Opinião – Lula e o Oscar

Dias atrás, li em um Twitter por aí que Lula está formando uma espécie de dinastia no Brasil. Além dele “eleger” os sucessores de sua presidência – e os anti-petistas que me perdoem, mas temos que aceitar o fato que, após Lula, é bem provável que o Partido dos Trabalhadores continue por muitas décadas comandando o país – agora também tem influência sobre outros assuntos. Todo mundo levou um susto quando Lula – O Filho do Brasil foi anunciado como o representante brasileiro para batalhar por uma vaga na categoria de filme estrangeiro no próximo Oscar.

O susto se deve ao fato que ninguém esperava que a comissão fosse se render à figura mais poderosa do país e fazer uma escolha dessas. Como Rubens Ewald Filho comentou, isso pode soar como ditadura lá fora: um país que seleciona o filme do seu próprio presidente para representar a nação. Será que os votantes vão realmente enxergar essa escolha como algo positivo ou podem interpretar como um jogo político para favorecer a imagem de Lula mundialmente?

A verdade é que os atributos cinematográficos não foram levados em conta na hora da escolha. Não sou fã de Lula e muito menos vou votar em Dilma Rousseff para presidente. Mas, nem por isso analiso o filme cegamente. É uma pena que a comissão tenha o péssimo princípio de que precisam escolher aquele filme que mais tem chances, e não o que foi melhor produzido e que alcançou melhor resultado. É por essa e por outras que estamos sem Oscar até hoje. Lula pode até apontar a próxima presidente, mas nunca vai ser poderoso o suficiente para conseguir um Oscar.

Conhecido ele é. Mas isso não é o suficiente para conseguir uma estatueta. Não sei se os votantes brasileiros realmente pensaram que os membros da Academia vão selecionar uma biografia (gênero que raramente se vê entre os indicados da categoria) que celebra o atual presidente de um país. Oscar é político, mas nem tanto assim. A propaganda para o presidente pode até dar certo aqui, mas eu diria que é impossível que eles abracem essa ideia lá fora. Uma mancada completamente desnecessária.

Mas, vamos ao filme. Todo mundo sabe que Lula – O Filho do Brasil não deu certo: não fez a bilheteria pretendida, foi recebido de forma muito morna por crítica e público e ainda teve pouco destaque na época de lançamento porque o diretor Fábio Barreto caiu e bateu com a cabeça. O acidente do diretor teve mais repercussão que o longa-metragem em si. Todos esses fatores me deixam ainda mais incrédulo com a escolha de Lula como representante. Além de ser propaganda política, o filme foi de mal a pior. Um tiro no pé.

Na realidade, Lula – O Filho do Brasil parece um filme brasileiro dos anos 80 que foi remasterizado. Filmado de forma simples (para não dizer amadora, em determinados momentos) é uma história que abrange de forma simplória a velha questão do pobre cheio de dificuldades que conseguiu ser alguém na vida. Ou seja, cinematograficamente falando, é uma versão piorada de 2 Filhos de Francisco (esse sim comercial, mas muito válido como cinema). São dramas e questionamentos que já vimos milhares de vezes.

Alguns me perguntam: então, era pra mudar o que aconteceu na vida do Lula? Não. Para isso serve um diretor. Se Barreto tivesse realmente ambições artísticas e não comerciais, ele teria orquestrado o longa de forma diferente. Não, foi para o estilo clássico e não fez questão de esconder a cafonice em diversos momentos. Estamos diante de um produto cafona e que não parece representar uma época, mas sim estar preso cinematograficamente ao modo de fazer cinema da época que retrata.

O roteiro também tem seus problemas, tanto na trajetória profissional de Lula quanto na vida pessoal.  A luta dele pelos trabalhadores é banal e, ao menos para os mais leigos, não fica muito claro o porquê de um simples batalhador sindical ter sido eleito presidente da República. E aí temos um grande tropeço. O roteiro não trabalha a trajetória do protagonista até a presidência. Ele narra a vida profissional do protagonista quando ainda nem era político de fato, o filme termina, e logo acompanhamos imagens reais de Lula tomando posse como presidente. O que ele fez para justificar essa celebração? O filme não mostra isso.

Além de tirar a política da pauta e não definir direito as posições de Lula (em certo momento, o próprio personagem afirma isso, ao comentar que não tem lados e muito menos se define como de esquerda ou de direita), a vida amorosa dele é tratada com um grande descaso. O primeiro amor do protagonista mostrado na tela é o seguinte: em aproximadamente 20 minutos ele conhece a moça (participação de Cléo Pires), se declara, namora, pede em casamento, compra uma casa, descobre que vai ser pai e em seguida a moça desaparece de cena por uma fatalidade do destino. Tudo rápido e superficial.

Lula – O Filho do Brasil não arriscou e fugiu de polêmicas, o que terminou por tirar a personalidade dos amores e dos trabalhos do político. No entanto, temos sorte em ter, ao menos, uma figura que é o coração da história. Glória Pires é a humanização do longa-metragem. Sua Lindu é sofrida, mas sempre acreditando na vida e no próprio filho. Dá gosto de ver a atriz entrando no personagem e transborando emoção (a cena em que ela aplaude a conquista do diploma do filho é notável de tão verdadeira).

Pena que ela, aos poucos, vá perdando o seu tempo em cena. Ela merecia destaque o tempo inteiro. Se Milhem Cortaz peca pelo exagero ao cair no estereótipo de pai bêbado que bate nos filhos, o ator que interpreta Lula, Rui Ricardo Dias, cumpre bem a sua missão de caracterizar. No entanto, é difícil não ver a imitação com um enfoque cômico involuntário depois que a figura de Lula foi tantas vezes parodiada em programas de humor como Casseta e Planeta. Mas, repito: Dias alcança bom resultado.

No final das contas, Lula – O Filho do Brasil não chegou a me deixar a sensação de péssimo filme. É certo que existem momentos lastimáveis (a cena, no final, em que Lula se lembra da mãe em flashbacks com toscos efeitos de fade in e fade out saídos do Windows Movie Maker são de doer), mas nada que rebaixe o resultado para o nível do desastre. Fiquei com duas sensações ao término do filme. Primeiro, assisti um produto parado no tempo e cafona, derivado do estilo cinematográfico de anos atrás.

Agora, a segunda e mais importante de todas: o que Lula realmente significa para nós brasileiros? A sua influência está indo além da presidência. Agora ele tem a dádiva de influenciar votações de cinema. Visões políticas à parte, não seria puxa-saquismo demais? Eu, sinceramente, acho que a escolha desse filme para representar o Brasil não vai trazer boa reputação para nós. Lula, é um x do Brasil. Tudo ele pode, tudo ele influencia. Serve para qualquer coisa. Até para cinema. Só que eu não concordo com tudo isso…

11 comentários em “Opinião – Lula e o Oscar

  1. Gosto muito do Lula (a pessoa), mas fiquei CHOCADO com essa indicação, jurava que iria ser Bróder, do Jefferson De…

    Estava até imaginando:

    “The nominees for best actor in a leading role are:

    Caio Blat for Broder…”

    estava muito bem.

    Injustiça com esse filme que poderia levar a estatueta.

  2. Bárbara, eu indicaria “Os Famosos e os Duendes da Morte”. Acho que é introspectivo, subjetivo e alternativo, bem como os votantes gostam. Sem falar, claro, que é bem diferente de tudo que o cinema nacional fica divulgando no exterior.

    Kamila, o PT está dominando tanto que parece até influenciar os nossos votantes… Uma pena. Só questões políticas mesmo para explicar a escolha desse fraco filme para nos representar.

    Reinaldo, concordo, mais uma vez vamos ficar sem sequer uma indicação ao Oscar!

    Cleber, infelizmente =/

    Stella, se não fosse por dona Lindu, “Lula – O Filho do Brasil” não teria qualquer atrativo!

    Roberto, se “Lula” for indicado, certo que foi compra de votos hahaha

    Mayara, NADA supera a terrível escolha de “Salve Geral” ano passado. No entanto, a escolha desse ano irrita demais por ser política, e não cinematográfica.

    L. Vinicius, e só por que os votantes possam, hipoteticamente, ser petistas eles são obrigados a gostar do filme? Já vi muita gente que gosta do Lula e achou o filme uma porcaria. Na minha opinião, eles não souberam separar visão política de cinema.

  3. Não acho que a escolha do filme tenha sido meramente política, até porque entre os membros da academia estão várias figuras que não gostam dos ideais petistas, ou qualquer ideal de esquerda. E também soaria como uma grande burrice o presidente, que tem noção do fracasso que foi o filme, impor a presença do mesmo na corrida pelo Oscar sabendo que seria criticado em plena época de eleições. Acho que devem se incluir nessa escolha alguns outros fatores como a estratégia falha e contínua da academia em escolher filmes sem rigor estético mas com forte apelo popular, e a necessidade de chamar alguma atenção da mídia internacional a qualquer custo, tentando criar um “The Blind Side” brasileiro. Enfim, também achei uma atitude ridícula da academia essa escolha, porém prefiro centralizar minha frustração para a academia, e não tanto para o Lula. Do jeito que está, daqui há alguns anos teremos “Dilma – A Papisa da Subversão” e “2014 – A Copa dos Sonhos” como representantes. Uma lástima.

  4. Não assisti ao filme, mas depois de terem escolhido o horrendo “Salve Geral” ano passado, já esperava um resultado assim. E tenho certeza que foi questão política, já que tinham filmes muito melhores e com uma repercussão melhor que “Lula”.

  5. Você acha que uma academia que esnobou o Nixon, do Oliver Stone, vai indicar Lula entre os 5 melhores filmes a concorrer ao Oscar de Filme Estrangeiro. Cara, só o Carancho, do Pablo Trapero, e o filme novo do Kiarostami já acabaram com a gente.

  6. O diretor resolveu que Lula já nasceu “Lulinha paz e amor”, ignorando seu tempo de esbravejador em porta de fábrica. A grande figura do filme é a Dona Lindu de Gloria Pires. Achei um filme brasileiro bem feitinho, mas que não representa o que presenciamos na realidade. Para falar de Lula, prefiro o documentário do João Moreira Salles.

  7. Uma análise embasada que não prescinde de seu caráter de desabafo. Enfim, boas observações Matheus… e seguimos sem Oscar. Vai ficar faltando isso para a coleção do “Nunca antes na história desse país”

    Abs

  8. O Cassiano foi muito feliz ao dizer que Lula é o Neymar da política. Pode fazer a cagada que for, mas o povo passa a mão na cabeça dele, tadinho! E você foi até suave ao dizer que vivemos em uma dinastia petista. O PT está dominando todos os campos, todas as searas, TUDO! Isso me assusta um pouco, sinceramente.

    Falando friamente sobre o filme. O Lula é uma figura magnética e tem uma história de vida bonita, isso a gente tem que dar o braço a torcer. O problema do filme é que ele romantiza demais a figura dele, a ponto de retratá-lo de forma cega. Lula não tem defeitos, no filme.

    Inegavelmente, Lula é uma figura importante no Brasil, uma figura importante para os brasileiros. A indicação deste filme como representante de nosso país ao Oscar vai ser um teste para vermos como é a influência e o interesse por ele lá fora.

    Eu, sinceramente, acho o filme fraco e acredito que ficará de fora dos cinco indicados finais, como sempre acontece com o Brasil. A comissão do MINC precisa mesmo é aprender a selecionar os melhores filmes.

  9. De Cinema, entendo quase nada, apenas o que vejo,e que me toca,mas sinceramente concordo com o que falas a respeito do filme, realmente não entendo a escolha deste filme na representação do cinema brasileiro, mas tudo bem….
    Quanto a Lula e suas diversas interferencias no Nosso País, isto é mais do que normal e deveras merecido, para nós o povo brasileiro, lula é sem duvida aquele que nos devolveu autoestima enquanto cidadão brasileiro diante de uma imensidão de gente que nos via como “SUB”, em tudo sub-cultura,sub-nação,terceiro mundo, pobrezinhos, etc e tal……, Lula o Presidente fez-nos ver o quanto temos valor e o quanto podemos ser gente de verdade e se orgulho tinhamos de ser Brasileiros, este Orgulho aumentou ainda mais com a presença de Lula no Poder, e acreditemos sim ele será sempre Lembrado como O Grande Presidente…. Abraços.

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