Cinema e Argumento

Poucas Cinzas

Direção: Paul Morrison

Elenco: Robert Pattinson, Javier Beltrán, Marina Gatell, Matthew McNulty, Sue Flack, Ferran Audí, Diana Gómez, Adrian Devant

Little Ashes, EUA/Espanha, 2008, Drama, 14 anos

Sinopse: Em 1922, Madri se vê em plena revolução cultural por conta das mudanças de valores provocadas pelo jazz, as ideias de Freud e a avant-garde . Nesse mesmo ano, aos 18 anos, Salvador Dalí (Robert Pattinson) entra para a faculdade determinado em se tornar um grande artista. Sua incomum mistura de timidez e exibicionismo faz com que a elite social da universidade volte suas atenções ao jovem estudante, como Federico Garcia Lorca (Javier Beltran) e Luis Buñuel (Matthew McNulty). O filme acompanha a relação travada entre esses tão importantes artistas contemporâneos.

Muito frequentemente tenho uma necessidade (mórbida?) de ver algum filme de péssima qualidade. Não sei se é porque tenho uma certa safisfação ao falar mal de uma produção ou se é porque me divirto muito ao assistir uma tragédia cinematográfica. Dia desses, quando tive essa vontade, logo me veio à cabeça um nome já carimbado na filmografia de filmes ruins do cinema atual: Robert Pattinson. Seja na saga Crepúsculo ou em longas “alternativos” como o desastre Uma Vida Sem Regras, o jovem ator sempre se mete em roubadas. Poucas Cinzas é outro exemplo de como Pattinson não sabe o que faz.

Imagine a audácia: colocar um ator ruim como Pattinson à frente de um projeto sobre a vida de grandes nomes como Fererico García Lorca e Luis Buñuel. E, mais do que isso, o Edward Cullen de Crepúsculo ainda faz o papel do histórico Salvador Dalí. O filme não tem ninguém famoso além dele, foi produzido em 2008 e até agora não teve uma distribuição decente (aqui no Brasil, por exemplo, ainda não tem destino nem previsão). A falta de repercussão com público e com a crítica não ajudou. Poucas Cinzas, além de ser péssimo, está fadado ao eterno esquecimento – incluindo com as crepusculetes fãs de Pattinson, que nunca ouviram falar desse longa.

O roteiro não poderia ser mais perdido. É aquele típico caso em que o texto atira para todos os lados. Poucas Cinzas quer falar de política, revolução cultural, relações homossexuais reprimidas, arte, sexo… Não consegue discursar com qualidade sobre nenhum desses assuntos. Muitas abordagens e muita superficialidade. O ritmo é lento, o que dificulta demais um possível envolvimento com a história. A grande cruz que o filme tem que carregar, entretanto, é o péssimo elenco. Todos estão deslocados e mal trabalhados. Se Poucas Cinzas estivesse nas mãos de um diretor mais competente e não na de amadores, talvez não fosse a bobagem que é. Mas, como não está, fica esse péssimo resultado mesmo.

FILME: 4.0


Caso 39

“Everybody has fears… now, what scares you?”

Direção: Christian Alvart

Elenco: Renée Zellweger, Ian McShane, Bradley Cooper, Adrian Lester, Jodelle Ferland, Kerry O’Malley, Georgia Craig

Case 39, EUA, 2009, Suspense, 109 minutos, 14 anos

Sinopse: Uma assistente social (Renée Zellweger) salva uma garota de 10 anos de idade (Jodelle Ferland) de seus pais. Porém, ela descobre que a história da menina é mais complicada do que parece.

Observem bem a foto acima. Agora me digam: Renée Zellweger está chorando, morrendo de medo ou sorrindo? Por via das dúvidas, você vai dizer que ela está com medo, já que o gênero do filme é suspense. E você está mais do que correto. Mas em vários momentos de Caso 39 não dá para adivinhar. Zellweger é uma de tantas atrizes que estragou o seu rosto com plásticas. Nos últimos tempos, ela provou que tantas mudanças estéticas em seu rosto lhe incapacitaram de fazer qualquer outro tipo de filme que não seja comédia (e isso porque, vai saber o motivo, tem gente que adora as caras e bocas “engraçadas” dela).

Defendi Zellweger até onde pude – afinal, em algum lugar remoto do passado, ela foi boa. Mas, hoje, já desisti e faço parte do grupo que aproveita qualquer oportunidade para falar mal dela. Caso 39, tal como Recém Chegada, é mais um filme que consegue me dar essa deixa para difamar a atriz. Pelas mais diversas razões. Primeiro, quem se entrega a um filme desses, está assinando seu atestado de óbito cinematográfico. Segundo, Renée foge completamente de seu estilo e o resultado de sua atuação é uma lástima. E, finalmente, terceiro, o filme é uma verdadeira porcaria. Mais um daqueles longas totalmente previsíveis em seu suspense e que não adiciona nada para o gênero – bem pelo contrário, enfraquece ainda mais o estilo.

Se a escalação da protagonista fosse o único problema, poderíamos até levar numa boa. O que acontece é que Caso 39 é uma sucessão de escolhas erradas. E, talvez, a mais grave seja o enredo. Não sei o que enxergam nessas tramas de crianças endiabradas e maquiavélicas – gênero esse que já saturou. O filme fica rodeando esse tipo de tensão envolvendo a criancinha maquiavélica o tempo inteiro. Quando decide fazer isso, cai em diversos clichês: a criança fica sozinha no mundo e uma bondosa alma caridosa resolve adotá-la, só a burra da protagonista não enxerga a maldade da pequenina, todos que tentam desvendar o mistério morrem e por aí vai…

Mas, antes fosse só isso. O filme ainda comete alguns grandes exageros (chega a ser ridículo, por exemplo, a protagonista atear fogo na própria casa por livre e espontânea vontade como se isso fosse a coisa mais natural do mundo) e não faz a mínima questão de explicar essa origem bizarra da criança. Zellweger oscila entre vozes irritantes, expressões irreconhecíveis e gritos que soam constrangedores. A menina beira o banal e o elenco coadjuvante também não tem nada de especial. Caso 39 funciona tranquilamente para pessoas que gostam de histórias assim. Mas, no final, fica aquela velha questão: até quando vamos ver produções ruins e banais como essas? A resposta é simples: quando vier outro tipo de suspense que seja copiado em todos os cantos. O estilo Atividade Paranormal teria encerrado essa fase e iniciado outro ciclo?

FILME: 4.0


A Fita Branca

Direção: Michael Haneke

Elenco: Christian Friedel, Leonie Benesch, Ulrich Tukur, Ursina Lardi, Burghart Klaubner, Maria-Victoria Dragus, Leonard Proxauf

Das Weisse Band – Eine deutsche Kindergeschichte, Alemanha, 2009, Drama, 144 minutos, 14 anos

Sinopse: Um vilarejo protestante no norte da Alemanha, em 1913, às vésperas da Primeira Guerra Mundial. A história de crianças e adolescentes de um coral dirigido pelo professor primário do vilarejo e suas famílias: o barão, o reitor, o pastor, o médico, a parteira, os camponeses. Estranhos acidentes começam a acontecer e tomam aos poucos o caráter de um ritual punitivo. O que se esconde por trás desses acontecimentos?

Propositalmente ou não, o roteiro de A Fita Branca traz inúmeras semelhanças com a ambientação criada por M. Night Shyamalan no subestimado A Vila. Assim como o filme estrelado por Bryce Dallas Howard e Joaquin Phoenix, esse mais novo trabalho do pretensioso cineasta Michael Haneke narra, também, a vida de uma pequena comunidade que se vê obrigada a lidar com fatos estranhos. A quebra da paz, em ambos os filmes, despertam a desconfiância dos personagens, que passam a analisar uns aos outros procurando uma forma de solucionar o que está surgindo de diferente no lugar onde vivem.

Mas, no entanto, as semelhanças entre os dois filmes param por aí. Somente a ambientação e o clima é o que existe de semelhante porque, a partir daí, A Fita Branca e A Vila tomam rumos completamente diferentes. O longa de Haneke, apesar de ter um mistério incutido na sua história, não faz disso sua matéria-prima. O que acompanhamos, de fato, é o dia-a-dia dos personagens. Poderia ser algo desinteressante, mas aqui seguimos de perto toda a rigidez de uma Alemanha pré-Primeira Guerra Mundial. São figuras extremamente bem calculadas e que parecem saídas de um livro de boas maneiras. Existem os desobientes (especialmente as crianças, fortemente ilustradas como figuras mais “diferentes” dos demais), mas mesmo elas são representadas como temerosas em relação a fugir do que aquela sociedade julga como correto.

É nesse clima categórico, para não dizer frio, que se desenrolam os acontecimentos de A Fita Branca. Talvez, seja o filme mais recente do país que consiga justamente unir o conhecido rigor da sociedade alemã com a própria estrutura tão formal desse cinema. Digo isso porque filmes como A Onda e A Vida dos Outros parecem seguir uma cartilha – são filmes que , apesar de certas liberdades, parecem sempre meticulosamente pensados e planejados. O trabalho de Haneke não deixa tanto essa sensação, justamente porque retrata uma sociedade que tem essas mesmas características. Assim, o diretor não só realiza um trabalho extremamente interessante do ponto de vista sócio-histórico, como também se sai excelente como produto cinematográfico.

A Fita Branca era o favorito ao Oscar de filme estrangeiro esse ano. Entretanto, assim como vários outros filmes badalados e também considerados favoritos ao prêmio – entre eles, O Labirinto do Fauno, O Fabuloso Destino de Amélie Poulain e Valsa Com Bashir – saiu da principal festa do cinema de mãos abanando. E é muito fácil entender o porquê. Haneke não realiza trabalhos fáceis e aqui não é diferente. Contudo, a boa notícia é que A Fita Branca não é um cinema inacessível ou incômodo de tão alternativo e pretensioso como o superestimado Caché. Temos nesse novo longa do diretor um filme intrigante dramaticamente e muito bem executado. Agora, só entra mesmo na história quem curte esse tipo de cinema mais subjetivo.

FILME: 8.5


A Vida Íntima de Pippa Lee

Direção: Rebbeca Miller

Elenco: Robin Wright Penn, Alan Arkin, Keanu Reeves, Maria Bello, Julianne Moore, Winona Ryder, Monica Bellucci

The Private Lives of Pippa Lee, EUA, 2009, Drama, 90 minutos, 14 anos

Sinopse: Pode-se dizer que Pippa Lee (Robin Wright Penn) tem uma vida excelente. Aos 50 anos, mora em uma boa casa, é casada com um brilhante editor 30 anos mais velho (Alan Arkin) e é mãe orgulhosa. Até o dia em que seu marido decide que está na hora da aposentadoria e de sair de Nova York. Para embolar de vez, ele também arruma uma amante, bem mais jovem do que ela. Mas as coisas realmente fogem ao controle quando ela começa a ter reações tão diferentes das que tinha quando levava uma vida pacata. E agora, seu mundo, sua vida tranqüila, sua família, tudo o que ela ama está ameaçando ruir.

Os problemas da vida de Pipa Lee (Robin Wright Penn) podem ser batidos, mas também são interessantes para um filme. Ela saiu de casa muito cedo e ficou sem rumo, tinha uma mãe viciada em remédios, casou com um homem  trinta anos mais velho, não tem um bom relacionamento com a filha e ainda descobre que o marido agora está dormindo com outra mulher. Dependendo de quem dirigisse uma história dessas, daria um prato cheio. No entanto, quem comanda a situação é Rebecca Miller, uma aspirante a diretora de filmes femininos e intimistas.

Não vou mentir, Miller, talvez, tenha jeito para o negócio. Mas, infelizmente, não tem a habilidade de se desvencilhar do convencional. Foi assim com O Mundo de Jack e Rose e também com O Tempo de Cada Um. Ela tem boas intenções, mas nunca consegue se diferenciar de tantos outros filmes assim. O mais novo trabalho da diretora, esse A Vida Íntima de Pippa Lee, segue o mesmo esquema. A diferença é que o filme reúne um bom número de estrelas, formando o maior elenco que Miller já conseguiu reunir.

Basicamente, são os atores que validam o filme. Robin Wright Penn, como a protagonista, consegue bom resultado ao representar uma certa inércia de sua personagem. Alan Arkin, companheiro de cena da atriz, tem a sua aparição no cinema mais significativa desde que ganhou o Oscar de melhor ator coadjuvante por Pequena Miss Sunshine. Os outros atores, como Monica Bellucci (linda de morrer) e Julianne Moore, possuem aparições interessantes, mas muito corriqueiras e que são prejudicadas pela forma como o roteiro narra a vida da protagonista em curtos flashbacks.

A Vida Íntima de Pippa Lee, portanto, é um drama comum, daqueles que são até interessantes para um domingo chuvoso à tarde mas que não muda a vida de ninguém. Rebecca Miller, mais uma vez, ficou no meio do caminho e não conseguiu entregar uma obra diferente. Mas, ao contrário de outras colegas suas que se repetem incansavelmente com trejeitos (como exemplo, temos Nancy Meyers e a sua infinita reciclagem estrutural), Miller ainda tem, de certa forma, um estilo próprio. Mesmo que isso não signifique que ela consiga sequer ser digna de grandes elogios.

FILME: 6.5


O Segredo dos Seus Olhos

Direção: Juan José Campanella

Elenco: Ricardo Darín, Soledad Vilammil, Pablo Rago, Javier Godino, Guillermo Francella, José Luis Gioia, Mario Alarcón

El Secreto de Sus Ojos, Argentina, 2009, Drama, 127 minutos, 14 anos

Sinopse: Após trabalhar a vida toda num tribunal, Benjamín Espósito (Ricardo Darín) se aposenta. Seu tempo livre o permite realizar um sonho longamente postergado: escrever um romance baseado num acontecimento que vivera anos antes. Em 1974, foi encarregado de investigar um violento assassinato. A Argentina entrava num ciclo de extrema violência política e a investigação colocou em risco sua vida. Ao escavar velhos traumas, Benjamín confronta o intenso romance que teve com sua antiga chefe (Soledad Vilammil), assim como decisões e equívocos passados. Com o tempo, as memórias terminam por transformar novamente sua vida.

Com a vitória de O Segredo dos Seus Olhos esse ano no Oscar, a Argentina já comemora a sua segunda estatueta no prêmio.  A consagração não poderia ter vindo de uma dupla mais especial. O diretor Juan José Campanella e o ator Ricardo Darín, desde que formaram uma parceria com o ótimo O Filho da Noiva (também indicado ao Oscar de filme estrangeiro), tornaram-se nomes reconhecidos no cinema argentino. Feito merecido: os dois chegam em uma terceira parceria – a segunda foi o também satisfatório O Clube da Lua – que mostra o quanto ambos amadureceram cinematograficamente.

O Segredo dos Seus Olhos mistura uma história de suspense (a investigação de um assassinato) com um tom dramático significativo. O crime do filme é apenas um pretexto para os personagens reavaliarem seus conceitos e trabalharem suas emoções. Suspense e drama. Uma mistura muito perigosa e que, nas mãos erradas, poderia levar um filme ao fracasso. Felizmente, não enxergamos isso aqui. Campanella, muito seguro atrás das câmeras, arquiteta um filme verdadeiramente competente e que tem a grande qualidade de ser complexo e acessível na mesma medida.

Para mim, não deixou a impressão de ser um grande filme. Ainda prefiro o Campanella de O Filho da Noiva, que era puramente sentimental. Sem contar que O Segredo dos Seus Olhos é muito lento e tem uma duração desnecessária. Mas é bom constatar que o filme se sustenta com habilidade mesmo com esses empecilhos. Talvez pelo ar magnético de Darín ou até mesmo pela curiosidade em relação ao que vai se suceder na trama. Independente disso, é um filme que mostra, mesmo não sendo espetacular, como um cinema pode evoluir e se tornar maduro. Algo que nós, brasileiros, ainda não aprendemos.

FILME: 8.0