
Paul e eu gostávamos de viajar no mesmo ritmo lento. Ele sempre sabia muito sobre tudo, descobria maravilhas ocultas, notava muros antigos ou aromas nativos, e eu sentia falta da sua presença calorosa. Antigamente era uma solteira feliz, mas agora não suportava mais a solidão.
Livros de memórias são complicados. Alguns podem dizer que, para se realizar uma obra nesse estilo, é necessário que a protagonista tenha tido uma vida extraordinária. Mas a verdade é que, assim como em qualquer literatura, não basta tem um rico material em mãos se ele não for bem executado. É o caso de Minha Vida na França, que procura desenvolver os acontecimentos mais marcantes da vida de Julia Child, desde quando colocou os pés na França pela primeira vez até quando se tornou um expoente da culinária no país.
Como assistimos em Julie & Julia, filme de Nora Ephron baseado não só em Minha Vida na França mas também no livro da norte-americana Julie Powell, Julia Child não tinha nenhuma noção de culinária e, após sofrer muito em aulas de níveis avançados no Cordon Bleu, começou a levar jeito para o negócio. Ela passou a dar aulas, lançou um livro de culinária para americanas que moravam na França e, mais tarde, foi apresentar um programa gastronômico na TV. Ou seja, aquela desengonçada norte-americana que as escolas de culinária desprezavam no início se tornou um dos nomes mais importantes no ramo.
Julia Child pode ter sido uma ótima mestre-cuca, mas fica claro em Minha Vida na França que a literatura não era o seu forte. Ela escreveu o livro em parceria com Alex Prud’homme, um jornalista e também autor de outros livros de não-ficção. Contudo, os dois não conseguiram trazer a vida de Julia Child da forma mais atraente para os leitores. Parece que Minha Vida na França é um capricho de Child: um livro escrito para que ela sempre pudesse relembrar as pessoas que conheceu, os lugares que visitou ou as situações que enfrentou. Interessante para ela, não tanto para os outros.
O livro já começa sofrendo de um sério problema: a adaptação. São inúmeras as expressões francesas ou os vocabulários que simplesmente não foram traduzidos. O francês, em alguns momentos, se mistura com o português, como se o leitor tivesse obrigação de saber o que algumas frases significam. O máximo que dá para conseguir é deduzir, através do contexto, o que aquilo pode significar. Algumas passagens possuem a explicação do que a citação francesa significa, mas é incômodo encontrar tantas passagens com referências ao idioma e que nós não entendemos.
Quanto ao livro, Minha Vida na França deixa a forte sensação que não tem uma linha narrativa definida. A ordem cronológica dos fatos existe, mas tudo é muito solto e sem conexão. Se já não bastasse os milhões de nomes de pessoas e de lugares visitados, Julia Child narra toda e qualquer situação corriqueira de sua vida de forma superficial. Não existe intensidade nem muitos detalhes nas situações apresentadas, o que confere ao livro aquela velha estrutura de mil histórias contadas e que, no final, quase nenhuma será lembrada pelo leitor.
Com toda a certeza posso dizer que, além de ser um livro altamente decepcionante, Minha Vida na França me deixou muito cansado. Demorei meses para terminar uma obra que nem é extensa, mas que parece ter o triplo de seu tamanho em função do ritmo irregular e da narrativa perdida. Sei que sou um estranho no ninho (os atendentes da livraria em que comprei o livro, por exemplo, disseram que o livro é ótimo) e sei que alguns podem gostar do resultado. Contudo, fiquei triste ao constatar que eu terminei de ler a obra com muita má vontade, contando as páginas para que tudo logo chegasse ao fim. Logo eu, um fã de carteirinha da França e da storyline de Julia Child no filme de Nora Ephron. Nesse sentido, o filme fez milagres com as memórias da mestre-cuca.
Cleber, eu também gostei do filme e sempre tive curiosidade em saber mais sobre a vida da Julia Child. No entanto, como escrevi no post, “Minha Vida na França” se revelou uma completa decepção!
Gostei o filme, irei ler o livro assim que tiver a chance.