Cinema e Argumento

Dez Atuações Femininas da Década

Ainda falta o ano inteiro para que completemos uma nova década, mas já começo a esboçar o que o cinema trouxe de mais marcante para a próxima geração de cinéfilos nessa primeira década do segundo milênio.Essa série de posts, então, reflete o que o Cinema e Argumento considerou de melhor durante esse tempo. O primeiro post dessa série é sobre dez atuações memoráveis de atrizes que com certeza serão sempre lembradas. A ordem é aleatória.

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Foi um trabalho que impressionou muita gente, até mesmo que não é cinéfilo crítico de plantão – minha avó, por exemplo, ficou boquiaberta com a interpretação de Marion Cotillard. Não é pra menos – considero essa a maior representação de um artista dessa década. É um mergulho profundo no corpo e na alma da cantora francesa Edith Piaf. Premiada com o Oscar, o Globo de Ouro e o BAFTA de melhor atriz, Marion nos presenteou com uma das atuações mais arrepiantes dos últimos tempos e, provavelmente, da história do cinema.

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Outra atriz que se entregou de corpo e alma para compor sua personagem foi Felicity Huffman. Em Transamérica, ela interpreta um homem que quer ser mulher e descobre um filho que não sabia que tinha. É impressionante o trabalho de Felicity nesse longa, especialmente porque ela vai muito além do duro trabalho de voz ou da maquiagem – ela molda uma figura totalmente simpática mas que nunca deixa de mostrar que tem suas complicações e inseguranças. Difícil é entender como o Oscar premiou uma certa Reese Witherspoon no ano em que Felicity concorria.

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Não sei porque tenho a impressão de que Julianne Moore foi a atriz do elenco de As Horas que mais entrou no íntimo de sua personagem. Talvez esse seja um atestado do grande desempenho de Julianne Moore como Laura Brown. Julianne encontra aqui o melhor papel de sua carreira, onde transita com uma segurança absurda em um filme com gente muito talentosa. Inegável é o talento da atriz que, em Laura Brown, apareceu em cada minuto da aparição da atriz. Outro trabalho que não foi celebrado como deveria.

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Sutileza é uma palavra que define o trabalho de Imelda Staunton em O Segredo de Vera Drake. É incrível a naturalidade com que Imelda interpreta a generosa senhora que ajuda garotas a abortarem na década de 50. A atriz passa toda a inocência de Vera sem que ela pareça ingênua demais, em uma composição perfeita. Também transmite toda a dor da personagem quando o seu segredo é descoberto – mas faz isso sem chorar copiosamente e sem exageros. Mais uma prova de que, às vezes, uma grande atuação não depende necessariamente da história e sim da habilidade de uma profissional.

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É um imenso choque ver a bela Charlize Theron em Monster – Desejo Assassino. 14 quilos mais gorda, com uma pesada maquiagem e um jeito masculino, Charlize tem uma performance arrebatadora nesse difícil longa-metragem que é bem restrito. Charlize constrói uma personagem muito complicada, que a vida acabou transformando na primeira serial killer mulher dos Estados Unidos. Abusada pelo pai, maltratada pelos homens, apaixonada por uma jovem garota e prostituída para ganhar dinheiro, a personagem foi perfeitamente interpretada por Theron.

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Medo, insegurança, severidade e angústia. Esse é, provavelmente, o papel mais completo de toda a carreira de Nicole Kidman. Aqui ela tem a oportunidade de explorar todo o seu talento, nas mais diversas nuances, especialmente porque a peronagem dá diversas oportunidades para isso. Kidman encabeça Os Outros com extrema segurança, em uma atuação realmente memorável. Pena que tal aparição da atriz foi ofuscada por ela mesma no mesmo ano em que Moulin Rouge! – Amor em Vermelho entrou em cartaz.

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Só uma atriz com a experiência de Meryl Streep cairia com uma luva para interpretar a madura Clarissa Vaughan em As Horas. Considerada por muitos como a figura menos interessante do longa – algo que eu discordo – Streep dá uma aula de atuação e, assim como todo o elenco do filme, cria momentos memoráveis. Só as conversas com Richard (Ed Harris) e a visita de Louis (Jeff Daniels) já compravam o quão detalhista é a sua composição. Cada gesto e cada palavra diz muito para o espectador.

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Não poderia faltar nessa lista uma interpretação da atriz mais talentosa da nova geração. Kate Winslet encontrou na Clementine Kruczynski de Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças uma personagem única, marcante a cada instante. Winslet, com toda sua versatilidade, está visivelmente à vontade em cena, com uma naturalidade surpreendente e uma simpatia absurda. Em um filme cheio de tantos méritos – incluindo o surpreendente Jim Carrey – a atriz achou um jeito de conseguir brilhar em cada aparição.

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Barbara Covett é uma professora rígida que vive uma vida muito solitária. Complexa e amargurada, Barbara ganhou contornos notáveis nas mãos de Judi Dench – indicada a diversos prêmios sua atuação. Sem dúvida é um papel difícil, que exige total entrega sentimental da atriz. Mas tudo pareceu perfeito em Judi, que absorveu toda as confusões da personagem, explorando cada técnica de seu talento para compor a figura antipática de Barbara – que, no final das contas, acaba sendo até uma pessoa interessante devido a seus problemas emocionais.

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Das dez selecionadas nesse post, a que tem o trabalho mais sutil é Helen Mirren. Ela não chora copiosamente, não dá ataque de raiva e muito menos apela para o trabalho de semelhança física com a figura que representa para engrandecer sua atuação. O trabalho de Mirren é contido, onde ela se arma de cada diálogo para criar uma ótima interpretação dotada de minuciosidade. Mirren foi vencedora de todos os prêmios da temporada quando concorreu por esse seu trabalho e a excelência de seu trabalho é simplesmente inquestionável.

Opinião – A escolha de Francesca

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Atenção! Se você não assistiu ao filme “As Pontes de Madison”, não continue! O texto possui spoilers.

Francesca (Meryl Streep, indicada ao Oscar por seu desempenho) tem uma vida correta para a sua época. Ela é uma dona-de-casa em uma fazenda no condado de Madison e mora com seu marido (Jim Haynie) e seus dois filhos. (Christopher Kroon e Sarah Kathryn Schmitt). A princípio, ela tem uma vida satisfatória, onde seu cotidiano se resume em cuidar da casa e de suas famílias. É o ideal de felicidade para os anos 60. Um dia, a família parte para um concurso de novilhos em uma outra cidade e Francesca fica em casa. Pareciam ser quatro dias solitários, mas eis que um fotógrafo da National Geographic, Robert Kincaid (Clint Eastwood), bate à sua porta pedindo por informação. Ele quer fotografar as pontes do condado, mas não está se situando. Francesca se oferece para ajudar o fotógrafo, mostrando-lhe as pontes das redondezas.

Eles passam a tarde juntos, trocando algumas opiniões e fotografando paisagens. Contudo, ambos marcam um jantar – já que ambos estão sozinhos. E é nessa noite que tudo muda. As simples conversas passam a se transformar em íntimas confissões, relatos sentimentais e outras tantos diálogos sobre sonhos e amor. Surgem confidências. Surge uma música. Surge uma dança. E ambos se beijam. A partir daí, Frances e Robert estão apaixonados. Ela, uma mulher presa a uma vida já definida. Ele, um homem livre que está disposto a fazer qualquer coisa. O principal mérito do roteiro de As Pontes de Madison, escrito por Richard LaGravanese (diretor de longas como Escritores da Liberdade e P.S. Eu Te Amo), é conferir muita humanidade aos dois. Não estamos assistindo um amor à primeira vista ou muito menos uma atração física. Robert e Francesca se apaixonaram pelos verdadeiros seres humanos que existem em cada um deles.

Tudo muito romântico e verossímil, dotado de belos diálogos que são pontuados por uma inesquecível Meryl Streep e um surpreendente Clint Eastwood – no papel mais diferente de toda a sua carreira. Entretanto, chega um momento decisivo para ambos. O marido e os filhos de Francesca estão voltando e Robert tem que ir embora. Agora ela tem uma difícil escolha: permanecer em Madison com as pessoas com quem construiu a sua vida até agora ou sair a viajar pelo mundo com Robert, uma intensa e verdadeira paixão? A jornada de escolha da personagem é extremamente dolorosa. Ela tem a oportunidade de viver o grande amor da sua vida. Mas, para isso, ela terá que abandonar o seu lar e as pessoas com quem sempre viveu. Nos extras do dvd, o escritor LaGravanese disse que a maioria das pessoas com menos de 30 anos radicalmente condenam a escolha que ela toma no filme – a de permanecer com sua família. Já a maioria das pessoas acima de 30 anos, afirmam que sua decisão foi correta.

É uma indecisão mortal, já que é extremamente difícil se colocar na posição da protagonista. O problema é que o roteiro não faz da família de Francesca um conjunto de pessoas que a fazem infeliz. Eles são boas pessoas, que se contentam com o banal. Ela é a diferente. Ela quer paixão, sentimento, algo diferente do que vive e que teve a oportunidade de provar a sensação quando conheceu Robert. Colocando-me na posição dela, eu teria feito o mesmo que ela fez, acredito. Dá pra se levar de base o que Francesca diz para Robert, que sua família não iria aguentar a dor, a vergonha, a fofoca que a sua decisão de fugir iria causar. Principalmente em uma época conservadora como aquela. E uma frase do filme exemplifica bem isso: “Robert, você não entende. Quando uma mulher toma a decisão de se casar e ter filhos… Por um lado a sua vida começa. E por outro lado a sua vida termina“. Mas, é claro, que eu não posso negar que não ficaria com vonde de abrir a porta daquele carro e sair correndo no meio da chuva. Afinal, esse tipo de certeza só aparece uma vez na vida. Ainda assim, eu faria o mesmo que ela fez. Por mais doloroso que seja.

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E você? Acha que Francesca deveria ter fugido com Robert ou ela estava certa em ficar em Madison com sua família? Dê a sua opinião! =)

ps: e a minha querida Susan Sarandon que me perdoe, mas aquele Oscar era todo da Meryl Streep!

Os visitantes do Cinema e Argumento concordaram com a escolha de Francesca. Abaixo, o resultado da enquete:

Francesca deveria…

ter ficado com sua família. 65% (15 votes)

ter fugido com Robert. 35% (8 votes)

O segundo cinecast!

A turma do primeiro cinecast está de volta, só que dessa vez falando sobre continuações. Dessa vez temos um convidado especial, o Pedro Henrique do Tudo é Crítica. Apesar de eu ter falado significativamente pouco, de debocharem de mim porque entenderam “Bento” ao invés de “Pedro” e de eu ser o estranho no ninho que não gostou de O Poderoso Chefão, vale a pena conferir esse segundo volume. Contamos com a participação de vocês!

Para ouvir a nossa segunda edição do projeto, clique aqui.

Opinião – A culpa do padre Flynn

Sessão nova aqui no blog. O objetivo de “Opinião” é, a cada post, trazer um tema interessante a ser debatido sobre um filme em questão. Resolvi abrir essa série de discussões com a polêmica temática de Dúvida: o padre Flynn (Philip Seymour Hoffman) abusou ou não de seu aluno? Vale ressaltar que, quem não viu o filme, NÃO continue a ler o texto, já que pode ter spoilers.

Não é fácil digerir Dúvida. Quase não tem história, a ação do filme ocorre inteiramente nos diálogos e parece que estamos assistindo uma peça de teatro filmada. Mas eu sou fã de filmes que o poder dele se encontra nas palavras. Por isso mesmo, não pude resistir ao longa. A história todo mundo já sabe – uma freira chamada Aloysius (Meryl Streep) acusa o padre Flynn (Philip Seymour Hoffman) de estar molestando um jovem numa  escola católica. O problema é que ele é o único aluno negro da instituição. Além disso, numa emocionante cena da atriz Viola Davis, descobrimos que ele apanha do pai (por razões que não ficam muito explícitas, mas que incita uma provável homossexualidade da criança) e que sofria nas mãos de garotos em outra escola. A irmã Aloysius, ao saber que o garoto bebeu o vinho do altar e que teve alguns momentos a sós com o padre, começa uma jornada para provar as suas certezas. A certeza dela é que o padre Flynn é culpado e que deu propositalmente o vinho para o garoto e o molestou. Certeza essa que não sabemos de onde vem, nem porque surgiu. Só sabemos que ela existe.

Quando Alysius confronta Flynn ele nega firmemente, acusa a irmã de louca e diz que não vai aceitar uma acusação absurda dessas. A irmã James (Amy Adams), que a princípio apoiava Aloysius vai observando melhor a situação e começa a moldar sua verdadeira opinião. O problema é que, quanto mais o padre tenta provar o contrário, mais a situação se agrava. Aloysius chama a mãe do garoto, relata o acontecido e passa a confrontar o padre cada vez mais. O filme inteiro é basicamente isso. Aloysius diz que sim, Flynn diz que não e James não sabe bem o que faz. O espectador fica no meio da confusão, tentando procurar situações que evidenciem a verdade. Mas é difícil. O filme confunde, mesmo que eu tenha achado claramente que o roteiro quer tomar o partido de que o padre é culpado. Confunde mais ainda na cena final, onde somos surpreendidos com uma reação da irmã que passou o filme inteiro fazendo acusações.

Por mais que dê pra sair do filme defendendo determinado personagem, ninguém sai de lá com plena certeza. Você pode até dizer que o padre é culpado, mas existem teorias que contradizem isso. O mesmo se aplica para a inocência dele. Eu, particularmente, acredito que ele tenha molestado sim a criança. Por várias razões. A primeira, obviamente, é o padre ter ido embora da escola. Ele podia ter ficado e lutado, mesmo que a fofoca tomasse proporções devastadoras. Acho que ele aceitou muito facilmente o fato de que ele não poderia lutar com a freira. Como diz a própria Aloysius: “A sua renúncia foi a sua confissão.” Quem não deve não teme, e se fosse eu teria ficado lá até aquela velha desistir da confusão. Depois ele parecia muito irritadinho com as acusações dela, fingia que não ouvia, que não se importava. Mas, quando pressionado demais, levantava a voz, fazia sermões dando indiretas para a freira e convencia os outros de sua inocência às escondidas. Mas só o fato de ele ter saído da escola, pra mim, já assina o atestado de sua culpa.

Eu, sinceramente, não vejo tantos motivos para ele ser inocente. O que induz o espectador a acreditar que, possivelmente, ele seja inocente é a figura da irmã Aloysius. Ela é chata, antipática, faz acusações sem prova alguma e sempre dá um jeitinho de infernizar a vida de qualquer um. O grande problema é que o padre não reage bem diante dela. Para piorar mais ainda a sensação de dúvida que paira durante o filme inteiro, a história culmina em um final totalmente desconcertante, que vai fazer muita gente detestar o resultado. Mas, além disso, não é só pelo final em si, mas por causa do que acontece nele. Não esperávamos aquilo, em momento algum. Não daquela maneira. Dúvida, então, faz pensar. Pensar muito. Nem lembro a última vez que fiquei tão intrigado com um filme.

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E você? Acha que o padre Flynn é culpado? Acredita que é paranóia da irmã Aloysius? Por quê? Dê a sua opinião =)

Para a maioria dos visitantes do Cinema e Argumento, o Padre Flynn é culpado. Abaixo, o resultado da votação:

é culpado (“I have my certainty!”) 42% (10 votes)

não sei, tenho dúvidas (“Oh, sister James, I have such doubts!”) 38% (9 votes)

é inocente (“I have not touched a child!”) 21% (5 votes)

Por onde anda Jack Nicholson?

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O último filme que ele finalizou foi em 2007. De acordo com o IMDB, não tem longa-metragem à vista. Ele não foi em nenhuma premiação esse ano; nem apareceu para sentar na sua habitual primeira fila do Oscar. Teria Jack Nicholson simplesmente desistido do cinema? I miss you, Jack!