Bruna Surfistinha

Só a Bruna poderia ter chegado a essa conclusão. Nunca a Raquel. Se um dia eu sair dessa vida, quero sair como eu entrei: assumindo que foi uma escolha que eu fiz.

Direção: Marcus Baldini

Elenco: Deborah Secco, Cássio Gabus Mendes, Drica Moraes, Fabiula Nascimento, Cristina Lago, Guta Ruiz, Clarisse Abujamra

Brasil, Drama, 109 minutos

Sinopse: Raquel (Deborah Secco) era uma jovem da classe média paulistana, que estudava num colégio tradicional da cidade. Um dia ela tomou uma decisão surpreendente: virar garota de programa. Com o codinome de Bruna Surfistinha, Raquel viveu diversas experiências “profissionais” e ganhou destaque nacional ao contar suas aventuras sexuais e afetivas num blog, que depois acabou virando um livro e tornou-se um best seller.

O sexo está presente em todo o desenvolvimento de Bruna Surfitinha. Isso era esperado? Claro. Ninguém deve assistir a esse filme achando que o diretor Marcus Baldini vai pegar leve. Pelo contrário. Sexo – e dos mais variados tipos – é o que mais tem no filme. Entretanto, o que não passou pela minha mente era que esse filme adaptado do livro O Doce Veneno do Escorpião fosse, de certa forma, maduro narrativamente. Bruna Surfistinha, apesar do título comercial (o do livro era muito melhor), não tem a intenção de ser gratuito. A vontade de contar uma história está em evidência.

Uma história que, por sinal, nunca julga sua protagonista. Pelo contrário. Em determinado momento, Bruna (Deborah Secco) diz que entrou no mundo da prostituição por escolha própria e que assume essa decisão. O roteiro está pouco preocupado em mostrar sexo gratuitamente. Ele quer apenas mostrar os altos e baixos do emocional de uma personagem que começa de um jeito e termina de outro completamente diferente. A transição de mocinha de classe média para prostituta sem pudor é muito bem apresentada.

Tudo isso, claro, não seria possível sem o surpreendente trabalho de Deborah Secco. Nunca fui muito fã da atriz, mas tenho que confessar a minha surpresa com o trabalho dela. Por mais que Secco precise melhorar em certos aspectos (nas tomadas mais densas dramaticamente ela faz sempre o mesmo tipo de mulher descabelada com cigarrinho na mão e olhos cheios de lágrimas), ela segura muito bem o filme. Alternando sensualidade, fragilidade camuflada e o espírito decidido de uma garota que não se arrepende de nada, Secco alcançou resultado digno de reconhecimento.

A parte final de Bruna Surfistinha aposta em algumas bobeiras como “você transa com vários mas só eu me importo com você” ou nas histórias clichês de sucesso-decadência-drogas-falência que tanto assombram filmes de pessoas famosas. É na tentativa de obedecer a esse batido formato que o filme perde a força. A história chega ao final fugindo um pouco da qualidade que apresentou durante todo o resto. Mas nada que apague a boa surpresa que Bruna Surfistinha é. Livre-se de preconceitos e dê uma chance para esse filme que é, no mínimo, eficiente.

FILME: 8.0


6 comentários em “Bruna Surfistinha

  1. De repente todo brasileiro se ver apavorado diante da palavra preconceito. E diante disso muitos estão se aproveitando da libertinagem de expressão para jogar na cara da sociedade toda espécie de distorções querendo a todo custo que seja aceitas como o padrão e o mais legal. Os bons exemplos não estão tendo valor, é cafona é antiquado, é quadrado. Estamos urgentemente precisando de valores, de exemplos de superação, de vitórias, para tirar o povo do desânimo da depressão e mostrar que ainda é possível vencer com dignidade, senão estaremos afundando todos os valores. Estão criando preconceitos sobre aqueles que acreditam que o caminho para a paz é o respeito e querem excluí-los dos debates. Sei o valor das pessoas, mas não posso com isso afirmar que elas estão corretas no que fazem; podem ter milhares de motivos, mas mesmo assim não posso dizer que estão corretas no que fazem de errado. Agora mesmo posso estar desgostando centenas de pessoas que para justificarem seus desejos vão me rotular de alguma coisa. E isso é preconceito? Onde não há limites não a prazer em chegar. Um abraço a todos.

  2. Rafael, discordo totalmente =)

    Luan, é bem isso mesmo: “Bruna Surfistinha” merece uma chance!

    Kamila, nesse ponto concordo contigo. Essa desculpa que, para ser independente, basta virar prostituta não cola! Mas, no resto, acho que o filme conseguiu lidar bem com o tema.

    Rafael, a própria Deborah Secco disse que esse é o papel da vida dela. E, de fato, ela não deve ter feito nada parecido com “Bruna Surfistinha” anteriormente!

  3. Também me surpreendi com o filme, muito melhor do que se imaginava, até porque a história tem consistência. E você falou muito bem sobre o fato do filme não julgar a protagonista, e isso pra mim é essencial no filme. Surpresa também é a atuação super esforçada da Deborah Secco que, pode não ser maravilhosa, mas deve ser a melhor coisa que ela fez até então.

  4. Concordamos que o filme nunca julga sua protagonista. Bruna escolheu, sim, entrar nessa vida porque quis, mas a razão dada pelo filme é muito simplória e não cola comigo… Quem quer ser independente, não precisa ser prostituta…. Enfim…

    Acho que o ponto principal deste filme foi a forma realista como o diretor retratou o mundo de Bruna. E, nesse sentido, elogio demais a interpretação da Deborah Secco. Excelente, ela.

  5. Me surpreendeu também. Tem uma narrativa eficiente e uma direção competente. A história tem humor e drama e sabe equilibrar os dois muito bem. Deborah Secco está muito bem no papel, exceto em algumas cenas mais dramáticas, mas nada que atrapalhe o desempenho dela, no geral. Como você falou: “Livre-se de preconceitos e dê uma chance para esse filme que é, no mínimo, eficiente”.

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