
No melhor da linha tênue entre o pessimista e o realismo, Mais Pesado é o Céu pinta o retrato de um Brasil já terminado, com dois protagonistas que, apesar das duras adversidades, precisam olhar para frente, mas que sequer conseguem abrir os olhos. Eles são Antônio (Matheus Nachtergaele) e Teresa (Ana Luiza Rios), estranhos à beira da estrada que acabam unidos pelo aparecimento de um bebê abandonado. Seria essa pequena criança um vislumbre de esperança para uma vida repleta de incertezas e desprovida de perspectivas?
Mais Pesado é o Céu pode ser resumido a partir desse recorte. No entanto, o segundo longa-metragem do cearense Petrus Cariry é mais sobre atmosfera e menos sobre uma história propriamente dita. Aliás, leva um certo tempo para que o espectador, naturalmente inclinado a desvendar o que acontecerá com os personagens em termos de acontecimentos, acostume-se à ideia de que o objetivo do diretor está em se comunicar por meio de imagens e, principalmente, sensações, convidando a plateia para um mergulho na vida de duas pessoas que mal sabem como ou onde estarão ao final do dia.
Também fotógrafo do filme e autor do roteiro ao lado de Firmino Holanda e Rosemberg Cariry, Petrus registra a estrada não como a esperançosa via para se chegar a um destino, mas como um não-lugar em que pessoas estão vivas sem necessariamente estarem vivendo. O bebê que poderia ser o símbolo de um futuro diferente ou, quem sabe, da construção de uma família logo exige de Antônio e Teresa sacrifícios ainda maiores em comparação ao que estavam acostumados em suas vidas como andarilhos, colocando-os praticamente em queda livre.
Mais Pesado é o Céu não economiza na dureza com que trata seus protagonistas, ao mesmo tempo em que também lhes observa com outros traços. Uma cena que exemplifica muito bem essa mistura é aquela em que Antônio, a partir de um gesto muito natural, toma o resto de leite da mamadeira do bebê. Trata-se de algo ao mesmo tempo incômodo, tragicômico e compreensível, pois mostra a decisão errática tanto de um homem que rouba o já escasso alimento de uma criança quanto a de um desamparado também estado de fome.
Na estrada de Petrus Cariry, bebês são abandonados, mulheres precisam se prostituir para garantir seu sustento e homens são tão medíocres quanto violentos. Entretanto, Mais Pesado é o Céu reserva, sim, espaço para algum tipo de luz no fim do túnel, seja nas entrelinhas do desfecho violentamente vertiginoso ou nas personagens de suporte vividas por Danny Barbosa e Silvia Buarque, ambas mulheres que tentam, na medida do possível, dar algum ombro ou acolhimento para a sofrida Teresa.
“O que a gente fez com a gente?”, pergunta, em certo ponto, o Antônio de Matheus Nachtergaele. A pergunta representa perfeitamente o que Mais Pesado é o Céu coloca na tela em imagens, seja por meio da excelente fotografia do próprio Cariry ou da intensa e atmosférica trilha sonora de João Victor Barroso. Não é para qualquer tipo de público — assim como, de imediato, logo após a sessão, pensei que não fosse para mim —, mas trata-se de uma experiência no mínimo fora da curva e que, mesmo difícil e pesada de se digerir, pode muito bem se engrandecer conforme é relembrada e refletida.
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