53º Festival de Cinema de Gramado #4: “O Último Azul”, de Gabriel Mascaro

Os contadores de histórias contemporâneas têm despertado para as reflexões envolvendo os desejos reais do envelhecimento. Gabriel Mascaro está entre eles: diretor de filmes como Boi Neon e Divino Amor, o pernambucano conquistou o Urso de Prata no último Festival de Berlim com O Último Azul, onde reflete sobre a jornada de uma mulher de 77 anos que, de repente, se vê obrigada a se mudar para uma colônia de moradias para idosos a partir de uma ordem oficial do governo. Entretanto, Tereza (Denise Weinberg) se recusa a obedecer às normas desse Brasil distópico. Ela ainda tem autonomia e, mais do que tudo, vontades próprias — e não pensará duas vezes antes de buscar caminhos para preservá-las.

Para tanto, a protagonista se envereda em um boat movie: cruzando as águas da Amazônia, ela encontra pessoas que podem ser o vislumbre da realização de um sonho antigo (ela enfim quer voar, mesmo que o governo tenha bloqueado sua autonomia de fazer compras sem autorização prévia da família) ou que, invariavelmente, deixarão marcas capazes de modificar sua perspectiva de vida. O ponto de partida é belo na medida em que o cinema costuma tratar os corpos envelhecidos apenas pela ótica da finitude, da nostalgia ou de uma certa inadequação diante da velocidade moderna, tudo o que Tereza rechaça por princípio e lucidez.

Com narrativa enxuta — por vezes, até demais —, O Último Azul é econômico na duração e na palavra, o que permite que Mascaro explore muito bem elementos como a criativa trilha sonora assinada por Memo Guerra e as paisagens da Amazônia, que, para além da estética, contribuem para os diferentes estados de espírito da protagonista ao longo da projeção. Há lacunas que o filme deixa para o espectador preencher, especialmente sobre a vida pregressa de coadjuvantes como o Cadu de Rodrigo Santoro, homem de coração partido que, solitário em um barco, é o primeiro a cruzar o caminho de Tereza nessa fuga com sentido de libertação.

O Último Azul não segue a mesma linha de Divino Amor no que tange a brincadeira com a distopia. Sacadas como a do “cata-velho”, veículo que apreende idosos em situações irregulares com o governo, são breves, o que é coerente com a natureza do filme como um todo. Acontece que nem sempre tanta economia trabalha necessariamente a favor de uma obra, e isso acaba trazendo certa dualidade para O Último Azul, um trabalho elegante no comprometimento com o mínimo de distrações em detrimento da jornada pessoal de sua personagem, mas, com frequência, deixa pelo caminho incompletudes que causam distanciamento com a protagonista e com a mensagem do roteiro.

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