Cinema e Argumento

Madagascar 2

Direção: Eric Darnell e Tom McGrath

Com as vozes de Ben Stiller, Chris Rock, David Schwimmer, Sacha Baron Cohen, Bernie Mac, Alec Baldwin

EUA, 2008, Animação, 90 minutos, Livre.

Sinopse: Alex (Ben Stiller), Marty (Chris Rock), Melman (David Schwimmer), Gloria (Jada Pinkett Smith), rei Julien (Sacha Baron Cohen), Maurice (Cedric the Entertainer), os pingüins e os chimpanzés estão no longínquo litoral de Madagascar. Para deixar o local os pingüins consertam um velho avião de guerra, mas logo em seu 1º vôo ele cai. Isto faz com que os animais do zoológico de Nova York tenham que lidar, pela 1ª vez na vida, com espécies semelhantes a eles, só que habituadas à vida selvagem.

Madagacar 2 atinge o lugar comum e não consegue se diferenciar no gênero. Agrada o público infantil, mas deixa a desejar para o público mais crítico.”

Atualmente, é extremamente complicado ser uma animação. Não me refiro a questões financeiras – esse gênero sempre tem o seu público garantido, independente da produção – mas sim a questões de qualidade. Desenhos simples não funcionam mais, não como antigamente. A explicação para isso é óbvia e tem um nome: Pixar. Depois que a produtora aumentou potencialmente a qualidade de seus filmes, fica difícil para um cinéfilo entrar de cabeça em uma animação tão óbvia e comum como Madagascar 2.

A continuação dirigida por Eric Darnell e Tom McGrath agrada bastante as crianças (ao menos na sessão em que eu estava elas deram altas risadas), mas acho difícil que alguém com senso mais crítico curta tanto quanto elas. A razão é evidente – o longa é uma repetição do que já vimos nesse gênero. Aqui não faltam animais falantes, situações surreais, trapalhadas para causar graça, vilões caricatos e final feliz. Tudo temperado por um tom correto e sem maiores falhas.

O empecilho de Madagascar 2 é a sua obviedade. O roteiro não se preocupa em originalizar as tramas e simplesmente se aproveita do visual e dos personagens para suprir a falta de uma história mais consistente. Não vejo motivos para essa continuação ter sido feita, já que fica devendo bastante no quesito roteiro. De qualquer forma, apesar das irregularidas, Madagascar 2 tem algumas boas tiradas e personagens divertidos. Não é obrigatório uma animação ser da qualidade da Pixar. Basta não ser tão comum.

FILME: 6.0

25

O Segredo de Berlim

thegoodgerman

O Segredo de Berlim, de Steven Soderbergh

Com George Clooney, Cate Blanchett e Tobey Maguire

3

Alguns anos atrás os irmãos Coen resgataram o espírito noir em uma maravilhosa produção chamada O Homem Que Não Estava Lá. Steven Soderbergh tentou fazer algo desse tipo em O Segredo de Berlim, mas o resultado não foi tão produtivo. O que é estranho, pois o filme tem tudo pra dar certo. O visual preto e branco e a reconstituição de época já começam sendo o grande atrativo para os cinéfilos que apreciam filmes assim. Realmente, a fotografia é belíssima (e até merecia uma menção no Oscar) assim como os figurinos. O único aspecto técnico que desaponta é a trilha sonora do Thomas Newman. Ele, que é um excepcional compositor, não acertou o tom no seu trabalho. Mesmo que a parte musical esteja condizente com o filme, soou banal demais. O elenco não é lá grande coisa, mas ao menos realizam trabalhos adequados. George Clooney, que eu não acho que ser uma estrela mais notável, não conseguiria sustentar o filme sozinho – afinal, ele tem sempre a mesma cara. É por isso que Cate Blanchett tem um papel fundamental na história. Beleza e talento é algo que sempre combina com ela. E aqui não é diferente.

O que faz com que O Segredo de Berlim seja um filme esquecível e sem marcas é a insistência do diretor Soderbergh em querer imprimir no longa uma identidade cult. Identidade essa que apareceu naturalmente no já citado filme dos irmãos Coen. A reconstituição criada por O Segredo de Berlim é comum, assim como o roteiro que não tem maiores reviravoltas interessantes. Mas se ele não consegue ser original, tem a felicidade de não ser complicado; é claro e direto, sem discursos complexos ou tramas difíceis de serem acompanhadas. A boa notícia é que o filme funciona, mesmo com esses probleminhas que tanto dificultam a aceitação do longa no sentido de ele ser uma viagem um pouco mal sucedida no tempo. Tendo em vista que o longa poderia ser muito mais do que realmente é – especialmente por causa dos nomes envolvidos nos projetos – cabe ao espectador, então, não ser muito crítico com O Segredo de Berlim. Com isso, ele será uma boa diversão sofisticada.

FILME: 7.0

Queime Depois de Ler

Direção: Joel e Ethan Coen

Elenco: George Clooney, Frances McDormand, Brad Pitt, Tilda Swinton, John Malkovich, Richard Jenkins, J.K. Simmons, Dermot Mulroney

Burn After Reading, EUA, 2008, Comédia, 14 anos, 96 minutos.

Sinopse: Osbourne Cox (John Malkovich) é um analista que trabalha para a CIA. Ao chegar em uma reunião ultra-secreta ele descobre que foi demitido. Revoltado, ele resolve se dedicar à bebida e a escrever um livro de memórias. Katie (Tilda Swinton), sua esposa, fica espantada ao saber da demissão de Osbourne, mas logo deixa o assunto de lado por estar mais interessada em Harry Pfarrer (George Clooney), um investigador federal casado que é também seu amante. Paralelamente Linda Litzke (Frances McDormand), funcionária de uma rede de academias, faz planos para uma grande cirurgia plástica que deseja realizar. Ela tem em Chad Feldheimer (Brad Pitt), um professor da academia, seu melhor amigo. Até que um dia um CD perdido cai nas mãos de Linda e Chad, entregue por um faxineiro da academia. Ao perceberem que se trata de material confidencial, eles ligam para Osbourne Cox tentando conseguir dinheiro para evitar que seu conteúdo seja divulgado.


Os irmãos Coen abandonam maiores complexidades para desenvolver a comédia Queime Depois de Ler. O resultado é uma produção passageira e sem grandes resultados, mas que também pode ser satisfatória e divertida.

Chad (Brad Pitt) é um infantil personal trainer, Linda (Frances McDormand) é apenas uma mulher comum que quer desesperadamente fazer cirurgias plásticas. Quando um CD contendo informações confidenciais da CIA cai nas mãos deles, ambos enxergam uma oportunidade de ganhar uma boa quantia de dinheiro. O plano é simples – ligar para o dono do CD, exigir um pagamento, fazer a troca e pronto. Mas muitas coisas saem do controle e a simples idéia se transforma em uma sucessão de problemas inconseqüentes. Isso é uma característica narrativa já conhecida dos irmãos Coen (celebrados no Oscar desse ano com Onde Os Fracos Não Têm Vez): pegar uma história que tem problemas de fácil resolução e fazer com que tudo fuja do controle dos personagens. Isso aconteceu no estranho Fargo – Uma Comédia de Erros e agora acontece aqui em Queime Depois de Ler, que tem a graça de sua história nessa estrutura.

Todo mundo sabe que não é fácil definir os irmãos Coen. A filmografia deles é extremamente variada e algumas obras simplesmente não se encaixam em gênero algum (como classificar Fargo, por exemplo?). Queime Depois de Ler é outro exemplar de díficil ajuste – à primeira vista é uma comédia inteligente, mas também esconde alguns dramas e até mesmo certo suspense ao trabalhar os destinos dos personagens. O ponto positivo é que tal “mistura” de gêneros não atrapalha a aceitação do público perante o filme.  Mas existe o contra de ele ser do tipo ame ou odeie. Teremos aqueles que vão apreciar o humor divertido e teremos aqueles que vão se incomodar com a caricatura de alguns personagens e com as resoluções não muito convencionais.

A verdade é que não estamos diante de nenhuma maravilha, até porque é um filme menor dos diretores, mais pessoal e com nenhum objetivo de ser mais diferenciado. A produção parece ter sido planejada para ser uma diversão rápida e objetiva, sem qualquer enrolação. Tal afirmação pode ser feita baseada no roteiro, que constrói a trama de forma muito ágil e clara. Queime Depois de Ler não adota complexidades, é muito claro. Essa tática funciona durante boa parte do longa, mas logo que os créditos finais aparecem, também podemos concluir que não foi uma boa jogada. O filme é rápido demais, principalmente por causa da curta duração, e as resoluções são apressadas e não muito convincentes, já que só sabemos o que aconteceu com os personagens através de um diálogo.

A boa notícia é que o longa funciona. Cumpre muito bem a sua função de divertir – mesmo que o humor não seja muito original – criando situações apropriadas e trabalhando personagens bem interessantes. Quem fica com o melhor humor é Frances McDormand, que andava um pouco em falta nos últimos tempos. Mas Brad Pitt, George Clooney e John Malkovich também têm seus momentos. Minha única ressalva é Tilda Swinton, com o papel mais fraco e que desperdiça a ótima atriz. Realizado de forma descontraída, Queime Depois de Ler é uma produção agradável e satisfatória. Não vai mudar a vida de ninguém, mas quem disse que um filme precisa fazer isso pra ser satisfatório?

FILME: 8.0

35

Questão de Vida

ninelives

Questão de Vida, de Rodrigo García

Com Sissy Spacek, Glenn Close e Holly Hunter

3

Era pra ser apenas mais uma visita ao supermercado para Diana (Robin Wright Penn), mas ela encontrou um amor do passado (Jason Isaacs) que vai fazer um simples passeio se transformar em uma intensa jornada sentimental. Ruth (Sissy Spacek) vive um casamento desgastado, possui um caso extra-conjugal e sua filha (Amanda Seyfried) se vê obrigada a lidar com as frustrações dos pais. Sonia (Holly Hunter) é uma mulher muito simpática, mas quando seu marido revela um segredo dos dois para um casal de amigos, ela mostra um outro lado de sua personalidade. Maggie (Glenn Close) é uma pessoa solitária que só tem a filha (Dakota Fanning) como companhia.

Essas são apenas algumas das histórias que fazem parte de Questão de Vida, que podia muito bem ser um filme de Pedro Almodóvar, já que a temática trabalhada é essencialmente feminina. Dirigida por Rodrigo García (que dirigiu alguns episódios do seriado Six Feet Under), essa desconhecida produção é um conjunto de curtas (nove ao todo) com apenas uma característica em comum: o universo feminino. São diversas histórias intimistas sobre os sentimentos das mulheres. Elas são representadas de forma bem especiais por um notável elenco de estrelas. O destaque é de Robin Wright Penn, excepcional no melhor curta do filme.

Como são várias histórias unidas em uma só película, o resultado fica um pouco mal balanceado, mas o estranho é que as tramas não ficam mal trabalhadas. O que acontece é que na medida em que o tempo passa, o interesse pelo longa vai se dissolvendo e nada soa tão interessante como no início. Com certeza é um filme de arte para um público limitado. De qualquer forma, o maravilhoso elenco valida a espiada – mesmo que eles não estejam magníficos como os seus pesados nomes sugerem – e Questão de Vida acaba por ser, no mínimo, uma experiência interessante.

FILME: 7.5

Vicky Cristina Barcelona

Direção: Woody Allen

Elenco: Javier Bardem, Scarlett Johansson, Rebeca Hall, Penélope Cruz, Patricia Clarkson, Chris Messina.

EUA/Espanha, 2008, Comédia, 96 minutos, 14 anos.

Sinopse: Vicky (Rebecca Hall) e Cristina (Scarlet Johansson) são grandes amigas que estão em férias em Barcelona. Vicky procura ser sensata em relação ao amor e está noiva, enquanto que Cristina sempre busca uma nova paixão que possa virar sua cabeça. Um dia, em uma galeria de arte, elas conhecem Juan Antonio (Javier Bardem), um atraente pintor que teve um relacionamento problemático com sua ex, Maria Elena (Penélope Cruz). Ainda naquela noite, durante o jantar, Juan Antonio se aproxima da mesa em que Vicky e Cristina estão, fazendo-lhes a proposta de com ele viajar para Oviedo. Vicky inicialmente a rejeita, mas Cristina aceita de imediato e consegue convencer a amiga a acompanhá-la. É o início do relacionamento conturbado de ambas com Juan Antonio.

Repetindo uma estrutura já conhecida pelo seu público, Woody Allen mais uma vez consegue um resultado positivo justamente por causa isso. Os créditos não são só dele, uma vez que o elenco alcança notável qualidade em sua química.”

Woody Allen é o diretor que tem a carreira mais vasta quando estamos falando de filmes sobre relacionamentos. É a traição em Match Point, as desavenças familiares em O Sonho de Cassandra, o amor inesquecível em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa e a relação entre amantes de idades diferentes em Manhattan. Depois de certo tempo se falar abertamente sobre paixão, o excêntrico de óculos volta a tocar no assunto com Vicky Cristina Barcelona, rodado na bela Espanha. Mesmo quem não gosta do país deve admitir que as locações deram um tom muito especial para a história, que cria um notável clima iluminado para abranger a ciranda de amores que o filme apresenta. Não é a clichê Paris (exaustivamente explorada em filmes desse tipo), é um lugar mais interessante cinematograficamente falando.

No geral, Vicky Cristina Barcelona é mais um filme típico de Woody Allen. Desde o já conhecido estilo dos créditos de abertura até os diálogos cheios de citações inteligentes. Portanto, existem os prós e os contras quando digo que esse é mais um longa comum do diretor. Ao mesmo tempo em que temos um elenco totalmente em sintonia (algo muito decorrente na história de Allen), temos também a simples estrutura que ele imprime em suas histórias. Nada de muito novo, tudo muito simples e que já vimos antes. O tipo de longa que adivinharíamos de quem é mesmo sem sabermos o nome do diretor. Vicky Cristina Barcelona, define-se então como um filme pequeno e singelo, carente de características mais impressionantes.

Mesmo que seja uma produção simples num todo, tem a habilidade de conquistar a cada minuto. Quando não acerta no balanceamento das histórias (é fácil ver algumas ligeiras monotonias quando o roteiro muda de uma história que estava particularmente interessante para outra mais sem graça), tem o feito de contornar seus problemas com as atuações. Cada um tem sua característica em particular. Javier Bardem é tudo aquilo que as mulheres querem e que os homens gostariam de ser – inteligente, sedutor e meticuloso com suas atitudes. Scarlett Johansson é a beleza em pessoa. Rebeca Hall é a confusão de problemas, mas também a emocionalmente sedutora. A princípio somos apresentados a esses três personagens que formam uma química muito apropriada para esse estilo de filme. Até que a figura de Penélope Cruz entra em cena, conseguindo ser o ponto alto de Vicky Cristina Barcelona. É uma pena que ela demore a aparecer em cena e tenha participação limitada, mas ela literalmente rouba a cena em cada minuto. É de se constatar que Penélope parece ter melhorado exponencialmente sua carreira depois de Volver.

Vicky Cristina Barcelona quer mostrar que nem sempre os relacionamentos dão certo, mesmo aqueles que parecem ser certos (e, talvez, principalmente esses). Woody Allen já disse isso em diversos filmes e em diversas linguagens. Aqui não tem nada diferente. Mas o longa deixa uma lembrança bem carinhosa. Talvez pelas belas paisagens de Barcelona ou pela maravilhosa química entre os atores.  Vicky Cristina Barcelona vai causar muitas risadas, ainda que não seja uma história de relacionamentos bem sucedidos. O principal de tudo, afinal, é que o filme segue justamente aquilo que a personagem de Penélope Cruz diz: “Os relacionamentos não realizados são sempre mais românticos”. E por falar de histórias assim, Allen mais uma vez acertou.

FILME: 8.0

35