Opinião – Ator x Personagem

No último fim-de-semana, estava discutindo cinema com o Robson, do Portal Cine, e fomos parar num questionamento muito interessante: até que ponto um personagem pode influenciar nossa percepção sobre uma atuação? O assunto surgiu quando questionei o merecimento do Oscar de Penélope Cruz. Mencionei que, para mim, a grande interpretação de Penélope está em Volver e que em Vicky Cristina Barcelona ela foi mais impulsionada por um maravilhoso personagem do que pela interpretação em si. Mas, veja bem, de forma alguma estou dizendo que ela não teve boa interpretação. O que alego é que Maria Elena é muito mais interessante do que Penélope Cruz.

Sim, partilho da visão de que personagem e ator podem andar separados. Uma interpretação pode ser maravilhosa e o personagem ser terrível. Assim como a interpretação pode ser negativa e o personagem maravilhoso. Outra atriz que surgiu no contexto do bate-papo foi Viola Davis. Arrasadora em Dúvida, podemos observar que o impacto de sua aparição no longa de John Patrick Shanely se deve mais ao brilhantismo da atriz do que ao perfil da personagem – até porque a sra. Miller tem pouco tempo em cena para ganhar uma maior abordagem. Já partindo para uma situação mais radical, podemos citar Sally Hawkins em Simplesmente Feliz. Personagem pavorosa ofuscando completamente uma boa atuação.

Em outras situações, podemos ter grandes atuações e personagens atuando juntos. E aí podemos citar vários exemplos: Meryl Streep em O Diabo Veste Prada, Heath Ledger em Batman – O Cavaleiro das Trevas, Julianne Moore em As Horas e Javier Bardem em Onde os Fracos Não Têm Vez, por exemplo. É fácil encontrar fusões assim. Mas, agora, será mesmo que atuações e personagens podem influenciar uns aos outros? Será que um personagem independe de um ator ou vice-e-versa para conseguir êxito? Eu acho que sim, completamente.  E você?

16 comentários em “Opinião – Ator x Personagem

  1. Pra mim a relação de dependência nos pares que compõem um filme é um assunto muito delicado. Concordo sim que existem atores melhores que personagens e vice-versa, e amplio o leque para outros binômios semelhantes: um grande roteiro vindo de um péssimo livro, uma direção estilosa e segura vinda de um péssimo roteiro, uma excelente música colocada no momento errado, uma linda fotografia extraída de um péssimo cenário (acrescente o vice-versa em todas essas relações). Sempre será possível localizar a independência dos elementos! Mas a grande questão é: até que ponto essa independência afeta o resultado final do filme como uma obra una? Não se pode esquecer que a coletividade cinematográfica deve gerar antes de tudo uma unidade coerente, auto-sustentável. Se esmerar por identificar o lado melhor da moeda (atorXpersonagem) pode ofuscar o todo de um filme, ou melhor, se um filme se abre a esse tipo de debate com muita ênfase (de fato a abertura é possível), talvez haja algum problema maior por trás de tudo: um problema do filme em si.

  2. Concordo com o que expressou em seu texto. E tambem com um ótimo roteiro e ser bem conduzido. E gostei do que disse sobre Viola Davis, a personagem em si não é muito mencionado, mas a força da atuação dela é tudo, e foi fundamental para ser memorável. ;)

  3. Gustavo, a situção da Jennifer Hudson é bem complicada. Eu não acho que ela atuou em “Dreamgirls”. Para mim, ela não fez nada além de mostrar sua poderosa voz e arrasar em alguns momentos como naquele em que ela canta “And I Am Telling You I’m Not Going”. Mas, repito, méritos da voz, não de atuação.

    Vinnie, um personagem pode sim depender de um ator para ser mais ou menos marcante. Mas, se ele é bem escrito e bem conduzido, é difícil alguém destruir a graça dele.

    Luís, eu acho que, como já disse, a Viola arrasou em “Dúvida”. Certamente aquele Oscar era dela, na minha opinião. Quem não merecia nem ser indicada naquela lista era a Taraji P. Henson que, em determinados momentos, acho que ela é até mesmo caricata em “O Curioso Caso de Benjamin Button”.

    Mark, de nada o/

  4. Eu ainda acho que a atriz fez pouquíssimo em Dúvida. Só daria o Oscar a ela se somente ela tivesse sido indicada nessa categoria, porque qualquer uma das outra quatro atrizes está melhor do que Viola. Super destaque para Amy Adams, ainda melhor do que em sua primeira indicação.
    Eu e o Renan fizemos um post sobre essa categoria do Oscar, veja lá!

  5. Exato, como no caso o próprio personagem não colabora, dificilmente alguém conseguiría uma melhor interpretação da tal da Poppy. O que o Hugo citou também faz muito sentido, Indiana Jones talvez não ficasse tão bem com Tom Selleck. O que nos mostra como depende sim do ator para que o personagem seja do jeito que é. Apesar de não ser um grande ator, Ford combina perfeitamente com o personagem, e é exatamente essa combinação que se deve ter.

  6. Belíssimo ponto de vista!
    concordo em quase tudo contigo.
    Adicionaria Jennifer Hudson a essa categoria…personagem bem mais interessante que a “interpretação” da atriz.

  7. Robson, nossa conversa rendeu bastante, né? Seria legal ler uma opinião tua também, fica a dica. Como tu já sabe, discordo de ti. Acho que ator e personagem podem andar separados com tranquilidade…

    Vinnie, acho que, nessa tua opinião, depende muito também do carisma do personagem. Veja bem, a Poppy de Sally Hawkins era uma retardada, que só irritava. Acho praticamente impossível alguém tornar aquela mulher atraente no contexto cinematográfico.

    Hugo, essa é uma excelente comparação e também uma prova de que um personagem não depende do ator. Bem como você disse, Harrison Ford esteve nos personagens certos. Porque, certamente, suas aparições emblemáticas são mais méritos das figuras que ele representou do que dele próprio.

    Kamila, e a Penélope Cruz é uma prova da tua teoria. Nas mãos de diretores certos, ela funciona maravilhosamente bem… Basta existir um coordenador ideal que qualquer ator consegue, ao menos, aparecer mais iluminado em cena do que o habitual.

    Luís, discordo completamente da tua opinião. Claro que os posicionamentos da personagem da Viola Davis são impactantes, mas cada palavra, cada olhar e cada expressão da atriz me aniquilou de forma contundente. Acho que, ali, ela foi perfeita. E por isso eu teria dado o Oscar de Penélope para ela.

    Reinaldo, você citou um ponto interessante: quando um ator se acostuma a interpretar ele mesmo. Um exemplo é Jack Nicholson. Ele é hors-concours, mas, em diversos filmes, ele se repete muito. E agora podemos encaixar a teoria da Kamila: quando tem o diretor certo, tudo fica no seu lugar. Por exemplo, quer um Nicholson mais diferente do que o habitual do que “As Confissões de Schmidt”? Alexander Payne tirou todos os trejeitos do ator e coordenou uma maravilhosa interpretação.

    Mark, eu adoro a Vanessa Redgrave, mas nem a presença dela na temporada de “Nip/Tuck” me deu ânimo para a começar a ver a temporada. É certo que vou assistir – até porque é o último ano – mas não agora, já que todas as outras séries que assisto e que estão em exibição me motivam mais que o programa de McNamara/Troy.

    Rafael, acho que sou um dos poucos que não vê Mickey Rourke em uma grande atuação em “O Lutador”.

  8. Certos atores têm sorte em pegar um papel bom. E certos atores são muito bons para conseguir se adaptar a papeis terríveis. Heath Ledger pegou um brilhante personagem q é o Coringa. E às vezes os personagens são tão parecidos com os atores que, quase sempre, acaba saido uma atuação memorável, como é o caso de Mickey Rourke em, O Lutador.

  9. Matheus é outro assunto, mas preciso dizer. Assisti ao episódio 7 da sexta temporada de Nip/Tuck e tenho que dizer que a participação de Vanessa Redgrave foi muito boa, o episódio 6 e o 7 são os melhores da temporada até o momento e confesso que o começo da temporada foi ruim, mas vale a pena conferir o final da personagem Erica.

  10. Vc está certíssimo Matheus. Há casos e casos. Os mais comuns são os que vc citou em seu artigo. Atores geniais que deixam suas digitais na película mais do que qualquer coisa. Atores geniais que transformam material ” raso” em obra prima e grandes personagens que podem render bons frutos a atores até mesmo medianos. Basta lembrar da guerra nos bastidores que o papel de Tess em O jardineiro fiel ( que acabou rendendo o oscar para Rachel Weiz) gerou. Nicole Kidman, Jennifer Connaly, Maggie Gylenhall entre outras, foram algumas que se estapearam pelo papel no filme de Meirelles. Há guerra de agentes semelhante ocorrendo agora em virtude do papel de frank Sinatra.
    Por outro lado, há atores que se acustumaram a moldar os personagens a sua persona. Pegue Robert De Niro e Al Pacino ( para ficar nos grandes) e Ben Stiller e Adam Sandler ( para ficar nos mezzo mezzo)… enfim é uma discussão que vai longe…. mas o que importa é: pensamos igualzinho nesse aspecto.
    Abs

  11. Eu acho que é possível separá-los também e devo concordar com o comentário da Kamila: personagens bem compostos podem render ótimas atuações, até mesmo de atores meio “estranhos”.
    Mas concordo com o que você disse: Maria Elena é mais interessante que Penélope Cruz. Mas esta está apenas um pouquinho aquém daquela, porque seu trabalho é realmente excepcional. Pura sensualidade e charme, um misto daquilo que a personagem é e daquilo que a atriz compôs.
    VIOLA DAVIS ESTÁ BEM? Hnm… não sei. Na minha opinião, o que impressiona é o posicionamento da personagem diante do acontecido, nada tem a ver com o talento ou a composição da atriz.
    Esse é um bom tema para um debate, realmente interessante.
    Você não responde os comentários?

  12. Eu acho o seguinte. Existem atores que são tão bons que transformam papeis não interessantes em sensacionais! E existem atores que mostram seu potencial ao encenar papeis muito bem escritos e que os dão a possibilidade de encarnar certos desafios.

    Na realidade, eu sou da premissa que dá pra separar ator de personagem. E não existe ator ruim, pra mim. Qualquer um pode render bem, desde que tenha um papel muito bem escrito e um bom diretor por trás das câmeras.

  13. Sem analisar profundamente, acredito que é uma questão de química, estar no lugar certo na hora certa.
    Por exemplo, Harrison Ford é um grande astro, mas nunca foi considerado um grande ator como Pacino ou De Niro, mas é o cara perfeito para Hans Solo e Indiana Jones, dois ícones do cinema. Vcs devem saber, mas a primeira escolha para Indiana era Tom Selleck, que por estar na série “Magnum” acaba não podendo aceitar o papel. Alguém imagina Selleck como Indiana? E com o sucesso de Harrison Ford? É quase impossível na teoria, mas ninguém vai ter certeza, porque o personagem por si só é fantástico e os filmes tb.

    Abraço

  14. Acho que são duas coisas diferentes, realmente, o personagem e o ator, mas imagino que se eles andam separados, um bom personagem não sai, vide Sally Hawkins, por exemplo, falto ali um bom personagem, com certeza. No caso da Viola, ali achei o personagem mais interessante, por isso que funciona. E se Maria Elena fosse interpretada por outra pessoa, podería não sair como saiu. Não costumo dizer que o personagem é que é o grande mérito, e sim que ele tem que andar junto com seu ator, se um dos dois não funciona, não vai se ter um trabalho tão positivo, completo.

  15. Eu sabia que mais cedo ou mais tarde essa discussão ia acabar no que mais gostamos de fazer, depois de assistir a filmes: texto.

    Esse é um tema estranho e interessante ao mesmo tempo. Vejamos que o meu entendimento é que se o personagem requer uma boa dedicação, dessa maneira o ator deverá sair bem no personagem. Se isso não é possível, os dois ficam ofuscados, tanto o personagem quanto o ator. Creio que o mérito de muitos que ganharam Oscar e Globo de Ouro se dá em razão da densidade que o papel tem e não somente por está bem no papel.

    Se você pegar o papel de Javier Bardem em Onde os Fracos Não Têm Vez, você percebe que o brilhatismo dele se deu em razão do obscurantismo do personagem. Assim como Viola que pode dar o máximo dela, sabendo da importância de sua personagem, ainda que aparecesse por poucos minutos na trama. Dessa maneira, acabo por entender uqe o personagem faz a atuação e entendo, por assim dizer, que há uma ligação intrisecamente forte entre ambos e, portanto, não é possível separá-los.

    Digamos que são quase que ligações siamesas e que um depende claramente do outro. Confesso que virei aqui para ver todas as opiniões a cerca do tema que é de extrema relevância.

    Abraço!

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