Cinema e Argumento

Questão de Vida

ninelives

Questão de Vida, de Rodrigo García

Com Sissy Spacek, Glenn Close e Holly Hunter

3

Era pra ser apenas mais uma visita ao supermercado para Diana (Robin Wright Penn), mas ela encontrou um amor do passado (Jason Isaacs) que vai fazer um simples passeio se transformar em uma intensa jornada sentimental. Ruth (Sissy Spacek) vive um casamento desgastado, possui um caso extra-conjugal e sua filha (Amanda Seyfried) se vê obrigada a lidar com as frustrações dos pais. Sonia (Holly Hunter) é uma mulher muito simpática, mas quando seu marido revela um segredo dos dois para um casal de amigos, ela mostra um outro lado de sua personalidade. Maggie (Glenn Close) é uma pessoa solitária que só tem a filha (Dakota Fanning) como companhia.

Essas são apenas algumas das histórias que fazem parte de Questão de Vida, que podia muito bem ser um filme de Pedro Almodóvar, já que a temática trabalhada é essencialmente feminina. Dirigida por Rodrigo García (que dirigiu alguns episódios do seriado Six Feet Under), essa desconhecida produção é um conjunto de curtas (nove ao todo) com apenas uma característica em comum: o universo feminino. São diversas histórias intimistas sobre os sentimentos das mulheres. Elas são representadas de forma bem especiais por um notável elenco de estrelas. O destaque é de Robin Wright Penn, excepcional no melhor curta do filme.

Como são várias histórias unidas em uma só película, o resultado fica um pouco mal balanceado, mas o estranho é que as tramas não ficam mal trabalhadas. O que acontece é que na medida em que o tempo passa, o interesse pelo longa vai se dissolvendo e nada soa tão interessante como no início. Com certeza é um filme de arte para um público limitado. De qualquer forma, o maravilhoso elenco valida a espiada – mesmo que eles não estejam magníficos como os seus pesados nomes sugerem – e Questão de Vida acaba por ser, no mínimo, uma experiência interessante.

FILME: 7.5

Vicky Cristina Barcelona

Direção: Woody Allen

Elenco: Javier Bardem, Scarlett Johansson, Rebeca Hall, Penélope Cruz, Patricia Clarkson, Chris Messina.

EUA/Espanha, 2008, Comédia, 96 minutos, 14 anos.

Sinopse: Vicky (Rebecca Hall) e Cristina (Scarlet Johansson) são grandes amigas que estão em férias em Barcelona. Vicky procura ser sensata em relação ao amor e está noiva, enquanto que Cristina sempre busca uma nova paixão que possa virar sua cabeça. Um dia, em uma galeria de arte, elas conhecem Juan Antonio (Javier Bardem), um atraente pintor que teve um relacionamento problemático com sua ex, Maria Elena (Penélope Cruz). Ainda naquela noite, durante o jantar, Juan Antonio se aproxima da mesa em que Vicky e Cristina estão, fazendo-lhes a proposta de com ele viajar para Oviedo. Vicky inicialmente a rejeita, mas Cristina aceita de imediato e consegue convencer a amiga a acompanhá-la. É o início do relacionamento conturbado de ambas com Juan Antonio.

Repetindo uma estrutura já conhecida pelo seu público, Woody Allen mais uma vez consegue um resultado positivo justamente por causa isso. Os créditos não são só dele, uma vez que o elenco alcança notável qualidade em sua química.”

Woody Allen é o diretor que tem a carreira mais vasta quando estamos falando de filmes sobre relacionamentos. É a traição em Match Point, as desavenças familiares em O Sonho de Cassandra, o amor inesquecível em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa e a relação entre amantes de idades diferentes em Manhattan. Depois de certo tempo se falar abertamente sobre paixão, o excêntrico de óculos volta a tocar no assunto com Vicky Cristina Barcelona, rodado na bela Espanha. Mesmo quem não gosta do país deve admitir que as locações deram um tom muito especial para a história, que cria um notável clima iluminado para abranger a ciranda de amores que o filme apresenta. Não é a clichê Paris (exaustivamente explorada em filmes desse tipo), é um lugar mais interessante cinematograficamente falando.

No geral, Vicky Cristina Barcelona é mais um filme típico de Woody Allen. Desde o já conhecido estilo dos créditos de abertura até os diálogos cheios de citações inteligentes. Portanto, existem os prós e os contras quando digo que esse é mais um longa comum do diretor. Ao mesmo tempo em que temos um elenco totalmente em sintonia (algo muito decorrente na história de Allen), temos também a simples estrutura que ele imprime em suas histórias. Nada de muito novo, tudo muito simples e que já vimos antes. O tipo de longa que adivinharíamos de quem é mesmo sem sabermos o nome do diretor. Vicky Cristina Barcelona, define-se então como um filme pequeno e singelo, carente de características mais impressionantes.

Mesmo que seja uma produção simples num todo, tem a habilidade de conquistar a cada minuto. Quando não acerta no balanceamento das histórias (é fácil ver algumas ligeiras monotonias quando o roteiro muda de uma história que estava particularmente interessante para outra mais sem graça), tem o feito de contornar seus problemas com as atuações. Cada um tem sua característica em particular. Javier Bardem é tudo aquilo que as mulheres querem e que os homens gostariam de ser – inteligente, sedutor e meticuloso com suas atitudes. Scarlett Johansson é a beleza em pessoa. Rebeca Hall é a confusão de problemas, mas também a emocionalmente sedutora. A princípio somos apresentados a esses três personagens que formam uma química muito apropriada para esse estilo de filme. Até que a figura de Penélope Cruz entra em cena, conseguindo ser o ponto alto de Vicky Cristina Barcelona. É uma pena que ela demore a aparecer em cena e tenha participação limitada, mas ela literalmente rouba a cena em cada minuto. É de se constatar que Penélope parece ter melhorado exponencialmente sua carreira depois de Volver.

Vicky Cristina Barcelona quer mostrar que nem sempre os relacionamentos dão certo, mesmo aqueles que parecem ser certos (e, talvez, principalmente esses). Woody Allen já disse isso em diversos filmes e em diversas linguagens. Aqui não tem nada diferente. Mas o longa deixa uma lembrança bem carinhosa. Talvez pelas belas paisagens de Barcelona ou pela maravilhosa química entre os atores.  Vicky Cristina Barcelona vai causar muitas risadas, ainda que não seja uma história de relacionamentos bem sucedidos. O principal de tudo, afinal, é que o filme segue justamente aquilo que a personagem de Penélope Cruz diz: “Os relacionamentos não realizados são sempre mais românticos”. E por falar de histórias assim, Allen mais uma vez acertou.

FILME: 8.0

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007 – Quantum of Solace

Direção: Marc Forster

Elenco: Daniel Craig, Judi Dench, Mathieu Almaric, Olga Kurylenko, Jeffrey Wright, Giancarlo Gianinni

EUA, 2008, Ação, 107 minutos, 14 anos.

Sinopse: James Bond (Daniel Craig) e M (Judi Dench) realizam o interrogatório do sr. White (Jesper Christensen), responsável pelos eventos do filme anterior da série. Porém uma traição faz com que White seja morto. Para investigar o caso Bond parte rumo ao Haiti, onde conhece Camille (Olga Kurylenko), uma bela e perigosa mulher que possui ligações com Dominic Greene (Mathieu Amalric). Greene tem planos para a Bolívia, incluindo a deposição do atual governo, o que faz com que Bond entre em seu caminho.

James Bond continua com o mesmo formato que fez Cassino Royale virar sucesso, mas não soube se reinventar. O roteiro atrapalha e não consegue com que o filme flua como deveria, baixando a qualidade da série.”

É estranho constatar que, mesmo com tantos pontos mais fortes que o volume anterior, o novo filme de James Bond é muito inferior a Cassino Royale. Todavia, é fácil diagnosticar o erro de Quantum of Solace. Em primeira mão, o acusado seria o diretor Marc Forster, que até então só tinha produzido dramas que não tinham nenhuma conexão com o gênero de ação. O que faz com que essa seqüência seja até mesmo frustrante, é o roteiro pouco atraente, onde os fatos trabalhados não permitem que o filme decole. Quantum of Solace, portanto, resulta em uma aventura mais longa do que realmente é, carente de um fator essencial nas aventuras de James Bond – tensão. As facetas psicológicas que os personagens recebiam também desapareceram.

Se antes eu ainda tinha muita implicância com Daniel Craig – que, apesar de ser ideal para filmes de ação, não tem nada de 007 – agora eu já me acostumei com a sua presença. Novamente ele cumpre bem o seu papel e deve prosseguir durante um bom tempo como a estrela da série para a nova geração. O mesmo pode-se dizer de Judi Dench, ótima, cada vez mais com uma essência cômica. Com a saída de Eva Green (que, ao meu ver, era uma figura bela mas inexpressiva em Cassino Royale), entrou uma desconhecida chamada Olga Kurylenko, com beleza exótica e impecável para seu papel. O vilão da vez é Mathieu Almaric (o protagonista de O Escafandro e a Borboleta), com a perfeita expressão fria necessária, um ponto a ser muito ressaltado no longa.

Quantum of Solace pode até desapontar em seu conteúdo, ao menos consegue acertar em cheio na ação. Claramente temos grande influência de O Ultimato Bourne nesse setor (Bond corre por telhados, participa de corridas alucinantes de carro e luta corpo a corpo com muita violência), imprimindo toda aquela verossimilhança que o filme de Paul Greengrass conseguiu apresentar. O diretor Marc Forster acertou muito ao fazer isso, já que nesse setor o filme supera bastante o anterior. A ação está ali, competente e muito satisfatória. Além disso, é ajudada por outro excelente ponto, o sonoro. Tanto a mixagem/edição de som como a trilha sonora de David Arnold são exemplares.

É uma pena que um filme tão bem produzido soe tão desnecessário. É uma aventura bem feita, com locações em diversos pontos do mundo e competente na direção. Mas faltou história, uma trama que envolvesse mais o espectador. Sinto em dizer isso, mas Quantum Of Solace acaba e depois de alguns minutos você já esqueceu dele, pois é carente de momentos marcantes. Nem mesmo a nova canção-tema (a fraca Another Way To Die, interpretada por Alicia Keys e Jack White) fica na memória para se cantarolar. É verdade que James Bond se reinventou para as platéias atuais, mas suas continuações precisam ter o mesmo teor de novidade que o capítulo anterior. Fazer tudo às pressas pra se ganhar dinheiro nunca é uma boa jogada. Quantum Of Solace é, de certa forma, vítima dessa síndrome das continuações apressadas.

FILME: 7.0

3

Nação Fast Food

Nação Fast Food, de Richard Linklater

Com Greg Kinnear, Catalina Sandino Moreno e Paul Dano

2

Anos atrás, um certo diretor chamado Morgan Spurlock abriu os olhos do mundo para a verdadeira realidade das famosas fast foods em seu documentário indicado ao Oscar, Super Size Me – A Dieta do Palhaço. Agora o interessante diretor Richard Linklater (Antes do Amanhecer, Antes do Pôr-do-Sol e Escola de Rock) volta a tocar no tema com Nação Fast Food, que dá um tratamento mais dramático para o assunto. O projeto tem um grande número de estrelas como outro atrativo, desde jovens talentos (Paul Dano, de Pequena Miss Sunshine) até rostos mais conhecidos do público (Bruce Willis).

É uma pena que tudo seja desperdiçado de uma forma muito estranha no resultado final de nação Fast Food. Nada consegue dar ritmo para a história pobre, que não consegue decidir se aposta em um tom mais documental ou nas histórias que envolvem os personagens que tem a rede fast food em comum. O balanceamento irregular confere ao filme um tom muito estranho, que não atinge o espectador. É bem verdade que como produto informativo o trabalho de Linklater alcança níveis instigantes em alguns momentos – e isso está centrado na figura de Greg Kinnear que, aos poucos, vai descobrindo cada vez mais sobre a irregularidade dessa rede de alimentos – porém, peca por não ter nenhum conflito competente.

O elenco é uma pobreza sem fim, todos inexpressivos e sem qualquer presença maior na tela. Ninguém confere algum momento mais forte. Unido a isso, temos uma montagem mal resolvida, que não consegue alternar as histórias em uma boa constante. É decepcionante ver nomes talentosos em um projeto tão sem vida como esse, que até se torna um “soco no estômago”, mas não tem vida. Faltou cinema. Se for pra ver mais desse assunto de fast foods, é melhor ir na locadora e alugar novamente o Super Size Me – A Dieta do Palhaço. Com certeza não será tempo perdido como Nação Fast Food.

FILME: 5.0

Senhores do Crime

Senhores do Crime, de David Cronenberg

Com Naomi Watts, Viggo Mortensen e Vincent Cassel

3

Confesso que por alguma razão que desconheço, eu estava querendo fugir desse Senhores do Crime. O material de divulgação do longa não havia chamado a minha atenção e a sinopse também não. A única razão pela qual eu queria assistir o filme era pela presença da bela e talentosa Naomi Watts. Nem o diretor Cronenberg era um atrativo para mim, já que acho aquele Marcas da Violência um pouco superestimado (mas com certeza é superior a esse seu novo trabalho). Não tive repugnância a Senhores do Crime por causa do tom pesado como eu achei que ia ter. Imaginava uma obra muito mais violenta e difícil de se assistir.

Recebeu uma indicação ao Oscar de melhor ator para o desempenho de Viggo Mortensen (injustamente; apesar do trabalho corajoso, preferia muito mais que o Emile Hirsch fosse indicado, por exemplo) e teve repercussão tímida. A obra não é nada demais mesmo, com uma história simples, sem grandes surpresas. Dentro do que podia realizar com a interessante história, fez muito pouco. Ficou devendo um desenvolvimento mais envolvente. A boa trilha sonora de Howard Shore cria o bom clima russo e, junto com o satisfatório elenco, termina por ser o melhor que existe no linear Senhores do Crime.

FILME: 7.0