Na coleção… A Morte Lhe Cai Bem

Brincar com o caricato é uma decisão muito perigosa. Se dá certo, a diversão é garantida. Se dá errado, o resultado pode ser insuportável. A Morte Lhe Cai Bem, do diretor Robert Zemeckis, caminha nesse mundo de personagens exagerados, situações extremas e trama mais do que inverossímil. O resultado, porém, fica no grupo do resultado positivo. Claro que esse filme estrelado por Meryl Streep, Goldie Hawn e Bruce Willis está muito longe de fazer qualquer milagre, mas a diversão é garantida, especialmente se você conseguir entrar no clima e apreciar cada caricatura proposital.
Helen Sharp (Goldie Hawn) está prestes a se casar com o cirurgião plástico Ernest Menville (Bruce Willis), mas ela decide fazer um teste com o seu futuro marido: levá-lo até Madeline Ashton (Meryl Streep), uma atriz e antiga colega de Helen que sempre roubou todos os seus namorados. As duas fingem uma relação pacífica, mas, no fundo, só nutrem ódio uma pela outra. Se Ernest Menville conhecer Madeline e não se deixar levar pelos encantos dela, Helen se convencerá que achou o homem certo. No entanto, mais uma vez, ela perde o namorado. Anos depois, Helen volta mais bela do que nunca, para o completo pavor de Madeline, que vive um casamento fracassado com Ernest e que agora quer, a todo custo, recuperar sua fama e beleza.
Sem dúvida, o ponto alto do filme é o elenco. Se Goldie Hawn transita muito bem entre os papeis de mocinha estranha e de mulher renovada e vingativa, Meryl Streep brilha no seu sempre divertido papel de megera fingida (que, anteriormente, foi trabalhado em Ela é o Diabo). Bruce Willis também não fica atrás e trabalha com muito humor o personagem que está no meio do duelo das personagens principais. O afinado elenco é que dá esse tom tão divertido para A Morte Lhe Cai Bem. É perceptível como todos estão se divertindo – e, para um filme de comédia, esse é um mérito a ser valorizado!
Por um outro lado, A Morte Lhe Cai Bem não dá maiores motivos para que o espectador possa dizer que essa é uma comédia especial. Afinal, o longa de Zemeckis fica cada vez mais absurdo com o passar dos minutos e tem muita gente que pode se irritar com isso… Sorte que Zemeckis conseguiu juntar um trio extremamente eficiente, que entendeu o propósito da história e o tom que o diretor quis atribuir ao enredo. Se não fosse por eles, talvez o resultado não fosse o mesmo, já que A Morte Lhe Cai Bem poderia muito bem fracassar nas mãos de atores errados…
FILME: 7.5

Na coleção… Desejo e Reparação

Desejo e Reparação pode ser considerado um clássico contemporâneo. Dificilmente, nos dias de hoje, um filme de época foi tão bem produzido e, ao mesmo tempo, conseguiu ser extremamente emotivo e até mesmo reflexivo. Narrando a secreta e conturbada história de amor de Robbie (James McAvoy) e Cecilia (Keira Knightley), que é subitamente interrompida pelas atitudes inconsequentes da jovem Briony (Saoirse Ronan), o diretor Joe Wright realizou um grande trabalho que foi injustamente desdenhado pelas premiações – era, por exemplo, superior ao grande vencedor do Oscar, Onde os Fracos Não Têm Vez.
A estrutura da história é claramente divida em três atos bem distintos em todos os sentidos. O primeiro, passado em um verão na Inglaterra, é o melhor de todos porque, além de contar com uma extraordinária performance da jovem Saoirse Ronan, pontua muito bem o psicológico de cada personagem, explora a motivação de cada um deles e apresenta os fatos da forma mais bela possível – e, nisso, incluímos a fotografia de Seamus McGarvey e a inesquecível trilha do italiano Dario Marianelli. Já o segundo, passado em um período de guerra, mantem a excelência técnica, mas não consegue preservar o excelente ritmo apresentado até então. Em termos de ritmo, é justamente o oposto do primeiro ato.
E, na terceira e última parte, Desejo e Reparação nos resevera inúmeras surpresas. É no desfecho que descobrimos a verdade sobre tudo que foi apresentado anteriormente. Assim, além de ter o poder de surpreender diversas vezes, o roteiro também encerra com maestria a jornada de cada um dos personagens. Essa emoção está claramente explícita na cena final, onde Vanessa Redgrave surge para narrar um dos finais mais emblemáticos dos últimos anos. Por todos esses motivos, Desejo e Reparação revela-se um filme indispensável do cinema contemporâneo e falar mais do que isso é correr o risco de estragar o que existe de maravilhoso nesse longa…
FILME: 9.0

Na coleção… O Dia Depois de Amanhã

Quando assisti a 2012, pensei: “Céus, o que aconteceu com Rolland Emmerich?”. Esse último longa do diretor nada mais era do uma descontrolada bobagem atolada de clichês e uma interminável história sem qualquer qualidade além dos efeitos visuais. A minha indignação era tanta em função da minha grande empolgação com outro trabalho de Emmerich, O Dia Depois de Amanhã – que é, possivelmente, o filme-catástrofe que melhor define a ideia de entretenimento nas clichês produções que encenam o fim do mundo.
Assim como em qualquer outro filme de Emmerich e em também qualquer outro exemplar do gênero (incluindo Guerra dos Mundos, por exemplo, de Steven Spielberg), é fácil adivinhar que o protagonista não vai morrer, que os coadjuvantes malvados vão encontrar o fim da vida em uma catástrofe e que os personagens sempre sairão ilesos das mais mirabolantes cenas criadas em efeitos especiais. Mas o interessante é que O Dia Depois de Amanhã administra muito bem essas previsibilidades com um clima interessante de “fim do mundo”.
Claro que os impecáveis efeitos especiais ajudam, mas temos também um bom trabalho de fotografia e, acima de tudo, uma temática que torna tudo muito mais plausível. Os mais críticos vão dizer que todas as catátrofes climáticas acontecem de forma exagerada num curto espaço de tempo. No entanto, se formos parar e pensar, hoje em dia não dá para duvidar de mais nada. Parece que O Dia Depois de Amanhã, assim como Uma Verdade Inconveniente, de certa forma, alertava para o triste futuro dos grandes danos causados pelo homem no meio ambiente.
Os pontos fracos estão ali presentes, especialmente no elenco (Jake Gyellenhaal ainda estava com aquela cara de moleque com muito a aprender e Dennis Quaid não é a melhor das opções) e nas resoluções enfadonhas. Mas nada mais previsível para um longa-metragem que estava fadado a cometer os mesmos erros de tantos outros filmes. Só que, ao contrário de 2012, Emmerich conseguiu fazer tudo com uma habilidade notável. É entretenimento bem produzido e um filme-catástrofe acima da média. Quero esse diretor de volta.
FILME: 8.5

Na coleção… O Diabo Veste Prada

A história já é conhecida: Andrea Sachs (Anne Hathaway), recém formada em jornalismo, consegue um emprego como assistente de Miranda Priestly (Meryl Streep), a rígida e exigente editora-chefe da revista de moda Runway. O problema é que Andrea não sabe nada sobre moda – muito menos sobre como se vestir bem – e, desde o primeiro momento que pisa no prédio da revista, passa a sofrer por causa disso e, principalmente, por causa da personalidade “megera” de sua chefe. Só que esse não é um emprego qualquer. Sobreviva a ele, e você conseguirá emprego em qualquer lugar que quiser.
Sucesso na época de seu lançamento (e também um dos filmes que ajudou Meryl Streep a se tornar a atriz que mais dá bilheteria nos últimos anos), O Diabo Veste Prada atingiu o grande público, já foi exibido diversas vezes na TV e é um dos guilty pleasures mais prazerosos dos últimos anos. Previsível do início ao fim e com reflexões mais do que batidas, o roteiro não quer parecer revolucionário. O único propósito é entreter – e isso, não podemos negar, é o grande forte de O Diabo Veste Prada, um filme muito agradável, atraente para os olhos e com um ritmo dinâmico.
O elenco também tem sua parcela de contribuição no resultado vitorioso do filme de David Frankel. Além de revelar a ótima Emily Blunt, trouxe Anne Hathaway superando com grande carisma uma personagem que poderia ser inexpressiva e Stanley Tucci em uma personificação divertidíssima. Agora, não adianta, nada em O Diabo Veste Prada se equipara ao brilhante desempenho de Meryl Streep. Coadjuvante na história (mas só na definição da palavra, já que, apesar de não ser a protagonista, ela rouba a cena), a atriz nunca esteve com um timing cômico tão inspirado. Elegante, sutil e perfeita em cada gesto, Streep apresentou um dos grandes desempenhos de sua carreira, além de imortalizar uma emblemática personagem.
O Diabo Veste Prada dá razões para receber críticas negativas. Mas, sinceramente, não vejo razões para não passar por cima delas. Os pontos positivos são muito mais impactantes que os negativos. É preciso estar de muito mau humor para não se deliciar com a excelente trilha sonora (não só as canções de Madonna, U2, Moby, entre outros, mas também a instrumental de Theodore Shapiro), o elenco afiado, Meryl humilhando a cada minuto e os excelentes figurinos. O Diabo Veste Prada fez milagres com o fraco livro de Lauren Weisberger e ultrapassou barreiras, tornando-se um ótimo entretenimento – mas, claro, só para quem estiver disposto a enxergar tudo desse ponto de vista.
FILME: 8.5

Na coleção… Coisas Belas e Sujas

Aprecio demais a carreira do diretor Stephen Frears. Não só os seus trabalhos com a realeza (Ligações Perigosas e A Rainha são ótimos), mas também aqueles pequenos filmes como Coisas Belas e Sujas. Essa produção estrelada por Chiwetel Ejiofor e Audrey Tautou recebeu, inclusive, uma indicação ao Oscar de melhor roteiro original. Nomeação merecida, uma vez que Coisas Belas e Sujas é um filme bem amarrado e que nunca perde o ritmo.
O enredo é o seguinte: o nigeriano Okwe (Chiwetel Ejiofor) está vivendo ilegalmente na Inglaterra, assim como a turca Senay (Audrey Tautou) também tem seus problemas com a legalização de sua permanência no país. Os dois estão tendo um romance e trabalhando no hotel Baltic. Uma noite, Okwe descobre o mercado de tráfico de órgãos, onde os “doadores” cedem, por exemplo, um rim para conseguir passaporte para outro país. Okwe e Senay, então, começam a se envolver cada vez mais nesse perigoso mundo clandestino para conseguir suas respectivas legalizações.
Com uma premissa dessas, diretores mais inexperientes poderiam cair no lugar-comum ou, então, criar uma história completamente irregular. Sorte que Stephen Frears foi certeiro no tom de denúncia e ainda conseguiu criar um filme que tem vários momentos de tensão e suspense. O ponto forte de Coisas Belas e Sujas é o roteiro, que tem a notável habilidade de ser eficiente sem nunca perder as rédeas. Esse é um trabalho pequeno e sem grandiosidades, mas que deve conquistar muita gente com o ótimo resultado. Só resta saber se todos vão querer embarcar nessa história que, de certa forma, é desconfortável e traz uma visão mais “negativa” de Londres.
FILME: 8.0
