Ninguém mais encosta em mim!

Direção: Bruno Safadi
Roteiro: Claudia Jouvin
Elenco: Andrea Beltrão, Leandra Leal, Marina Ruy Barbosa, Mariana Sena, Antonio Calloni, Lázaro Ramos, João Vitor Silva, Henrique Barreira, Adelio Lima, Renan Monteiro, Marcos de Andrade, Gero Camilo
Brasil, 2026, Suspense, 93 minutos
Sinopse: Na estação de pesquisas brasileira na Antártida, uma equipe de cientistas e militares se prepara para passar o inverno confinada. Quando a cientista Inês (Marina Ruy Barbosa) é violentada, a subcomandante Elisabeth (Andrea Beltrão) não descansa até descobrir a identidade do agressor. Antártida é um thriller psicológico sobre sobrevivência, justiça e solidariedade feminina em um dos lugares mais inóspitos do planeta.

Com razão, Antártida faz de seus méritos técnicos uma verdadeira bandeira. Rodado inteiramente dentro dos Estúdios Globo, com produção da própria TV Globo, o longa-metragem de Bruno Safadi recria paisagens, nevascas e geleiras sem dever em nada a produções vindas do exterior. Não é pouca coisa — afinal, o cinema brasileiro merece alçar voos maiores do ponto de vista técnico, viabilizando histórias que, anos atrás, não seriam possíveis devido a limitações tecnológicas. A crença da Globo no projeto foi tanta que Antártida foi encomendado para as telas de cinema, e não para o streaming. Durante a estreia no último Festival de Cinema de Gramado — e, até onde sei, em outras ações de divulgação após o evento serrano —, a produtora Isabela Bellenzani também optou por não entrar em detalhes sobre o quanto a obra teria custado. Sinal de que pouco, claro, não foi, até em função do elenco estelar.
Como é de praxe, tanta publicidade sobre fatores externos não resolve o resultado na tela. Antártida pode ser vitorioso tecnicamente, mas patina em todo o resto, inclusive em um problema de origem que me inquieta: como um filme tão feminino, centrado em questões de violência contra a mulher e idealizado há muitos anos por uma cineasta (Claudia Jouvin, do interessante Um Homem Só), acabou sendo comandado por um homem? Não é sobre questionar o talento que Bruno Safadi já provou ter como diretor, especialmente em trabalhos menores, como Éden, que rendeu um Kikito de melhor atriz para Leandra Leal, mas sim sobre estender, para fora do roteiro, bandeiras e representatividades que Antártida busca defender. Pelo menos para mim, me pareceria muito natural — e bonito, dados os marcos envolvidos – uma mulher estar à frente de um projeto como esse.
Adentrando a história em si, outra fragilidade é que não parece fazer muita diferença o filme se passar na Antártida, uma vez que o isolamento, condição central da trama, poderia se dar em qualquer outro contexto, algo que o gênero de terror já explora há décadas ao colocar personagens afastados das cidades e sem comunicação em casas no meio do nada. Isso ainda se reflete na pouca profundidade dada pelo roteiro às atribuições profissionais dos personagens: entre cientistas, militares e tantas subdivisões de títulos entre eles, nunca fica muito claro, ao menos para além da superfície, o que cada um faz. É algo que enfraquece a atmosfera, principalmente quando Inês chega à estação com uma câmera na mão e deslumbrada com as paisagens, convencendo mais como uma repórter fotográfica do que como uma especialista na área de glaciologia.
Inês, por sinal, é a vítima da violência que Antártida aborda por meio de um quebra-cabeça repleto de peças que, infelizmente, o roteiro se atrapalha para embaralhar e, enfim, encaixar. Ela se torna coadjuvante da própria história na medida em que o longa abraça o whodunnit e opta por observar os personagens pela ótica da suspeita, sem desenvolvê-los previamente para, então, plantar a dúvida. Trata-se de uma tática que sempre me incomoda porque ficamos à mercê das manobras do roteiro para plantar pistas falsas e desviar a nossa atenção, sem que o foco seja a grave situação que deu origem a tudo. É o que confirma a própria estrutura do roteiro de Jouvin: frequentemente recorrendo ao uso de flashbacks, o suspense não só sublinha a prioridade pelo “entretenimento” como vai esquecendo de personagens interessantes, como a médica vivida por Leandra Leal.
Ainda assim, o que mata boa fatia do mistério é como Antártida facilmente dá munições para que o espectador resolva a charada envolvendo a violência contra Inês. Um projeto tão woke jamais teria, por exemplo, um personagem negro ou gay como estuprador — e somente isso já elimina pelo menos dois personagens da lista de suspeitos. A situação piora no clímax, que se estende além do necessário, além de descambar para discursos em forma de diálogo, gritos a plenos pulmões diante de injustiças e uma sequência de ação inverossímil para fechar o arco. Depois de tudo isso, pelo menos, Antártida “congela” seu último frame no rosto de quem é a força inegável frente a tantas fragilidades: Andréa Beltrão, que tira leite de pedra e, por isso mesmo, reafirma sua inegável excelência como atriz.