de interpretação do quarteto de atores reunidos no longa, incluindo até mesmo Dakota Johnson, que, com um papel consideravelmente menor em tempo de projeção se comparado ao de seus colegas, consegue transmitir toda a esperteza de uma jovem que tenta compreender (ou quem sabe se aproveitar?) dos conflitos a sua volta. Mas se Tilda Swinton já dispensa comentários há anos (aqui está novamente fantástica com um papel que só poderia ser dela) e faz uma ótima dupla com Matthias Schoenaerts, que interpreta um homem atraente e comum na medida exata, quem realmente dá show é o sempre subvalorizado Ralph Fiennes. É claro que seu personagem, por ser o centro das atenções (e da ação), já ganharia destaque naturalmente, mas Fiennes sabe calibrá-lo com grande precisão, atentando-se a dois pontos fundamentais: primeiro o de Harry como um homem verborrágico que torna qualquer momento um grande acontecimento e segundo como sujeito confiante que, muito no fundo, aos poucos compreende que não pode controlar tudo nesse mundo (a cena em que Marianne pergunta por que Harry não consegue aceitar a ideia de ela ser feliz sem sua presença é uma das melhores do filme). Em uma das entrevistas que concedeu para divulgar Um Mergulho no Passado, Guadagnino diz que trabalhar com esses atores foi a melhor experiência que já teve com um elenco em toda a sua carreira. Se como espectador é fácil acreditar na grande verdade dessa afirmação, imagine estando lá…

Rapidamente: “A Estranha Passageira”, “Amores Urbanos”, “Minha Vida de Abobrinha” e “Toni Erdmann”

Distante das mulheres geniosas e de temperamento forte que tanto marcaram sua carreira, Bette Davis tem, em A Estranha Passageira, um de seus desempenhos mais camaleônicos.

A ESTRANHA PASSAGEIRA (Now, Voyager, 1942, de Irving Rapper): Com a estreia da minissérie Feud, que conta os bastidores das filmagens de O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, longa de 1962 estrelado por Bette Davis e Joan Crawford, volta a vontade de rever ou vasculhar o que ainda não vimos da filmografia das duas atrizes. Foi justamente o programa de Ryan Murphy que me levou a continuar a missão de ver, pelo menos, todas as indicações de Bette ao Oscar (foram dez, ao total, todas como protagonista). Nessa jornada, cheguei recentemente ao longa A Estranha Passageira, que traz uma das interpretações mais camaleônicas dessa atriz marcada por quase sempre interpretar mulheres de gênio difícil, temperamento forte ou simplesmente de má índole. Definitivamente não é o caso do filme de Irving Rapper, onde Bette dá vida a Charlotte Vale, jovem que, rejeitada e massacrada pela mãe, nunca viveu sua própria vida, até o dia em que resolve se libertar das amarras familiares e se tornar a mulher que sempre quis ser. A transição de filha submissa que se porta quase como alguém da terceira idade para uma figura feminina elegante, autêntica e dona de seu próprio destino ganha tônica surpreendente nas mãos da atriz, compensando a duração excessiva do filme e arcos dramáticos perfeitamente melodramáticos ou conduzidos de forma óbvia até para a época (é imperdoável que a mãe da protagonista seja reduzida a uma pessoa apenas maquiavélica e desagradável). Bette, sem dúvida, garante o encantamento que falta ao filme como um todo. Aos brasileiros, uma curiosidade extra: é durante uma viagem ao Rio de Janeiro que Charlotte finalmente se descobre uma nova pessoa.  

AMORES URBANOS (idem, 2016, de Vera Egito): Não vou negar que, como um jovem de 25 anos, saí da sessão de Amores Urbanos com um gosto amargo na boca. E isso se deve exclusivamente ao retrato fidelíssimo que a diretora Vera Egito faz da juventude contemporânea. Em seu filme de estreia como diretora, ela se diferencia da infinidade de filmes sobre adolescentes ao pegar uma faixa etária muito mais madura (os protagonistas já estão na casa dos 30 anos) e ao utilizar, como o próprio título indica, a questão urbana como elemento fundamental para todas as questões emocionais do roteiro, escrito pela própria Vera. Habitantes de uma São Paulo efervescente em histórias e oportunidades, mas também intimidante e excludente por conta de seu tamanho gigantesco, Júlia (Maria Laura Nogueira), Diego (Thiago Pethit) e Micaela (Renata Gaspar) pouco sabem o que estão fazendo da vida, seja na forma um tanto confusa como as relações se configuram nos dias de hoje, na compreensão deles próprios sobre suas personalidades e nos impulsos ou na indefinição de uma vida profissional cobrada cada vez mais cedo pela sociedade. É no turbilhão de tentar conciliar tudo isso e de encontrar um ponto de equilíbrio entre o que queremos fazer e que os outros esperam de nós que Amores Urbanos se revela um filme dramaticamente antenado e relevante. Pode ser que, na forma, a história não se esquive de estereótipos para chegar a determinadas discussões, mas o filme tem um tino tão grande sobre a geração em questão que fica fácil relevar seus caminhos fáceis.  

MINHA VIDA DE ABOBRINHA (Ma Vie de Courgette, 2016, de Claude Barras): Como não lamentar o fato do Oscar de melhor animação estar sempre reservado para produções Disney/Pixar? A mais recente vítima dessa sistemática preguiçosa dos votantes da Academia é Minha Vida de Abobrinha, a animação mais sincera e delicada que você verá em muito tempo. Partindo de uma premissa corajosa para o gênero (os dias de um garoto que, após perder a mãe em um acidente causado por ele próprio, passa a viver em um orfanato), o filme de Claude Barras já prometia uma imensidão de sutilezas somente por ter como roteirista a francesa Céline Sciamma, que dirigiu, com muita dignidade e humanidade, o ótimo Tomboy. E ela não desaponta em Minha Vida de Abobrinha: tratando de forma muito discreta, mas nem por isso rasteira, a identidade das crianças que foram parar no orfanato (algumas por terem pais abusivos, outras simplesmente por terem sido rejeitados ao nascimento), Sciamma extrai beleza da inusitada circunstância desse garoto que aprende o significado do amor justamente em um lugar habitado por crianças que não sabem o que é tal sentimento. De forma objetiva, Minha Vida de Abobrinha, que não chega a ter 70 minutos de duração, constrói dramas sem qualquer previsibilidade, além de fazer graça não com situações criadas exclusivamente para balancear o drama ou fisgar os pequenos, mas com a própria personalidade das crianças, todos únicas em suas características. É uma experiência emocionante e altamente expressiva, dos personagens feitos com massinha à maneira como lida com assuntos dificílimos, como o abandono infantil e a depressão.

TONI ERDMANN (idem, 2016, de Maren Ade): Poucas vezes fiquei tão ansioso com a ideia de Hollywood refilmar um filme de língua não-inglesa. Isso porque a versão estrelada por e a pedido de Jack Nicholson para Toni Erdmann pode reparar aquele que considero o maior problema do filme de Maren Ade: a quantidade expressiva de excessos. Demasiadamente longo tanto na metragem em si quanto na forma como o filme prolonga muitas de suas sequências, Toni Erdmann, em contrapartida, acerta na pegada curiosa que adota para tratar sobre o difícil relacionamento entre pai e filha. Obviamente, por abraçar tanto a comédia, o filme dividiu opiniões: há quem ache o resultado genial, enquanto outros chegam a dizer que é puro constrangimento. À parte identificações com o material cômico, é preciso compreender que é somente através dos absurdos dessa vertente que um sujeito como Winfried (Peter Simonischek) poderia se reaproximar de Ines (Sandra Hüller), uma filha bastante linha dura e avessa a diálogos. A química entre os dois atores é fantástica e muito de Toni Erdmann se sustenta em função da dupla, o que só aumenta a sensação de que, caso tivesse, no mínimo, meia hora a menos, essa comédia alemã poderia brilhar ainda mais em suas qualidades e resultar menos exaustiva. Se o remake já acumularia expectativas por finalmente trazer Jack Nicholson de volta e por dar um grande papel que parece cair como uma luva para Kristen Wiig, particularmente fico mais ansioso pela possibilidade da releitura aparar muitas arestas do filme original.

Fragmentado

The broken are the more evolved. Rejoice.

Direção: M. Night Shyamalan

Roteiro: M. Night Shyamalan

Elenco: Anya Taylor-Joy, James McAvoy, Betty Buckley, Haley Lu Richardson, Jessica Sula, Izzie Coffey, Brad William Henke, Sebastian Arcelus, Neal Huff, Robert Michael Kelly, M. Night Shyamalan

Split, EUA, 2016, Suspense, 117 minutos

Sinopse: Kevin (James McAvoy) possui 23 personalidades distintas e consegue alterná-las quimicamente em seu organismo apenas com a força do pensamento. Um dia, ele sequestra três adolescentes que encontra em um estacionamento. Vivendo em cativeiro, elas passam a conhecer as diferentes facetas de Kevin e precisam encontrar algum meio de escapar. (Adoro Cinema)

Se o diretor M. Night Shyamalan tem senso de humor e é tão inteligente quanto gosta de se proclamar, o título Fragmentado pode ser interpretado como uma referência a sua carreira de altos e baixos desde que ganhou o mundo e chegou a concorrer ao Oscar em seis categorias com o marcante O Sexto Sentido. Um dos cineastas mais mitológicos do início dos anos 2000, Shyamalan conquistou notoriedade internacional ao dirigir outras obras célebres como Corpo FechadoSinais, mas passou a despertar, de forma plenamente compreensível, a aversão do público naquela que é a derrocada artística mais lamentável já enfrentada por um diretor nas últimas décadas. O declínio não começou tão cedo como muitos apontam (A Vila, de 2004, é sim uma grande obra incompreendida), o que, claro, não amortece os crescentes fiascos criativos de Fim dos TemposO Último Mestre do Ar Depois da Terra. Já em 2015, com orçamento muito menor, escala de produção mais comedida e ambição criativa redimensionada, o diretor retorna com A Visita, filme que considero implausível em sua premissa mais básica, mas que, segundo a razoável recepção da crítica, injetava uma considerável dose de ânimo na carreira desse cineasta que parecia ter esgotado todo seu talento e desaprendido a construir suspenses minimamente instigantes.

Eis, então, a brincadeira que pode ser levantada a partir de uma suposta ironia do título Fragmentado: afinal, como é possível um diretor ter sido ao mesmo tempo tão inovador e desprezível ao longo de quase duas décadas prolíferas de trabalho? Pois a fragmentada carreira de Shyamalan tem tudo para, agora sim, ganhar novo gás: ao contrário de A Visita, Fragmentado apresenta muitos dos elementos que tornaram o cineasta um dos mais cultuados de sua geração. Dessa forma, mesmo que, em algumas passagens, faltem as sutilezas que tornaram, por exemplo, O Sexto Sentido uma aula sobre como esconder dos espectadores um segredo que esteve o tempo inteiro embaixo de seus narizes, é tempo de baixar a guarda: neste novo suspense estrelado por James McAvoy e pela revelação Anya Taylor-Joy, que estrelou o já marcante A Bruxa, Shyamalan, depois de muitos anos, cria uma experiência repleta de atmosfera e boas ideias. Talvez não seja a grande obra que todos esperam (é sempre assim: todos exigem o máximo de quem já fez o máximo, principalmente quando o profissional em questão tenta se reerguer de uma fase ruim), mas pense na hipótese: caso esse fosse o primeiro filme assinado pelo indiano, é bem provável que fosse reverenciado como a estreia promissora de um cineasta independente.

Com um cartaz que remonta a Corpo Fechado sem se limitar apenas a essa referência comercial (quem conhece a carreira do diretor encontrará, no filme, outras brincadeiras referentes ao filme de 2000 estrelado por Bruce Willis), Fragmentado volta a apresentar um Shyamalan que, antes de criar a atmosfera básica de um filme do gênero, pensa bastante no embasamento dramático de seus personagens e na situação em que eles estão inseridos, o que, vale lembrar, foi uma das fórmulas do sucesso de O Sexto Sentido, que sobrepunha o drama ao suspense. Ao criar uma trama centrada em personagens com distúrbios mentais ou ao menos assombrados por passados traumáticos – enquanto Kevin (James McAvoy) tem 23 personalidades distintas, Casey (Anya Taylor-Joy) é a jovem estranha de uma turma que ainda enfrenta os fantasmas de uma infância conturbada -, o roteiro, além de delinear com competência o estofo dramático individual dos protagonistas, converge para o caminho que torna o suspense de Fragmentado ainda mais envolvente: o processo de percepção de Casey acerca de como suas inadequações sociais, emocionais e semelhantes às de Kevin podem apontar para saída do cativeiro em que ele a mantém junto a outras duas colegas de escola.

Quando faltam sutilezas a Fragmentado é porque Shyamalan prefere criar, por exemplo, uma narrativa paralela de flashbacks para explicar o passado da jovem Casey ao invés de simplesmente trabalhá-lo a partir das interações estabelecidas por ela com as 23 personalidades do sequestrador. Além disso, são muito mais fascinantes as simbologias criadas dentro do cativeiro para falar sobre qualquer assunto, como o momento em que Casey, vindo de uma crescente esperança de fuga, se depara com um desenho feito pela personalidade infantil de Kevin. Metaforicamente, ali é revelada a lógica que a jovem precisa adotar para se desenvencilhar da situação: a saída não está, digamos, em uma janela, mas sim no poder da imaginação. Para não ambientar toda a trama de Fragmentado em um único lugar (isso exigiria um exercício muito mais complexo de roteiro, além de infinitas exigências do estúdio para comprar a ideia), o diretor expande sua história para o olhar de Karen Fletcher (Betty Buckley), a psiquiatra de Kevin. É uma forma de tornar a história mais dinâmica e, principalmente, de dar verossimilhança médica ao filme, que jamais se perde no grande número de facetas de Kevin (nem todas são de fato apresentadas na história) e introduz muito bem todo o processo interno do distúrbio mental em questão. O único defeito a ser levantado em relação a Fletcher é que, por mais que ela funcione como um personagem explicativo de vida própria (também são pinceladas informações sobre a vida da psiquiatra, que diz ter nos pacientes os filhos que preferiu não ter), Fragmentado se aproveita demais de sua figura para, no fim, tratá-la como uma coadjuvante qualquer. Fletcher merecia um desfecho mais condizente com seu tempo em cena e sua função narrativa.

Apoiando-se na imprevisibilidade de como é estar refém de um homem que, a qualquer momento, pode assumir até a personalidade de uma mulher para criar seu suspense, Fragmentado é mais do que um filme de sequestro porque compreende que o mérito desse tipo de história não está no sequestro ou na fuga em si, mas na relação entre sequestrado e sequestrador. No plano psicológico, Shyamalan leva seu mais novo trabalho a uma abordagem que, repleta de representações que merecem releituras, foge do lugar-comum e o livra de ter que cumprir o passo a passo de um filme do gênero. Beneficiados pelo retorno criativo de um diretor que parecia fadado a não acertar mais estão James McAvoy e Anya Taylor-Joy, ambos merecedores de elogios pontuais por suas interpretações. Ele, que assume um papel inicialmente destinado Joaquin Phoenix, tem aqui um dos grandes momentos de uma carreira já conhecida por bons papeis (O Último Rei da EscóciaDesejo e ReparaçãoDois Lados do Amor, os novos X-Men), onde seu maior é certo é nunca cair na caricatura e sempre tornar críveis cada uma das personalidades do protagonista. Já Anya confirma a presença forte que tinha em A Bruxa ao ultrapassar todas as leituras fáceis da jovem excluída e problemática que, no fundo, tem mais a oferecer do que qualquer uma de suas colegas supostamente mais bonitas e interessantes. É com uma construção muito climática (se atentem ao envolvente trabalho de West Dylan Thordson na trilha sonora!) que M. Night Shyamalan coloca tudo isso em uma mistura que, finalmente, podemos considerar a responsável por novamente fazer dele um cineasta interessante. Se a crítica não concordar, pelo menos a Universal pode comemorar com os bolsos cheios: Fragmentado, até a data de publicação desse texto, já faturou 28 vezes mais do que seu orçamento de 9 milhões de dólares.