Três atores, três filmes… com Paulo Henrique Silva

Criada em 2011, a Associação Brasileira de Críticos de Cinema – Abraccine é a primeira entidade nacional a reunir os críticos de cinema de todas as regiões do país. Promovendo as diversas formas de pensamento crítico, reflexão e debate sobre cinema, hoje a entidade é presidida pelo jornalista mineiro Paulo Henrique Silva, que também atua no jornal Hoje em Dia, de Belo Horizonte. Como de costume, o Paulo foi convidado a escrever para a coluna sobre três interpretações que considera marcantes no cinema. A partir desse convite, vieram três grandes atrizes em três grandes desempenhos. E vejam só: todas de intérpretes acima dos 60 anos, ativas profissionalmente e com a sorte de terem ao seu lado grandes diretores que reverenciam, na tela e fora dela, o imenso valor de suas respectivas carreiras e talentos. É, sem dúvida, uma seleção para ninguém colocar defeito. Confiram!

Meryl Streep (The Post: A Guerra Secreta)
A ferramenta principal do ator é o seu corpo, mas, no caso de Meryl Streep, o trabalho dela se dá principalmente por meio do olhar e dos lábios. Dependendo do gênero e do filme, eles nos conduzem de uma alegria contagiante a uma raiva incontrolável. Em As Pontes de Madison, Meryl não precisa dizer muito para mostrar uma mulher madura cheia de sentimentos guardados prontos para transbordar. Ela parece ser o retrato da mulher de seu tempo, ou das mulheres de seu tempo, multifacetada, uma amálgama entre a dona de casa submissa e àquela que está à frente das transformações sociais. Num filme recente como The Post, de Steven Spielberg, ela faz a síntese de uma carreira, reunindo numa mesma personagem os lados frágil e forte. Numa produção marcadamente dominada por homens, Meryl levanta a bandeira feminista, em que a atitude dela é determinante na trama. Em dois diálogos decisivos, com Tom Hanks e Bruce Greenwood, a fala num tom quase inalterado contrasta com um olhar e lábios que nos apontam muito do que acontecerá em seguida.

Isabelle Huppert (Elle)
Isabelle Huppert é um mistério. Seus personagens, num mesmo filme, apontam para vários caminhos. Talvez seja o que mais gosto nela: a imprevisibilidade. É uma risada característica que parece dizer mais da loucura interior do que qualquer outra coisa; um olhar que nos angustia ao revelar que ela irá até às últimas consequências; e uma voz que vai do angelical ao diabólico, com cada frase saindo dúbia. Seus personagens são sempre fortes. De Paul Verhoeven, ela ganhou em Elle um dos papéis mais emblemáticos de sua carreira, uma empresária que não sabe o que é, vivendo um processo assustador de autodescoberta, conectada ao pensamento de hoje – do homem? – sobre a mulher que emergirá de tantas transformações. Tanto o filme quanto ela parecem não querer dar uma resposta. A única coisa certa é que a sua ironia incômoda, outro traço marcante no trabalho de Isabelle. Vê-la em ação é sempre um prazer incômodo.

Sonia Braga (Aquarius)
Ver a brasileira Sonia Braga no filme Extraordinário, como uma avó que apoia a neta num momento familiar conturbado, é muito evocativo, como se fosse um prosseguimento de sua personagem em Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, e fechando uma linha do tempo iniciada com Eu Te Amo e A Dama do Lotação, na década de 70. Ela sempre viveu uma mulher forte, em contraste com um universo masculino em decadência. Os homens dos filmes de Arnaldo Jabor e Neville D’Almeida parecem já não dar conta da emancipação feminina. Esse desconcerto é muito simbólico de uma época em que passávamos pelos últimos anos da ditadura militar no Brasil. O que nos leva a Aquarius, mais de 30 anos depois, agora em que o país sofre com o liberalismo econômico e a corrupção. Resistir à venda de sua casa, que conta a rica história de sua trajetória, é um ato político, em torno da preservação da individualidade e da liberdade contra o apagamento liderado por um suposto progresso. Sônia representa muita coisa, menos ordem e progresso.

Um comentário em “Três atores, três filmes… com Paulo Henrique Silva

  1. 3 performances femininas recentes – e maravilhosas. Ótimas escolhas do Paulo Henrique Silva.

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