
Nascido e forjado no teatro, Miguel Falabella diz ser diretor de cinema por paixão. Sua estreia como diretor de longas-metragens foi em 2008 com a comédia Polaroides Urbanas, estrelada pela saudosa Marília Pêra. Mais de uma década depois, em 2019, lançou Veneza, filme que viria a inaugurar aquela que pode muito bem ter se tornado a marca de Falabella como contador de histórias no cinema: a fábula. Não tenho maiores simpatias por essa obra que, por outro lado, é defenestrada pela crítica mais pelo preconceito com o tom fabulesco em si do que por sua execução pouco exitosa. A história parece se repetir agora com Querido Mundo, recebido de forma muito mista em sua estreia no 53º Festival de Cinema de Gramado, mas não por mim — aliás, acho que é visível seu amadurecimento como realizador entre um filme e outro.
Tendo como base o espetáculo homônimo escrito por ele próprio em parceria com Maria Carmen Barbosa, Falabella faz de Querido Mundo uma carta aberta ao amor — e a como precisamos de pessoas que verdadeiramente nos escutem. O otimismo é escancarado, o que por si só já considero uma qualidade em tempos de tantas adversidades, e o diretor abraça com gosto a sua verve popular. Para chegar à essência da fábula, o longa, claro, não se furta dos extremos: a protagonista vivida por Malu Galli, por exemplo, passa por todos os tipos de maus tratos nas mãos do marido, assim como o personagem de Eduardo Moscovis é pura inércia diante da amargura de sua agora ex-mulher Otília. Trata-se, no final das contas, da opressão que o bem sofre do mal, matéria-prima de incontáveis fábulas.
Os dias de Elsa (Galli) e Osvaldo (Moscovis) são registrados em preto-e-branco, enfatizando a supressão de cor na existência de duas pessoas que, talvez, nunca tenham recebido amor de verdade, e Querido Mundo não poupa na via crucis até o fatídico momento que conectará suas duas figuras centrais em meio às ruínas — literalmente. Tudo muda a partir daí, inclusive em termos de envolvimento com o filme, talvez pelo melhor aproveitamento da natureza teatral do texto que o diretor emoldura com uma técnica esmerada, da fotografia de Gustavo Habda à direção de arte de Tulé Peake. Em um palco de destroços, Querido Mundo encontra o seu melhor após uma primeira metade que se prolonga na preparação do terreno para o que realmente interessa.
Assim como nas fábulas, as emoções em jogo são puras, e os protagonistas caminham nessa linha tênue entre elas e a ingenuidade. Tanto Elsa quanto Osvaldo têm em comum a derrota — e ela própria, inclusive, diz com todas as letras que ambos são verdadeiros perdedores na vida. Em comum, contudo, há a vontade de reconstruir a vida e o amor, daí o otimismo da obra. Entre os acertos dessa abordagem, muitos pontos devem ser conferidos à Malu Galli, em desempenho que navega entre o drama e a comédia com naturalidade e luminosidade. É também pelo prazer de vê-la em boa química com Moscovis que, mesmo já gostando do resultado como um todo, senti falta de ainda mais espaço para o teatral em Querido Mundo.
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