
O diretor Walter Salles recebe o Oscar de melhor filme internacional para Ainda Estou Aqui.
O Brasil finalmente tem um Oscar de melhor filme internacional em casa, e não há melhor notícia para resumir o Oscar 2025. A conquista por si só é gloriosa, uma vez que Ainda Estou Aqui chegou lá com uma trajetória das mais bonitas, começando pela grande estratégia de lançamento e campanha promovida pela Sony Pictures Classics nos Estados Unidos. Fernanda Torres, protagonista do filme, também foi fundamental na estratégia de divulgação do longa: incansável, a atriz tomou frente em todas as aparições na imprensa e se tornou um fenômeno também em terras estrangeiras. Tão impressionante quanto a visibilidade alcançada por Ainda Estou Aqui foi a circunstância: o filme de Walter Salles derrotou nada menos do que Emilia Pérez, filme que, sim, teve sua trajetória implodida pela protagonista Karla Sofía Gascón, mas que, ainda assim, tinha 13 indicações ao Oscar, mais do que qualquer outro filme em língua não-inglesa em quase 100 anos da premiação. Ou seja, tudo envolvendo o reconhecimento brasileiro é repleto de triunfos e significados.

Indicada a melhor atriz, Fernanda Torres exerceu papel fundamental na campanha de Ainda Estou Aqui.
Nas categorias principais, a Academia realmente caiu de amores por Anora, concedendo ao filme de Sean Baker um reconhecimento raro, afinal, poucos são os trabalhos que saem da cerimônia levando para casa as estatuetas de melhor filme, direção, atriz, roteiro e montagem. Se Anora não é nem mesmo o trabalho mais interessante da carreira de Baker (isso sim é frequente no Oscar: realizadores sendo reconhecidos por suas obras menos marcantes), a notícia não poderia ser melhor para o cinema independente, reconhecido ainda em outras categorias como melhor animação (Flow) e melhor documentário (Sem Chão). Até mesmo O Brutalista pode se encaixar nessa lógica: mesmo que tenha ares de uma grande produção, o longa de Brady Corbet custou apenas 10 milhões de dólares e, para fins de categorização, chegou, inclusive, a concorrer ao Independent Spirit Awards de melhor direção. Qualquer reconhecimento ao cinema que foge do mainstream e do padrão blockbuster é sempre bem-vindo.

Mikey Madison com o Oscar de melhor atriz por Anora.
A parcela de gosto amargo que o Oscar 2025 deixa reside na escolha de Mikey Madison em melhor atriz por Anora. Como a vitória de Fernanda Torres era mais um wishful thinking do que exatamente um favorotismo real, a injustiça acabou recaindo sobre Demi Moore (A Substância), que, indiscutivelmente, encabeçava as apostas após vitórias no Globo de Ouro e no Screen Actors Guild Awards. Protagonista de um filme que, entre outras críticas, lança luz sobre a cruel maneira com que a indústria do entretenimento é intolerante ao envelhecimento e não pensa duas vezes antes de jogar alguém no lixo para dar lugar ao frescor da juventude, Demi viu o Oscar, em uma indigesta coincidência, fazer justamente aquilo que o seu filme tanto critica. Mikey, que tem apenas 25 anos, não era, ao meu ver, uma das melhores da categoria, e certamente terá um punhado de outras chances para ganhar prêmios na vida, enquanto Demi, uma popcorn actress segundo sua própria definição, está no auge de sua carreira em A Substância. Mais do que uma injustiça, tenho a impressão de que a vitória de Mikey Madison foi prematura e possível apenas pelo grande impulso tomado por Anora nas demais categorias.
Confira abaixo a lista completa de vencedores:
MELHOR FILME: Anora
MELHOR DIREÇÃO: Sean Baker (Anora)
MELHOR ATRIZ: Mikey Madison (Anora)
MELHOR ATOR: Adrien Brody (O Brutalista)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Zoe Saldaña (Emilia Pérez)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Kieran Culkin (A Verdadeira Dor)
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Anora
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Conclave
MELHOR FILME INTERNACIONAL: Ainda Estou Aqui (Brasil)
MELHOR ANIMAÇÃO: Flow
MELHOR DOCUMENTÁRIO: Sem Chão
MELHOR MONTAGEM: Anora
MELHOR FOTOGRAFIA: O Brutalista
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: Wicked
MELHOR FIGURINO: Wicked
MELHOR TRILHA SONORA: O Brutalista
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “El Mal” (Emilia Pérez)
MELHOR SOM: Duna: Parte 2
MELHORES EFEITOS VISUAIS: Duna: Parte 2
MELHOR MAQUIAGEM E CABELOS: A Substância
MELHOR CURTA-METRAGEM: I’m Not a Robot
MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO: In the Shadows of the Cypress
MELHOR CURTA-METRAGEM DE DOCUMENTÁRIO: The Only Girl in the Orchestra