Viagens de um irmão

Grande vencedor da 39ª edição do Festival de Cinema de Gramado, Uma Longa Viagem, certamente, é o longa da premiação que mais tem chances de fazer sucesso quando entrar em cartaz. E devemos ser sinceros: o filme da diretora Lúcia Murat tem sim vários méritos que justificam o reconhecimento do público e da crítica, ainda que sua recepção em Gramado tenha sido calorosa além da conta. Uma Longa Viagem, ao misturar documentário e ficção, mostra as memórias familiares da diretora e a relação dela com seus outros dois irmãos a partir de cartas escritas por Heitor, o mais velho dos três, que, durante muito tempo, viajou pelo mundo inteiro.

Alternando várias narrações em off, o longa ilustra as viagens de Heitor através das dramatizações de Caio Blat, que, em um cenário, aparece interpretando essas cartas com imagens do lugar sendo refletidas ao fundo. É um instrumento narrativo no mínimo eficiente para um filme desse gênero, já que, se fosse narrado de forma convencional, Uma Longa Viagem poderia se tornar até mesmo maçante. Com isso, além de ótimos relatos dessas viagens do irmão da diretora, também temos Caio Blat em momento especial, onde prova que entrou mesmo nas memórias de Murat e compreendeu todo o espírito que ela quis passar ao abrir o seu mundo para os espectadores.

Só que existe um problema quase grave em Uma Longa Viagem. A proposta era de que o filme narrasse o relacionamento dos três irmãos, mas, no final das contas, acaba sendo um filme inteiramente dedicado a Heitor, que, além de aparecer na pele de Caio Blat, tem constante participação como ele mesmo. Heitor é uma figura singular: extremamente bem humorado, ele rouba a cena, ofuscando os outros irmãos a ponto de até esquecermos deles. Proposital ou não, Murat se deu conta do potencial da história do irmão e, em certo ponto, parece entregar Uma Longa Viagem inteiramente a ele. O documentário que era pra ser sobre um trio virou quase um monólogo.

Por mais que fuja de suas intenções iniciais, Uma Longa Viagem é interessante do início ao fim. Não sei até que ponto o grande público conseguirá acompanhar tantas histórias narradas constantemente, mas é fato que todos estarão prontos para perdoar qualquer deslize do filme… Tudo isso em nome de Heitor. Seja ele na versão Caio Blat ou na versão real mesmo. Uma Longa Viagem é todo desse personagem e se qualquer celebração foi dedicada a esse longa-metragem, podem contar que é tudo obra desse irmão que aproveitou cada minuto de suas inúmeras viagens pelo mundo.

2 comentários em “Viagens de um irmão

  1. Foi por esse filme que Caio Blat ganhou o prêmio em Gramado? Na foto ele está muito magro. Teu texto me deixou curiosa para assistir ao filme.

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