Cinema e Argumento

Gato de Botas

I’m not a person. I’m not a bird. I’m not even a food. I don’t know what I am.

Direção: Chris Miller

Com as vozes de: Antonio Banderas, Salma Hayek, Zach Galifianakis, Billy Bob Thornton, Amy Sedaris, Constance Marie, Guillermo Del Toro, Mike Mitchell

Puss in Boots, EUA, 2011, Animação, 90 minutos

Sinopse: Muito antes de conhecer o ogro Shrek e sua turma, Gato de Botas (Antonio Banderas) viveu uma grande aventura ao lado de Humpty Dumpty (Zach Galifianakis) e Kitty Pata Mansa (Salma Hayek). Dipostos a roubar os feijões mágicos do casal fora da lei Jack (Billy Bob Thornton) e Jill (Amy Sedaris), o trio quer mesmo é botar as mãos na famosa gansa que bota ovos de ouro. Mas algumas coisas não estavam nos planos e Gato vai descobrir, meio atrasado, que tem um grande problema pela frente para conseguir limpar o que ficou para trás: a  sua honra. (Adoro Cinema)

Em Shrek 2, maravilhosa continuação do superestimado filme que deu início ao mundo do ogro-título, o Gato de Botas entrou em cena e roubou todas as atenções. Além de tirar o posto do Burro de animal falante mais divertido da série, tornou-se também um dos personagens mais marcantes das animações contemporâneas. O felino, antes de seus encantadores olhos, é uma figura divertida e muito carismática. Shrek fracassou em seus dois últimos filmes e o diretor Chris Miller resolveu fazer um longa-metragem inteiramente dedicado ao Gato de Botas. Por um lado, a ideia era boa, já que o personagem, com o passar dos filmes, estava cada vez mais subaproveitado. Por outro, despertava a dúvida: seria ele capaz de sustentar sozinho um filme? A boa notícia é que Gato de Botas, indicado ao Oscar 2012 de melhor animação, é superior aos últimos filmes de Shrek. E, sim, o simpático animal conseguiu segurar as pontas.

Gato de Botas nunca prometeu ser um grande filme. E, de fato, não é. O trabalho do diretor Chris Miller, entretanto, tem todos os ingredientes para alcançar o grande público – principalmente quando a Pixar parece um pouco perdida em sua identidade. Aqui, a aventura é bem pontuada (notem como ela está presente em boa parte do enredo), a comédia é leve e tudo está longe de ter maiores pretensões. Gato de Botas é, por assim dizer, uma animação que cumpre a sua missão de divertir o público-alvo e, também, de deixar pequenas lições de morais que podem ser facilmente percebidas pelos pequenos. Importante notar ainda que, em nenhum momento, o longa deixa a impressão de ser uma variação de Shrek. Aqui, o resultado tem vida própria, mostrando que, talvez, o felino precisasse mesmo de um longa que explorasse todos seus atrativos que, no final das contas, estavam sendo diluídos na história do ogro.

Dublado por Antonio Banderas e Salma Hayek (mais uma vez juntos, depois de parcerias como Era Uma Vez no México), Gato de Botas só não se torna superlativo ou uma unanimidade em função de sua história boba e que não parece consistente o bastante para sustentar o ritmo proposto pelo diretor. Ao invés de apostar em algo mais realista e humano (que está presente nos valores e nas relações que o Gato estabelece com outros personagens), o filme aposta em uma proposta fantasiosa demais e que não condiz com o personagem. Em Shrek até funcionaria, mas não aqui. E Gato de Botas, ao falar de feijões mágicos, animais gigantes e ovos de ouro, fugiu um pouco das origens de seu personagem – tornando o resultado mais frágil do que deveria ser. Por sorte, a animação nunca perde o ritmo e mostra que, apesar de alguns tropeços, o spin-off do felino foi válido. Consegue divertir – e, para esse caso, já é o suficiente.

FILME: 7.5

O Artista

Direção: Michel Hazanavicius

Elenco: Jean Dujardin, Bérénice Bejo, John Goodman, James Cromwell, Missi Pyle, Penelope Ann Miller, Joel Murray, Beth Grant, Bitsie Tulloch

The Artist, França/Bélgica, 2011, Comédia Dramática, 100 minutos

Sinopse: Na Hollywood de 1927, o astro do cinema mudo George Valentin (Jean Dujardin) começa a temer se a chegada do cinema falado fará com que ele perca espaço e acabe caindo no esquecimento. Enquanto isso, a bela Peppy Miller (Bérénice Bejo), jovem dançarina por quem ele se sente atraído, recebe uma oportunidade e tanto para traballhar no segmento. Será o fim de sua carreira e de uma paixão? (Adoro Cinema)

Cinema é feito de sensações. E, para cinéfilos de carteirinha, elas são ainda mais valiosas quando se originam, justamente, de homenagens ao próprio cinema. No início de 2012, pelo menos dois títulos que seguem essa linha chegam às salas brasileiras. Se Martin Scorsese faz tributo a Georges Méliès, um dos precursores da sétima arte, em A Invenção de Hugo Cabret, o francês Michel Hazanavicius revive um formato extinto há várias décadas: o cinema mudo. Pelo resultado alcançado em O Artista, Hazanavicius roda o mundo e coleciona prêmios, com todos os méritos por essa nostálgica homenagem. Mas até que ponto O Artista pode ser considerado um grande filme?

Ao longo de 100 minutos, o longa traz todas as características desse formato que foi representado por gênios como Charlie Chaplin: personagens e situações carismáticas, humor inocente e, claro, doses de drama e romance. Ao reviver esse tipo de cinema, o diretor consegue dar para os cinéfilos da nova geração a oportunidade de conferir, nas telas de cinema, algo que não é feito mais feito por qualquer indústria. Ou seja, Hazanavicius proporciona uma verdadeira viagem no tempo. É uma experiência gratificante para qualquer um que estiver disposto a embarcar na história – e, nisso, podemos incluir, também, o público que cresceu assistindo aos trabalhos mudos e que, hoje, só ficam com eles na memória. Por esse presente nostálgico, O Artista merece muitos aplausos.

Aqui, os atores Jean Dujardin e Bérénice Bejo deixam bem claro que entraram de corpo e alma no clima proposto pelo diretor. Eles, em interpretações impecáveis, mostram que certos tipos de histórias são imortais. São dois atores que fazem jus a essa homenagem e que conseguem transparecer grande verossimilhança. Aliás, essa é uma forte característica de O Artista: nada parece forçado ou artificial. O filme está longe de ser oportunista. Muito pelo contrário. O resultado final transparece a vontade da equipe de fazer uma ode ao cinema, ao jeito simples de contar uma história. Nesse sentido, a eficiente trilha de Ludovic Bource também cumpre sua missão com perfeição, tornando a experiência ainda mais valiosa. É verdade, estamos diante de um legítimo filme mudo e preto-e-branco. Nada de pretensões.

Só que, se formos pensar pela lógica, O Artista, ao ser milimetricamente parecido com um filme do estilo, parece solto no tempo. Ao final, fica a sensação de que ele simplesmente foi teletransportado, por exemplo, dos anos 1920 para 2012 (excetuando, claro, a temática discutida nele). Não existe, nesse trabalho, uma narrativa diferente que possa atrair um novo público ou que deixe a experiência mais, digamos, contemporânea. O Artista é, assim, extremamente segmentado. E esse era um problema que Hazanavicius deveria ter superado: o de não limitar o filme a quem tem bom nível de conhecimento em cinema. Desse jeito, teria evitado a péssima repercussão nos cinemas (a bilheteria foi fraquíssima), a demora em conseguir distribuição em outros países, e, acima de tudo, o preconceito. Por mais que arrecade todos os prêmios do mundo, O Artista sempre será visto com certo desânimo pelas novas plateias.

O pior ainda é o fato de que, infelizmente, o filme está fadado ao esquecimento, já que o gênero não será ressuscitado. Ao contrário do musical e do western, que receberam em Moulin Rouge! – Amor em VermelhoOs Imperdoáveis, respectivamente, novas chances com o público contemporâneo, o cinema mudo receberá retrato exclusivo em O Artista. Não terá sobrevida. Sem comparações com tempo e circunstâncias, O Artista é bem sucedido em todos os pontos de vista. Já com a perspectiva do ano em que vivemos, talvez não seja esse estouro todo que apontam – até porque a história não tem absolutamente nada de novo (a transição do cinema mudo para o cinema falado, através da perspectiva de um astro que não sobrevive a essa novidade, já foi mostrada antes). Será que só reproduzir um estilo extinto basta? Uma discussão complexa e que deve servir de pano de fundo para esse longa que, de forma extraordinária ou não, atinge a sua proposta. Isso não podemos negar.

FILME: 8.0

O Homem Que Mudou o Jogo

You think losing is fun?

Direção: Bennett Miller

Elenco: Brad Pitt, Jonah Hill, Philip Seymour Hoffman, Robin Wright, Chris Pratt, Stephen Bishop, Brent Jennings, Ken Medlock, Tammy Blanchard

Moneyball, EUA, 2011, Drama, 133 minutos

Sinopse: Billy Beane (Brad Pitt) falhou na sua tentativa em ser jogador de beisebol. Agora, ele é o gerente do time Oakland A’s, que está na última colocação do campeonato. Determinado a reverter essa desesperançosa situação, Billy toma medidas arriscadas e que não conquistam a simpatia de toda a equipe. Com a ajuda de Peter Brant (Jonah Hill), um economista que o ajuda a administrar as escolhas da equipe baseada em estatísticas de computador, ele decide provar que nem sempre o beisebol é um jogo de cartas marcadas.

Dos Estados Unidos para os Estados Unidos. Assim é O Homem Que Mudou o Jogo, do diretor Bennett Miller, cujo último trabalho no cinema foi há cinco anos, com o bem sucedido Capote. Agora, ao contrário de seu longa anterior, Miller realiza um filme bem limitado, em função, claro, de sua temática: beisebol. Enraizado na cultura estado-unidense, o esporte não é particularmente interessante (e o cinema nunca fez muita questão de explicar como ele funciona), mas é sucesso inquestionável na terra do tio Sam. Assim, O Homem Que Mudou o Jogo é extremamente segmentado por contar uma história local e que dificilmente consegue empolgar quem não é familiarizado com beisebol. Complicando a situação, o enredo também é baseado em fatos reais (incluindo times, jogadores, etc), o que destina ainda mais o seu conteúdo ao público estado-unidense.

O Homem Que Mudou o Jogo não reverte a situação: beisebol continua sendo um esporte sem atrativos e, pelo menos através do filme, o público continua sem entender a lógica do esporte, confirmando a ideia do diretor de falar com um público específico. Por sorte, ele não está tão interessado em mostrar partidas de beisebol, mas sim em fazer um retrato de como funcionam os bastidores, desde a negociação de atletas até a importância de não supervalorizar alguém só por causa de um nome famoso. E O Homem Que Mudou o Jogo, título brasileiro explicativo demais, constrói sua trama a partir dessa proposta: a de mostrar como Billy Beane (Brad Pitt) conseguiu reverter a desesperançosa situação do time Oakland A’s, último colocado do campeonato, somente agindo pelos bastidores – seja na negociação jogadores ou persuadindo colegas a abraçar medidas ousadas para alcançar o sucesso.

Limitado na temática mas não tanto na forma como apresenta os dilemas dos personagens, o novo trabalho de Bennett Miller consegue manter bom resultado mesmo sendo tão segmentado. O principal problema do filme (mais do que seu assunto) é a duração. Claramente repetitivo em diversas passagens, O Homem Que Mudou o Jogo precisava de uma narrativa mais enxuta e que conseguisse resumir tantas situações semelhantes. Com isso, teríamos não só um filme mais instigante do ponto de vista da batalha do protagonista para salvar seu time, mas também um melhor aproveitamento de questões que se perdem ao longo de várias repetições, como o relacionamento do protagonista com a filha (todas as cenas com a menina são especiais, dignas de mais destaque) e sua carreira fracassada como jogador. No final, não é só o beisebol que impede o filme de ser empolgante, mas também o modo como demora tanto para contar fatos que poderiam ser mais objetivos.

FILME: 7.5

Millennium – Os Homens Que Não Amavam as Mulheres

The most detestable collection of people that you will ever meet: my family. 

Direção: David Fincher

Elenco: Daniel Craig, Rooney Mara, Christopher Plummer, Robin Wright, Joely Richardson, Stellan Skarsgård, Steven Berkoff, Goran Visnjic

The Girl With the Dragon Tattoo, EUA/Inglaterra, 2011, Drama, 148 minutos

Sinopse: Harriet Vanger (Moa Garpendal) desapareceu há 36 anos, sem deixar pistas, em uma ilha no norte da Suécia. O local é de propriedade exclusiva da família Vanger, que o torna inacessível para a grande maioria das pessoas. A polícia jamais conseguiu descobrir o que aconteceu com a jovem, que tinha 16 anos na época do sumiço. Mesmo após tanto tempo, seu tio Henrik Vanger (Christopher Plummer) ainda está à procura e decide contratar Mikael Bomkvist (Daniel Craig), um jornalista investigativo que trabalha na revista Millennium. Bomkvist, que não está em um bom momento por enfrentar um processo por calúnia e difamação, resolve aceita a proposta e começa a trabalhar no caso. Para isso, ele vai contar com a ajuda de Lisbeth Salander (Rooney Mara), uma investigadora particular incontrolável e anti social. (Adoro Cinema)

É necessário gostar de histórias frias e racionais para apreciar os trabalhos do diretor David Fincher. Até mesmo o seu filme mais humano, O Curioso Caso de Benjamin Button, não vai além por perder tempo demais em histórias que pouco acrescentam ao dilema que deveria ser o norte da produção. Fincher, como bom cineasta calculista, sempre faz um bom trabalho com montagem e fotografia, mas, para certos gostos, é gélido e distante demais. O que é verdade: difícil entrar de corpo e alma nos seus trabalhos, que parecem apenas convidar o espectador a observar e não a participar de um enredo. Após o cultuado A Rede Social, Fincher resolveu apostar na refilmagem do filme sueco Os Homens Que Não Amavam as Mulheres. De acordo com ele, já tinha pensado nesse remake há muito tempo, antes do original fazer sucesso. Verdade ou não, a sensação que o novo trabalho dele deixa é muito simples: mais das habituais características do diretor.

Como Fincher tem seus fãs irredutíveis, será fácil encontrar quem defenda com unhas e dentes Millennium – Os Homens Que Não Amavam as Mulheres. E, claro, se levarmos em consideração todos os aspectos positivos da carreira do diretor que sempre lhe deram sucesso, o filme estrelado por Daniel Craig e Rooney Mara termina com saldo bem positivo. O problema é, justamente, ser baseado em um material recente que já tinha relativo sucesso. Para o espectador que não conferiu o original sueco, Millennium não consegue deixar tanta curiosidade para conferir o longa que deu origem a tudo isso. Pelo que dizem, Fincher melhorou bastante o enredo. Portanto, se o que vemos em Millennium é uma versão melhorada, então, a história não deve ser lá grande coisa mesmo.

Não são frequentes os remakes excepcionais, principalmente quando eles são de filmes estrangeiros tão recentes (Deixe-me EntrarQuarentena), mas com certeza esse será defendido até o fim dos tempos por, justamente, ser um filme de David Fincher. O fato é que, analisando Millennium de forma isolada, o resultado não empolga. A abertura (fantástica, mas, convenhamos, avulsa) dá a entender que o filme terá um ritmo mais frenético e pesado – algo que, posteriormente, só iria se refletir nas fortes cenas da atriz Rooney Mara e mais para o final, em um momento de Daniel Craig e Stelan Skarsgård. Porém, Millennium dá muitas voltas para solucionar um mistério que termina sem grandes surpresas. São 160 minutos de um filme que não é particularmente acessível (as poucas e incômodas cenas de violência podem afastar os estômagos mais fracos) e que, claramente, é dirigido aos fãs do diretor.

Millennium tem sim os seu méritos. E o elenco é um deles. Enquanto Rooney Mara e Daniel Craig fazem uma boa dupla, os coadjuvantes Christopher Plummer e Stellan Skarsgård também merecem destaque. No sentido de transmitir toda a frieza das locações e, claro, do clima da história, Fincher também acerta. A montagem e a fotografia também estão ali para ajudar nesse sentido. Por fim, Millennium é um filme de serial killer que tem uma trama bem contada e que desenvolve tudo com a habitual precisão de seu diretor, que parece comandar tudo com uma cartilha embaixo do braço. Já para o público que precisa de uma história com mais emoção e envolvimento, fica devendo.

FILME: 7.0

Guerreiro

I think I liked you better when you were a drunk. 

Direção: Gavin O’Connor

Elenco: Tom Hardy, Joel Edgerton, Nick Nolte, Jennifer Morrison, Frank Grillo, Kevin Dunn, Jake McLaughlin, Vanessa Martinez, Carlos Miranda

Warrior, EUA, 2011, Drama, 140 minutos

Sinopse: Tommy Conlon (Tom Hardy) é o filho mais novo de Paddy (Nick Nolte) e voltou há pouco tempo para casa. Tommy supera os problemas do pai com bebida e passa a treinar com ele para poder participar de campeonatos de MMA (Mixed Martial Arts), o famoso vale-tudo. Só que sua trajetória faz com que tenha que enfrentar no ringue Brendan Conlon (Joel Edgerton), seu próprio irmão.  (Adoro Cinema)

Um pequeno grande filme. É assim que podemos definir o surpreendente Guerreiro, que ficou ausente nos cinemas brasileiros e que, agora, já está disponível para locação. É um notável trabalho do diretor Gavin O’Connor, cujo filme mais relevante até então era Livre Para Amar, que rendeu uma indicação ao Oscar para a atriz Janet McTeer. Nesse seu novo longa, estrelado por Tom Hardy e Joel Edgerton, O’Connor apresenta um resultado completo, misturando, de forma envolvente, esporte, dramas familiares e muita emoção. A luta, que serve como guia para o desenvolvimento dos personagens, nunca havia sido retratada de forma tão contundente nos últimos tempos – pelo menos não desde o ano em que Clint Eastwood fez Menina de Ouro.

Guerreiro segue dois tipos de história. A primeira é aquela que envolve os conflitos familiares: o pai ex-alcoólatra que tenta se redimir dos erros do passado, o filho que foi embora e viu a mãe morrer e o caçula que ficou tentando constituir uma família. A segunda é a que encena o campeonato de MMA (Mixed Martial Arts), onde os dois irmãos, por circunstâncias e necessidades diferentes, decidem competir. E o roteiro consegue ser certeiro em ambas abordagens: nos difíceis relacionamentos familiares, nunca cai no previsível (ainda que não sejam nada originais, os dilemas são verossímeis e sem exageros do ponto de vista dramático); no esporte, consegue empolgar e emocionar, envolvendo o espectador em cada segundo dos confrontos.

O que se pode constatar é que Guerreiro, além de bem sucedido do ponto de vista narrativo, também consegue grande resultado na parte técnica. A montagem, dinâmica e muito bem finalizada nas tomadas de luta, ainda estrutura com precisão o destaque de cada personagem – principalmente porque os dois irmãos possuem personalidades completamente diferentes e, caso não fossem apresentados da devida maneira, o filme poderia vilanizar um e inocentar outro – e isso está longe de acontecer. Da forma como Guerreiro foi concluído, não conseguimos culpar ninguém. Vemos, em cada personagem, seres humanos cheios de falhas, tristezas e, por que não, esperanças. É o retrato de uma família desmantelada pelo tempo. O filme explora bem isso, seja quando aposta no estilo mais óbvio de dramaturgia ou quando resolve utilizar a luta como metáfora.

Essa sucessão de acertos de Guerreiro só melhora nas mãos do elenco. Tom Hardy que, nas cenas de confronto físico, parece possuído (o que evidencia a brutalidade descontrolada de um personagem agressivo não só fisicamente e que nunca baixa a guarda), começa como um tipo antipático, mas que, aos poucos, ganha pelo menos o entendimento do espectador. O contraponto de Hardy é interpretado com notável sinceridade por Joel Edgerton – um ator que explora bastante as fragilidades emocionais de seu personagem, mesmo que nunca deixe de mostrar a força que o mesmo possui. Não bastasse a excelente dupla de protagonistas, eis que surge o coadjuvante Nick Nolte com um trabalho superlativo, onde deixa todos com um impasse: hoje, ele parece o mais interessado dos pais, mas, na realidade, pecou muito no passado (com fatos que nunca são – e nem precisam – ser detalhados). Afinal, ele merece uma segunda chance? Questionamentos e emoções que Nolte dramatiza com pura excelência.

Guerreiro comete algumas bobeiras aqui ou ali no que diz respeito ao lugar-comum. Em certos momentos, fica evidente a superficialidade de certas cenas (como a fácil resolução que um personagem apresenta para que o outro se motive a lutar). Sorte que tudo passa batido. São detalhes que não alteram em nada o surpreendente trabalho do diretor Gavin O’Connor. É um filme de luta que não segmenta sua temática. É um drama familiar que não cai no clichê. Guerreiro, que, em certo ponto, parece tomar rumos previsíveis, sempre escapa da banalidade. E não existe momento mais simbólico que a cena final. Nela, ao som de About Today, do The National, o filme resume todas as suas mensagns: a necessidade do perdão, o valor de uma segunda chance, o amor incondicional, a hora de deixar o passado de lado. Os créditos finais chegam, você absorveu tudo isso, conseguiu se emocionar diversas vezes e, claro, terminou com a certeza de que assistiu a um filme surpreendente.

FILME: 9.0

NA PREMIAÇÃO 2012 DO CINEMA E ARGUMENTO: