Opinião – A obsessão de Barbara

Atenção! Se você ainda não assistiu o filme “Notas Sobre Um Escândalo”, não continue a ler o texto, pois ele possui spoilers.

Confesso: como cinema, o roteiro de Notas Sobre Um Escândalo realmente não é uma preciosidade. Mas, como adaptação, é fenomenal. O trabalho de Patrick Marber não só movimentou muito mais a morna história do livro de Zoe Heller, como também deu mais complexidade e potência para a principal engrenagem da trama: o interior sentimental da protagonista Barbara Covett (Judi Dench, espetacular). Muitas pessoas acusam a personagem de ser louca por correr tanto atrás de Sheba (Cate Blanchett, subestimada) e fazer dela uma refém, mas existe uma explicação viável para tal comportamento.

Amarga e infeliz, Barbara vive uma vida completamente sozinha. O único contato mais “humano” que ela tem é com a sua gata Portia, uma vez que desdenha a todos em sua escola e não possui amizade alguma. O gênio dificil – que também pode ser interpretado como um reflexo de sua alma intelectual e demasiadamente crítica – complica a sua convivência com as pessoas. Por ser essencialmente ácida, Barbara tende a se afastar das pessoas por considerá-las medíocres, tolas e inferiores ao seu nível. E, mesmo quando se apaixona, não consegue deixar de lado essas suas fortes opiniões. Mas, ao invés de dizer o que pensa, relata tudo em um diário pessoal.

Quando conhece a professora de artes Sheba Hart, podemos notar em cena um sentimento novo na protagonista. No início, curiosidade. Depois, admiração. Logo, paixão. O homossexualismo de Barbara fica visível (enquanto no livro isso é algo bem mais sutil), tornando a protagonista ainda mais complicada diante de nossos olhos. Não pela sexualidade, mas como ela é visivelmente mal resolvida nessa parte de sua vida. Parece ser virgem e, a todo momento, anseia por algum tipo de contato físico. Quando se aproxima demais de alguma mulher, já é secretamente taxada pelos colegas como apaixonada.

O problema é que, a partir do momento em que nutre sentimentos mais fortes por Sheba, Barbara começa a perder as rédeas de seus impulsos. Principalmente quando descobre que a ingênua professora tem um caso com o aluno Steven (Andrew Simpson). Barbara vê na insegurança emocional de Sheba (casada, mas frustrada em seu casamento, procurando algo “diferente” no garoto) a grande chance de sua vida: a de ter alguém ao seu lado para sempre. Mesmo que através de chantagem. Começa, portanto, uma obsessão incontrolável pela colega – que, em sua ingenuidade, não nota que Barbara quer muito mais que uma simples companhia.

Tal comportamento descontrolado e até mesmo perigoso toma conta de Barbara, que vê em cada negação de Sheba uma ofensa, em cada distanciamento de sua amiga um motivo para vingança ou mágoa. Todas essas nuances da difícil personagem é encenada de forma espetacular por Judi Dench (a minha favorita no Oscar daquele ano), que assume a sua idade com um rosto marcado pela velhice. Dench torna as narrações em off inesquecíveis e é o que existe de melhor em Notas Sobre Um Escândalo. Uma composição impecável.

Agora, voltando ao início do texto. Barbara é taxada como louca pela maioria das pessoas. Mas, o que temos que ter em mente é que toda essa alma da protagonista é fruto de uma vida repleta de insatisfações, de objetivos nunca alcançados. Ela, de certa forma, não tem culpa de ter chegado nesse ponto.  A própria Sheba nota isso no final do longa, onde se despede de Barbara com uma certa compaixão nos olhos. Afinal, ser obsessiva não é uma escolha dela. É imposição de uma vida de completa solidão, onde o sense of touch (como diria Crash – No Limite) é inexistente. E existe maior tristeza que essa?

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Anteriormente:

A culpa do Padre Flynn, em Dúvida

A escolha de Francesca, em As Pontes de Madison

O segredo da vila, em A Vila

A verdade sobre Hanna Schmitz, em O Leitor

A felicidade de Poppy, em Simplesmente Feliz

11 comentários em “Opinião – A obsessão de Barbara

  1. O que o filme quer transmitir é sobre uma pessoa que passa a sua vida numa completa solidão, odiada por todos ao seu redor que acaba conhecendo uma pessoa ingênua, depois tira proveito dela ameaçando um segredo. No mais, é um filme sensacional que merecia maior reconhecimento da crítica especializada. ;)

  2. Weiner, concordo contigo num ponto – o filme passa uma impressão errada. Talvez por apostar demais no tom de suspense e por tranformar a Barbara em uma bruxa. Mas continuo adorando o filme, que era um dos mais interessantes do Oscar daquele ano.

    Kau, eu acho o filme bem morno, enquanto o filme sim é tenso. E a Barbara, realmente, é uma das personagens mais interessantes dessa década.

    O Cara da Locadora, a Barbara fica mais interessante no filme do que no livro – ainda que na obra de Zoe Heller ela pareça mais certa da cabeça =P

    Dewonny, obrigado!

    Vinicius, importante e fundamental!

    Kamila, eu também acho excelente a construção das personagens – inclusive a de Cate Blanchett, que foi criticada por ter uma abordagem superficial. Discordo completamente disso.

    Wally, adorei a definição! hahaha

    Rafael, muito obrigado pelo elogio! E sabe que eu já estava pensando em um post para “Closer” no futuro?! Em breve teremos por aqui, então!

  3. Matheus, esses seus textos são fantásticos. Já que você avisou eu não li este, mas vou procurar ver o filme o quanto antes. Se você puder escrever um dia sebre Alice Ayres de “Closer” eu adoraria ler :D
    Abraço!

  4. Eu acho o roteiro de “Notas Sobre um Escândalo” simplesmente perfeito no que diz respeito à construção das duas personagens femininas principais e na forma como a relação que se desenvolve entre as duas nos é mostrada. Nesse sentido, a obsessão de Barbara é mais uma espécie de paixão pela pessoa que Sheba representa – o que eu acredito ser tudo que Barbara gostaria de ser e nunca foi. Acho que ela se sentiu lisonjeada com a atenção e com a amizade que a personagem da Blanchett lhe dirigia e, a partir do momento em que ela sentiu que poderia perder isso, ela se desvirtuou completamente de seu propósito e de seu eixo.

  5. Eu gostei pra caramba desse filme. Concordo com o início do seu texto: não é nenhuma obra magnífica, mas é bem construída, te faz querer continuar assistindo e ver no que aquilo tudo vai resultar, acho que isso é importante

    abraços, Matheus!

  6. Infelizmente eu nao li o livro portanto nao posso fazer essa comparaçao… Mas assino em baixo na sua narrativa sobre a Barbara, realmente e uma personagem complexa e muito boa de se analisar…

  7. Matt, vc disse uma coisa corretíssima: a adaptação é genial! O livro me deixou perplexo, sem ar. E o que mais acho interessante e válido é a caracterização da personagem de Dench: que atuação magnífica! Ela é intensa, ambigua, dinânica, possessiva, malvada. Enfim, Barbara é uma das grandes personagens dos últimos anos.

    Abs!

  8. Patrick Marber realmente adaptou o livro de Zoe Heller de maneira notável. Transformou tudo o que era “implícito” e “insinuado” em coisas realmente visíveis, quase palpáveis. Mas isto comprometeu muito a aceitação (ou usando uma palavra mais adequada – a compreensão) da personagem de Dench por parte do público. Barbara mais parecia um animal peçonhento e traiçoeiro que qualquer outra coisa; suas atitudes tendem a ser rechaçadas por quem assiste ao filme, e jamais compreendidas como um desvio de personalidade resultante do ambiente que ela viveu.
    O filme, para um desavisado, nada mais é que um suspense. Não um forte drama, como acredito que ele realmente seja.
    De qualquer modo, a Dench fez algo fora do comum nesse filme – mas ainda perde para Mirren numa avaliação final.
    Ótima análise, parabéns.

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