Cinema e Argumento

As Vantagens de Ser Invisível

Right now we are alive and in this moment I swear we are infinite.

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Direção: Stephen Chbosky

Roteiro: Stephen Chbosky, baseado em romance homônimo de autoria própria

Elenco: Logan Lerman, Ezra Miller, Emma Watson, Paul Rudd, Dylan McDermott, Johnny Simmons, Kate Walsh, Nina Dobrev, Nicholas Braun, Adam Hagenbuch, Erin Wilhelmi, Zane Holtz, Reece Thompson, Landon Pigg

The Perks of Being a Wallflower, EUA, 2012, Drama, 102 minutos

Sinopse: Charlie (Logan Lerman) é um jovem que tem dificuldades para interagir em sua nova escola. Com os nervos à flor da pele, ele se sente deslocado no ambiente. Seu professor de literatura, no entanto, acredita nele e o vê como um gênio. Mas Charlie continua a pensar pouco de si… Até o dia em que dois amigos, Patrick (Ezra Miller) e Sam (Emma Watson), passam a andar com ele. (Adoro Cinema)

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É complicado entrar no terreno adolescente quando o assunto é cinema. Obras particulares sobre esse universo são normalmente estereotipadas, escrachadas e, em casos extremos, comédias de mau gosto. Claro que depende da proposta, mas bons filmes sobre jovens são cada vez mais raros e menos originais. Em tempos que os maiores hits sobre esse público são séries de TV extremamente comerciais (Glee, que hoje já foi esquecida), é recompensador se deparar com As Vantagens de Ser Invisível, um filme que surpreende por ser um exemplar alternativo muito controlado sobre a temática. Mesmo não escapando de pequenos clichês no que se refere à personalidade de alguns personagens, o trabalho de  Stephen Chbosky como diretor, produtor executivo e roteirista (adaptando seu próprio romance homônimo) demonstra pleno controle nas devidas doses de drama, romance e comédia para desenvolver uma história que, nas mãos erradas, teria tudo para se tornar facilmente insuportável.

A essência de As Vantagens de Ser Invisível não traz qualquer novidade, pois estamos diante de um protagonista que atende a vários estereótipos dramáticos do gênero: o garoto isolado, tímido, assombrado por um trauma do passado e que agora volta à escola após certo tempo internado em uma clínica. Por isso, é normal ficar com um pé atrás durante os minutos iniciais do filme de Chbosky, mas vale a pena relevar: o que segue é cheio de desenvoltura. Até porque todo o elenco jovem está muito bem. Quem encabeça o elenco é Logan Lerman, um ator que não tem um rosto muito marcante, mas que segura muito bem as pontas, nunca se acomodando na meiguice e no coitadismo de um personagem que poderia ser construído apenas em cima de melodramas. Sua paixonite é interpretada por Emma Watson, também muito controlada e mais simpática do que habitual, mantendo a boa média de atuação que apresentou nas partes finais de Harry Potter. O destaque, entretanto, fica mesmo com Ezra Miller, superando qualquer resquício de seu asqueroso personagem em Precisamos Falar Sobre o Kevin e fazendo uma louvável composição de um personagem gay que está longe de ser fake.

É bom ver um elenco tão afinado representando personagens bem desenvolvidos em uma história muito crível, que equilibra vários gêneros com segurança. No roteiro, Chbosky não pesa a mão quando deseja fazer rir (o humor aqui é genuíno, muito em função da química dos atores) e sabe mostrar os dilemas da adolescência sem ser nada superficial como os dramas batidos e mal encenados de uma  Malhação da vida. Sendo o retrato de uma geração ainda em busca de uma identidade e que tenta abraçar todas as possibilidades de um mundo com muito a ser desbravado, As Vantagens de Ser Invisível cumpre sua missão com direito a elogios. Se Chbosky não sabe o que fazer com os adultos (o professor interpretado por Paul Rudd é avulso e só aparece uma vez ou outra para ser o mentor do protagonista e lançar frases de efeito), em contrapartida, tem pleno domínio sobre alguns dramas em particular. O romance secreto entre um homossexual assumido com um colega enrustido é um exemplo: mastigado até onde deve, nunca parece avulso ou invasivo demais para o contexto daquele universo.

A dosagem certa dos elementos e da importância de cada personagem e cada storyline é, certamente, o ponto alto de As Vantagens de Ser Invisível. O filme apresenta algumas características negativas que podem ser ressaltadas pelos depreciadores: uma vez ou outra, é possível encontrar certas liberdades românticas que existem apenas com o propósito de deixar o filme mais queridinho, alternativo e apaixonante. Também não poderia faltar a garota indie que gosta The Smiths (a jogada mais velha de todas só que eficiente para o público-alvo), os extremos (os estranhos são legais, os populares são detestáveis) e os dramas pessoais do protagonista estendidos além da conta só para mostrar que ele pode sustentar o filme sozinho sem o destaque de seus colegas. Mas, de novo: controla o açúcar e nunca descamba para o forçado. É um longa jovem que consegue suprir seus erros com um clima muito agradável, verossímil e na medidade. Não é uma grande obra, mas é fácil saber porque ela encontra seu público – e merecidamente.

FILME: 8.0

35

Amor

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Direção: Michael Haneke

Roteiro: Michael Haneke

Elenco: Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva, Isabelle Huppert, Alexandre Tharaud, William Shimell, Rita Blanco, Ramón Agirre, Carole Franck, Dinara Drukarova, Laurent Capelluto, Jean-Michel Monroc

Amour, Áustria/França/Alemanha, 2012, Drama, 127 minutos

Sinopse: Georges (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emmanuelle Riva) são um casal de aposentados, que costumava dar aulas de música. Eles têm uma filha musicista que vive com a família em um país estrangeiro. Certo dia, Anne sofre um derrame e fica com um lado do corpo paralisado. O casal de idosos passa por graves obstáculos, que colocarão o seu amor em teste. (Adoro Cinema)

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É bem provável que Amor seja o filme mais acessível de toda a carreira do diretor Michael Haneke – o que não quer dizer muito, visto que o alemão sempre realiza obras bastante difíceis, seja em função da temática ou da narrativa. Só que Amor não tem os dramas desafiadores de A Professora de Piano ou uma narrativa sujeita a várias interpretações como a de A Fita Branca, por exemplo. Em termos de formato, é o filme que abrange um público muito maior do que o diretor normalmente consegue alcançar. Só que, como já dito, nem por isso deixa de ser difícil. Vencedor da Palma de Ouro em Cannes (incluindo prêmios especiais, o alemão já tem nove prêmios do Festival), é um filme denso justamente por tratar a vida de forma tão simples e realista: em seu mais novo trabalho, o diretor mostra que não precisa ser mirabolante para mostrar que a vida por si só já pode ser bastante dolorosa.

A fórmula de Amor não tem mistérios: no filme, acompanhamos a vida de um casal idoso, em especial a total degradação de Anne (Emmanuelle Riva), que sofreu um derrame e teve o lado direito do corpo paralisado. Georges (Jean-Louis Trintignant), então, promete que nunca deixará a esposa definhar em um hospital e passa a cuidá-la dia e noite. E ponto. Amor não é nada além disso. O que existe de mais interessante no filme é como ele é o mais cru possível com essa situação que é normalmente “romantizada” no cinema. Se pegarmos como exemplo filmes como IrisLonge Dela, onde maridos cuidam de esposas enfermas, podemos perceber que: primeiro, o que mais importa é mostrar um casamento sendo abalado; e, segundo, que uma clínica bem chique isenta o diretor de ter que mostrar a enfermidade como ela é. Haneke tem uma proposta diferente, fugindo de sentimentalismos e proteções, mas sem nunca ser apenas racional: em Amor, ele mostra a degradação sem qualquer economia de detalhes, especialmente naqueles que se referem à triste condição da protagonista. Ele não poupa ninguém ao mostrar uma mulher debilitada que já não consegue mais se movimentar e precisa de ajuda até mesmo para ir ao banheiro.

Amor também não é apenas sobre uma vida acabando, mas sim sobre duas. Se de um lado temos a esposa que nada pode fazer devido a suas condições, de outro temos o marido que precisa ser forte e que passa a ter uma vida resumida apenas a cuidar da companheira de tantos anos. A dor está nos dois lados do filme, que é particularmente angustiante por não ser nada apelativo. O choro e o desespero não são mostrados por Haneke, o que deixa o espectador ainda mais claustrofóbico naquele mundo. Nós esperamos que alguém quebre um prato ou que um personagem comece a chorar compulsivamente. Isso não acontece. E não precisa. Por apenas observar e não “idealizar” a situação, o longa faz com que fiquemos angustiados e solidários com essa possível condição de vida a que ninguém está imune – e que, por isso mesmo, é tão amedrontadora. E esse é o grande mérito de Amor, que surpreende por trazer uma visão completamente diferente da temática. Inclusive, não é exagero algum dizer que esse é o filme mais humano e pé no chão sobre a condição mostrada. E também o mais doloroso e reflexivo em função disso. Pelo menos entre os mais contemporâneos.

O lado negativo de Amor é que, por ser tão específico sobre o universo de seus protagonistas, acaba se privando de explorar outras possibilidades. Algumas tentativas de abrir o leque da vida de Anne e Georges são um pouco falhas – ou, então, ineficientes – como a personagem interpretada por Isabelle Huppert, que parece ser apenas uma formalidade no meio de toda a situação, fazendo o previsível papel da filha ocupada e distante que não ajuda os pais tanto quanto deveria. Em termos dramáticos, a personagem não acrescenta muito ao filme e subutiliza o gigantesco talento da atriz. Amor também é um filme lento, pois, junto com os longos planos silenciosos de Haneke, a história se resume apenas ao convívio do casal. Ela se aprofunda e se sensibiliza com o passar dos minutos, mas também deixa a sensação de que tem muitas repetições que poderiam dar lugar a outras abordagens (a exemplo da interação com a filha).

Por fim, o nome do filme é Amor, mas em nenhum momento esse sentimento é necessariamente colocado em palavras ou romantizado como fio condutor da história. Haneke não precisa disso: desde o início, sabemos, por cada pequeno momento mostrado, que o casal é especial, companheiro e que viveu anos felizes. E isso está mais do que visível nas performances dos protagonistas, com destaque para a de Emmanuelle Riva, que, apesar de se beneficiar bastante com o papel mais desafiador (e ela se sai magnificamente bem ao reproduzir as sequelas físicas do derrame de Anne), tem uma sensibilidade e uma capacidade assombrosa de passar grande emoção com uma simples expressão, deitada na cama, com o corpo imóvel. É em função de detalhes como esse que o filme acaba e fica com o espectador… Afinal, Amor transcende a sala de cinema porque não convidou ninguém apenas para ficar no escuro esquecendo o mundo lá fora. Há quem encare o cinema como uma fuga, como uma idealização – e, muitas vezes, também o faço (e isso é legal!). Mas, para mim, o cinema mais gratificante é aquele que dialoga da forma mais fiel possível com a realidade. Assim é Amor.

FILME: 8.5

4

A Negociação

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Direção: Nicholas Jarecki

Roteiro: Nicholas Jarecki

Elenco: Richard Gere, Susan Sarandon, Tim Roth, Brit Marling, Laetitia Costa, Nate Parker, Stuart Margolin, Chris Eigeman, Graydon Carter, Bruce Altman, Larry Pine, Curtis Cook, Felix Solis, Tibor Beldman

Arbitrage, EUA, 2012, Drama, 107 minutos

Sinopse: Às vésperas de vender sua empresa milionária, Robert Miller (Richard Gere), um magnata da bolsa de valores, envolve-se em um acidente automobilístico causando a morte de uma pessoa. Para preservar sua imagem, ele esconde sua responsabilidade no caso. Mas um investigador (Tim Roth) está disposto a descobrir o verdadeiro culpado, sabotando todos os planos de Robert. (Adoro Cinema)

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Não consigo esconder minha desconfiança quando Richard Gere estrela um novo filme. Não é nem tanto pelas escolhas dele, mas sim pelos elogios exagerados de tias e amigas de família que o acham um coroa muito bem conservado e que, por isso, não medem entusiasmos para falar sobre seus filmes. Também não vamos ser injustos e dizer que ele não tem méritos: Gere, ao longo de sua carreira, acertou ao se envolver em projetos muito bem sucedidos, como Uma Linda Mulher, por exemplo. Mas ele nunca foi um grande ator. Nunca impressionou. E é constantemente ofuscado, seja por outros atores com divide as atenções ou por seu próprio ar de galã – um fardo que não é nada fácil carregar. Em A Negociação não é diferente: mesmo sendo o nome definitivo do longa dirigido por Nicholas Jareki, Richard Gere faz apenas o básico como o poderoso empresário que se vê em maus lençóis após sofrer um acidente de carro que matou a sua jovem amante.

Pensem em um filme em que o ocupadíssimo protagonista se encontra com a amante que reclama da falta de tempo para os dois. Ele, então, promete estar presente em um momento importantíssimo da carreira profissional dela. Na sequência, volta e meia o roteiro martela na lembrança do encontro. E não é preciso ser um expert para saber que, claro, o poderoso empresário vai se deparar com um compromisso profissional inadiável, perder o encontro com a amante e magoá-la profundamente. Tal situação acontece logo nos primeiros minutos do longa de Jarecki, o que já dá indícios que o forte de A Negociação não será o roteiro. Quem tem um olhar mais benevolente certamente consegue relevar os pequenos detalhes. Nessas circunstâncias, dá para entrar no clima do filme, pois o resultado não fica muito atrás daqueles dramas lights com pitadas de suspense que são exibidos durante a madrugada na televisão. Só que A Negociação foi para os cinemas (se fosse lançado diretamente em home video, seria mais adequado) e não chega a  valer o preço cada vez mais caro dos ingressos.

Indicado ao Globo de Ouro de melhor ator dramático, o longa de Jarecki começa como uma história corporativa protagonizada por um homem poderoso com segredos pessoais e profissionais, mas, aos poucos, torna-se sobre um crime acobertado. Essa transição deixa o filme mais digerível e dinâmico, mas também não significa que me se torna especial em função  disso. Ao menos o diretor não quer ser mais do que realmente é: ele, que também, escreveu o roteiro, entrega uma trama bastante simples e que em nada chega a ser mais engenhosa ou desnecessariamente complicada. É um básico feijão com arroz – para o bem e para o mal – que traz elementos novelescos já conhecidos do público: o delegado sem qualquer vida pessoal que está obcecado em achar a verdade, provas falsificadas, a lógica de que o dinheiro compra tudo, etc. Por fim, em A Negociação, Richard Gere não pode reclamar de não ter chances. Até mesmo a sua parceira Susan Sarandon (sempre belíssima e nos lembrando que precisa de mais atenção no cinema), surge mal aproveitada. O filme é de Gere. E se o ator ainda está longe de fazer qualquer maravilha, aqui pelo menos ele surge inofensivo, conseguindo carregar a trama sozinho – o que, dentro do que o filme alcança, é até positivo.

FILME: 6.5

3*

Detona Ralph

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Direção: Rich Moore

Roteiro: Rich Moore, Phil Johnston, Jim Reardon e Jennifer Lee

Com as vozes originais de: John C. Reilly, Sarah Silverman, Jack McBrayer, Jane Lynch, Ed O’Neill, Dennis Haysbert, Alan Tudyk, Mindy Caling, Joe Lo Truglio, Edie McClurg, Jess Harnell, Rachael Harris, Skylar Astin, Adam Carolla

Wreck-it Ralph, EUA, 2012, Animação, 108 minutos

Sinopse: Ralph (John C. Reilly) é o vilão de Conserta Félix Jr., um popular jogo de fliperama que está completando 30 anos. Apesar de cumprir suas tarefas à perfeição, Ralph gostaria de receber uma atenção maior de Felix Jr. (Jack McBrayer) e os demais habitantes do jogo, que nunca o convidam para festas e nem mesmo o tratam bem. Para provar que merece tamanha atenção, ele promete que voltará ao jogo com uma medalha de herói no peito, no intuito de mostrar seu valor. É o início da peregrinação de Ralph por outros jogos, em busca de um meio de obter sua sonhada medalha. (Adoro Cinema)

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Detona Ralph está destinado a ser conhecido como o Toy Story dos video games. Em tudo que tange essa comparação, nada, no entanto, pode ser considerado depreciativo: o filme de Rich Moore também traz outras semelhanças com várias outras animações, mas nada que sequer chegue perto de influenciar o resultado final. Detona Ralph, apesar de várias comparações, é uma das animações mais divertidas exibidas no cinema recententemente. Se o material de divulgação e até mesmo o trailer apontavam para um longa bobo e extremamente comercial – principalmente por reunir incontáveis personagens clássicos de video games – é uma surpresa constatar que esse mais novo trabalho da Disney (sem o selo Pixar) é divertido, envolvente, original e cheio de referências (que tornam a experiência ainda mais interessante para quem as reconhece).

Detona Ralph poderia se apoiar exclusivamente na nostalgia de um público específico, utilizando personagens de jogos como Pac Man e Street Fighter, por exemplo, para se isentar de construir uma boa história. Afinal, os mais saudosos certamente já terão um maior apreço pelo longa só em função dessa homenagem ao mundo dos games. Só que Detona Ralph não é preguiçoso e em muito retoma vários elementos clássicos da Disney para conquistar todos os públicos, começando pelo próprio protagonista: o grandão Ralph (voz de John C. Reilly na versão original), um vilão que não consegue se relacionar com ninguém dentro do seu próprio jogo. Durante o dia, ele presta o seu serviço durante as partidas no fliperama, mas, à noite, quando o local é fechado e os personagens vivem suas próprias vidas (eis aí a referência ao mundo de Toy Story), ele é ignorado por todos justamente por ser o vilão. Ralph, então, resolve provar que também pode ser um herói, invadindo outros jogos com a finalidade de ganhar uma partida e conseguir uma medalha que prove isso.

Com essa premissa, Detona Ralph orquestra várias simbologias que não só são eficientes mas que também mexem com o emocional do espectador: aqui, temos a clássica história da superação protagonizada por um personagem renegado e que deseja provar seu valor. É, em suma, uma animação que trabalha com o conflito dos rótulos e das minorias sem soar piegas, transmitindo boas mensagens para o público infantil, além de entreter os adultos. E essa é uma das características mais fortes de Detona Ralph: dialogar com todos. Mesmo que o protagonista seja do sexo masculino, logo uma garotinha entra na história para acompanhá-lo. Ao longo de quase duas horas, eles vão dos jogos de guerra a universos coloridos e cheio de doces. O resultado, portanto, é uma comunicação muito harmônica com todos os pequenos – meninos e meninas – que vão conseguir se identificar e se divertir com os personagens e com o apuro visual da animação de Rich Moore.

Com um roteiro escrito por quatro pessoas (o que dá um tapa de luva na Pixar, que decepcionou em função da direção e do roteiro compartilhado demais no recente Valente), Detona Ralph é uma admirável surpresa por ter uma trama sólida enquanto poderia facilmente se perder com um roteiro disléxico responsável por apenas atirar referências. Felizmente, não é o que acontece com o filme de Rich Moore, sempre mais preocupado em contar uma jornada com um arco bem definido, passando por momentos emotivos, cômicos e de pura aventura. Propositais ou não, os ecos de Monstros S.A. (o grandão assustador fazendo amizade com uma garotinha), Up – Altas Aventuras (o tão desejado objeto que é substituído por um presente feito à mão), Toy Story e outras referências não incomodam diante da personalidade própria de Detona Ralph.

Enquanto as crianças se divertem com o filme – que tem um ótimo ritmo – os adultos podem ficar de olho nos pequenos detalhes da trama: é um roteiro que não deixa pontas soltas, que frequentemente retoma pequenas informações apresentadas durante a história e que não transforma a vida de qualquer personagem sem um propósito realmente justificável. São por esses e  por tantos outros pequenos presentes de um bom roteiro que Detona Ralph se torna uma das diversões indispensáveis para o início de 2013. Tenho certeza que todos vão embarcar na história, curtir o visual e se divertir bastante. Se uma vez ou outra a animação parece inverter seu ritmo (resultado da troca de cenários e jogos) e deixar a sensação de que não sabe muito bem para onde está indo, logo já volta aos trilhos e acerta novamente. Como é bom ser surpreendido!

FILME: 8.5

4

As Aventuras de Pi

Doubt is useful. It keeps faith a living thing. After all, you cannot know the strength of your faith until it is tested.

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Direção: Ang Lee

Roteiro: David Magee, baseado no romance “Life of Pi”, de Yann Martel

Elenco: Suraj Sharma, Irrfan Khan, Ayush Tandon, Gautam Belur, Adil Hussain, Rafe Spall, Tabu, Gérard Depardieu, Ayan Khan, Mohd Abbas Khaleeli, Vibish Sivakumar, James Saito, Shravanthi Sainath, Jun Naito

Life of Pi, EUA/China, 2012, 127 minutos

Sinopse: Pi Patel (Suraj Sharma) é filho do dono de um zoológico localizado em Pondicherry, na Índia. Após anos cuidando do negócio, a família decide vender o empreendimento devido à retirada do incentivo dado pela prefeitura local. A ideia é se mudar para o Canadá, onde poderiam vender os animais para reiniciar a vida. Entretanto, o cargueiro onde todos viajam acaba naufragando devido a uma terrível tempestade. Pi consegue sobreviver em um bote salva-vidas, mas precisa dividir o pouco espaço disponível com uma zebra, um orangotango, uma hiena e um tigre de bengala chamado Richard Parker. (Adoro Cinema)

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O taiwanês Ang Lee tem uma carreira muito especial. Celebrado mundialmente, já realizou filmes dos mais variados gêneros e nunca chegou a entregar um resultado ruim. Ele já foi do drama de época (Razão e Sensibilidade) ao mundo dos quadrinhos (Hulk), sempre produzindo longas que, mesmo imperfeitos, talvez não pudessem ser realizados por outros diretores. É também o caso de As Aventuras de Pi, seu mais recente longa-metragem que o coloca de volta na temporada de premiações depois de ter vencido o Oscar de melhor direção seis anos atrás por O Segredo de Brokeback Mountain, um longa que considero bastante superestimado. Agora, Ang Lee volta a provar que, apesar dos pesares, só ele poderia ter feito As Aventuras de Pi. Dependendo de quem estivesse atrás das câmeras, o filme poderia descambar para a panfletagem espiritual/filosófica, resumir-se a um mero filme de sobrevivência ou, em um caso mais extremo, tornar-se apenas uma aventura cheia de pirotecnias. Não com Ang Lee, que não chega a realizar uma obra empolgante, mas que, pelo menos, não peca pelos excessos.

O primeiro terço de As Aventuras de Pi não é o que podemos chamar de um exemplo de originalidade, até porque a decisão de contar a história através da narração de um personagem que relembra o passado não chega a trazer muitas utilidades. A introdução, apesar de frequentemente divertida (quem não se divertiu com a origem do nome do protagonista?), é prolongada demais, seja pela história que não dá muitos indícios para onde está indo ou pela expectativa criada logo no início do longa, quando um personagem diz que está prestes a contar um fato tão extraordinário que fará um homem ateu passar a acreditar em Deus. E essa expectativa criada não é necessariamente atendida: ok, a sobrevivência do protagonista sozinho com um tigre em alto mar é realmente impressionante (e é a partir da ótima cena do naufrágio que As Aventuras de Pi começa realmente a funcionar), mas filmes de sobrevivência em situações inusitadas o cinema já fez muitos. No que esse, então, é diferente dos outros? Em um único detalhe: o garoto passou semanas em alto mar com um tigre! Agora, um relato tão revolucionário – em termos cinematográficos – a ponto de mudar as crenças de alguém? Você decide.

Só que Ang Lee não é bobo, claro. Se em muito As Aventuras de Pi não escapa da sensação um pouco repetitiva de filmes de sobrevivência, o mesmo já não pode ser dito das questões que ele levanta. Ainda considero todas as propostas um tanto rasas (várias questões foram apenas jogadas ao ar sem maiores discussões), mas são exatamente elas que fazem a experiência ser mais intrigante: da relação cheia de simbologias entre o jovem Pi (Suraj Sharma) e os animais – especialmente o tigre – aos questionamentos de que até que ponto devemos ser fiéis a apenas uma religião, As Aventuas de Pi se sai bem ao colocar tais abordagens na história que apresenta. Por outro lado, parece frequentemente esquecê-las ou, então, não fortalecê-las em situações que pediam mais subjetividade. Os desprevenidos podem se surpreender, então, com esse caráter mais “complexo” do longa. Afinal, os títulos não dizem muito sobre o que o filme realmente é. O original, “A Vida de Pi” – em uma tradução literal – passa a ideia de que a história contará cada fase da vida do protagonista, do nascimento à morte – o que não é verdade: acompanhamos apenas um recorte. O brasileiro, As Aventuras de Pi, consegue ser pior: Pi não viaja o mundo desbravando continentes ou se metendo em enrascadas. A aventura dele é apenas uma.

O visual é um caso a parte. Já não bastasse a cena do naufrágio – que, em cinco minutos, supera longas inteiros como Poseidon – Ang Lee nos brinda com um filme que nunca deixa de ter um belo apuro estético. A fotografia é impressionante, com imagens que parecem realmente uma pintura. Os efeitos visuais são impecáveis, onde o tigre Richard Parker é o ponto alto: nem parece ser resultado de tecnologias tamanho o realismo. Mais importante ainda: em momento algum As Aventuras de Pi se entrega ao visual e se esquece que está contando uma história. Portanto, o longa pode até ser, na minha percepção, um espetáculo mais visual do que narrativo, mas não dá para deixar de reconhecer a habilidade do diretor em conseguir sustentar boa parte do filme só com um menino e um tigre. As Aventuras de Pi chega a ser levemente decepcionante por levar duas horas e ainda deixar de aprofundar várias de suas propostas, só que pelo menos conquista com a habilidade de mostrar uma história de sobrevivência sem nunca ficar monótono. De novo: imperfeito ou não, é um longa que cujos méritos só poderiam ser alcançados por um diretor contido como Ang Lee.

FILME: 7.5

3*

NA PREMIAÇÃO 2012 DO CINEMA E ARGUMENTO: