Chega de Saudade

Direção: Laís Bodanzky

Elenco: Tônia Carrero, Leonardo Villar, Betty Faria, Cássia Kiss, Stepan Nercessian, Maria Flor, Paulo Vilhena, Elza Soares

Brasil, 2008, Comédia, 95 minutos, 12 anos.

Sinopse: A história acontece em uma noite de baile, em um clube de dança em São Paulo, acompanhando os dramas e alegrias de cinco núcleos de personagens freqüentadores do baile. A trama começa ainda com a luz do sol, quando o salão abre suas portas, e termina ao final do baile, pouco antes da meia-noite, quando o último freqüentador desce a escada. Mesclando comédia e drama, Chega de Saudade aborda o amor, a solidão, a traição e o desejo, num clima de muita música e dança.

Tema pouco explorado no cinema brasileiro, a terceira idade ganha inúmeros contornos interessantes nessa produção simples, que cativa por conta de seu humor em relação ao tema e de seus ótimos atores.

Em determinado ponto de Chega de Saudade a personagem de Tônia Carrero afirma: “Certas coisas só podem acontecer na juventude”, mas o filme prova justamente o contrário; não existe hora certa para ser feliz, rir, amar e aproveitar o que a vida tem de melhor. A diretora Laís Bodansky escolheu um gênero totalmente diferente do seu trabalho anterior (o ótimo Bicho de Sete Cabeças) e investiu nessa proposta, que à primeira vista poderia resultar em algo totalmente clichê, usando um tratamento essencialmente cômico. O longa trabalha pequenos dramas existentes nessa fase da vida (frustrações, arrependimentos, paixões não correspondidas, baixa auto-estima, pessimismo), mas não se deixa levar por eles. Somos apresentados a esses dilemas existenciais através do humor e da música, que permeiam o roteiro o tempo inteiro, nunca pesando o clima de alto-astral. O roteiro, por sinal, é muito bem arquitetado – todos os inúmeros núcleos tem seu espaço ideal dentro do filme e nenhum é particularmente desinteressante, fraco ou mal explorado.

Não é apenas o bom roteiro que ajuda Chega de Saudade a ser um dos melhores filmes brasileiros lançados nos últimos tempos, mas também o seu impecável elenco. Espaço para que determinado ator ou atriz brilhe completamente não existe, porque a narrativa se desenvolve em diversos núcleos, mas cada um tem o seu momento de inspiração. Quem mais me agradou foi a irradiante Cássia Kiss, como a mulher frustrada que vê o seu namorado a deixando de lado no baile para tentar paquerar uma garota. Sua aparição é baseada em olhares contidos que mais tarde, em um bonito momento, culminam em lágrimas. Tônia Carrero e Leonardo Villar possuem uma ótima química como o típico casal “entre tapas e beijos”. Betty Faria também está impagável como a mulher que nunca é retirada para dançar. Já Stepan Nercessian e Paulo Vilhena realizam trabalhos apenas regulares, onde falta o brilho que outros personagens adquirem ao desenrolar do filme.

Tenho que confessar que a repetição da estrutura me cansou em certos momentos (seguimos o mesmo estilo narrativo até o final – nada de histórias se interligando ou qualquer surpresa as envolvendo) e que já no final eu já não acompanhava o longa com a mesma sensação presente nos momentos finais, mas não deixei de me divertir em momento algum e muito menos de ser agradado pelos excelentes atores na tela. Sim, Chega de Saudade é um filme convencional para idosos – o filme dirige-se apenas a eles e aos que gostam dessa temática -, mas que com sua simplicidade humorística em cima deles, conquista. Não é uma produção que vai deixar o espectador pensando após o seu final, já que as lições de vida não ficam explícitas, mas que vai deixar muita gente feliz. O tempo de viver é agora, e saudade já é coisa do passado.

FILME: 8.0

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14 comentários em “Chega de Saudade

  1. Gostaria de comprar o DVD onde encontro, achei muito interessante ver estes artistas maravilhosos atuando, normalmente não gosto muito de filme brasileiro,porem temos que valorizar nossos artistas.

  2. Fernanda, o filme é ótimo mesmo =D

    Roberto, sem dúvida teríamos muito mais orgulho de nosso cinema se ele apostasse mais em histórias humanas como essa. Ea Betty Faria está excelente, mas a minha favorita é a Cássia Kiss.

    Kamila , o filme também teimou em chegar aqui. Só agora que ele foi dar as caras. E você está certa certa quando essa metáfora de música/relacionamentos.

    Isabela, adoro filmes sobre a terceira idade! Acho que é um tema que proporciona diversos e interessantes tipos de histórias.

    Wally, dê uma chance ao filme. Certamente é uma experiência muito divertida.

    Rodrigo, fiquei um pouco decepcionado com a distribuição de “Chega de Saudade”, que foi bem limitada. O filme merecia um reconhecimento mais amplo.

    O Cara da Locadora
    , já assisti “Depois Daquele Baile”. Eu acho uma produção muito simples e pouco original, mas que vale pelo maravilhoso trio principal.

    Robson, posso até exagerado ao dizer que “Chega de Saudade” é um dos melhores filmes brasileiros dos últimos tempos. Mas sem dúvida é o mais bem-humorado.

    Marcel, a maioria não gostou do trailer mesmo…

    Weiner
    , vale a pena procurar o filme.

    Pedro, assisti no Guion Center, que fica no Olaria.

    Alex
    , o filme foi lançado de forma bem limitada aqui em Porto Alegre também.

  3. Esperei e esperei por este filme, Matheus. O problema é que quando ele chegou na minha cidade foi exibido por somente uma semana e ainda por cima em horários nada acessíveis a mim. É esperar pelo DVD para conferir o resultado deste filme que quero muito assistir.

  4. Taí um excelente filme brasileiro a se procurar pelos cinemas.
    Abraço!

  5. Confesso que não gostei do trailer, lembro que quando vi fiz uma anotação na memória de nem me dar o trabalho de assistir esse filme. Mas pelo que você escreveu o filme pode valer a pena sim. Vou tentar dar uma chance. =D

  6. Não havia gostado do trailer, achei que seria um filme cansativo. Mas você sabe que colocar que é um dos melhores filmes brasileiros dos últimos tempos é fardo grande hein? Deixa uma responsa maior pro filme. Depois do que li quero vê-lo. O elenco realmente não é ruim, muito pelo contrário. Mas acho que Stepan e Vilhena não podem fazer coisa melhor, nunca achei-os grandes atores, ao contrário das mulheres do filme!

  7. É um filme que me interessa bastante, mas padeço do mesmo mal da maioria e não terei esse filme passando no cinema aqui, rs… Espero chegar na locadora…

    PS: Filme voltado para idosos, no Brasil, saiu recentemente um muito lindo, chama-se “Depois Daquele Baile”… Já viu?

  8. se pelo menos viesse aqui… é uma pena as obras nacionais serem tão limitadas na sua distribuição… vou aguardar chegar nas locadoras… espeor que venha logo
    Abraços, Matheus!!!

  9. Não fui muito com a cara do filme e ele nem chegou aqui na minha cidade, mas sua crítica me animou e verei quando chegar em DVD.

    Ciao!

  10. Esse me parece interessante, e a pouco tempo vi um filme americano sobre a terceira idade, e admito que superou bastante minha espectativa. O elenco nacional tambem é de primeira.

  11. Estou com muita vontade de assistir “Chega de Saudade”, mas o filme teima em não estrear por aqui. Acho interessante o filme se passar numa gafieira, porque eu acho que a dança pode ser usada como metáfora para relacionamentos humanos e, pelo seu texto, acho que o longa de Laís Bodansky trata justamente disso.

  12. Corajosa mudança de ares da diretora Laís Bodansky, após um filme forte e pungente como Bicho de Ste Cabeças, inserir-se no mundo dos antigos bailes de salão. Gostei muito do resultado, principalmente pela maneira como Betty Faria conduz seu personagem e a voz estonteante de Elza Soares ajusta-se a trama. O cinema nacional bem poderia navegar mais por essas águas ao invés de gastar tanta grana com favelas e marginais. Coisas boas também podem sair dessa temática.

    Saudações cinéfilas,
    Roberto.

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