Brüno

Direção: Larry Charles
Elenco: Sacha Baron Cohen, Gustaf Hammarsten, Clifford Bañagale
Brüno – Delicious Journeys Through America for the Purpose of Making Heterosexual Males Visibly Uncomfortable in the Presence of a Gay Foreigner in a Mesh T-shirt, EUA, 2009, Comédia, 90 minutos, 18 anos
Sinopse: Brüno (Sacha Baron Cohen), um fashionista gay, é o apresentador do programa noturno de moda de maior audiência em todos os países de fala germânica… excetuando-se a Alemanha. A missão de Bruno? Tornar-se a maior celebridade austríaca desde Hitler. A sua estratégia? Cruzar o planeta na esperança de encontrar a fama e o amor.

“Falho como comédia e como cinema, Brüno só tem certa graça por causa do sempre ótimo Sacha Baron Cohen.”
Borat – O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à América foi um dos filmes mais superestimados de seu ano – conseguindo, inclusive, uma injusta indicação ao Oscar de melhor roteiro adaptado. Mas se o resultado era celebrado em excesso e não muito interessante, tinha ao menos um coringa na manga: Sacha Baron Cohen. Brüno repete toda a estrutura de Borat e consegue um produto final igualmente irregular ao do longa anterior de Larry Charles.
Na realidade, Brüno perde a chance de produzir risadas inteligentes sobre um assunto que poderia facilmente render muito. Toda a veia cômica está centrada mais no lado sexual do que nas sátiras ao mundo homossexual. Isso, ao meu ver, é um erro – pois o longa sugeria justamente o contrário: apontava um conjunto de piadas bem humoradas sobre o mundo gay. No entanto, resulta grosseiro, lembrando em diversos momentos o humor dos terríveis Jackass. Quem gosta desse estilo vai conseguir entrar no clima e se divertir.
Outro problema de Brüno é a sua estrutura. É um filme que não parece ser um filme. São cenas que não têm continuidade, onde em cada tomada temos uma piada nova ou uma situação nova, que surgiu do nada só para causar risadas, sem o intuito de conectar alguma coisa ou dar sentido para a história. Parece um programa de humor com vários quadros diferentes. Portanto, a falha não é só no tom humorístico, mas também na narrativa cinematográfica.
O que continua intacto desde Borat é a presença de Sacha Baron Cohen, que continua a demonstrar grande vitalidade na hora de transitar entre personagens. Impressionante a diferença entre o repórter do Cazaquisão e o fashionista gay. São tons diferentes e ele está completamente imerso nos papéis, nunca dando sinais de trejeitos em comum nas figuras que representa. É por ele que Brüno, de certa forma, tem certa graça. Mas o conselho para ele é esse: largar os projetos com personagens de sua criação e investir em outros longas. Ou será que só eu acho que ele tem uma aparição muito notável em filmes como Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet?
FILME: 5.5

Inimigos Públicos

Direção: Michael Mann
Elenco: Johnny Depp, Christian Bale, Marion Cotillard, Billy Crudup, Lili Taylor, Carey Mulligan, Giovanni Ribisi, Emilie de Ravin
Public Enemies, EUA, 2009, Policial, 135 minutos, 16 anos
Sinopse: Ninguém podia deter Dillinger (Johnnt Depp) e sua gangue. Nenhuma prisão o segurava. Seu charme e suas audaciosas fugas ganhavam a afeição de quase todos – desde sua namorada Billie Frechette (Marion Cotillard) até americanos que consideravam que Dillinger estava tirando dos bancos o dinheiro que os bancos haviam tirado indevidamente deles. Mas enquanto as aventuras da gangue de Dillinger impressionavam muita gente, J. Edgar Hoover planejou explorar a captura do fora-da-lei como forma de elevar seu Bureau de Investigação a uma força policial nacional que mais tarde seria conhecida como FBI. Para isso, ele tornou Dillinger o primeiro Inimigo Público Número 1 dos EUA e colocou o agente Melvin Purvis (Christian Bale) em seu encalço.

Infelizmente, ao fim da sessão, dá pra chegar a conclusão de que Inimigos Públicos é apenas mais um desses filmes sobre ladrões de bancos. Poderia ter sido muito mais do que isso, uma vez que temos um grupo de pessoas talentosas envolvidas no projeto. Mas não foi além do convencional. De qualquer forma, é um bom filme de Michael Mann, que faz tudo certinho (às vezes, até demais) e tem um resultado positivo, sem maiores falhas. Ponto. Não vamos encontrar coisas espetaculares em cena ou aspectos dignos de premiação.
Pra falar bem a verdade, Inimigos Públicos me atraía mais pelo elenco do que pelo diretor ou pela história, já que não me interesso muito por esses enredos de ladrões de banco. O que dá pra ser constatado na narrativa do filme é que ela é previsível. O roteiro se repete o tempo inteiro: Dillinger (o protagonista vivido por Johnny Depp) assalta, a polícia está sempre atrasada; Dillinger passa alguns momentos com Billie (Marion Cotillard), Dillinger é preso; Dillinger acaba fugindo, a polícia está sempre a um triz de ter o assaltante em mãos… E, daqui a alguns minutos, o ciclo começava novamente.
De interessante mesmo temos a boa direção do Michael Mann (que tenta reproduzir o estilo Paul Greengrass de filmar ação, o que já virou moda hoje em dia) e a presença dos atores, em especial a francesa Marion Cotillard – apresentando uma dicção perfeita em inglês – que conseguiu criar uma boa química com Johnny Depp (em boa aparição, mas que fica devendo um pouquinho por sua representação sem maiores nuances).
Inimigos Públicos é um filme policial que, sem dúvida, funciona. Tem tudo no seu lugar. Talvez seja por isso que não cative muito. O conjunto final é muito correto, sem audácia – e esperava-se justamente o oposto, principalmente do diretor Michael Mann, que tem até um estilo interessante de filmar as suas histórias. O longa-metragem, portanto, tem suas virtudes. Mas, assim como a polícia no enredo da película, está sempre a um passo de alcançar aquilo que vai fazer a diferença.
FILME: 7.0

17 Outra Vez
Everyone’s happier with me out of the picture, Ned. It’s time to move on…

Direção: Burr Steers
Elenco: Zac Efron, Leslie Mann, Matthew Perry, Thomas Lennon, Michelle Trachtenberg, Allison Miller, Melora Hardin
17 Again, EUA, 2009, Comédia, Livre, 105 minutos
Sinopse: Mike (Zac Efron) é um dos garotos mais populares da escola, atleta a caminho de uma excelente universidade. Mas, resolve jogar tudo para o ar e se casar com sua namorada de colégio. Depois de 20 anos, quando sua vida não é exatamente aquilo que planejou, ele tem um encontro com um misterioso funcionário da escola e, de uma hora pra outra, volta a ter 17 anos. Assim começa uma série de trapalhadas e problemas com a esposa e os filhos – que agora estudam com ele.

Não sei quanto a vocês, mas toda vez que eu enxergo o rosto de Zac Efron me vem à cabeça aquelas terríveis músicas de High School Musical e a imagem de várias garotas babando ou gritando pelo ator. O musical da Disney foi uma maldição e uma benção para Efron. Enquanto conseguiu dinheiro e sucesso, também ficou marcado com o seu tipinho teen que causa repulsa em várias pessoas. Se em Hairspray – Em Busca da Fama ele se despiu do seu típico visual e até que teve um bom resultado, em 17 Outra Vez ele mostra que não precisa mudar a sua conhecida aparência para mostrar que pode ir além de meras cantorias e coreografias dirigidas ao público adolescente.
Claro que Zac Efron não causa surpresa e muito menos apresenta uma interpretação marcante. O que ele faz é usar toda a sua simpatia e desenvoltura para tentar fugir da imagem que ele constriu nos musicais da Disney. Portanto, Efron está muito à vontade como protagonista e, sem dúvida alguma, é um bom astro para filmes mais descontraídos – ainda que ele, possivelmente, tenha potencial para fazer produções melhores e diferentes. Inclusive, ele consegue ser mais efetivo que o Matthew Perry (a versão adulta do jovem na história). O ator de Friends tem poucas cenas, é verdade, mas não causa empatia alguma em suas chances.
A trama, mais batida impossível, já foi mostrada no cinema em milhares de vezes. 17 Outra Vez é mais um exemplar do gênero que não traz diferencial algum. Porém, é um longa que é efetivo, não subestima a inteligência do espectador e em momento algum se utiliza de artifícios grotescos para produzir humor. Não se importa com sua previsibilidade e tenta torná-la mais aceitável. Isso, de certa forma, é notável para um filme com esse tipo de história, já que normalmente essas produções costumam testar a paciência de quem está assistindo tanta bobagem em cena. 17 Outra Vez tem sim os seus clichês, mas são encenados de uma maneira que eles não soam prejudiciais ao resultado final.
Ninguém vai acabar de ver a película de Burr Steers (do irregular A Estranha Família de Igby) achando que a produção é hilária, inteligente ou surpreendente. Mas, a boa notícia é que também ninguém vai pensar que é uma desgraça ou um insulto ao cinema. 17 Outra Vez fica sim num meio termo – justamente, como já foi mencionado, pelo fato de tratar uma história desgastada de maneira um tanto comum – mas acho que vai agradar quem estiver disposto a assistir mais do mesmo. Afinal, se você for assistir o filme, não é porque está esperando algo original ou inovador, nao é mesmo?
FILME: 6.5

Divã

Direção: José Alvarenga Jr.
Elenco: Lilia Cabral, José Mayer, Alexandra Richter, Reynaldo Gianecchini, Cauã Reymond, Eduardo Lago
Brasil, 2008, Comédia Dramática, 98 minutos, 12 anos
Sinopse: Mercedes (Lília Cabral) é uma mulher casada e com dois filhos que, aos 40 anos, tem a vida estabilizada. Um dia ela resolve, por curiosidade, procurar um analista. Aos poucos ela descobre facetas que desconhecia, tendo que contar com o marido Gustavo (José Mayer) e a amiga Mônica (Alexandra Richter) para ajudá-la.

“Ajudado por boas reflexões e uma ótima Lilia Cabral, Divã funciona em seu conjunto, ainda que seja um filme bem simples”
Não vou esconder a minha falta de interesse pelos textos da minha conterrânea Martha Medeiros. Sempre considerei seus trabalhos meio repetitivos e seu estilo de literatura não muito atraentes – exatamente porque a autora trata sempre, incansavelmente, do mesmo assunto: o mundo das mulheres. Seus textos parecem nunca variar, sem evolução. Felizmente, o diretor José Alvarenga Jr. absorveu o que existe de interessante nas reflexões de Medeiros e fez esse Divã, que pode muito bem ser considerado um bom resumo da obra da gaúcha.
Antes de se tornar cinema, a história da protagonista Mercedes (Lilia Cabral) já havia sido encenada nos teatros, com a mesma Lilia Cabral comandando o elenco. Certamente, Divã é um filme calcado em interpretações – mais especificamente na de sua protagonista – e nas discussões sentimentais que propõe. Porque, de resto, é um longa-metragem que não tem atrativo algum, nem uma direção de arte mais significativa ou uma trilha mais marcante, por exemplo.
É muito positivo constatar que temos aqui um produto que soube aproveitar de boa maneira o que tinha em mãos. Principalmente no que se refere ao roteiro e ao desempenho de Lilia Cabral. Lilia, que é uma excelente atriz e que já tinha experiência com o texto por causa da peça, encarna a protagonista com notável naturalidade, empregando verossimilhança para a personalidade da personagem e, acima de tudo, conquista a simpatia do espectador com muita facilidade por causa de sua vitalidade cômica e dramática.
O roteiro é outro aspecto com bom balanceamento, especialmente no que se refere à distribuição de comédia e drama durante a película. Nunca nenhum gênero se sobrepõe ao outro e por isso temos uma história agradável, que em momento algum fica reflexiva ou superficial demais. Mas, quando se encaminha para os momentos finais, começa uma repetição de fatos e a narrativa vai se desgastanto, criando até mesmo algumas passagens dispensáveis, como a storyline envolvendo o personagem de Cauã Reymond.
Tal falta de carga de qualidade nos últimos momentos prejudica a percepção que Divã vai deixar, porque o filme acaba num momento meio baixo, ao contrário da positividade que exerceu durante boa parte da produção. O trabalho de José Alvarenga Jr. é simpático – ainda que carente de um formato mais cinematográfico e profundo – e vai agradar, justamente pela sua simplicidade e humildade.
FILME: 7.5

Harry Potter e o Enigma do Príncipe

Direção: David Yates
Elenco: Daniel Radcliffe, Rupert Grint, Emma Watson, Michael Gambon, Jim Broadbent, Alan Rickman, Tom Felton, Maggie Smith, Helena Bonham Carter, Robbie Coltrane, Timothy Spall, Julie Walters
Harry Potter and the Half-Blood Prince, EUA/Inglaterra, 2009, Aventura, 153 minutos, 12 anos
Sinopse: Lorde Voldemort (Ralph Fiennes) é uma ameaça real, tanto para o mundo dos bruxos quanto o dos trouxas. Harry Potter (Daniel Radcliffe) suspeita que o perigo esteja dentro da Escola de Artes e Bruxaria de Hogwarts, mas Alvo Dumbledore (Michael Gambon) está mais preocupado em prepará-lo para o confronto final com o Lorde das Trevas. Dumbledore convida seu colega Horácio Slughorn (Jim Broadbent) para ser o novo professor de Poções, já que Severo Snape (Alan Rickman) enfim alcançou o sonho de ministrar as aulas de Defesa Contra as Artes das Trevas. Paralelamente Harry começa a ter um interesse cada vez maior por Gina Weasley (Bonnie Wright), irmã de seu melhor amigo Rony (Rupert Grint), que também é alvo de interesse de Dino Thomas (Alfie Enoch).

Lembro até hoje quando entrei em contato pela primeira vez com Harry Potter. Ganhei o livro A Pedra Filosofal da minha avó. Deixei o livro mofando durante meses na estante por falta de interesse, até o dia em que eu resolvi dar uma chance a ele. Amor à primeira vista: me envolvi intensamente com a história e fiquei até os 16 anos de idade lendo os livros da série conforme eles eram escritos. Também tive o prazer de poder acompanhar a saga do bruxo nas telas de cinema desde o princípio – já que também lembro da minha sessão de A Pedra Filosofal. Se antes eu só me importava com a fidelidade na obra de cinema, com o tempo aprendi a entender que, para o filme funcionar de verdade, precisa ir além disso – e, muitas vezes, precisa até mesmo deixar essa questão em segundo plano.
Evoluindo na sua qualidade até o quarto volume da série, a saga de Harry Potter deu uma ligeira caída no quinto volume e mais um pouco nesse sexto – que, apesar de bem-sucedido em milhares de aspectos, deve demais em um fator fundamental: o roteiro. O Enigma do Príncipe já causa impacto estético desde a sua primeira cena. Eu sei que é extremamente chato ficar falando que a série ficou mais “sombria” e “adulta”, mas é impossível falar desse longa sem mencionar esses adjetivos. Pesado e com um tom que difere em grande parte dos outros, a película de David Yates é a mais cinematográfica de todas, especialmente porque parece um produto dirigido mais para os cinéfilos do que para os fãs da série.
O Enigma do Príncipe impressiona em sua técnica: a ótima trilha de Nicholas Hooper – que já havia demonstrado um trabalho promissor em A Ordem da Fênix – abandona os tradicionais arranjos das melodias de John Williams (vale lembrar que ignoro completamente o péssimo trabalho de Patrick Doyle em O Cálice de Fogo) para criar um estilo muito autoral, digno da grandiosidade técnica que o filme demonstra. A fotografia, entretanto, é o que possivelmente mais chama a atenção. São sempre tons escuros e melancólios, tranformando aquele mundo antes mágico e colorido de A Pedra Filosofal em algo tétrico, difícil. Efeitos, então, nem se falam – o cinema se supera cada vez mais nesse quesito e aqui não é diferente. A direção de arte é outro setor impecável.
Os três atores principais estão em um momento gratificante, onde parecem mais à vontade do que nunca, seguros de suas habilidades para construir seus personagens. Mas não são só eles, já que o elenco de suporte dessa vez não está tão mal aproveitado, com ótimos atores como Michael Gambon, Jim Broadbent e Alan Rickman em aparições dignas. E até mesmo aqueles que normalmente mal aparecem, como o jovem Tom Felton e seu misterioso Draco Malfoy. Outros astros como Helena Bonham Carter, Maggie Smith, Julie Walters continuam com suas mínimas aparições que não têm maiores chances.
Mas se Harry Potter e o Enigma do Príncipe é um filme tão perfeito tecnicamente, o que faz com que ele simplesmente não cative como outros volumes da saga? Bom, o roteiro é o único porém do resultado. O sexto livro de J.K. Rowling é, sem dúvida alguma, um dos mais divertidos em todos os aspectos. Infelizmente, o roteiro de Steve Kloves selecionou muito pouco do que existia na obra literária. Ficou resumido demais. Mas se A Ordem da Fênix era resumido demais e soava um filme ligeiro, esse consegue o feito de ser resumido demais e longo demais. É visível que a história não sustenta a duração de aproximadamente 150 minutos e o roteiro termina por ser um exercício sem inspiração de uma excelente história que poderia render bem mais.
Contrariando a unânimidade que permeia esse filme, achei o resultado muito positivo e muito negativo ao mesmo tempo. Temos aqui uma imensa evolução técnica, que aproxima o filme do extremo realismo e do palpável, conseguindo o resultado de ser cinema de verdadeira qualidade. Mas também temos um roteiro deficiente, que não traz a empolgação necessária tão necessária para a série e que é carente de ação ou cenas memoráveis. Podemos dizer, então, que O Enigma do Príncipe é sim o volume mais competente da história do bruxo quando nos referimos ao lado técnico. Pena que o resultado de sucesso tenha ficado na metade do caminho com o roteiro que não ajuda muito.
FILME: 7.5
