Cinema e Argumento

O que passou…

COMPRAMOS UM ZOOLÓGICO (We Bought a Zoo, 2011, de Cameron Crowe): É quase incompreensível o fato de que o Cameron Crowe de Quase Famosos tenha feito esse Compramos um Zoológico. Não que o filme seja ruim, mas era de se esperar, no mínimo, algum tipo de inspiração nessa história que já tem uma proposta completamente inexpressiva. Só que não existe um momento especial ou sequer diferente nesse longa-metragem que é a cara da Sessão da Tarde: um pai que precisa cuidar dos filhos depois de perder a esposa, recomeço em um lugar distante de casa, amor e diversão com animais, etc. Se a sempre insossa Scarlett Johansson já não ajuda (aliás, faz horas que ela parece ter esquecido o que é atuar com vigor), a direção de Crowe e o roteiro também não fazem muita questão de sair do lugar-comum. Não chega nem a ser um produtor para crianças (o humor é extremamente discreto para elas) e nem um drama para os interessados no gênero (os dilemas são rasos demais). Inofensivo, mas previsível e indiferente do início ao fim. 6.0/10

ENCURRALADO (Duel, 1971, de Steven Spielberg): Não sei se é por se tratar de um Spielberg em início de carreira que todos citam Encurralado como referência e até mesmo como uma grande obra… Às vezes, tenho essa sensação de que só por se tratar de um filme antigo de um diretor já conceituado o público gosta de procurar perfeição onde não tem. De tanto que elogiaram Encurralado, fui assisti-lo cheio de expectativas. E, como diz aquele velho ditado, a expectativa é a mãe da decepção. Esse que é um dos primeiros longas de Steven Spielberg nada mais é do que um interessante e original jogo de gato-e-rato na estrada, onde, realmente, o suspense é eficiente. Só que, em um panorama geral, Encurralado não passa de um breve entretenimento: a misteriosa identidade do motorista do caminhão sai do nada para chegar a lugar nenhum e o desfecho parece simples demais para o suspense que havia criado em torno daquela perseguição. De qualquer forma, é um experimento diferente – só não deveria ser enaltecido com esse entusiasmo exacerbado. 7.5/10

SETEMBRO (September, 1987, de Woody Allen): Setembro faz parte de uma ala muito subestimada da carreira de Woody Allen: aquela puramente dramática, cheia de complexidades e personagens insatisfeitos. A exemplo de Interiores, o filme foi rejeitado pelos fãs do diretor. Difícil entender o porquê. Não sei se a maioria precisa ver sempre um Woody Allen engraçado e que só traz reflexões em piadas, mas deveriam dar uma chance para esse lado do diretor que consegue ser tão eficiente quanto tantas outras obras de sucesso criadas por ele. Aqui, acompanhamos vários personagens confinados em uma casa, onde passam as férias de verão. Entre amores improváveis e relações familiares complicadas, o roteiro fala sobre os mais variados assuntos sem nunca perder a habitual inteligência de Allen. Não é superlativo como Interiores, mas está longe de decepcionar dentro de sua proposta e, como muitos apontam, pode muito bem ser comparado ao estilo de Bergman. 8.0/10

TIROS NA BROADWAY (Bullets Over Broadway, 1994, de Woody Allen): Defendo filmes de Woody Allen como InterioresSetembro porque mais da metade de seus filmes parece ter a mesma cara. É o caso de Tiros na Broadway, onde o diretor e roteirista deixa, pela milésima vez, a sensação de que fez simplesmente uma variação de outros trabalhos de sua carreira. Nada de novo nessa história sobre os bastidores do teatro que, inclusive, deu uma nova indicação ao Oscar de melhor diretor para Allen e que consagrou Dianne Wiest como melhor atriz coadjuvante pela segunda vez. Em Tiros na Broadway, encontramos vários elementos de um clássico filme de Allen, desde o protagonista que faz, claramente, uma referência à figura do diretor, diálogos rápidos e uma trama com personagens irreverentes. Só que, como já dito, é mais uma comédia “clássica” de Woody Allen. E, dependendo do humor do espectador, isso pode não ser o bastante para cativar. 7.0/10

TYRANNOSAUR (2011, de Paddy Considine): Meryl Streep sabe das coisas. Ela elogiou e pediu filmes para Viola Davis quando todos recém estavam a conhecendo por seu papel coadjuvante em Dúvida. Esse ano, quando ganhou o BAFTA por A Dama de Ferro, a veterana não poupou elogios para sua colega, Olivia Colman (que era a filha de Margaret Thatcher no longa de Phyllida Lloyd). Meryl estava certa de novo. Tenho certeza que, muito em breve, essa atriz será celebrada… Basta assistir a Tyronnosaur para entender. Assim como Viola, Colman transmite humanidade com uma facilidade absurda. Ela e Peter Mullan formam uma dupla formidável e, através de suas interpretações, conseguem despertar os mais variados sentimentos no espectador. Muito mais do que personagens com a tristeza estampada no rosto, também são figuras complexas. E se o filme não é tão instigante na hora de desenvolver esses conflitos emocionais dos personagens, pelo menos os atores conseguem tirar tudo de letra. Tyrannosaur vale por eles. 6.5/10

Hemingway & Gellhorn

Direção: Philip Kaufman

Roteiro: Jerry Stahl e Barbara Turner

Elenco: Nicole Kidman, Clive Owen, David Strathairn, Rodrigo Santoro, Robert Duvall, Parker Posey, Tony Shalhoub, Diane Baker, Lars Ulrich, Molly Parker

EUA, 2012, Drama, 152 minutos

Sinopse: Após uma pescaria bem sucedida, o escritor Ernest Hemingway (Clive Owen) conhece Martha Gellhorn (Nicole Kidman) em um bar. Interessado nela, logo a convida para um evento que ocorrerá em sua casa, onde serão discutidos meios de ajudar a defesa republicana espanhola em meio ao ataque fascista do general Franco. Neste encontro, ela conhece John dos Passos (David Strathairn) e Paco Zarra (Rodrigo Santoro), que insistem para que ela vá ao front e divulgue o que está acontecendo nos jornais. Animada com a ideia, Gellhorn consegue um emprego como corresponde de guerra e parte para a Espanha. Ao saber da notícia, Hemingway também vai ao país, no intuito de ajudar na confecção de um documentário sobre a batalha. Lá eles ficam hospedados no mesmo hotel e se aproximam cada vez mais, iniciando um romance que reúne paixão e inteligência. (Adoro Cinema)

Os telefilmes produzidos pela HBO deveriam receber permissão especial para concorrer ao Oscar. Vejam o recente Game Change, por exemplo: além de trazer uma das mais marcantes interpretações de Julianne Moore, é tão bem executado que deixa muitas produções  idealizadas originalmente para o cinema comendo poeira. E essa é uma característica muito marcante dos telefilmes da emissora: eles são realizados com tanta excelência que é injusto limitá-los ao mundo da TV. Merecem atenção de todo e qualquer público. Por isso a minha surpresa quando conferi a mais recente investida da HBO, Hemingway & Gellhorn, que tem Nicole Kidman e Clive Owen como protagonistas. O filme é tão aborrecido e mal contado que nem parece um produto vindo desse respeitado canal. Afinal, como foram investir 20 milhões e reservar mais de 2h30 da grade de programação para um longa tão errado?

Não é à toa que Game Change recebeu todos os holofotes, batendo recordes (foi o telefilme de maior audiência da história da HBO) e já colhendo frutos de seu excelente resultado (recentemente conseguiu indicações ao Critics’ Choice Awards de melhor telefilme, atriz e ator). Isso porque Hemingway & Gellhorn em nada consegue ser mais atraente que a história de Sarah Palin (Julianne Moore). Para falar a verdade, tinha tudo para alcançar pelo menos um nível parecido, já que apresenta um enredo interessante (o complicado romance entre a jornalista Martha Gellhorn e o escritor Ernest Hemingway), ambições até que significativas para o mundo televisivo (tudo é ambientado na guerra, permeado por questões políticas, artísticas e sociais) e uma equipe que chama a atenção. Nada, no entanto, cumpre as expectativas: o resultado nada mais é do que um exercício tedioso que sequer traz alguma discussão em torno de seus temas – e pelas mais diversas razões.

As escolhas erradas de Hemingway & Gellhorn já começam no seu diretor: Philip Kaufman, responsável pelo também infinito A Insustentável Leveza do Ser, está completamente perdido e, por muitas vezes, antiquado demais. A direção de Kaufman dá um tom muito envelhecido ao filme, principalmente nas cafonas escolhas que faz ao colocar os personagens dentro de imagens reais: ou seja, durante quase metade da história vemos Kidman e Owen transitando entre o colorido e o preto-e-branco. O diretor também não encontra o tom certo para seu filme, deixando bem claro, logo no início, que um personagem sério como Hemingway também  se renderá frequentemente ao humor (quase caricato, diga-se de passagem). É um trabalho que, por tantas escolhas erradas, torna a experiência não só decepcionante, mas também maçante.

Logo, vem o problema do roteiro escrito pela dupla Jerry Stahl e Barbara Turner. Perdido em tantas questões que deseja abordar (e a mais problemática delas é a política), o resultado simplesmente não dá o ritmo necessário para essa ambiciosa história de excessiva duração. O texto não sustenta o interesse do espectador, seja por apostar em desnecessárias narrações em off ou por sequer conseguir fazer um retrato dos aspectos que se propõe: não conhecemos direito, por exemplo, a própria carreira jornalística de Gellhorn (Kidman), já que o roteiro está mais preocupado em mostrar explosões sem efeitos ou repetir cenas de sexo que não levam a lugar algum (e a mais absurda delas é aquela em que os personagens resolvem transar em meio a um bombardeio!). Nem mesmo quando o filme define melhor a sua linha dramática (político na primeira parte e mais dedicado aos relacionamentos na segunda), o trabalho de Stahl e Turner consegue envolver.

Enfim, por falhar fortemente em dois aspectos tão essenciais para a boa execução de um filme, seja ele para a tela grande ou para a TV, Hemingway & Gellhorn não dá chances nem mesmo para a dupla Clive Owen e Nicole Kidman. Enquanto ele rivaliza com um personagem oscilante no que se refere ao tom empregado pelo roteiro, ela faz o possível com um papel raso. Outros nomes como David Strathairn, Rodrigo Santoro e Robert Duvall também têm pouco a fazer com o limitado espaço em cena. Por fim, o longa de Philip Kaufman pretende ser um épico com visão política, passado em várias locações e sobre uma forte história de amor. Perdeu-se nas próprias pretensões. Para os padrões da HBO, é uma imensa decepção, especialmente no ano de Game Change. Uma pena. Vale sempre lembrar: filme chato é pior que filme ruim.

 FILME: 4.0

Sem camisa justa ou cabelo espetado

Quando o diretor Paulo Guerra começou a seleção de atores para o seu espetáculo teatral, Dois de Paus, os profissionais que ele procurava deveriam ser figuras masculinas, com barba e preparo físico. “Eu não queria uma bicha magricela, de camisa justinha e cabelo espetado”, brincou. Para ele, era essencial que os atores, junto com o texto, expressassem com eficiência o espírito da peça: ela era sobre um casal específico, não sobre o universo gay. Seguindo essa mesma vertente, Weekend é uma grata surpresa entre os filmes da temática gay. Nada de panfletagem da causa (Milk – A Voz da Igualdade), vitimização ou sequer estereótipos. É algo raro no mundo dos longas-metragens dessa temática, que sempre perderam para os curtas (Eu Não Quero Voltar SozinhoAlguma Coisa Assim) na hora de humanizar os homossexuais da devida maneira.

Exibido aqui no Brasil apenas no Festival do Rio, em 2011, Weekend é uma produção britânica que conta a história de Russell (Tom Cullen) e Glen (Chris New), dois jovens que se conhecem em uma festa e que, após uma noite juntos, começam a se conhecer melhor. O problema, no entanto, é que Glen está prestes a ir embora da cidade. Assim, os dois têm apenas um fim-de-semana para aproveitar a relação que recém começou, seja lá o que ela signifique. Se, a princípio, Weekend parecia apenas uma versão gay de filmes como Antes do Amanhecer, eis que o diretor e roteirista Andrew Haigh subverte as nossas expectativas: a história pouco se foca no dilema de ir ou ficar e no desespero dos personagens ao ver que o fim-de-semana do título está chegando ao fim. Ao invés disso, Haigh faz um estudo cheio de sutilezas sobre os mais variados assuntos. Assuntos que, claro, recebem uma outra perspectivas pela ótica gay, mas que nunca perdem o caráter universal.

Weekend também apresenta outro aspecto extremamente interessante: o realismo. Mais superficialmente, qualquer espectador pode notar a desenvoltura dos atores ou a verossimilhança de diálogos nada pomposos ou filosóficos, mas também vale a pena ficar de olho na forma como o diretor utiliza a câmera como um verdadeiro observador. Parece que Weekend está acontecendo na casa ao lado e que somos, secretamante, convidados a acompanhar essa relação tão cheia de cumplicidade e descobertas. A própria direção de arte, bem como as locações, também ajudam nessa missão de Weekend de tornar tudo palpável. E o resultado não é menos que excepcional. Nós acreditamos em todos personagens e diálogos – o que por si só já é algo que muitos diretores experientes, às vezes, falham em conseguir. Tudo no filme de Andrew Haigh é palpável, como se pudesse muito bem acontecer na casa ao lado.

A dupla de atores Tom Cullen e Chris New entendeu completamente a proposta do filme. Eles, bem como o diretor, tratam a temática gay com a mais completa normalidade. Pouco importa se Weekend fala sobre o relacionamento entre dois homens. O importante, aqui, é o sentimento, o ser humano. O espectador, portanto, deve ter essa mesma perspectiva na hora de entrar no filme. Por fim, é um trabalho que alcança um respeitável resultado em sua abordagem. Poucas vezes vimos um filme gay com tal realismo. E é difícil lembrar de uma outra produção recente que, por ter tão poucas ambições e pretensões, conseguiu, justamente, ser ainda melhor. Weekend é assim: um acerto para toda e qualquer perspectiva. E Andrew Haigh, um nome para se guardar.

Shame

We’re not bad people. We just come from a bad place. 

Direção: Steve McQueen

Elenco: Michael Fassbender, Carey Mulligan, James Badge Dale, Lucy Walters, Alex Manette, Loren Omer, Nicole Beharie, Robert Montano, Loren Omer

Inglaterra, 2011, Drama, 101 minutos

Sinopse: Brandon (Michael Fassbender) é um homem bem sucedido que mora sozinho em Nova York. Seus problemas de relacionamento, aparentemente, são resolvidos durante a prática do sexo, tendo em vista que é um amante incontrolável. Contudo, sua rotina de viciado em sexo acaba sendo profundamente abalada quando sua irmã Sissy (Carey Mulligan) aparece de surpresa para morar com ele. (Adoro Cinema)

Seria fácil definir Brandon (Michael Fassbender) como um viciado em sexo. Além de fácil, seria simplista demais. Esse problema de Brandon, na realidade, é fruto de uma profunda solidão. Ele tem um bom trabalho, mora sozinho em um ótimo apartamento na cidade de Nova York e sustenta uma aparência impecável. Porém, é incapaz de estabelecer qualquer relacionamento ou expressar sentimentos. Sua bem sucedida vida é resumida a momentos de sexo. Shame, tão envolto em polêmicas por trazer Fassbender em cenas de nudez e por não pegar leve na abordagem sexual, nos apresenta a esse homem que passa para o espectador todo o vazio que sente. E só, já que o filme de Steve McQueen não vai além dessa notável sensação passada por seu protagonista.

Talvez a escolha de apenas retratar personagens sem ao menos justificar suas personalidades e ações seja uma constante nos roteiros de Abi Morgan (do péssimo A Dama de Ferro). Em Shame, temos um personagem fascinante que está inserido em uma vida quase sufocante de tão sem perspectiva – mas, por outro lado, nunca sabemos qual a razão dele ser assim, de sua vida ter chegado a esse ponto. Ele simplesmente é, sem explicações. Em outros filmes, tais justificativas podem até não ser relevantes. Mas, em Shame, elas fazem muita falta, especialmente quando Sissy (Carey Mulligan) entra em cena para mudar completamente a vida do protagonista. Inclusive, o conturbado relacionamento dos dois irmãos também não é explicado. Afinal, qual o motivo de tanto distanciamento? Por que existem tantas desavenças?

A falta de respostas tira o potencial de Shame, que termina carente de maior profundidade e, principalmente, de uma alta complexidade que o filme merecia ter. Por outro lado, o longa tem resultado bastante positivo no que diz respeito ao retrato solitário de seu protagonista. Méritos, também, claro, do ótimo Michael Fassbender, cuja total entrega ao papel chega a impressionar. Ele segura muito bem o filme, especialmente nas cenas em que as circunstâncias exigem expressões e não palavras. Duas sequências são, no mínimo, notáveis: aquela que abre o filme e outra em que mostra uma forte cena de sexo de Fassbender com duas mulheres. Não por acaso, a bela trilha instrumental de Harry Escott tem papel fundamental nesses momentos para fazer o espectador sentir as angústias do protagonista.

Shame, certamente, é incômodo e para poucos. Tal afirmação não se restringe ao teor erótico do filme, mas também pela maneira calma, desesperançosa e nada explicativa da história se desenvolver. O novo trabalho do diretor Steve McQueen serve, afinal, para trazer o melhor momento de Fassbender, que é o ator do momento ao lado de Ryan Gosling, e também – vale ressaltar – a mudança de Carey Mulligan, que finalmente abandonou o tipo enjoado e chorão que havia criado depois de Educação. Shame incomoda e traz várias sensações durante o seu desenvolvimento. Só não é superior por deixar de lado explicações que, ao meu ver, eram fundamentais para tornar a experiência mais completa.

FILME: 7.5

Habemus Papam

Direção: Nanni Moretti

Roteiro: Nanni Moretti, Francesco Piccolo e Federica Pontremoli

Elenco: Michel Piccoli, Nanni Moretti, Renato Scarpa, Franco Graziosi, Camilo Milli, Roberto Nobile, Margherita Buy, Ulrich Von Dobschütz, Camilla Ridolfi

Itália/França, 2011, Drama, 102 minutos

Sinopse: Após a morte do Papa, o conclave do Vaticano se reúne para escolher seu sucessor. Após várias votações, enfim há um eleito. Os fiéis, amontoados na Praça de São Pedro, aguardam a primeira aparição do escolhido (Michel Piccoli), mas ele não vem a público por não suportar o peso da responsabilidade. Tentando resolver a crise, os demais cardeais resolvem chamar um psicanalista (Nanni Moretti) para tratar o novo Papa. (Adoro Cinema)

Algo está muito errado se você é fã de cinema italiano e não conhece Nanni Moretti. Entre curtas e longas-metragens, ele já tem 20 títulos em seu currículo – inclusive, o mais célebre e arrebatador deles, O Quarto do Filho, chegou a vencer a Palma de Ouro em Cannes. Com uma carreira bem ativa, Moretti sempre desperta curiosidade quando lança um novo filme. E, com Habemus Papam, talvez, nunca tenha despertado tanta expectativa. Afinal, o que ele estaria planejando com uma história passada no Vaticano sobre a eleição de um papa que não está pronto para exercer o cargo?

Vendido por alguns como uma comédia dramática, Habemus Papam não tem nada de polêmico. Quem espera uma abordagem ousada sobre assuntos religiosos ou uma trama complexa com o tema poderá se decepcionar. O novo filme de Moretti é contido e totalmente despreocupado em ter que falar sobre religião. Aqui, estamos diante de uma história sobre um homem despreparado em circunstâncias desafiadoras. E, talvez, esse seja o erro: ao despertar tamanha curiosidade com sua proposta curiosa e, principalmente, ao envolver com maestria o espectador nos bastidores da igreja, Habemus Papam perde pontos, justamente, por ser um filme que segue o caminho oposto quando desenvolve sua história com uma cautela excessiva que leva tudo ao rumo da normalidade.

Nanni Moretti, portanto, instiga mais o espectador na proposta do que na execução. Em seu primeiro terço, Habemus Papam parece ser um filme marcante: a maravilhosa direção de arte de Erminio Lauri e as intrigantes formalidades da igreja (religioso ou não, há de se reconhecer o poder dessa temática) constroem um clima eficiente, quase documental de tão próximo à realidade. No sentindo de ambientação, missão mais do que cumprida. Os problemas começam a surgir mais ou menos depois da metade, quando o filme não vai além dos dilemas do papa sobre ir ou não em frente com o que lhe foi designado por seus colegas de sacerdócio. A relação dele com o psicanalista vivido por Moretti é subutilizada e todos os seus questionamentos são retratados através de momentos vividos por ele em uma espécie de viagem interior pelas ruas do Vaticano enquanto todos aguardam sua aparição.

Paralelo ao mundo de dúvidas do protagonista, Habemus Papam também mostra a situação daqueles que esperam pela decisão do papa recém-eleito, desde o psicanalista que ficou impossibilitado de fazer qualquer contato com o mundo exterior por saber da identidade do novo pontífice até os outros padres que não devem retomar sua rotina enquanto a situação não for normalizada. É uma pena, afinal, que o diretor não se aproveite desse rico ambiente e da situação interessante do protagonista para criar um grande filme. Há quem possa defendê-lo, dizendo que Habemus Papam é um filme de sutilezas (e, em determinados momentos, ele é cheio delas), mas desperdiça discussões importantes (o fato do psicanalista ser ateu nada importa) e, no geral, não é tão interessante quanto prometia. Diferente em sua concepção, mas banalizado em seu desenvolvimento. Dessa vez, foi na trave, Moretti…

FILME: 7.0