“Hacks”, terceira temporada: libertação e egoísmo andam de mãos dadas no ato de se reinventar?

hacksS3

De personalidades e gerações muito distintas, Deborah Vance (Jean Smart) e Ava Daniels (Hannah Einbeinder) encontram um denominador comum na comédia. A primeira é uma veterana do standup comedy adorada em todo o país, enquanto a segunda tenta dar um novo sentido ao seu dom cômico após um momento de baixa na vida profissional. Hacks, exibida desde 2021 pelo Max, parte do inusitado encontro entre as duas, quando Ava aceita a missão de se tornar roteirista de Deborah, mas, aos poucos, revela outras camadas que vão além de uma mera brincadeira acerca do fazer comédia. E, se há uma que chama atenção, especialmente agora no terceiro ano da série, arrisco dizer que é a da discussão sobre os desafios de se reinventar.

A série criada por Lucia Aniello, Paul W. Downs e Jen Statsky é, por definição, o relato de uma jornada de reinvenção — afinal, Deborah contrata Ava justamente porque precisa de novas ideias e perspectivas para se manter revelante em um showbusiness nada generoso com o envelhecimento, muito menos com o das mulheres —, e as duas primeiras temporadas foram exitosas no desenho das personagens e na interação entre elas, que sempre navegaram por altos e baixos em uma relação de amor e ódio no bastidores. Com a ajuda de Ava, Deborah conseguiu se reinventar: subiu mais uma vez aos palcos, reviveu a glória de outrora, voltou a ser sucesso comercial país afora e reposicionou a força de seu nome em um mercado cada vez mais refém de cifras e redes sociais.

hacksS3-1

De volta ao topo, o que resta para Deborah e, mais especificamente, para Hacks? A terceira temporada, cujo último episódio foi exibido no dia 30 de maio começa morna, sugerindo que, talvez, a série corra o risco de cair na repetição. A sensação de déjà vu se dá por mais uma vez termos a personagem de Jean Smart atrás de um objetivo aparentemente difícil que, ao final, será contornado — no caso, a cadeira de apresentadora do talk show Late Night, cargo que, segundo Deborah, sempre foi o seu maior sonho profissional. Também há a reaproximação com Ava para manter aquecido aquele que é um dos maiores atrativos da série: o convívio entre as duas.

Mais do mesmo, no final das contas? Não exatamente. A terceira temporada encontrou, ela própria, o seu caminho para uma espécie de reinvenção. Diante de um desafio muito mais difícil do que os anteriores, Deborah deixa aflorar novos medos e inseguranças, além de se deparar com algumas urgências e decisões inerentes ao envelhecimento. É o caso do reencontro com Kathy (J. Smith-Cameron), irmã por quem nutre um irremediável desafeto há décadas e que não faz mais parte da sua vida. Como bem diz Deborah, há certas coisas que, com o passar da idade, já não podem ser deixadas de lado, pois pode ser que não haja mais tempo em vida para que sejam resolvidas.

Só que Hacks também é sobre as travessias de Ava — e, nesta terceira temporada, ela tem uma das mais importantes. Ainda que o seriado tenha seus maiores holofotes na figura de Deborah, é sempre importante prestar atenção em Ava, pois ela, de um jeito ou de outro, representa o olhar do espectador diante de todo enredo. Ora, assim como ela, também temos sentimentos contraditórios em relação a Deborah, uma figura deveras egoísta, autocentrada, sem escrúpulos, entre outras coisas. Como poderíamos ter algum tipo de simpatia ou diversão por ela se não fosse pelos olhos de Ava, que busca sempre encontrar o brilhantismo, a humanidade e a verdade em uma mulher deveras detestável?

hacksS3-2

A epítome desses sentimentos contraditórios está em Bulletproof, último episódio da terceira temporada, quando Ava se depara com uma traição de Deborah. O momento é doído porque, estando na posição de Ava, nós também sempre quisemos acreditar que há uma Deborah diferente por trás do esnobismo rico, privilegiado e arrogante de uma comediante famosa. Assim como ela, caímos na lábia da personagem e, por diversos momentos, esquecemos de que Deborah, ao fim e ao cabo, não consegue se colocar no lugar do outro. “É preciso ser egoísta”, afirma a veterana em um dos melhores momentos do episódio, escancarando o lado mesquinho que torcíamos para não fazer mais parte de sua personalidade, o que não deixa de ser uma ilusão, pois, uma vez que Deborah faz tudo o que faz para a filha, por exemplo, como haveria de ser diferente com Ava?

Ao longo dos nove episódios dessa temporada, os roteiristas nos levaram, sim, a crer que a personagem estava em uma rota de transformação. O episódio em que Deborah enfrenta a retaliação de estudantes por suas antigas piadas racistas faz com que a comediante revise muita coisa, bem como quando ela, tomando bons drinks com alguns de seus contemporâneos da profissão, percebe a agressividade de certas piadas destinadas a grupos minoritários, constatação possível apenas pelo convivío próximo com a bissexualidade de Ava. Acontece que Deborah muda bastante, mas, quando o dia chega ao fim, ela continua a mesma em inúmeros aspectos.

Com um texto aparentemente “simples”, Hacks encapsula questões mais afiadas em uma terceira temporada que termina com o melhor gancho da série. Como um todo, a nova leva de episódios nem sempre acertou — Deborah nos palcos faz muita falta, coadjuvantes como o Marcus de Carl Clemons-Hopkins decaíram em aproveitamento e a participação de Helen Hunt foi frustrante —, mas esse componente que enxerga como uma reinvenção particular pode, na verdade, descambar para um ato de egoísmo em que qualquer preço deve ser pago para se alcançar um objetivo particular deu sentido a tudo mostrado na trama até aqui. É tanto sobre showbusiness quanto sobre qualquer mundo corporativo por aí. Hacks, assim como Deborah Vance, conseguiu se reinventar nesse terceiro ano, com a diferença de não apelar ao egoísmo. Pelo contrário: sua cena final é um clímax maduro e esperto para que nós, espectadores, esperemos o quarto ano com a melhor das expectativas.

Deixe um comentário