Cinema e Argumento

Opinião – O segredo da vila

Atenção! Se você ainda não assistiu o filme “A Vila”, não continue a ler o texto, pois ele possui spoilers.

Pra começo de conversa, declaro que sou um defensor ferrenho de A Vila. Acho o melhor filme da carreira de M. Night Shyamalan – o mais bem conduzido, que traz uma atmosfera perfeita e que tem grande habilidade narrativa. Detestado por inúmeros cinéfilos, o filme talvez teria sido mais bem apreciado caso fosse o primeiro da carreira de Shyamalan, e não um filme pós-badalação de O Sexto Sentido. Pra falar a verdade, o filme estrelado por Bryce Dallas Howard e Joaquin Phoenix é criticado mais pelo desfecho do que pelo conjunto em si. Mas por que criticar um desfecho que discute um tema tão atual e urgente?

A principal razão para os moradores da vila viverem naquelas condições é revelada a partir dos segredos escondidos dentro de uma caixa que fica escondida na casa da personagem de Sigourney Weaver. As figuras do filme escolheram viver naquela condição: isolados do mundo, vivendo na simplicidade da vida, longe da realidade que cada vez mais corrompe o ser humano. Mas, o mais importante de tudo: querem viver longe da violência, que trouxe dor para muitas das pessoas que habitam aquele lugar. “Minha irmã morreu antes de completar 23 anos, um grupo de homens a estuprou e a matou. Eles a jogaram em uma lixeira”. Quando começamos a ouvir os depoimentos dos moradores, nos damos conta do que realmente se passa na história.

Muita gente pode não admitir, mas tenho certeza que parte do público não aprova o filme porque esperavam alguma reviravolta como a de O Sexto Sentido ou a tensão explícita de Sinais. Terminaram se deparando sim com uma reviravolta, mas uma reviravolta complexa e que está longe de ser um mero acontecimento para surpreender. É um desfecho complexo, que exige reflexão. A intenção de Shyamalan certamente não foi comercial e sim artística. A Vila foi realizado como cinema para se pensar, não para deixar o cérebro de lado como um desses suspenses quaisquer que rondam os cinemas. A escolha dos moradores foi válida. Afinal, quem não quer morar em um mundo livre da violência e das maldades causadas pelos seres humanos?

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Opiniões anteriores:

A culpa do padre Flynn, em Dúvida

A escolha de Francesca, em As Pontes de Madison

60 anos de Streep

Hoje, a estrela favorita desse blog completa sessenta anos de vida. Nada mais justo do que um post dedicado a ela. Parabéns, Meryl! Para não ficar aqui falando novamente tudo o que eu acho dela, resolvi colocar abaixo outras celebridades falando sobre a recordista de indicações ao Oscar.

Uma atriz de tremenda importância da nossa geração. Ela é históricamente importante.” – William Hurt

As indicadas dessa categoria são: Meryl Streep, Meryl Streep e… Meryl Streep. E adivinha quem é a vencedora? Não existe filme ruim com ela, não existem falhas. Que Deus abençoe Meryl Streep, assim como ela vem nos abençoando.”Jim Carrey

Ela se tornou o grande gênio da minha geração.”Diane Keaton

Quando conversei com Scott Rudin sobre o elenco de “As Horas”, ele me perguntou: “O que você acha de Meryl Streep?”. E eu disse que morreria para trabalhar com ela.”Stephen Daldry

Meryl Streep sempre foi para mim um exemplo de pessoa e profissional, a atriz mais extraordinária de sua geração.” – Nicole Kidman

“Ela consegue desaparecer na alma de qualquer outra pessoa. A cada papel novo, ela se torna um ser humano totalmente novo.” – Sidney Pollack

Tive a oportunidade fazer apenas uma cena com Meryl em “As Horas” e vou ser eternamente feliz por causa disso, por estar com ela em alguma coisa.”Julianne Moore

Dirigir Meryl Streep é como se apaixonar. Você sempre vai se lembrar de ser algo mágico e criativo, mas também cercado de mistérios.”Mike Nichols

Marlene

Marlene Dietrich foi uma das atrizes mais desejadas de sua geração. Sexualmente e profissionalmente. Os homens se impressionavam com a sua sensualidade e beleza. Os diretores disputavam a atriz para os filmes. Pra ser bem sincero, nunca assisti nenhum filme com a atriz. Portanto, na última noite de terça-feira fui assistir ao documentário Marlene, de Maximilian Schell, sem ter conhecimento algum sobre ela. Na realidade, fui assistir o longa por motivos profissionais, já que estou realizando uma reportagem sobre documentários para a faculdade e a diretora Liliana Sulzbach (vencedora em Gramado por O Cárcere e a Rua) estava apresentando esse longa em uma sessão seguida de debate.

Não posso dizer que achei o longa particularmente notável ou original, mas existe algo dentro dele que despertou a minha curiosidade: a estrela principal do documentário não aparece em momento algum. Marlene Dietrich concordou em realizar o filme, mas com a condição de que não teria o seu rosto mostrado. Sua última aparição no cinema foi em 1978, em uma participaçao muito tímida, onde mal dava para ver o seu rosto, no longa Just a Gigolo. Porém, a última vez em que realmente teve participação efetiva em um filme foi em 1961, com O Julgamento de Nuremberg. Portanto, 23 anos se passaram desde o último trabalho de grande aparição dela até a realização do documentário.

A idade, querendo ou não, é mais cruel com as mulheres do que com os homens. E, talvez, por essa razão, Marlene não tenha aceitado aparecer diante das câmeras. Ela queria permanecer na mente dos cinéfilos como aquela linda mulher que encantou olhares em filmes como O Anjo Azul e não como uma senhora em fim de vida. Exímia cantora e atriz de inúmeras habilidades, Dietrich viveu em uma época muito conturbada. Portanto, é louvável o grande reconhecimento que ela obteve durante toda a sua carreira. Saí da sessão – e do debate pós-filme – encantado com essa figura que, apesar de difícil e rabugenta, era um ser humano fabuloso. Ela faleceu com 91 anos em Paris, no ano de 1992 e foi indicada apenas uma vez ao Oscar. Dietrich é um  belo exemplo de como hoje em dia não se fazem mais estrelas como antigamente…

Dez Atuações Masculinas da Década

Depois do post sobre as dez atuações femininas da década, agora chega a vez das masculinas. Dessa vez a tarefa foi mais fácil… A ordem, novamente, é aleatória.

decdan

Sem dúvida alguma a performance de Daniel Day-Lewis é a melhor dessa década. Uma assustadora representação de um homem que se afunda na própria ambição e que perde seus valores no mundo do petróleo. Day-Lewis ganhou o seu segundo Oscar por Sangue Negro. Nada mais justo, ele literalmente dá um show de atuação e é o principal atrativo do filme de Paul Thomas Anderson. Um papel difícil e complexo, mas que nas mãos do ator ganhou uma imagem aterradora.

decpenn

Sean Penn teve várias interpretações de qualidade nessa década. Podemos citar Sobre Meninos e Lobos ou Uma Lição de Amor, por exemplo. Mas nenhuma foi tão bem balanceada como essa de Milk – A Voz da Igualdade. Por mais que eu não aprecie o filme de Gus Van Sant, é impossível ignorar o grande trabalho de Penn, achando o equilíbrio perfeito entre o afetado e o enrustido para compor a figura do político gay Harvey Milk. Por esse filme, Penn ganhou seu segundo Oscar – incontestavelmente merecido.

decphil

Essa é a representação que deu maior reconhecimento para Philip Seymour Hoffman, ator que sempre tinha sido um coadjuvante não muito notado. Em Capote, Hoffman utiliza toda a sua técnica para criar uma poderosa atuação que permanece com o espectador depois do filme. Por mais que sua voz seja irritante (desculpem-me, não pude deixar de mencionar isso), ele consegue segurar com muita habilidade o filme que, talvez, não seria grande coisa sem ele. A crítica aprovou e deu vários prêmios para o ator.

decrus

Russel Crowe foi consagrado pelo filme errado. Ele pode até ter excelente presença em Gladiador, mas a sua presença em Uma Mente Brilhante é infinitamente mais interessante. Crowe tem, no premiado filme de Ron Howard, o seu melhor trabalho, moldando com grande excelência a figura de um matemático que sofre de esquizofrenia. Junto com a bela Jennifer Connelly, ele deixa grande presença na produção.

dechank

Depois de Filadélfia e Forrest Gump – O Contador de Histórias, Tom Hanks apresentou outro trabalho memorável com Náufrago. Com um assustador empenho físico, o ator segura sozinho (literalmente) esse filme de Robert Zemeckis. Mas Hanks vai além do trabalho físico e consegue mostrar toda a solidão, o desespero e a esperança de um homem que está isolado de todo o mundo. E, mais uma vez, o ator mostra suas grandes habilidades.

decben

Toda a severidade de um homem marcado pelo passado militar, a dedicação de um homem trabalhador e a tradição de um pai de família do Oriente estão presentes na excepcional interpretação de Ben Kingsley em Casa de Areia e Névoa. Kingsley por si só já transmite competência, mas aqui ele tem algo a mais. Num filme onde temos duas atrizes inspiradas como Jennifer Connelly e Shoreh Agdashloo, Kingsley também conseguiu se sobressair.

decheath

O último trabalho de Heath Ledger também foi o melhor trabalho de sua carreira. Ele roubou a cena como Coringa em Batman – O Cavaleiro das Trevas. O mais interessante de tudo é a ótima mistura que Ledger fez de insanidade e vilania, mostrando que o seu personagem só quer ver o circo pegando fogo. Ledger foi o primeiro ator a receber um prêmio póstumo. É uma pena que não estava no Kodak Teather para receber a sua merecida estatueta.

decjack

Às vezes Jack Nicholson é criticado por se auto-representar em diversos filmes. Definitivamente não é o caso de As Confissões de Schmidt, filme em que Nicholson está menos… Nicholson! Só a cena final do filme de Alexander Payne já mostra o quão especial é essa atuação, que é calcada pela deliciosa mistura entre comédia e drama. Nicholson comove e faz rir, no melhor papel de toda a sua extensa carreira.

decjam

Odeio Jamie Foxx. Odeio mesmo. Mas Ray é uma exceção. A força da interpretação de Foxx foi tanta que até conseguiu que o filme conseguisse absurdas indicações ao Oscar de melhor filme e diretor. Reclamações a parte, o ator achou o tom certo para representar o cantor Ray Charles em uma interpretação exata, que nunca cai em excessos e que não fica devendo em nada. Pena que tal atuação esteja em um filme tão chato…

decbard

Impressionante trabalho do espanhol Javier Bardem em Onde Os Fracos Não Têm Vez. A atuação traz para o espectador tudo aquilo que um vilão deve ser: dissimulado, insano e sem limites. Bardem rouba a cena no filme dos irmãos Coen e é o principal atrativo da história exatamente por ser a principal engrenagem do suspense e da ação da trama. Merecidamente coroado com o Oscar, o ator foi impecável.