Valente
If you had a chance to change your fate, would you?

Direção: Mark Andrews, Brenda Chapman e Steve Purcell (codireção)
Roteiro: Mark Andrews, Steve Purcell, Brenda Chapman e Irene Mecchi, com história de Brenda Chapman
Com as vozes originais de: Kelly Macdonald, Emma Thompson, Julie Walters, Robbie Coltrane, Billy Connolly, Kevin McKidd, Craig Ferguson, Eilidh Fraser
Brave, EUA, 2012, Animação, 100 minutos
Sinopse: A jovem princesa Merida não quer saber da vida de realeza e não gosta nem de pensar em ser apenas mais uma esposa para o filho de algum lorde. Indo contra as tradições e os costumes, ela desafia seus pais ao perseguir o sonho de se tornar uma arqueira e, com isso, coloca em risco o reinado de seu pai, o Rei Fergus. (Adoro Cinema)

Up – Altas Aventuras foi a última animação com DNA Pixar. Os outros realizados posteriormente pelo estúdio, como Toy Story 3 e Carros 2, além de reforçarem o infinito poder das continuações, apresentavam-se de forma mais avulsa, deixando a sensação de que não precisavam existir. E em tempos que a Pixar anuncia mais conversões para 3D (Procurando Nemo) e outras sequências (Monstros S.A. 2), era de se esperar um sopro de originalidade de Valente, primeira animação com história realmente “original” desde Up. O que o filme comprova, entretanto, é que o estúdio não é tão inabalável como pensávamos. Talvez, o que impeça Valente de ser um filme legitimamente interessante seja a total influência da Disney nesse processo. A Disney, que, para quem não sabe, comprou a Pixar faz pouco tempo, parece ter grande controle aqui, castrando um pouco o jeito Pixar de contar histórias. Óbvio que ter um pouco de Disney sempre faz bem. O que acontece é que, dessa vez, é possível sentir uma grande ausência do estúdio que já criou grandes animações como WALL-E e Ratatouille.
Valente traz a primeira protagonista feminina da Pixar. E se o jeito subversivo dela tem tudo a ver com o jeito do estúdio, o mesmo não se pode dizer do desenvolvimento – tanto dela quanto de sua história. Escrito a quatro mãos (o que nunca é um bom sinal), o roteiro de Mark Andrews, Steve Purcell, Brenda Chapman e Irene Mecch está mais para uma história convencional do que para uma trama grandes sacadas. Valente traz trapalhadas com bichos falantes, os típicos personagens em conflito que ficam juntos em uma jornada, a maldição que precisa ser revertida até o amanhecer, lições de moral, bastante barulho e personagens extravagantes representando humor. De forma racional, todos estes aspectos incomodam, já que estamos acostumados a ver tal formato a todo momento nos cinemas. Mas se falta aquela originalidade e consistência de roteiro que outrora elevou a Pixar ao patamar de referência obrigatória, aqui temos uma história com de grande coração, característica da Disney. Com isso, as bobeiras do roteiro conseguem não prejudicar tanto o resultado, já que ele acerta em cheio quem considera a emoção o principal fator de uma animação.
Valente também entrega tudo o que os pequenos quem ver, especialmente quando o assunto é diversão. Nesse aspecto, o filme se sai muito bem: o trio de gêmeos é divertidíssimo e o humor envolvendo os ursos maior ainda, por exemplo. O problema, como já mencionado, é a falta de uma genialidade no roteiro, que, no final das contas, parece ser a reciclagem de vários outros trabalhos em termos de enredo. Por isso, o longa de Mark Andrews, Brenda Chapman e Steve Purcell (outro erro: muitos diretores que não dão uma unidade ao longa) se apresenta de diferentes maneiras para os fãs da Disney e os da Pixar. Os primeiros certamente sairão satisfeitos da sessão com aquele sentimento de missão cumprida, de ter visto um trabalho satisfatório com um quê da emoção. Já os segundos podem se sentir decepcionados de novo, com outra história que ficou devendo bastante para os padrões do estúdio. E você, de que lado fica?
FILME: 7.0

TOP 10: Filmes estrangeiros contemporâneos

Selecionar os dez filmes estrangeiros para essa lista foi uma tarefa extremamente fácil. Considerando o “contemporâneo” como dos anos 2000 para agora, tenho muitos longas que me emocionaram e que possuem presença muito forte na minha memória afetiva. Assim, o desafio, na realidade, foi definir uma ordem de preferência. E que desafio! Esse TOP 10, que quebra o padrão que havíamos apresentado até agora com postagens só sobre atrizes, inaugura as versões mais temáticas dessa seção do blog. Confira, abaixo, a lista que transita por uma grande variedade de países.
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1. ADEUS, LENIN! (Goodbye, Lenin!, Alemanha, 2003): Se existe um filme estrangeiro recente que mexe com as minhas emoções, esse é Adeus, Lenin!. Sucesso de bilheteria na Alemanha, o longa do diretor Wolfang Becker é cercado de sutilezas para contar uma bonita história familiar. A comédia também está presente, mas de forma muito natural e controlada. Além do roteiro e da certeira direção, o filme ainda tem uma inesquecível trilha sonora composta pelo sempre brilhante Yann Tiersen. Adeus, Lenin! é singelo. E, como a maioria dos filmes marcantes, termina singular por ser, justamente, livre de apelações.
2. O LABIRINTO DO FAUNO (El Laberinto del Fauno, 2006, México): Obra-prima de Guillermo Del Toro, essa fábula mexicana ganhou repercussão internacional, ganhando, inclusive, alguns Oscars técnicos. Não é para menos: O Labirinto do Fauno consegue unir drama e fantasia em uma mistura sublime. Não bastasse a linda trilha de Javier Navarrete e a excelente fotografia de Guillermo Navarro, o filme é conduzido com muita segurança pelo diretor, que consegue fazer um interessantíssimo paralelo entre fantasia e realidade. Sem falar que a jovem Ivana Baquero cumpre muito bem a missão de protagonizar esse longa super original e muito bem realizado.
3. A PELE QUE HABITO (La Piel Que Habito, 2011, Espanha): Se Abraços Partidos mostrava um Almodóvar apoiado completamente na reciclagem, A Pele Que Habito veio para mostrar que ele ainda está cheio de fôlego com novas ideias e inventividades. Dá para entender quem não consegue se envolver tanto com o filme, mas, para mim, A Pele Que Habito foi uma experiência extremamente sensitiva. Do drama ao suspense, Almodóvar ousa, choca e intriga. O que poderia ser apelativo e nada verossímil nas mãos de outro diretor, aqui ganha contornos extremamente envolventes. Uma história que só poderia ser contada pelo espanhol.
4. O QUARTO DO FILHO (La Stanza del Figlio, 2001, Itália): Nunca tive coragem de rever O Quarto do Filho tamanha a comoção que ele me causou. Lembro de sentir na pele todas as dores dessa trágica história sobre um pai que precisa lidar com a morte de seu filho. É o ponto alto da carreira de Nanni Moretti, que, apesar de ficar muitas vezes no limite do dramalhão, nunca deixa a história ficar exagerada. Ele não desaponta em nenhuma de suas três funções (ator, diretor e roteirista), realizando um longa que foi extremamente merecedor de todas honrarias que recebeu – incluindo a Palma de Ouro em Cannes.
5. AS INVASÕES BÁRBARAS (Les Invasions Barbares, 2003, Canadá): Cercado de melancolia, As Invasões Bárbaras consegue ser superior ao seu superestimado exemplar anterior, O Declínio do Império Americano. Claro que as propostas são bem diferentes, mas essa continuação tem uma sutileza de impressionar. Narrando o reencontro de velhos amigos que, na juventude, se encontravam para discutiar sexo, política e outros assuntos, As Invasões Bárbaras ainda fala sobre o fim da vida e relacionamentos familiares que não deram certo. Certamente, conquistará o público mais sensível.
6. FALE COM ELA (Hable Con Ella, 2002, Espanha): Se eu tivesse que dizer qual o filme favorito da maioria dos fãs de Almodóvar, não tenho qualquer dúvida que meu palpite seria Fale Com Ela. Aqui, estão presentes todos os elementos que fizeram do cineasta a grande referência que ele é mundialmente. Entre tantos assuntos discutidos, a força do mundo feminino e relacionamentos desestruturados. Tudo isso em um filme que ainda traz a cena mais genial de sexo que o cinema já viu, homenagens à Pina Bausch e várias surpresas em suas resoluções dramáticas. É puro Almodóvar!
7. O FILHO DA NOIVA (El Hijo de la Novia, 2001, Argentina): Mais um filme dessa lista que preza pela sutileza de dramas familiares e relacionamentos. Ainda que O Segredo dos Seus Olhos seja mais evoluído em diversos aspectos (principalmente na inventiva direção de Juan José Campanella), a história do workaholic que precisa lidar com sua mãe que sofre de Alzheimer consegue fisgar muito mais as minhas emoções. E, por se tratar ainda de um drama que, muitas vezes, lembra um pouco algumas fases do meu convívio familiar, Campanella me conquistou por completo. Acima de tudo, uma história universal.
8. A SEPARAÇÃO (Jodaeiye Nader az Simin, 2011, Irã): Já faz alguns meses que conferi A Separação e roteiro muito bem amarrado, detalhista e nervoso ainda permanece comigo. Não é qualquer um que cria um roteiro como aquele. O exemplar iraniano ganhou praticamente todos os prêmios da temporada que concorreu, algo que é facilmente compreensível. Longe de ser pretensioso, A Separação quebra preconceitos com o cinema iraniano e apresenta um resultado interessante para qualquer plateia. De tirar o chapéu.
9. AMORES BRUTOS (Amores Perros, 2000, México): Primeiro filme de uma trilogia criada pelo diretor Alejandro González Iñárritu para falar sobre incomunicabilidade através de histórias que se cruzam, Amores Brutos ainda é melhor que os seus sucessores. A longa duração não atrapalha essa intensa história que nunca se perde no meio de tantos personagens e situações. É Iñárritu em seu melhor, dirigindo muito bem os atores e mostrando ser um dos maiores nomes do cinema mexicano. Amores Brutos justifica o sucesso do diretor e fala por si só.
10. [REC] (idem, 2007, Espanha): Não tem como falar de filmes estrangeiros contemporâneos sem citar [REC], que é uma verdadeira aula de como se fazer suspense. Inventivo em praticamente todos os aspectos – não à toa foi copiado à exaustão ao redor do mundo – é um filme de dar agonia do início ao fim, sem qualquer pausa maior para o espectador recuperar o fôlego. Teve algumas continuações e uma refilmagem (Quarentena, péssimo) que não deram muito certo, o que comprova que a eficiência do filme original é impossível de ser copiada ou variada. É única.
Heleno
Dizem que eu vou morrer de arrogância…

Direção: José Henrique Fonseca
Roteiro: José Henrique Fonseca, Felipe Bragança e Fernanda Castets, com a colaboração de L.G. Bayão
Elenco: Rodrigo Santoro, Aline Moraes, Herson Capri, Othon Bastos, Angie Cepeda, Orã Figueiredo, Erom Cordeiro, Henrique Juliano, Candido Damm
Sinopse: O jogador de futebol Heleno de Freitas (Rodrigo Santoro) era considerado o príncipe do Rio de Janeiro dos anos 40, numa época em que a cidade era um cenário de sonhos e promessas. Sendo ao mesmo tempo um gênio explosivo e apaixonado nos campos de futebol, além de galã charmoso nos salões da sociedade carioca, tinha certeza de que seria o maior jogador brasileiro de todos os tempos. Mas seu comportamento arredio, sua indisciplina e a doença (sífilis) foram minando o que poderia ser uma grande jornada de glória, transformando-a numa trágica história. Baseado no livro “Nunca Houve um Homem como Heleno”, de Marcos Eduardo Novaes. (Adoro Cinema)

Qual foi o último filme marcante do cinema brasileiro contemporâneo que você viu? Vasculhando minhas memórias, lembro, logo de cara, do maravilhoso À Deriva. Não sei se esqueci de outros, mas, desde a experiência que tive com o longa de Heitor Dhalia, não ficava tão satisfeito com o nosso cinema como em Heleno. Cinebiografia do primeiro jogador de futebol considerado “craque” no Brasil, o filme de José Henrique Fonseca se destaca por tomar rumos completamente diferentes de outras terríveis obras sobre jogadores produzidas pelo cinema brasileiro como Garrincha – Estrela Solitária. Existe pouco futebol em Heleno – no máximo dois ou três momentos que encenam partidas (e todas ao som de óperas). Na realidade, o esporte serve apenas como guia para compreendermos a difícil figura do protagonista dessa história.
Heleno, primeiro jogador brasileiro vendido ao exterior (e por um valor recorde), era considerado o “príncipe” do Rio de Janeiro dos anos 1940. Não era para menos: sucesso nos campos, esbanjava beleza, tinha uma ativa vida boêmia e era sempre rodeado por mulheres. Como ele mesmo dizia, tinha exatamente tudo o que desejava – só faltava conhecer John Wayne e acender um cigarro como ele. E é maravilhoso constatar que, ao invés de cair na obviedade e apresentar Heleno como uma figura solitária, mesmo sendo tão badalada, o filme tem seu foco na autodestruição do personagem, mostrando como toda sua arrogância foi fator fundamental para o início de sua decadência.
Cheio de si, Heleno acreditava que sua beleza seria infinita, que doenças nunca abalariam seu desempenho nos campos e que ele poderia fazer e falar o que quiser por ser o maior astro do futebol até então. Contados com muita sutileza, esses fatos ganham tons interessantíssimos naquele que deve ser o aspecto mais fascinante de Heleno: a interpretação de Rodrigo Santoro. O ator, que investiu dinheiro do próprio bolso para a realização do filme, alcança um momento superlativo com essa chance, nunca tendo sua beleza como elemento limitador (pelo contrário, só ajuda no magnetismo do personagem) e transitando com notável naturalidade por todas as fases da figura que interpreta, de talentoso e desejado jogador até decadente e enfermo homem apegado ao passado.
Narrado com bastante elegância e com um preto-e-branco fundamental nesse processo, Heleno aposta na falta de cronologia para apresentar sua história. Só que, ao contrário do recente A Dama de Ferro, tal escolha tem lógica e só conta pontos a favor: serve para construir a personalidade do protagonista e não só para impressionar com o excepcional trabalho corporal de Santoro. E se o roteiro não consegue, uma vez ou outra, se desviar dos clichês básicos do gênero (e não poderia falar o casamento feliz que, depois, traz a situação do marido ausente e a mulher descabelada com nenê chorando no colo), o roteiro consegue lidar muito bem com aquilo que poderia ser fatal nas mãos erradas:o gênio difícil e o destempo do protagonista. Não temos repulsa, mas sim curiosidade em acompanhar a trajetória desse difícil sujeito. E essa é apenas uma das qualidades inegáveis de Heleno.
FILME: 8.5

NA PREMIAÇÃO 2012 DO CINEMA E ARGUMENTO:

Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge
Maybe it’s time we stop trying to avoid the truth and let it have its day.

Direção: Christopher Nolan
Roteiro: Jonathan Nolan e Christopher Nolan
Elenco: Christian Bale, Tom Hardy, Joseph Gordon-Levitt, Gary Oldman, Anne Hathaway, Marion Cotillard, Michael Caine, Morgan Freeman, Cillian Murphy
The Dark Knight Rises, EUA, 2012, Ação, 164 minutos
Sinopse: Oito anos após a morte de Harvey Dent, a cidade de Gotham City está pacificada e não precisa mais do Batman. A situação faz com que Bruce Wayne (Christian Bale) se torne um homem recluso em sua mansão, convivendo apenas com o mordomo Alfred (Michael Caine). Um dia, em meio a uma festa realizada na Mansão Wayne, uma das garçonetes contratadas rouba um colar de grande valor sentimental. Trata-se de Selina Kyle (Anne Hathaway), uma esperta e habilidosa ladra que, apesar de flagrada por Bruce, consegue fugir. Curioso em descobrir quem é ela, Bruce retorna à caverna para usar os computadores que tanto lhe serviram quando vestia o manto do Homem-Morcego. Aos poucos começa a perceber indícios do surgimento de uma nova ameaça a Gotham City, personificada no brutamontes Bane (Tom Hardy). É o suficiente para que volte a ser o Batman, apesar dos problemas físicos decorrentes de suas atividades como super-herói ao longo dos anos. (Adoro Cinema)

Às vezes, dependendo do ponto de vista, ter status não é algo bom. Tomemos o caso de Christopher Nolan como exemplo. Ele, nos últimos anos, provou ser um realizador de extrema competência, reinventando o até então alegórico mundo do Batman e fazendo outros filmes extremamente inventivos como A Origem. Ok, Nolan deve estar muito satisfeito por ser ovacionado ao redor do mundo. O problema é o público, que, em grande parte, não sabe moderar sua cega paixão por ele. Assim, surge essa atmosfera de ter que ir ao cinema já na obrigação de achar tudo um espetáculo digno de aplausos. E quem não acha não é normal. E, na maioria das vezes, o resultado é sim digno de honrarias. No entanto, quando aparece algo decepcionante como Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge, fica a sensação de que os fãs não conseguem – ou não querem – enxergar falhas e pretensões básicas de um diretor que pode sim, de vez em quando, não ser tão brilhante assim…
Com esse longa que encerra a nova trilogia do homem-morcego, fica evidente, definitivamente, a vontade de Christopher Nolan de ter sempre que complicar histórias – mesmo quando ela não precisam ser tão complicadas! Tal atitude desnecessária é o que mais incomoda em Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge que, em sua incômoda duração, traz detalhes e informações demais para um enredo que poderia ser muito mais econômico e direto. Assim, o roteiro escrito pelo próprio diretor em parceria com Jonathan Nolan, leva mais de uma hora nesse processo de tornar tudo complexo e difícil, como se roteiro bom fosse sinônimo de história complicada. O público que não é familiarizado com o universo de Nolan e que procura um simples filmes de heroi com capa e ação deve sair da sessão entediado – até porque se Batman aparece três ou quatro vezes uniformizado em cena já é demais. A partir de certo ponto, fica cansativo prestar atenção em vários personagens que não fazem muito além de apenas embolar a história.
O último volume da trilogia, que é mais sobre Gotham City do que sobre o Batman, desaponta no sentido de que demora demais para chegar ao clímax. Os últimos momentos de Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge, por sinal, em nada esbanjam originalidade. Pelo contrário, caem na fácil armadilha de resumir a tensão do filme ao protagonista ter que salvar a cidade de uma bomba (e, claro, em três minutos, o cronômetro dela só anda 20 segundos). Do que adianta, portanto, querer ser tão compexo durante mais da metade do filme para, depois, se entregar à obviedade? Em termos de plot, o filme decepciona bastante, especialmente depois do volume anterior, onde a ação era toda movimentada por um vilão que trazia situação inimagináveis e mirabolantes. Tais problemas são agravados pela montagem mal planejada de Lee Smith. Por ser tratar de um filme grandioso e que, querendo ou não, é dirigido às grandes massas, Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge deveria ser mais enxuto. Afinal, quanto mais resumido é um filme, mais sua essência fica evidente. Rodeios, de vez em quando, não são muito aconselháveis – como aqui.
Mas para não ficarmos só no que deu errado, temos que reconhecer os pontos positivos que, claro, existem no longa. Mesmo com o excesso de personagens, todos os atores cumprem suas respectivas missões – e se são neutros, como é o caso de Marion Cotillard, a culpa é do personagem mal escrito, não de seu intérprete. Anne Hathaway se sai muito bem nos contorcionismos, Michael Caine continua sendo o coração da história, Gary Oldman é o coadjuvante mais irresistível, Tom Hardy está imponente com seu trabalho corporal e Christian Bale não perdeu o fôlego como o Batman mais simbólico que o cinema já viu. Já na cadeira de direção, Nolan mostra que continua como o maior mestre ao dirigir cenas de ação para adaptações de quadrinhos: tudo em Gotham City continua incrivelmente real e nada, absolutamente nada, transparece ter sido feito com tecnologias e artifícios computadorizados. A ação de Batman é impecável e o diretor não dá sinal de ter perdido a capacidade de dar aula nesse aspecto.
De forma alguma é justo dizer que Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge é um filme ruim. Afinal, se Nolan algum dia realizar um filme ruim, é o fim dos tempos. O que acontece é que, assim como qualquer outro diretor, ele é suscetível a erros. Ou melhor, ele tem o direito de, uma vez ou outra, não ser tão brilhante. O que é realizado nesse fim de trilogia é melhor do que muitos filmes de heróis realizados recentemente (incluindo aqueles que resolvem dar uma nova chance para alguns personagens, como O Espetacular Homem-Aranha). Poucos tem o direito de dizer que fizeram uma trilogia que alcançou sucesso de crítico e de público. Agora, difícil saber o que será de Batman daqui para frente. Alguém terá a insanidade de abordar o personagem novamente e ser comparado com Nolan? Espero que não. O diretor, em contrapartida, continua sendo um sujeito de confiança, mas em O Cavaleiro das Trevas Ressurge ele, pela primeira vez, ficou devendo bastante. O resultado não é ruim. É apenas decepcionante. Quem sabe passado o calor do momento, comece a ser julgado como deve: com os pés no chão.
FILME: 7.0

Para Roma, Com Amor
Don’t psychoanalyse me! Many have tried. All have failed.

Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
Elenco: Jesse Eisenberg, Woody Allen, Ellen Page, Penélope Cruz, Roberto Benigni, Alec Baldwin, Alison Pill, Judy Davis, Alessandro Tiberi, Flavio Parenti
To Rome, With Love, EUA/Itália/Espanha, 2012, Comédia, 112 minutos
Sinopse: O longa é dividido em quatro segmentos. Em um deles, um casal americano (Woody Allen e Judy Davis) viajam para Roma para conhecer a família do noivo de sua filha. Outra história envolve Leopoldo (Roberto Benigni), um homem comum que é confundido com uma estrela de cinema. Um terceiro episódio retrata um arquiteto da Califórnia (Alec Baldwin) que visita a Itália com um grupo de amigos. Por último, temos dois jovens recém-casados que se perdem pelas confusas ruas de Roma. (Adoro Cinema)

O que falar de Woody Allen? Que o seu filme mais fraco é melhor do que muita coisa que vemos durante o ano? Que ele apresenta uma vitalidade de dar inveja? Que suas ideias nunca acabam? Tudo isso é, com o perdão do clichê, chover no molhado. Todo mundo sabe – e todo mundo já leu essas afirmações. Levando em consideração que todos os filmes do diretor são muito idênticos, é mais aconselhável analisar suas obras de forma isolada, sem julgar o resultado pelo conjunto de seus longas. Isso porque porque, na maioria das vezes, as obras não chegam a trazer grandes momentos do diretor, já que os marcos de Woody Allen acontecem, mais ou menos, de três em três anos, com filmes como Match Point, Vicky Cristina Barcelona e Meia-Noite em Paris. Tal sensação de mais do mesmo se ampliou desde que o diretor começou a rodar o mundo, gravando de país em país. Só que basta não limitar sua percepção com maiores comparações para embarcar nas viagens dele. E o mesmo se aplica, definitivamente, ao divertido Para Roma, Com Amor.
A princípio, o longa passado na capital italiana pode parecer um genérico de Meia-Noite em Paris. Mas, ao longo do filme, é bom constatar que estamos errados. Se no filme anterior de Woody a geografia era fator fundamental para uma história que exigia um mínimo de cultura para ser compreendida comicamente, em Para Roma, Com Amor, as paisagens são mais um cartão-postal para histórias de humor acessível e que, certamente, agradarão o grande público. Por sinal, novas plateias têm abraçado o diretor (Meia-Noite em Paris foi o maior sucesso de bilheteria dele e, pelo menos onde assisti ao filme, a sessão de Para Roma, Com Amor estava lotada). Não é para menos: todos os personagens desse novo longa são divertidos, dão vida a situações simples e eficientes. Até mesmo aquelas figuras que não chamam tanto a atenção têm seus momentos em função de circunstâncias absurdas que só podem ser relevadas – e apreciadas – com maior naturalidade no mundo de Woody Allen.
É um prazer embarcar nessa viagem. Afinal, não é todo dia que vemos uma linda cidade servindo de cenário para bons atores comandados por um diretor que ainda tem sim muito a dizer. Para Roma, Com Amor pode funcionar primordialmente como uma comédia para um público abrangente, mas basta olhar mais de perto para encontrar questões com a devida dose de complexidade sendo discutidas com tanta sutileza que, depois da sessão, ainda estarão em sua mente: a superficialidade da fama, a liquidez dos sentimentos, a facilidade em trocarmos algo sólido por uma empolgação passageira, a nossa capacidade de saber até que ponto devemos nos contentar com a mesmice… Questões desenvolvidas sem o mínimo de pretensão e que se encaixam com a devida dose de humor nas liberdades criativas que aceitamos por serem de Woody Allen.
Porém, pequenos detalhes impedem Para Roma, Com Amor de empolgar o espectador. Podemos citar, de começo, a narrativa episódica. Ela não incomoda tanto no sentido de que o filme se estrutura em blocos (e, nessa perspectiva, é fácil perceber quais histórias são realmente boas e outras apenas satisfatórias), mas no fato de que todas as discussões e reflexões propostas pelo roteiro simplesmente não convergem para um mesmo ponto. São histórias soltas, individuais, sem qualquer relação. Com isso, falta uma unidade em Para Roma, Com Amor, ou uma simples costura que poderia facilmente levar o filme a um outro patamar. Talvez essa falta de “preocupação” de Woody em querer surpreender seja, de fato, algo natural dele. Só que, aqui, a ausência de algo mais elaborado em termos de estrutura deixou escapar ligeiramente a consistência que tornaria o filme uma experiência muito mais do que simplesmente divertida e agradável. Com um pulso mais firme amarrando as histórias, Para Roma, Com Amor seria imperdível.
FILME: 7.5
