
Se há alguma magia a ser alcançada por qualquer cinebiografia, essa deveria ser a de conseguir emular, em seu próprio espírito, as razões que popularizaram um personagem a ponto de ele ser digno de virar filme. Não são muitas as que conseguem, mas podemos creditar bons exemplos a filmes como Rocketman, que se apropria da imaginação de Elton John para contar sua história por meio de um musical, e até mesmo o documentário Cássia Eller, que, mesmo convencional em formato, consegue capturar a verve da cantora-título ao fazer escolhas certeiras de depoimentos ou recortes específicos. E, por mais que reproduza a cartilha de sempre das cinebiografias, Mussum, o Filmis se junta a esses resultados felizes em que um projeto parece mesmo tomado pela energia de seu personagem.
A estreia nos cinemas brasileiros está prevista para o dia 3 de novembro, e não será surpresa alguma se o filme de Silvio Guindane conseguir mobilizar plateias com a boa mistura alcançada entre humor, samba e dramas familiares. Mussum, o Filmis é, antes de qualquer coisa, muito brasileiro e habilidoso ao construir uma fácil comunicação com o público, principalmente porque não tenta engrandecer a todo custo a história do protagonista, sempre visto com um homem simples e comum, sem aqueles tradicionais arcos de ascensão, fama e queda que já são de praxe no gênero. O longa acerta em preferir o ser humano ao ícone cômico do início ao fim, o que confere grande dignidade tanto a Mussum (Aílton Graça) quanto a figuras importantes de sua vida.
É nos encontros que ele tem com, por exemplo, Grande Otelo, e na relação estabelecida com a mãe que o personagem ganha nosso afeto. Entretanto, tais conexões não teriam a mesma eficiência se o elenco reunido por Guindane não fosse tão coeso. Os louros dados a Aílton Graça são mais do que justificados, além de serem um presente para esse ator prolífero e que aguardava um momento de destaque como esse, mas todos merecem nota, sejam aqueles em pontas importantes, como o próprio Grande Otelo de Nando Cunha, ou os que estão ali para fazer transições, a exemplo do Mussum mais jovem de Yuri Marçal e das mães vividas por Cacau Protásio e Neusa Borges. Todos eles contam com um excelente trabalho de caracterização que se estende à personificação de outros ícones como Elza Soares e Jorge Ben.
Ao mesmo tempo em que tais acertos tiram a experiência do clima enfadonho que já é característico das tantas cinebiografias produzidas atualmente, eles não nos distraem da falta de ousadia no formato, da escolha por evitar polêmicas (o maior conflito, por assim dizer, é a separação muito discreta dos Trapalhões em função de Didi) e dos discursos literais e edificantes, como aquele em que, próximo ao final da projeção, o protagonista dá a um grupo de crianças carentes. Contudo, na hora de fechar a conta, Mussum, o Filmis pode até não ser um grande longa, mas tem coração de sobra para já ser melhor do que a média das dramatizações que chegam aos cinemas envolvendo figuras da vida real.