Cinema e Argumento

Opinião – Os personagens de Closer

Atenção! Se você ainda não assistiu o filme “Closer – Perto Demais”, não continue a ler o texto, pois ele possui spoilers.”

Dan (Jude Law), Larry (Clive Owen), Anna (Julia Roberts) e Alice (Natalie Portman). Todos personagens construídos com maestria, mas que despertam as mais variadas sensações. Tanto para o bem quanto para o mal. O que importa em Closer – Perto Demais é que ninguém é bandido ou mocinho. Todos possuem a sua parcela de culpa. Todos mentem. Todos traem. Ninguém se salva. Nem mesmo o personagem de Jude Law, que, à primeira vista, parece ser o vitimizado da história simplesmente porque é romântico e utiliza frases bonitas para transmitir suas sensações.

Dan, na verdade, é o mais inseguro de todos. Não sabe o que quer e acredita que pode amar duas pessoas ao mesmo tempo. Tal pensamento faz com que ele fique todo o tempo todo indo de um lado para o outro, indeciso entre Anna e Alice. Ele pode ser sentimental e amoroso, mas é tão culpado quanto os outros. Pena que o roteiro tenha uma forte tendência a fazê-lo de vítima na história, especialmente porque ele é o que mais fica em ruínas no final do filme – sem ninguém e sem rumo na sua vida amorosa.

Enquanto isso, a outra figura masculina da história, Larry, é totalmente o oposto de Dan. Larry é mais bruto, sexual, racional. “I am a cave man!”. Quer, a todo custo, se sentir no poder. Essa sua ira por comando fica evidente em duas cenas. A primeira, quando descobre que Anna o traiu. A segunda, quando se encontra a sós com Alice na boate. É um personagem difícil e, possivelmente, o mais complicado de todos. Clive Owen driblou os obstáculos e fez uma maravilhosa composição. Queremos distância de Larry, mas também conseguimos admirar o excelente desempenho de Clive.

As mulheres, assim como os homens, são bem distintas no filme. Anna é a personagem mais passiva, sempre com uma expressão de “eu não me importo”. A paixão que ela diz ter pelos homens nunca fica muito visível, nem mesmo na hora em que seus sentimentos são confrontados ou questionados. Julia Roberts – a mais subestimada do quarteto – pode até ter o papel mais sem graça de Closer, mas conseguiu acertar no tom de sua composição.

Alice, por outro lado, é a pessoa mais complicada dos quatro. Difícil entender as suas motivações e, principalmente, as suas escolhas. É alguém que nos surpreende até o último minuto em cena. Portman está maravilhosa, mas a personagem não simpatiza tanto. É complicada e enigmática demais. Sexualidade e sensibilidade não combinam na personalidade dela e isso, ao meu ver, atrapalha a recepção do espectador com ela. Closer, no final das contas, é uma ciranda super interessante de relações. Elas podem até ser fracassadas e não ter final feliz, mas ensinam bastante coisa. Afinal, a vida não é assim?

E você? O que acha dos personagens de Closer?

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Anteriormente:

A culpa do Padre Flynn, em Dúvida

A escolha de Francesca, em As Pontes de Madison

O segredo da vila, em A Vila

A verdade sobre Hanna Schmitz, em O Leitor

A felicidade de Poppy, em Simplesmente Feliz

A obsessão de Barbara, em Notas Sobre Um Escândalo

A culpa de Briony, em Desejo e Reparação

Opinião – A culpa de Briony

Atenção! Se você ainda não assistiu o filme “Desejo e Reparação”, não continue a ler o texto, pois ele possui spoilers.

Quantos anos de idade são precisos ter para saber a diferença entre o certo e o errado? Em 1935, no dia mais quente do verão inglês, a jovem Briony Tallis (Saoirse Ronan, ótima) presenciou uma cena nebulosa – onde nem mesmo o ser humano mais atento poderia dizer o que aconteceu de fato. Ao contrário das garotas de sua idade, Briony interpretou tudo de forma maliciosa, sexual. Isso, enventualmente, fez Robbie Turner (James McAvoy) ir preso, depois para a guerra e, enventualmente, morrer nos campos de combate. Mais do que isso, destruiu o amor entre ele e Cecilia (Keira Knightley), irmã de Briony.

Nutrindo um amor passageiro de adolescência por Robbie, Briony via todas as situações de forma diferente por causa desse sentimento. Sentia ciúmes dele, ficava mal-humorada quando ele a preteria e invejava o relacionamento dele com Cecilia. O que fica evidente, logo nos primeiros minutos de Desejo e Reparação, é que Briony não é uma garota qualquer. Ela é diferente das meninas de sua idade. É inteligente e crítica, com traços adultos em sua personalidade. Mas daí fica a questão: por que ela mentiu descaradamente sobre uma coia tão séria, que ela não tinha certeza alguma? A resposta mais adequada é a que tinha certa raiva pro Robbie não ser a pessoa que ela esperava que ele fosse. A pessoa que lhe desse atenção, que a tivesse com prioridade.

Briony não notou a consequência de sua mentira logo de cara. Tanto, que assiste, na janela da casa, com uma expressão gélida, a prisão de Robbie. Ela era inteligente sim. Mas não quando os sentimentos entravam em cena. Era, ao mesmo tempo, dotada de uma inteligência diferente e de uma inconsequência assustadora. Foi com o passar dos anos que começou a perceber o estrago que fez. Ainda assim, quando já era maior e enfermeira (nessa fase, interpretada come excelência por Romola Garai), nunca teve coragem de expressar o seu arrependimento e também nunca procurou formas de se reconectar com a família – que havia sido destruída depois daquele verão tumultuoso. Ela se escondeu, viveu uma vida solitária. Queria, de certa forma, fugir dela mesma e da terrível decisão que fez quando garota.

Briony era covarde. Só conseguiu expressar toda sua dor e arrependimento através da arte, quando, já idosa e doente, escreveu um livro contando a história de Robbie e Cecilia. Contando, inclusive, sua mentira e sua culpa. Agora, tal “pedido de desculpas” é válido quando as pessoas em questão já morreram? Não seria “mais fácil” para ela assumir a culpa depois que não existe mais ninguém a quem recorrer para pedir perdão? A mesma Briony covarde vivida por Romola Garai continua aqui nessa senhora vivida por Vanessa Redgrave. Contanto, ao mesmo tempo em que temos repulsa por uma personagem tomada pela inconsequência, também enxergamos um ser humano arrependindo – e que era fraco demais para fazer o fundamental: pedir desculpas.

Portanto, fica no espectador aquela mesma sensação despertada por Hanna Schmitz em O Leitor: estamos tendo pena de uma personagem que fez um absurdo, que “matou” pessoas e que destruiu a vida sentimental de alguém. Agora, Briony é diferente de Hanna Schmitz só por ser uma criança? Talvez não. Como já dito aqui, ela era bem consciente de seus atos e, por mais que fosse uma criança, sabia muito bem que tudo poderia ter sido diferente caso não tivesse dito: “I saw him. I saw him with my own eyes“. Pra mim, ela tem sim a sua culpa. Mas, isso não quer dizer que eu também não entenda as dores e o sofrimento da personagem causados pelo arrependimento.

E você, o que acha da Briony? Ela tem culpa ou não?

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Anteriormente:

A culpa do Padre Flynn, em Dúvida

A escolha de Francesca, em As Pontes de Madison

O segredo da vila, em A Vila

A verdade sobre Hanna Schmitz, em O Leitor

A felicidade de Poppy, em Simplesmente Feliz

A obsessão de Barbara, em Notas Sobre Um Escândalo

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Dez Personagens da Década

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Quando fui assistir O Diabo Veste Prada no cinema, não dava nada pelo filme. Mas eis que uma certa Meryl Streep resolve roubar a cena. Cada minuto dela na projeção é de deixar qualquer um encantado com a figura que Meryl criou. Não apenas conseguiu ser a representação mais brilhante do filme como também passou de vilã à personagem perfeita. Cada palavra proferida parece um corte, cada olhar dá medo e cada gesto parece ter uma potência única. E mesmo assim ela diverte, encanta e é a maior estrela do filme. Méritos de uma Meryl Streep de arrepiar.

WALL-E

WALL-E pode ser um robô, mas representa perfeitamente a raça humana. É apaixonado, sonhador, corajoso e não mede esforços para conseguir o que quer. Presente de uma espetacular Pixar, o robozinho já entra para a história dos desenhos animados como um dos mais queridos de toda a existência. Impossível não se encantar com o seu jeito autêntico ou com suas trapalhadas ingênuas. Além disso, formou com Eva um casal perfeito, que faz com que o espectador torça até o final por eles. WALL-E é simplesmente fenomenal.

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Outra personagem que rouba todas as atenções para si quando entra em cena. Maria Elena representa outra prova do talento de Penélope Cruz (aqui como comediante, ao contrário de Volver), que aqui tem uma performance impecável. Deixando todos os outros em cena ofuscados, Cruz e sua Maria Elena são o auge de Vicky Cristina Barcelona. O curioso é que ela é uma “vilã”, que só inferniza a vida de Juan Antonio (Javier Bardem) e sempre causa confusão por causa de seu gênio maluco e forte. Mas que, assim como Miranda Priestly, brilha completamente.

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Notável como Amélie Poulain é bondosa e generosa mas nunca soa falsa. Presente de uma Audrey Tautou inspiradíssima, no melhor papel de sua carreira. O filme já é cult e a personagem marcou muita gente, especialmente por causa de sua cativante vontade de transformar a vida de todos à sua volta. Amélie conquista de imediato e pouco a pouco vai ganhando cada vez mais o coração do espectador com sua humilde história de vida. Um belo exemplo de uma atriz e uma personagem em plena sintonia.

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Provavelmente, a personagem mais polêmica dessa lista. Apesar de Briony ser uma figura que causa aversão, tem uma construção muito fascinante em Desejo e Reparação. Começa inconsequente e de gênio difícil, para depois se tornar uma adulta retraída, envergonhada de seus atos. Já quando idosa, tenta se redimir de tudo através de seu próprio jeito. Não é necessariamente a pessoa dela que se destaca no filme, mas sim toda a sua trajetória, toda a sua mudança durante a vida. É isso que torna Briony uma personagem tão fascinante do ponto de vista cinematográfico.

judibarbara

Barbara Covett ganhou contornos extraordinários pelas mãos de Judi Dench em Notas Sobre Um Escândalo. Certamente, a personagem é das mais detestáveis, mas Dench conseguiu uma representação tão visceral, que fica difícil resistir a alguém tão intrigante em cena. Mas o mais interessante é que Barbara é justificável, uma vez que levou uma vida muito complicada emocionalmente, que a levou a ser quem ela é hoje. Com grandes cenas, a personagem é o que existe de melhor no longa de Patrick Marber.

jackschmidt

Misturando comédia e drama com perfeição, Jack Nicholson criou um Warren Schmidt perfeito. Se no livro ele é considerado antipático, o personagem no filme do Alexander Payne ganha traços admiráveis. Ao mesmo tempo em que arranca risadas com suas situações inusitadas, também consegue levar o espectador às lágrimas com seus momentos de pura solidão. No final das contas, deixamos de lado a parte rabugenta do personagem e nos vemos torcendo por ele. Esperando que ele faça algum tipo de diferença na vida de alguém.

johnnysparrow

É certo que a série Piratas do Caribe só decaiu em qualidade desde a estreia de A Maldição do Pérola Negra. Contudo, existe algo que sempre está presente de forma interessante: o desempenho de Johnny Depp como o irreverente capitão Jack Sparrow. Impagável, Depp some completamente dentro de um visual estranho e cria gestos, entonações e expressões memoráveis, tornando o personagem um dos mais divertidos dos últimos tempos. Pena que, ultimamente, tal figura tenha sido parte de continuações tão fracas…

juliannelaura

As Horas é cheio de grandes personagens, mas nenhum é tão complexo e tão bem interpretado como Laura Brown. Frustrada com a vida que tem, vive cada dia como um martírio e tenta arranjar algum tipo de força ao se apegar nos amores que o filho e o marido sentem por ela. Julianne Moore captou com perfeição as entrelinhas da personagem e moldou uma Laura Brown impecável, dona de grandes cenas e que até alcança o feito de não causar repulsa no espectador quando descobrimos suas decisões. Nós conseguimos entendê-la.

heathjoker

Ovacionado pela crítica e pelo público, Heath Ledger entregou um Coringa fenomenal. Unindo insanidade e caos numa personalidade obscura, o Coringa direcionou todos os holofotes para si em Batman – O Cavaleiro das Trevas. Ledger, que ganhou um Oscar póstumo de ator coadjuvante por sua representação, fez uma grande composição, que também já foi listada por aqui como uma das melhores atuações dessa década. Sem falar, claro, que já deixou frases memoráveis.

Opinião – A obsessão de Barbara

Atenção! Se você ainda não assistiu o filme “Notas Sobre Um Escândalo”, não continue a ler o texto, pois ele possui spoilers.

Confesso: como cinema, o roteiro de Notas Sobre Um Escândalo realmente não é uma preciosidade. Mas, como adaptação, é fenomenal. O trabalho de Patrick Marber não só movimentou muito mais a morna história do livro de Zoe Heller, como também deu mais complexidade e potência para a principal engrenagem da trama: o interior sentimental da protagonista Barbara Covett (Judi Dench, espetacular). Muitas pessoas acusam a personagem de ser louca por correr tanto atrás de Sheba (Cate Blanchett, subestimada) e fazer dela uma refém, mas existe uma explicação viável para tal comportamento.

Amarga e infeliz, Barbara vive uma vida completamente sozinha. O único contato mais “humano” que ela tem é com a sua gata Portia, uma vez que desdenha a todos em sua escola e não possui amizade alguma. O gênio dificil – que também pode ser interpretado como um reflexo de sua alma intelectual e demasiadamente crítica – complica a sua convivência com as pessoas. Por ser essencialmente ácida, Barbara tende a se afastar das pessoas por considerá-las medíocres, tolas e inferiores ao seu nível. E, mesmo quando se apaixona, não consegue deixar de lado essas suas fortes opiniões. Mas, ao invés de dizer o que pensa, relata tudo em um diário pessoal.

Quando conhece a professora de artes Sheba Hart, podemos notar em cena um sentimento novo na protagonista. No início, curiosidade. Depois, admiração. Logo, paixão. O homossexualismo de Barbara fica visível (enquanto no livro isso é algo bem mais sutil), tornando a protagonista ainda mais complicada diante de nossos olhos. Não pela sexualidade, mas como ela é visivelmente mal resolvida nessa parte de sua vida. Parece ser virgem e, a todo momento, anseia por algum tipo de contato físico. Quando se aproxima demais de alguma mulher, já é secretamente taxada pelos colegas como apaixonada.

O problema é que, a partir do momento em que nutre sentimentos mais fortes por Sheba, Barbara começa a perder as rédeas de seus impulsos. Principalmente quando descobre que a ingênua professora tem um caso com o aluno Steven (Andrew Simpson). Barbara vê na insegurança emocional de Sheba (casada, mas frustrada em seu casamento, procurando algo “diferente” no garoto) a grande chance de sua vida: a de ter alguém ao seu lado para sempre. Mesmo que através de chantagem. Começa, portanto, uma obsessão incontrolável pela colega – que, em sua ingenuidade, não nota que Barbara quer muito mais que uma simples companhia.

Tal comportamento descontrolado e até mesmo perigoso toma conta de Barbara, que vê em cada negação de Sheba uma ofensa, em cada distanciamento de sua amiga um motivo para vingança ou mágoa. Todas essas nuances da difícil personagem é encenada de forma espetacular por Judi Dench (a minha favorita no Oscar daquele ano), que assume a sua idade com um rosto marcado pela velhice. Dench torna as narrações em off inesquecíveis e é o que existe de melhor em Notas Sobre Um Escândalo. Uma composição impecável.

Agora, voltando ao início do texto. Barbara é taxada como louca pela maioria das pessoas. Mas, o que temos que ter em mente é que toda essa alma da protagonista é fruto de uma vida repleta de insatisfações, de objetivos nunca alcançados. Ela, de certa forma, não tem culpa de ter chegado nesse ponto.  A própria Sheba nota isso no final do longa, onde se despede de Barbara com uma certa compaixão nos olhos. Afinal, ser obsessiva não é uma escolha dela. É imposição de uma vida de completa solidão, onde o sense of touch (como diria Crash – No Limite) é inexistente. E existe maior tristeza que essa?

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Anteriormente:

A culpa do Padre Flynn, em Dúvida

A escolha de Francesca, em As Pontes de Madison

O segredo da vila, em A Vila

A verdade sobre Hanna Schmitz, em O Leitor

A felicidade de Poppy, em Simplesmente Feliz