Educação
One of the boys I dated, and they were boys, suggested that we go to Paris and I said I’d always wanted to see Paris. As if I’d never been!

Direção: Lone Scherfig
Elenco: Carey Mulligan, Peter Sarsgaard, Dominic Cooper, Alfred Molina, Rosamund Pike, Emma Thompson, Olivia Williams, Sally Hawkins
An Education, Inglaterra, 2009, Drama, 105 minutos
Sinopse: Durante os anos 60, a vida de uma garota de 17 anos (Carey Mulligan) muda completamente depois que ela conhece um homem de 35 anos (Peter Sarsgaard), que começa a cortejá-la com jantares elegantes, clubes e viagens. O comportamento do rapaz conquista também o pai da garota, mas coloca em risco o futuro da garota na Universidade de Oxford.

Os anos 2000 foram especialmente marcantes para as jovens atrizes. Fomos apresentados a uma imensa lista de revelações que surgiram para o cinema nos últimos tempos, como a ótima Saoirse Ronan de Desejo e Reparação. Outra figura das mais interessantes é, sem pestanejar, essa Carey Mulligan – altamente reconhecida por diversas associações de críticas por seu desempenho em Educação. Merece todos os créditos. Mulligan é, realmente, excepcional.
O filme em si é de grande qualidade e aposta no bom e velho jeito britânico de fazer dramas – o que é essencial para a história, já que fica evidente que tal trama, talzez, não tivesse a mesma eficácia nas mãos de cineastas americanos, por exemplo. Todo o requinte inglês (incluindo a própria reprodução de época e as locações) são essenciais para que se compreenda melhor a jornada emocional vivida pela protagonista.
Durante alguns momentos, pode até ficar aquela corriqueira questão no ar: o filme é realmente bom ou é a protagonista que deixa essa impressão? O que se pode concluir com Educação é que estamos dentro das duas opções. Sim, o filme é ótimo e Mulligan também deixa essa sensação. Mas não é puramente mérito da atriz. É notável como o roteiro é sutil na construção da personagem e, principalmente, no modo como retrata toda a evolução sentimental e também o amaduricento dela.
Educação é um ótimo filme que tem alguns fatores não tão interessantes (como Alfred Molina, por exemplo, que me pareceu básico demais e sem variações), mas que se tornam pequenos perto da qualidade apresentada. Esse longa-metragem de Lone Scherfig pode até não ser um dos grandes lançamentos da temporada, mas, sem dúvida, merece ser descoberto. Por diversas razões. Possivelmente, o filme mais harmônico dos indicados ao Oscar.
FILME: 8.5

NA PREMIAÇÃO 2010 DO CINEMA E ARGUMENTO:

Invictus
“I am the master of my fate. I am the captain of my soul.”

Direção: Clint Eastwood
Elenco: Morgan Freeman, Matt Damon, Tony Kgoroge, Matt Stern, Julian Lewis Jones, Marguerite Wheatley, Patrick Lyster
Invictus, EUA, 2009, Drama, 133 minutos, livre
Sinopse: O presidente Nelson Mandela (Morgan Freeman) e o capitão Francois Pienaar (Matt Damon) trabalham juntos em uma missão para unir a nação por meio da linguagem universal do esporte. O país que Mandela governa é dividido, então o destemido presidente apóia o desacreditado time da África do Sul na Copa Mundial de rugby de 1995, que chega até as finais do campeonato.

É bem sensato dizer que, nos dias de hoje, só Meryl Streep consegue fazer milhares de filmes e se sair bem em todos eles. Digo isso porque nem o mestre Clint Eastwood, um dos grandes diretores do cinema, tem conseguido se sair bem em suas empreitadas nos últimos tempos. Depois do histriônico A Troca e do insosso Gran Torino, ele volta com mais uma produção sem graça que não faz jus ao talento que sempre demonstrou ter. No entanto, o problema maior não é o diretor e sim o texto, que não traz conflito algum ou uma interação significativa entre os personagens.
Na realidade, não dá pra saber bem qual foi o propósito de Clint com Invictus. É uma história rasa, com personagens pouco explorados e praticamente sem acontecimentos. Das duas uma: ou estamos diante de alguma cena de Nelson Mandela (Morgan Freeman) empolgado com rugby ou então alguma encenação do esporte com François (Matt Damon) coordenando o time da África do Sul. Fica só nisso e nada mais. São mais de duas horas de pura enrolação, onde fica claro que é um filme que poderia muito bem ter sido resolvido em um tempo muito menor.
Invictus não deixa marcas, o que é um problema. Esquecível é a palavra mais precisa para defini-lo. Se existe algo a ser considerado aqui essa é a interpretação de Morgan Freeman. Mas, ainda assim, é difícil se empolgar, já que a caracterização do ator é apenas correta e satisfatória para esse tipo de filme. Por um outro lado, Matt Damon aparece apagado e sua indicação ao Oscar de ator coadjuvante é injustificável.
Clint vem diluindo o seu talento em projetos demais com qualidade de menos. Invictus é mais um deles. Mas nem por isso deve ser desprezado. É um filme correto e que não chega a ter grandes falhas (até porque prefere deixar de lado questões políticas e não faz muita questão de enfatizar as diferenças pós-Apartheid na África do Sul). Se não ficasse sempre aquela incômoda sensação de que “quando o filme vai decolar?”, talvez Invictus deixasse uma impressão. Mínima que fosse, mas alguma impressão.
FILME: 6.5

Sherlock Holmes
Never theorize before you have data. Invariably, you end up twisting facts to suit theories, instead of theories to suit facts.

Direção: Guy Ritchie
Elenco: Robert Downey Jr., Jude Law, Rachel McAdams, Eddie Marsan, Mark Strong, William Hope, David Garrick, Kelly Reilly
EUA, 2009, Aventura, 128 minutos, 14 anos
Sinopse: O detetive Sherlock Holmes (Robert Downey Jr.) e seu fiel assistente Watson (Jude Law) precisam enfrentar Blackwood (Mark Strong), um vilão que pretende pertubar a paz e acabar com a ordem no Reino Unido.

Não sei sequer como começar a apontar as inúmeras escolhas erradas de Sherlock Holmes. Talvez, o maior pecado de todos tenha sido mudar completamente a essência do famoso detetive. No momento em que resolveram atualizá-lo para as novas massas, o personagem perdeu completamente o estilo. Holmes usa mais o corpo do que a mente, o que é inadmissível, uma vez que sempre foi uma figura pontuada pela esperteza e pela inteligência. Ele luta com muita habilidade, faz inúmeras acrobacias e ainda tem aquela faixada de beberrão cafajeste, sedutor e engraçadinho – visivelmente tentando copiar Johnny Depp e seu capitão Jack Sparrow.
Mas Robert Downey Jr. não é nenhum Johnny Depp – aliás, passa longe disso. Por alguma razão que desconheço, ele é um ator altamente adorado. Não vejo motivo para tal. Downey Jr. tem sempre a mesma expressão e, ao meu ver, um eterno ar de antipatia (quem sabe, superioridade?) que ele próprio parece não conseguir esconder. Por causa disso, Holmes fica em segundo plano para que Watson sempre se destaque mais. Jude Law aparece, claramente, melhor que seu companheiro de cena. Está com uma ótima desenvoltura e ainda capturou toda a essência de Watson sem cair em qualquer tipo de caricatura.
Agora, falando mais especificamente do filme em si, pode-se dizer que ele sofre de uma trama complicada. Complicada nao sentido literal da palavra e em todas outras interpretações possíveis. O roteiro, além de deixar a história mais comprida do que deveria, faz questão de torná-la mais complexa do que ela realmente é. Em alguns momentos, fica até incompreensível tanta loucura junta. Depois, a ideia de fazer com que tudo fosse engraçadinho, quebrou o clima. Sem falar, claro, da monotonia que impera a partir de certo ponto da história. Fica mais a sensação de “acaba logo” de que a do “oh, qual será a resposta para tudo?”.
Mas pra não dizerem que fui muito rabugento, também tenho alguns pontos a ressaltar positivamente. Temos aqui um divertido trabalho de Hans Zimmer na trilha sonora, que condiz bastante com o jeito palhaço que quiseram moldar no protagonista. Merecida indicação ao Oscar, diga-se de passagem. Outro setor que, merecidamente, foi reconhecido pela Academia é a direção de arte. Então, Sherlock Holmes tem algumas tomadas originais e bons aspectos técnicos. Só faltou um diretor mais competente atrás das câmeras, um roteiro melhor, um ritmo mais dinâmico, uma história interessante…
FILME: 4.5

Filmes em DVD

A Onda, de Dennis Gansel
Com Jürgen Vogel, Frederick Lau e Max Rielmet

Baseado em uma história verídica, A Onda é mais um ótimo filme alemão que conquista o meu respeito mas não a minha empolgação. A exemplo de A Vida dos Outros, reconheço todos os méritos dessa película de Dennis Gansel – ainda que eu não tenha sido necessariamente envolvido por ela. Mas é de se admirar como a história foi bem contada pelo roteiro – que torna a situação dos personagens muito verossímil. Junte a isso o bom elenco de desconhecidos e você terá mais um excelente exemplar do cinema alemão.
FILME: 8.0

Distrito 9, de Neill Blomkamp

Esse, na minha opinião, é o grande azarão do Oscar 2010. Teve inúmeras indicações e, provavelmente, não vá levar uma estatueta sequer. O lado técnico é esplêndido, mas é uma pena que o roteiro tenha tantas falhas. Distrito 9 começa muito bem, mas vai perdendo a sua força aos poucos – principalmente depois da metade, quando o filme começa a ficar até cansativo. É uma ideia muito original mas que foi desenvolvida de forma irregular. No final das contas, temos aqui um filme diferente, mas que não consegue sustentar seus méritos durante toda sua duração.
FILME: 7.5

Tá Chovendo Hamburguer, de Phil Lord e Chris Miller

Tá Chovendo Hamburguer é um dos desenhos mais sem noção dos últimos tempos. Caricato e maluco até no título original (Cloudy With a Chance of Meatballs), talvez seja exatamente aí que o longa encontre a sua graça. Dá pra se divertir com os absurdos apresentados. O problema é que isso também faz o espectador julgar o filme como bobinho demais. E ele realmente é. Temos aqui um desenho totalmente voltado ao público infantil, onde os adultos podem até se sentir aborrecidos com o que estão vendo.
FILME: 7.0

Novidades no Amor, de Bart Freudlinch
Com Catherine Zeta-Jones, Justin Bartha e Eliza Callahan

Bart Freudlinch, marido de Julianne Moore, não sabe fazer comédias românticas divertidas. Sempre tem aquele clima de aborrecimento. Totalmente Apaixonados, um significativo fracasso, já demonstrava isso. E, apesar de Novidades do Amor ser mais assistível que o seu longa anterior, continua sendo nada inovador ou original. No entanto, dá pra se assistir com tranquilidade – especialmente porque a temática me agrada bastante: a relação amorosa entre pessoas de idades bem diferentes (que foi mostrada com muita simpatia em Terapia do Amor). Catherine Zeta-Jones e Justin Bartha fazem o que podem com o roteiro pouco movimentado. Talvez seja por causa deles que essa história até agrade um pouco.
FILME: 6.0

Uma Vida Sem Regras, de Oliver Irving
Com Robert Pattinson, Rebecca Pidgeon e Powell Jones

Alguns atores do público teen querem provar que possuem talento. Mas isso vem naturalmente (como Zac Efron, que estava ótimo em 17 Outra Vez) e não de forma forçada. Fica visível que o envolvimento de Robert Pattinson nesse filme foi de puro interesse – ele queria provar que tem talento dramático e que esse filme de auto-ajuda poderia deixá-lo, de certa forma, mais “respeitável”. O tiro saiu pela culatra e Uma Vida Sem Regras passou em branco nos cinemas. Não é pra menos: fazia tempo que eu não via um filme tão mal resolvido. O roteiro é completamente sem propósito, os personagens não possuem sentido algum e o resultado é deplorável.
FILME: 2.0
Preciosa – Uma História de Esperança
“Who else was going to love me? Who else was going to touch me? Who else was going to make me feel good about myself?”

Direção: Lee Daniels
Elenco: Gabourey Sidibe, Mo’Nique, Paula Patton, Mariah Carey, Lenny Kravitz, Amina Robinson, Sherri Shepherd, Stephanie Andujar
Precious – Based on the Novel Push by Sapphire, EUA, 2009, Drama, 110 minutos, 16 anos
Elenco: Em Harlem, a jovem Claireece “Precious” Jones (Gabourey “Gabby” Sidibe), que já sofreu muito e está grávida de seu segundo filho, é convidada a frequentar uma escola alternativa, na qual vê a esperança de conseguir dar um novo rumo à sua vida.

A Cor Púrpura, de 1985, é um dramalhão sobre a difícil vida da personagem Celie Johnson (Whoopie Goldberg). Negra e pobre, Celie foi separada da irmã e era constantemente maltratada por várias pessoas na dura vida que levava. No entanto, Celie era uma pessoa esperançosa e que não deixava de acreditar que a vida tinha coisas boas. A situação é praticamente a mesma com a sofrida Claireece Precious Jones (Gabourey Sidibe) – ainda que a sua história em Preciosa – Uma História de Esperança tenha sido retratada décadas depois da história do filme de Steven Spielberg.
Esse filme não é nada agradável. Mesmo que seja datado como um drama, é preciso saber que a história não é das mais fáceis. Tudo que é tipo de desgraça acontece na vida da protagonista – ela é maltratada pela mãe, foi engravidada pelo próprio pai, tem problemas na escola, é pobre e tem contra si mesma o fato de ser obesa. A vida da protagonista é uma verdadeira tristeza e o filme faz questão de não amenizar os problemas dela para o espectador. Mas o principal ponto positivo do roteiro de Preciosa é não pesar tanto a barra em relação a isso. O texto encontrou o tom certo e não fica aquela incômoda sensação de exagero que poderia existir. Não ficou exagerado nem contido demais.
Elogios também merece o diretor Lee Daniels, muito seguro atrás das câmeras. Ele trouxe um filme que vai mais pro lado social do que pro lado melodramático e isso é um verdadeiro feito, já que existe uma linha muito tênue entre esses dois aspectos. Daniels encontrou um ótimo balanceamento entre as inúmeras mensagens que gostaria de transmitir. Mas, é claro, tudo no diretor não é perfeito: ele traz, por exemplo, algumas narrativas desnecessárias – em especial aquelas cenas mostrando as imaginações da protagonista com a fama, que não acrescentam em nada para o que está sendo mostrado e são repetidas constantemente.
Mas, o grande destaque fica mesmo para o ótimo elenco. Enquanto Mo’Nique (realmente ótima, mas com uma personagem que não tem muita variação a não ser no seu monólogo final) apresenta um retrato desumano e cruel de uma mãe que pode ser considerada desprovida de senso materno, Gabourey Sidibe cumpre a missão de humanizar a sofrida protagonista mas sem nunca apelar para conquistar o sentimento do espectador. Outro nome a ser citado é o de Paula Patton, que representa um grande alívio emocional no meio de tantas dificuldades impostas na vida das figuras do filme. Isso é o que tanto chama a atenção na presença dela.
Preciosa tem vários aspectos que merecem destaque. No entanto, é aquele tipo de filme que não chega a deixar maiores lembranças. Como drama, funciona muito bem – mas o problema é que já vimos diversas produções com essa temática e Preciosa fica devendo por não evoluir em seus conflitos, já que fica a sensação de que assistimos apenas a uma continuidade de cenas dramáticas sem maior conexão. Isso termina por amenizar a possível marca que o filme poderia deixar. Entretanto, não quer dizer que fique sem impacto. Com esse resultado, podemos dizer que o filme é A Cor Púrpura da nova geração. Mas é uma pena que histórias assim já não causem o mesmo fascínio e interesse como na época em que Spielberg lançou a celebrada história de Celie Johnson.
FILME: 8.0
