Cinema e Argumento

Na coleção… Cazuza – O Tempo Não Pára

Certa vez, uma amiga minha disse que Cazuza – O Tempo Não Pára tem muito sexo e drogas, mas pouco rock ‘n roll. Nem tenho como julgar o filme nesse aspecto musical, já que não sou nenhum especialista na discografia do cantor. Contudo, no sentido cinematográfico, considero Cazuza – O Tempo Não Pára um filme repleto de méritos e cheio de momentos especiais. Dirigido por Walter Carvalho e Sandra Werneck, essa produção recebeu mais destaque em função da maravilhosa performance de Daniel de Oliveira. Só que o resultado está longe de se resumir apenas a isso.

Para irmos direto ao ponto principal já é bom dizer, logo de cara, que o ponto alto do filme é mesmo Daniel de Oliveira. Além de todo o preciso trabalho corporal, ele captou toda a essência de Cazuza, transformando o protagonista não apenas em uma figura de uma típica cinebiografia, mas também em um personagem digno de um ótimo filme dramático. Daniel mergulhou no personagem e o resultado alcançado por ele não é menos do que excepcional.

O longa também possui outras qualidades. Lidando de forma bem segura com toda a trajetória do personagem – em especial a da carreira artística, que é bem pontuada – o roteiro também teve a proeza de trazer emoção para a tragédia pessoal de Cazuza. Se você veio de Marte faz pouco tempo e ainda não sabe, o cantor era homossexual e foi contaminado pela AIDS, o que acabou ligeiramente com a sua jovem vida. Portanto, os momentos dramáticos de Cazuza enfrentando a doença são de cortar o coração, em especial por causa da notável atuação de Marieta Severo, uma atriz que transborda humanidade.

Em uma última análise, o filme tem sim os seus pecados. Não concordo tanto com a minha amiga que citei no início do texto, mas acho que, por vezes, o filme se foca demais nessas aventuras sexuais de Cazuza. Sem falar, óbvio, nas tradicionais escolhas formulaicas dirigidas às cinebiografias. Tirando isso, temos nesse longa-metragem um conjunto de acertos bem interessante, onde tudo tem sua qualidade, desde o elenco até o roteiro e a direção. Não é aquele tipo de cinema revolucionário, mas, para o nosso país, esse filme tem o seu destaque.

FILME: 8.5


Na coleção… 007 – Cassino Royale

Na onda de repaginar heróis e figuras emblemáticas como, por exemplo, o mascarado Batman, James Bond foi um dos que mais causou polêmica. Ainda assim, também foi um dos que mais agradou o público. Certa parcela diz que Daniel Craig não tem nada a ver com Bond e que Cassino Royale apagou todo o espírito de “agente secreto” do personagem, transformando-o em uma espécie banal de Jack Bauer, do seriado 24 Horas. Outros dizem que a mudança foi mais do que necessária e que o novo filme do 007 foi uma evolução coerente. Faço parte do segundo grupo.

Não sei se o cinema ainda tem espaço para esses heróis de carne e osso que fazem o possível e o impossível para solucionar casos (lembram como o novo Indiana Jones teve uma repercussão super morna?). Ou seja, nada mais coerente do que trazer essas figuras para a realidade, para a luta corpo a corpo e para a ação verossímil. Mesmo que muitos cineastas tomem essa decisão tentando copiar o estilo Paul Greengrass na trilogia Bourne, alcançam bons resultados com essa escolha mesmo assim. Martin Campbell foi um deles e obteve pleno êxito com Cassino Royale.

O filme tem uma história independente dos filmes anteriores – o que é muito bom para o novo público de James Bond – e consegue ser bem conduzido e cheio de adrenalina. Se Daniel Craig até hoje não conquista muito a minha simpatia como Bond, ao menos tem o porte físico e a postura necessária para um papel que exige muito do ator nesse aspecto. Sua companheira de tela, Eva Green, é um dos pontos fracos do longa. Ela tem a beleza, mas ficou muito insossa e com pouco a acrescentar.

Apesar de alguns detalhes que incomodam (em especial a enrolação para o filme finalmente chegar a uma conclusão), Cassino Royale é exemplar como um filme de ação contemporâneo e também como uma nova abordagem do personagem. Além de todo o conjunto geral bem executado, o longa de Martin Campbell traz uma ótima canção de Chris Cornell. You Know My Name já abre a história nos mostrando que estamos diante de um ótimo filme. Um filme que não vai causar qualquer revolução, mas que já consegue ser um dos grandes destaques dentro de seu gênero.

FILME: 8.0


Na coleção… A Carta

A Carta já começa com uma cena muito impactante. Leslie Crosbie (Bette Davis) está armada e perseguindo um homem que está fugindo dela. Quando ele cai em um lance de escadas, ela lança uma sequência de tiros, acabando com a vida dele. O que segue, durante o filme, é consequência desse fato. Afinal, por que Leslie matou aquele homem? Ou, melhor, até que ponto ela iria para esconder as suas verdadeiras intenções?

O diretor William Wyler realiza um verdadeiro thriller sobre crime e os bastidores de quem quer esconder alguma verdade. A verdade é que A Carta não chega a ser um grande filme, mas apresenta alguns aspectos que o transformam em mais um excelente longa-metragem da carreira da diva Bette Davis. Ela, por sinal, está intensa como habitual e tem vários momentos maravilhosos. Por esse filme, conseguiu mais uma indicação ao Oscar.

A Carta tem um desfecho sombrio e amargo demais para aquela época. Mesmo que esse seja um ponto negativo, não diminui toda a excelência desse pequeno e instigante filme. Possuindo ao menos uma frase marcante (“Com todo o meu coração, eu ainda amo o homem que matei!”), o filme é uma boa pedida para aqueles que procurem um drama com toques de suspense e intriga. Não é o melhor de Bette Davis. Mas, como sempre, tem uma história interessante para manter a atenção do espectador.

FILME: 8.0


Na coleção… Casa de Areia e Névoa

Os personagens e as situações de Casa de Areia e Névoa poderiam muito bem acontecer comigo ou com você. São pessoas que estão atrás de uma vida melhor, que são vítimas de erros do governo ou que são tomadas pelas angústias mais corriqueiras do cotidiano. Elas vivem em uma rua qualquer, num bairro norte-americano. Mesmo assim, estamos diante de um filme cheio de aspectos grandiosos e que deixam a impressão que o resultado final é muito mais do que um simples drama. Estamos diante de uma produção diferenciada.

Casa de Areia e Névoa começa em um nível simples de deamaticidade e, gradativamente, toma proporções cada vez mais intensas, até resultar em um desfecho surpreendente e arrebatador. Tudo isso pontuado por uma marcante trilha sonora de James Horner (desde já uma das melhores da última década) e por uma direção que traz excelentes jogos de câmeras, enquadramentos bem plenejados e cujas escolhas se aproveitam muito bem de todos os aspectos técnicos da produção.

Entretanto, o que existe mais marcante nesse filme é o trabalho de elenco. Encontramos aqui três atuações excepcionais. A mais incrível, sem dúvida, é a de Ben Kingsley. O papel de um homem rígido e fiel aos seus princípios trouxe ao ator momentos de pura soberania, onde Kingsley dá o seu melhor e chega a arrepiar. Jennifer Connelly, cujo papel confronta o de Kingsley, entrega, possivelmente, a melhor atuação de sua carreira. Enquanto isso, a coadjuvante Shohreh Aghdashloo chama a atenção com sua humanidade – e ela poderia muito bem ter vencido aquele Oscar que foi parar, inexplicavelmente, nas mãos de Renée Zellweger por Cold Mountain.

É com esse conjunto geral notável que Casa de Areia e Névoa consegue entregar um resultado extremamente posivito. O filme deixa uma sensação de completa competência, provando que é uma sucessão de escolhas certas. Alguns podem dizer que o desenvolvimento é meio longo (afinal, tem pouco mais de duas horas de duração) e que a solução dos conflitos é trágica demais. Mesmo assim, tudo isso passa batido em um longa-metragem que pode até não ser uma obra-prima, mas que traz qualidades impossíveis de se questionar.

A história? Casa de Areia e Névoa narra um embate. De um lado está Kathy (Jennifer Connelly), jovem que sofre profunda depressão após ter sido abandonada pelo marido. Por um erro do governo, ela é expulsa da casa em que morava. Inconformada, contrata um advogado para recuperar a casa. Do outro lado está Behrani (Ben Kingsley), imigrante iraniano que comprou a casa de Kathy em leilão, o que para ele é a oportunidade de dar conforto à mulher e ao filho e de recuperar o padrão de vida que tinham no Irã.

FILME: 8.5


Na coleção… Capote

Capote é um filme lento, arrastado e de poucos acontecimentos. É muito fácil encontrar quem não aprove o resultado do longa de Bennett Miller. A  lentidão da narrativa, realmente, prejudica o andamento da história. Mas, Capote tem dois fatores que relevam qualquer tipo de falta de ritmo. O primeiro deles é a extraordinária interpretação de Philip Seymour Hoffman. O segundo é a ótima evolução emocional de cada um dos personagens.

O filme narra o interesse do escritor Truman Capote (Hoffman) pelo brutal assassinato da família Clutter em uma remota cidade de costumes rurais nos Estados Unidos. O escritor ficou sabendo do crime por uma notícia do jornal e, aos poucos, começou a se envolver cada vez mais. A princípio, era para ser apenas um artigo para o New York Times. Entretanto, Capote se envolveu tanto com a história que decidiu escrever um livro. O resultado? A Sangue Frio, um dos livros de não-ficção mais famosos da literatura norte-americana.

Capote foge das formalidades tão presentes em cinebiografias e entrega um produto, sim, biográfico, mas longe de parecer como tal. Um dos grandes méritos desse trabalho de Bennett Miller é falar especificamente sobre a jornada emocional do protagonista. É fantástico acompanhar toda a transormação de Capote na medida em que se envolve cada vez mais com a história e com entrevistas exclusivas com os assassinos. Gradativamente, o personagem vai se modificando e, ao final, podemos nos surpreender ao ver a figura principal tão devastada.

Porém, toda essa abordagem dramática não teria a mesma força se não tivéssemos um ator tão extraordinário como Philip Seymour Hoffman no comando. Vencedor do Oscar de melhor ator por seu desempenho, Hoffman reproduziu com exatidão todos os tiques e trejeitos de Capote. Mas, todo mundo sabe que, às vezes, isso não é o bastante. Ele vai além. Muito mais do que uma reprodução biográfica, o ator criou uma figura crível e verdadeira. Não é só uma pessoa sendo reproduzida na tela. É, também, um personagem dramático de grande qualidade.

Se não fosse por seu ritmo cansativo, Capote seria um filme mais admirável. Gosto bastante de todo o resultado geral, mas, assim como muitos, fico incomodado com um roteiro tão lento como esse. Bennett Miller só teria a ganhar com um texto mais dinâmico e que não dialogasse exclusivamente com aqueles que tem paciência para acompanhar algo assim. Essa mesma história ainda tem outra versão (inferior, por sinal), Confidencial, com Toby Jones, Sandra Bullock e Daniel Craig.

FILME: 8.0