Tinha Que Ser Você

Direção: Joel Hopkins
Elenco: Dustin Hoffman, Emma Thomspon, Eileen Atkins, Kathy Baker, Daniel Lapaine, Richars Schiff, James Brolin
Last Chance Harvey, Inglaterra, 2008, Drama Romântico, 92 minutos, Livre
Sinopse: Harvey Shine (Dustin Hoffman) está em Londres por causa do casamento de sua filha. É quando o inesperado acontece e ele conhece Kate Walker (Emma Thompson), uma inglesa que desperta no protagonista sentimentos há muito tempo esquecidos.

É bem apropriado afirmar que Tinha Que Ser Você é somente mais um filme sobre estranhos que se conhecem e acabam se afetuando ao longo dos momentos que compartilham. É difícil alguém se empolgar um longa tão simples como esse, onde cada segundo é de uma grande previsibilidade. O que acontece é que temos dois grandes atores como protagonistas. Dustin Hoffman e Emma Thomspon – ambos vencedores do Oscar – são o que dão para história um charme todo especial. É exclusivamente por causa dele que vamos torcer do início ao fim para que tudo dê certo no final.
Se não fosse pelos dois atores, estariamos diante de um filme corriqueiro, onde praticamente nada seria admirável. Até porque Tinha Que Ser Você, além de óbvio, tem algumas falhas. A primeira dela é a de juntar os protagonistas só depois de meia hora de filme (vale constatar que a duração não chega nem a 90 minutos). Depois, cria histórias que não vão a lugar nenhum (Eileen Atkins, por exemplo, está incrivelmente perdida em cena) e não tem diferencial significativo no seu jeito de contar a história. Nós sabemos o que vai acontecer e como tudo vai terminar, exatamente como constantamos na maioria de filmes desse estilo.
Tinha Que Ser Você, portanto, é simpático e funciona – mas pelos motivos errados. É uma típica situação em que, se tirarmos o principal coringa do longa-metragem – nesse caso Hoffman e Thompson – o castelo inteiro de cartas cai. Não conseguiria se sustentar sozinho. No entanto, com atores tão talentosos e competentes, fica fácil perdoar os defeitos do filme. A verossimilhança do relacionamento dos dois é tão sincera que, no final das contas, o espectador até esquece que a história comandada por Joel Hopkins é simples como qualquer outra da Sessão da Tarde.
FILME: 7.0

Entre Lençóis

Entre Lençóis, de Gustavo Nieto Roa
Com Reynaldo Gianechhini e Paola Oliveira

– Eu adoro as suas mãos, sabia disso?
– É? O que elas tem demais?
– As suas são lindas: o formato dos dedos, a textura, o desenho das unhas.
– Não é tudo igual?
– Não, claro que não! Sabia que dá pra saber como um homem é na cama só de olhar para as mãos dele?
– Você tá de sacanagem!
– Não estou não. Inclusive eu acho que escolhi você pela forma como você pegava o seu copo de whisky ou então como colocava as mãos sobre a mesa.
[Risos e uma música cafona no fundo. Ela começa a fazer cócegas no pescoço dele.]
– Não acredito que a parte do meu corpo que você mais gosta sejam as minhas mãos.
– Eu não disse isso! Eu disse que foi a parte que me chamou a atenção. Você tem um monte de coisas que eu gosto.
– É? Tipo o quê?
[Ele coloca a língua entre os dentes e faz uma cara sensual. Uma música excêntricamente cômica como as de Desperate Housewives começa no fundo.]
– Tipo… suas orelhas.
– Você tá de sacanagem! [de novo! ele fala isso o filme inteiro.]
– Não tô, eu adoro o formato delas! Adoro! Adoro seu nariz, a grossura do seu pescoço. E essa veia aqui que aparece quando você franze a testa.
– Esqueceu do meu cotovelo!
[Ambos dão risadas]
– O que você gosta de você?
– Eu sempre tive orgulho dos meus olhos, da minha boca, dos meus músculos.
– Eu também gosto disso. Mas o que eu posso fazer se essas suas orelhinhas são tão bonitinhas?!
[Ambos dão risadas novamente]
E imaginem 90 minutos de filme com esses tipos de diálogos e outros mais cafonas e clichês ainda. Olha, eu até dava um prêmio de roteiro pra esse filme!
FILME: 5.0
Operação Valquíria

Direção: Bryan Singer
Elenco: Tom Cruise, Bill Nighy, Kenneth Branagh, Tom Wilkinson, Terence Stamp, Carice Von Houter, Thomas Kretschmann
Valkyrie, EUA/Alemanha, 2008, Drama, 115 minutos, 16 anos
Sinopse: 2ª Guerra Mundial. Claus von Stauffenberg (Tom Cruise) é um coronel que retorna à Alemanha gravemente ferido, devido à guerra na África. Ao chegar ele se envolve em uma conspiração para acabar com o governo local, que tem por objetivo matar Adolph Hitler (David Bamber). O objetivo do grupo é pôr em prática a Operação Valquíria, um plano já existente que prevê a implementação de um governo que conduza a Alemanha após a morte de seu líder. Aos poucos o coronel Claus ganha destaque na organização, sendo encarregado para que cometa o assassinato de Hitler.

“Operação Valquíria tem uma história séria e competente, mas não consegue criar nenhum tipo de emoção para envolver o espectador. Isso leva o filme de Bryan Singer para um nível inferior ao do que poderia ter alcançado.”
Logo quando o nome de Batman – O Cavaleiro das Trevas não foi anunciado entre os cinco indicados ao principal prêmio do Oscar, uma onda de críticas começou a ser criada em torno de O Leitor, que, supostamente, teria roubado injustamente a vaga do mascarado. A principal reclamação era que o filme de Stephen Daldry só estava lá porque era um filme sobre a Alemanha nazista e que esse assunto sempre tem grande repercussão entre os votantes. Operação Valquíria veio mostrar que essa máxima de que filmes desse assunto sempre se dão bem não é tão certa assim. Adiado milhões de vezes e com o seu trailer sendo divulgado faz um bom tempo nos cinemas, o longa de Bryan Singer foi um grande fracasso nos Estados Unidos e agradou pouca gente.
Culpa de Tom Cruise é que não é – apesar de ser uma figura que perdeu nos últimos tempos boa parte da credibilidade que tinha, ele de forma alguma é o que leva Operação Valquíria a ser um longa mediano. Culpa de Bryan Singer também não é, já que ele é um excelente diretor e já demonstrou isso em interessantes filmes como Os Suspeitos. A produção escorrega no roteiro, mais precisamente nas emoções; ou melhor, na falta delas. A história até é bem estruturada – o roteiro é enxuto e não dá informações demais – mas não tem como torcer pelos personagens se simplesmente nós conhecemos muito pouco sobre eles. A vida afetuosa do protagonista é nula e o público só enxerga cada figura do filme em ação contra Hitler. Nada de humanização, nada de sentimento. Frio e seco, calculista em cada milímetro.
Por um outro lado, Operação Valquíria caminha de forma competente nos outro setores. O nervosismo da história tem bons momentos, assim como as boas atuações que, podem até não ser dignas de maiores notas, mas se encaixam dentro do clima proposto pela trama. A direção de arte é muito boa também, conferindo um tom sério para o filme. Porém, existe um grande pecado – a trilha de John Ottman é completamente inapropriada, presente em excesso e com composições exageradas. Esse é o único porém de um longa que é muito bom na sua técnica. O que falta mesmo no filme é emoção, uma vontade de querer que o espectador torça pelos personagens. Uma certa emoção pode até surgir nos momentos derradeiros de Operação Valquíria devido ao seu triste desfecho, mas é muito pouco para uma produção que passou quase duas horas sem se importar com humanização.
FILME: 6.5

Pagando Bem, Que Mal Tem?

Direção: Kevin Smith
Elenco: Seth Rogen, Elizabeth Banks, Justin Long, Brandon Routh, Jason Mewes, Anne Wade
Zack and Miri Make a Porno, EUA, 2008, Comédia, 95 minutos, 16 anos
Sinopse: Zack Brown (Seth Rogen) e Miriam Linky (Elizabeth Banks) são amigos há muito tempo, sendo que atualmente dividem um quarto e possuem diversas dívidas. Após terem a água e a luz cortadas, eles resolvem fazer um filme pornô caseiro para conseguir algum dinheiro. Desta forma selecionam alguns amigos para ajudá-los, jurando que o sexo não irá prejudicar a amizade existente. Só que, quando as gravações começam, o negócio se torna algo bem maior do que imaginavam.

“Pagando Bem, Que Mal Tem? prova que humor óbvio e com falhas também pode produzir uma boa diversão.”
Saneamento Básico satirizava os filmes amadores. Pagando Bem, Que Mal Tem? satiriza os filmes amadores também, só que os pornôs. Mas se o filme de Jorge Furtado tinha uma intelegência humorística admirável, Kevin Smith realiza um trabalho previsível em seu mais novo filme. Entretanto, isso não diminui em nada a boa comédia escrita no roteiro e os momentos divertidos que ela pode proporcionar. Protagonizado por um casal com excelente química – Elizabeth Banks (Três Vezes Amor) e Seth Rogen (Ligeiramente Grávidos) – Pagando Bem, Que Mal Tem? consegue fazer piada do mundo do sexo sem nunca apostar no extravagante, permanecendo sempre no nível do aceitável.
O porém da história é que, em determinado momento, o sentimentalismo entra em cena e quebra o clima humorístico que estava sendo desenvolvido antes. Simplesmente não combina com a história, mesmo que os dois protagonistas sejam perfeitos um para o outro. A partir desse fato, a qualidade vai caindo aos poucos e a graça do filme vai se esvaindo a cada minuto. Porém, é válido constatar que o diretor Kevin Smith, de certa forma, não deixa tudo ir por água abaixo. Pagando Bem, Que Mal Tem? tem sempre seus bons momentos até os créditos finais e a emoção dos momentos finais não chega a produzir muitos danos para o produto final.
O resultado é um longa divertido – que possivelmente só vai agradar aqueles que conseguem se divertir com filmes cômicos focados em piadas sexuais – mas que possui sim as suas falhas. O que vale constatar é que estamos naquela típica situação em que conseguimos nos divertir mesmo com um produto irregular. Detestável para alguns, divertido para outros, Pagando Bem, Que Mal Tem? é um entretenimento aceitável e que ficará melhor ainda se uma turma for reunida para dar risadas na sala de cinema. É só se livrar de preconceitos e se divertir com o óbvio. Nem que seja para sair da sala falando que é um bom guilty pleasure.
FILME: 6.5

Frost/Nixon

Direção: Ron Howard
Elenco: Michael Sheen, Frank Langella, Kevin Bacon, Rebecca Hall, Oliver Platt, Sam Rockwell, Matthew Macfayden
EUA, 2008, Drama, 116 minutos, 12 anos.
Sinopse: Richard Nixon (Frank Langella) permaneceu em silêncio por três anos após renunciar à presidência dos Estados Unidos. Em 1977 ele concordou em dar uma entrevista, visando esclarecer pontos obscuros do período em que esteve no governo e usá-la para uma possível volta à política. O entrevistador do programa foi o jovem David Frost (Michael Sheen), o que fazia com que Nixon acreditasse que seria fácil dobrá-lo. Entretanto o que ocorreu foi uma grande batalha entre os dois, que resultou em um confronto assistido por 45 milhões de pessoas ao longo de quatro noites.

“Ron Howard dá mais uma prova que pode fugir de seu estilo óbvio para realizar longas interessantes como esse Frost/Nixon.”
Não é apenas a tendência de reconhecer o cinema independente que vem crescendo no Oscar durante os últimos anos. Também existe um outro tipo de filme que vem ganhando muito destaque: o político. Frost/Nixon é mais um exemplar desse gênero. Dirigido por um irregular Ron Howard, o filme consegue trabalhar um tema aparentemente complicado (o escândalo de Watergate, que poderia facilmente levar toda a produção para o fundo do poço) sem ser tedioso, alcançando níveis muito interessantes de tensão no seu roteiro calcado em diálogos.
Frost/Nixon é um filme sério e que demonstra competência em todos os seus setores. Roteiro, elenco e direção caminham juntos na trilha do acerto e alcançam um resultado respeitável. Mas não necessariamente espetacular, ao menos para mim. Foi o que aconteceu comigo ano passado com Sangue Negro – é uma obra que respeito bastante, mas que não chega a me empolgar tanto. Não dá pra culpar ninguém, já que toda a equipe de Frost/Nixon é exemplar e o filme mereceu várias das indicações ao prêmio da Academia.
Contando com dois excelentes atores no comando, Michael Sheen (subestimado desde os tempos de A Rainha) e Frank Langella (hipnotizante em cada aparição), o elenco também tem nomes como Rebecca Hall, Kevin Bacon, Oliver Platt e Sam Rockwell ajudando no ótimo resultado do conjunto. Parte desse mérito vai para o próprio Ron Howard, que decidiu chamar os mesmos rostos do trabalho original para protagonizarem o filme.
A montagem é muito boa e consegue momentos de pura competência onde, junto com a maravilhosa trilha de Hans Zimmer, dá o tom correto para a história que estamos assistindo. No final das contas, Frost/Nixon acabou sendo o azarão do Oscar – teve indicações muito importantes e não levou nenhuma. Ainda assim, é um trabalho que merece ser reconhecido, principalmente por aqueles que estão envolvidos no mundo do jornalismo. Não vai agradar nem empolgar a todos, mas sem dúvida alguma vale uma conferida. Nem que seja para ver que Ron Howard, de vez em quando, tem personalidade sim.
FILME: 8.0
