Cinema e Argumento

Intrigas de Estado

Direção: Kevin MacDonald

Elenco: Russel Crowe, Ben Affleck, Rachel McAdams, Helen Mirren, Jeff Daniels, Robin Wright Penn, Jason Bateman

State of Play, EUA, 2009, Drama, 117 minutos, 14 anos

Sinopse: O ambicioso congressista americano Stephen Collins (Ben Affleck) é o futuro de seu partido – até que sua assistente morre tragicamente, e segredos começam a ser elucidados. Cal McAffrey (Russell Crowe), repórter veterano de Washington D.C., tem uma antiga amizade com Collins, mas, seguindo ordens de sua editora, Cameron Lynne (Helen Mirren), precisa investigar a história. Na medida em que ele e sua parceira novata Della Frye (Rachel McAdams) tentam desvendar a identidade do assassino, se deparam com uma conspiração envolvendo algumas das mais promissoras figuras políticas e corporativas dos Estados Unidos.

Com bom resultado, mas com estrutura previsível, Intrigas de Estado vale como um entretenimento passageiro.”

Não se engane, Intrigas de Estado não é o que parece. A sinopse pode sugerir um filme complexo e difícil, mas não é. O roteiro é bem claro, objetivo – característica já marcante do diretor Kevin MacDonald (do ótimo O Último Rei da Escócia). No entanto, o longa se dedica demais ao fácil entendimento e o conjunto geral acaba soando muito correto e, pior ainda, formulaico. Fica aquela sensação de filme noturno de televisão sobre determinado jornalista fazendo papel de policial para desvendar um caso de assassinato.

Uma jogada esperta do roteiro foi esconder a figura de Ben Affleck (que é um péssimo ator e que sempre corre o risco de colocar tudo a perder) e centrar a trama na figura de Russell Crowe. Ainda temos nomes talentosos como a jovem Rachel McAdams e a vencedora do Oscar Helen Mirren. Eles estão longe de apresentar algo louvável no longa, porém, são o que sustentam o filme – junto com o bom roteiro.

Num balanço, Intrigas de Estado tem bom diretor, elenco e roteiro. Mas, não cativa. É simplista demais, pouco ousado ou sequer original. Esse é o grande mal dos filmes que carregam bons nomes na equipe. O espectador acaba aguardando demais. E, na maioria das vezes, o resultado não corresponde. É o caso aqui. Se não tivessemos esses nomes no filme, talvez ele pudesse ser mais interessante.

Apesar de tudo isso, é um bom filme. A película de MacDonald prende a atenção e, como já citado, é objetiva, não enrola. São quase duas horas de bom entretenimento. Nada mais do que isso. Intrigas de Estado tem saldo positivo, só não é aquilo que poderia ter sido. Mas, isso não quer dizer que não mereça uma conferida.

FILME: 7.5

3

Duplicidade

Direção: Tony Gilroy

Elenco: Clive Owen, Julia Roberts, Paul Giamatti, Tom Wilkinson

Duplicity, EUA, 2009, Comédia, 120 minutos

Sinopse: CIA e ele do MI6, que deixaram seus antigos empregos para lucrar com a guerra fria existente entre duas corporações rivais. O objetivo de ambos é encontrar a fórmula de um produto, que renderá uma fortuna a quem patenteá-lo antes. Para tanto eles buscam sempre enganar o outro, usando todos os truques possíveis.

Uma pena que Julia Roberts esteja envolvida nesse projeto. Ela vende o filme de forma errada. Quem pensa que Duplicidade vai trazer romance e comédia no estilo dos filmes que deram sucesso para Julia, vai se decepcionar. O longa de Tony Gilroy (um diretor difícil de engolir) não é simples: tem narrativa fragmentada, trama levemente complexa e inúmeras complicações para os personagens na história. Gilroy segue o mesmo estilo de Conduta de Risco e obtem um resultado bem parecido, só que dessa vez com um tom divertido – e até mesmo irônico.

O problema é que Duplicidade demora a engrenar. O enredo só começa a ter momentos de maior significância depois da metade. Até ali, o vai-e-vem narrativo incomoda e os personagens não trazem empatia. Porém, de uma hora pra outra, as coisas melhoram e o espectador pode perceber um roteiro mais dinâmico. O diretor e roteirista Gilroy parece ter se especializado nesse tipo de trama, onde acompanha-se os problemas internos e as falcatruas dentro de grandes empresas. Não é algo que necessariamente me atraia, mas aqui até que tem certo efeito.

Julia, mal fotografada e com a idade já marcando o seu rosto (meu momento Rubens Ewald Filho esse, não?!), Clive Owen, Paul Giamatti e Tom Wilkinson estão regulares. Falta, porém, um maior aprofundamento das figuras, que nunca são bem exploradas. Ora, fica difícil se envolver com personagens que não possuem maiores dimensões. Mais difícil ainda é torcer por eles. Portanto, Duplicidade peca ao não trazer um maior embasamento para as figuras que trabalham em cena. Centrou-se demais na narrativa truncada do que no desenvolvimento dos personagens.

O que se conclui, portanto, é que o filme é dirigido para o público que já conhece Tony Gilroy. Principalmente para aqueles que apreciam o estilo dele. Duplicidade não é nenhuma pérola e muito menos justifica todo o buzz envolvendo o diretor (que, por alguma razão, foi ovacionado por seu trabalho de estreia), mas diverte e tem bons momentos. Especialmente quando funciona, já que consegue alcançar passagens de puro entretenimento.

FILME: 7.5

3

Orações Para Bobby

Direção: Russell Mulcahy

Elenco: Sigourney Weaver, Ryan Kelley, Henry Czerny, Dan Butler, Austin Nichols, Carly Schroeder, Shannon Eagen

Prayers for Bobby, EUA, 2009, Drama, 88 minutos, 14 anos

Sinopse: Mary (Sigourney Weaver) é uma religiosa que segue à risca todas as palavras da bíblia. Quando seu filho Bobby (Ryan Kelley) revela ser gay, ela imediatamente leva o filho para terapias e cultos religiosos com o intuito de “curá-lo”. No entanto, Bobby não suporta a pressão e se atira de uma ponte, encerrando sua vida aos 20 anos de idade. Depois desse fato, Mary descobre um diário do garoto e passa a conhecer melhor o mundo dos homossexuais, tornando-se, logo, uma ativista em prol dos diretos gays. Baseado em uma história real.

“Eu não vou ter um filho gay”. Essa é a última frase que Mary (Sigourney Weaver) disse para o seu filho, Bobby (Ryan Kelley). Ele pulou de uma ponte e acabou com sua jovem vida de 20 anos de idade. A mãe do garoto acredita que gays são pessoas que fazem sexo em banheiros públicos, depravados suscetíveis a qualquer tentação carnal e que são assim porque escolheram. Esse é o pensamento dela e também o de muitas pessoas. O cinema, ao meu ver, nunca conseguiu realizar um filme sobre esse tema com a devida sensibilidade. E nisso incluo, também, o cultuado O Segredo de Brokeback Mountain (pra mim, mais uma história de atração do que de amor) e o recente Milk – A Voz da Igualdade. Orações Para Bobby vem mudar esse cenário.

Pena que o filme de Russell Mulcahy tenha sido feito para TV – ou seja, destinado a não ter grande repercussão. É um trabalho que, certamente, merecia um reconhecimento mais amplo. Encontramos nele uma abordagem diferente sobre o mundo homossexual: trata puramente sobre as emoções, deixando de lado o tão explorado lado sexual. Aí que está o maior mérito de Orações Para Bobby; ele traz jornadas sentimentais muito interessantes. Tanto do garoto quanto da sua mãe. A primeira metade do filme é sobre como o garoto procura se aceitar e se inserir na família preconceituosa, sofrendo com discriminações e com o fato de ser “diferente”. Na segunda metade, acompanhamos o arrependimento da mãe, que começa a descobrir toda a sensibilidade que seu filho tinha ou como os gays são seres humanos providos de sentimentos como qualquer pessoa.

Todas as histórias, além de terem um cunho emocional fantástico, são representadas com grande excelência pelos atores. O jovem Ryan Kelley está excelente como Bobby e cumpre com precisão o papel do personagem. Mas, sem dúvida alguma, o show fica com Sigourney Weaver. Ela, que apareceu pouco nos últimos anos, tem aqui uma grande interpretação. É aquele tipo de personagem que vai evoluindo em cena, passando por uma grande transformação. Primeiro, a mãe de uma família perfeita. Depois, religiosa fervorosa tentando curar o filho. Por fim, mulher arrependida e tentando se redimir de sua ignorância perante a homossexualidade do filho. É uma atuação sublime, que vai desde minúcias até momentos de choros emocionantes.

Orações Para Bobby tem seus defeitos. A direção, por exemplo, é simplista, sem ousadias – com alguns maneirismos estéticos estranhos, principalmente em alguns enquadramentos. Com certeza, se esse aspecto fosse mais contundente e menos convencional, o longa teria ainda mais impacto. Todavia, o que se conclui é que os defeitos ficam pequenos perto de uma história tão certeira em suas emoções. Um filme essencial para quem é ou conhece alguém homossexual. Mas, é dirigido mais especificamente para as mães, especialmente aquelas que não aceitam seus filhos como eles são. Que elas tenham, ao final do filme, o mesmo pensamento de Mary: “Eu sei porque Deus não ‘curou’ o meu filho. Ele não o curou porque não havia nada de errado para ser curado”.

FILME: 9.0

45

Brüno

Direção: Larry Charles

Elenco: Sacha Baron Cohen, Gustaf Hammarsten, Clifford Bañagale

Brüno – Delicious Journeys Through America for the Purpose of Making Heterosexual Males Visibly Uncomfortable in the Presence of a Gay Foreigner in a Mesh T-shirt, EUA, 2009, Comédia, 90 minutos, 18 anos

Sinopse: Brüno (Sacha Baron Cohen), um fashionista gay, é o apresentador do programa noturno de moda de maior audiência em todos os países de fala germânica… excetuando-se a Alemanha. A missão de Bruno? Tornar-se a maior celebridade austríaca desde Hitler. A sua estratégia? Cruzar o planeta na esperança de encontrar a fama e o amor.

Falho como comédia e como cinema, Brüno só tem certa graça por causa do sempre ótimo Sacha Baron Cohen.

Borat – O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à América foi um dos filmes mais superestimados de seu ano – conseguindo, inclusive, uma injusta indicação ao Oscar de melhor roteiro adaptado. Mas se o resultado era celebrado em excesso e não muito interessante, tinha ao menos um coringa na manga: Sacha Baron Cohen. Brüno repete toda a estrutura de Borat e consegue um produto final igualmente irregular ao do longa anterior de Larry Charles.

Na realidade, Brüno perde a chance de produzir risadas inteligentes sobre um assunto que poderia facilmente render muito. Toda a veia cômica está centrada mais no lado sexual do que nas sátiras ao mundo homossexual. Isso, ao meu ver, é um erro – pois o longa sugeria justamente o contrário: apontava um conjunto de piadas bem humoradas sobre o mundo gay. No entanto, resulta grosseiro, lembrando em diversos momentos o humor dos terríveis Jackass. Quem gosta desse estilo vai conseguir entrar no clima e se divertir.

Outro problema de Brüno é a sua estrutura. É um filme que não parece ser um filme. São cenas que não têm continuidade, onde em cada tomada temos uma piada nova ou uma situação nova, que surgiu do nada só para causar risadas, sem o intuito de conectar alguma coisa ou dar sentido para a história. Parece um programa de humor com vários quadros diferentes. Portanto, a falha não é só no tom humorístico, mas também na narrativa cinematográfica.

O que continua intacto desde Borat é a presença de Sacha Baron Cohen, que continua a demonstrar grande vitalidade na hora de transitar entre personagens. Impressionante a diferença entre o repórter do Cazaquisão e o fashionista gay. São tons diferentes e ele está completamente imerso nos papéis, nunca dando sinais de trejeitos em comum nas figuras que representa. É por ele que Brüno, de certa forma, tem certa graça. Mas o conselho para ele é esse: largar os projetos com personagens de sua criação e investir em outros longas. Ou será que só eu acho que ele tem uma aparição muito notável em filmes como Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet?

FILME: 5.5

2

Inimigos Públicos

Direção: Michael Mann

Elenco: Johnny Depp, Christian Bale, Marion Cotillard, Billy Crudup, Lili Taylor, Carey Mulligan, Giovanni Ribisi, Emilie de Ravin

Public Enemies, EUA, 2009, Policial, 135 minutos, 16 anos

Sinopse: Ninguém podia deter Dillinger (Johnnt Depp) e sua gangue. Nenhuma prisão o segurava. Seu charme e suas audaciosas fugas ganhavam a afeição de quase todos – desde sua namorada Billie Frechette  (Marion Cotillard) até americanos que consideravam que Dillinger estava tirando dos bancos o dinheiro que os bancos haviam tirado indevidamente deles. Mas enquanto as aventuras da gangue de Dillinger impressionavam muita gente, J. Edgar Hoover planejou explorar a captura do fora-da-lei como forma de elevar seu Bureau de Investigação a uma força policial nacional que mais tarde seria conhecida como FBI. Para isso, ele tornou Dillinger o primeiro Inimigo Público Número 1 dos EUA e colocou o agente Melvin Purvis (Christian Bale) em seu encalço.

Infelizmente, ao fim da sessão, dá pra chegar a conclusão de que Inimigos Públicos é apenas mais um desses filmes sobre ladrões de bancos. Poderia ter sido muito mais do que isso, uma vez que temos um grupo de pessoas talentosas envolvidas no projeto. Mas não foi além do convencional. De qualquer forma, é um bom filme de Michael Mann, que faz tudo certinho (às vezes, até demais) e tem um resultado positivo, sem maiores falhas. Ponto. Não vamos encontrar coisas espetaculares em cena ou aspectos dignos de premiação.

Pra falar bem a verdade, Inimigos Públicos me atraía mais pelo elenco do que pelo diretor ou pela história, já que não me interesso muito por esses enredos de ladrões de banco. O que dá pra ser constatado na narrativa do filme é que ela é previsível. O roteiro se repete o tempo inteiro: Dillinger (o protagonista vivido por Johnny Depp) assalta, a polícia está sempre atrasada; Dillinger passa alguns momentos com Billie (Marion Cotillard), Dillinger é preso; Dillinger acaba fugindo, a polícia está sempre a um triz de ter o assaltante em mãos… E, daqui a alguns minutos, o ciclo começava novamente.

De interessante mesmo temos a boa direção do Michael Mann (que tenta reproduzir o estilo Paul Greengrass de filmar ação, o que já virou moda hoje em dia) e a presença dos atores, em especial a francesa Marion Cotillard – apresentando uma dicção perfeita em inglês – que conseguiu criar uma boa química com Johnny Depp (em boa aparição, mas que fica devendo um pouquinho por sua representação sem maiores nuances).

Inimigos Públicos é um filme policial que, sem dúvida, funciona. Tem tudo no seu lugar. Talvez seja por isso que não cative muito. O conjunto final é muito correto, sem audácia – e esperava-se justamente o oposto, principalmente do diretor Michael Mann, que tem até um estilo interessante de filmar as suas histórias. O longa-metragem, portanto, tem suas virtudes. Mas, assim como a polícia no enredo da película, está sempre a um passo de alcançar aquilo que vai fazer a diferença.

FILME: 7.0

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