Cinema e Argumento

A Morte e Vida de Charlie

Direção: Burr Steers

Elenco: Zac Efron, Charlie Tahan, Amanda Crew, Kim Basinger, Ray Liotta, Augustus Prew, Donal Logue, Dave Franco, Matt Ward

Charlie St. Cloud, EUA, 2010, Drama, 99 minutos

Sinopse: Os irmãos Charlie (Zac Efron) e Sam (Charlie Tahan) eram muito apegados, mas um trágico acidente os separou. Apesar disso, Charlie continuou mantendo contato com ele após sua morte, ficando conhecido como um cara estranho. Até o dia em que se apaixonou por uma jovem (Amanda Crew) e precisa decidir entre manter uma promessa que fez ao irmão ou seguir o desejo de seu próprio coração.

Esse é um filme estranho. Estranho no sentido de que é meio difícil saber a quem ele vai agradar. Por exemplo, se formos pegar esse pôster colorido e com o Zac Efron cheio de photoshop como se estivesse estampando a capa da revista Capricho, podemos pensar que A Morte e Vida de Charlie (que coisa mais incômoda esse “vida e morte” invertido, não?) é dirigido para o público de High School Musical. Mero engano. O filme não é desse gênero e muito menos quer apaixonar corações de adolescentes com a presença de Efron. Por se tratar de um drama sobre perdas, então, ele teria que satisfazer todos que apreciam esse estilo, não? Outro engano. Essa produção não alcança níveis dramáticos intensos e, com frequência, é clichê e previsível.

Mas, afinal, como é possível definir A Morte e Vida de Charlie? Não sei dizer. O filme, que não fez o sucesso esperado nos Estados Unidos, tem um foco dramático, mas tanto a presença de Efron quanto as decisões de direção não determinam quem é o público-alvo. Ou seja, o filme não é  para as “piriguetes” (que podem esperar um filme centrado em um romancezinho bobo, o que não acontece), mas também não é suficientemente interessante para o público mais crítico. Fica num meio termo. Esse filme de Burr Steers – diretor que já havia trabalhado com o jovem ator em 17 Outra Vez – é um drama raso, onde tudo o que acontece nós já vimos em algum outro momento no cinema. No entanto, é uma boa produção. O resultado dá aquele ar de que é um filme bem cuidado e com boas intenções.

O roteiro, assim como a direção, peca em tratar uma história que não objetiva muito bem a quem quer agradar. Tanto, que se perde em algumas resoluções enjoadas e até desnecessárias para amenizar o drama e agradar a todos – como no ato final, onde Charlie (Efron) sai a procurar Tess (Amanda Crew) pelos mares. É drama de perda, romance de última hora, questionamentos de solidão e uma ou outra aventurinha… Tem de tudo um pouco, mas, no conjunto, fica meio desfocado. Apesar de tudo isso, A Morte e Vida de Charlie consegue se sustentar sem maiores problemas para aqueles que conseguem abraçar qualquer tipo de gênero e também deixar de lado a exigência. No final das contas, não dá para assistir a um filme desses com expectativa, não é mesmo?

A jogada mais esperta de A Morte e Vida de Charlie é sustentar toda a sua força no protagonista Zac Efron. Ainda que o ator esteja preso nesses filmes superficiais, nota-se, a cada produção, que ele tem potencial para fazer mais. Se em Eu e Orson Welles ele se arriscou em um longa mais “autoral”, aqui ele quer provar que tem a capacidade para fazer drama. E consegue. Claro, não é nada digno de prêmio ou reconhecimento. Mas, pelo menos, consegue dar uma lição para certos Robert Pattinsons que tranbordam inexpressividade. Zac segura o filme com seu carisma e com sua boa presença. O recado que ele quer deixar é que as pessoas precisam deixar de lado o preconceito com ele. Faz tempos que Efron deixou de ser o enjoativo Troy de High School Musical. Hoje, ele quer ser um ator melhor. E, mesmo que seus projetos sejam medianos como esse, ele faz o possível para se sobressair. Só resta achar alguém conceituado que acredite no talento dele e que dê uma chance para o ator…

FILME: 6.5


The Special Relationship

Direção: Richard Loncraine

Elenco: Michael Sheen, Dennis Quaid, Hope Davis, Helen McCrory, Adam Godley, Marc Rioufol, Mark Bazeley, Nancy Crane

EUA, 2010, Drama, 93 minutos

Sinopse: Em 1992, o líder trabalhista Tony Blair (Michael Sheen) vai aos Estados Unidos e fica impressionado com as políticas do Presidente Clinton (Dennis Quaid). Dois anos depois ele é convidado para uma audiência com Clinton, que, acertadamente, prevê que ele será o próximo primeiro-minitstro da Grã-Bretanha. Começa a “relação especial” entre os dois. A situação no Kosovo, no entanto, inverte os papéis. Como Clinton é relutante na invasão, Blair é visto na mídia americana como um herói. O Presidente americano acusa seu aliado de esfaqueá-lo pelas costas e a relação especial começa a se abalar.

Michael Sheen é um sujeito subestimado. Ok, ele ainda não foi muito além dos seus papeis biográficos, mas mesmo assim é um ator muito natural e que trabalha com desenvoltura e competência. Ele interpretou o apresentador de TV David Frost, em Frost/Nixon, e formou uma bela dupla com o ótimo Frank Langella. Entretanto, o papel que deu mais visibilidade para o ator britânico foi o do primeiro-ministro Tony Blair, em A Rainha. Ignorado pelas premiações – e também, de certa forma, pelo público – por estar contracenando com papeis mais “apelativos” dramaticamente que o seu, Sheen ainda não foi reconhecido da maneira que devia. The Special Relationship, onde ele volta ao papel de Blair, não vai mudar esse cenário. O que vemos aqui é mais uma prova das qualidades do ator.

Para os formatos televisivos, The Special Relationship é um filme bem realizado. Consegue versar sobre política de forma clara, desenvolver personagens no curto espaço de tempo de 90 minutos e dialogar com o público interessado nesses filmes que envolvem relações entre autoridades da política. Nesse sentido, o telefilme da HBO tem uma jornada cheia de acertos. Até o sempre indiferente Dennis Quaid está bem em cena, ao passo que Michael Sheen reprisa com sua habitual competência o papel de Tony Blair. Quem merecia mais espaço em cena é Hope Davis como Hillary Clinton. Ela é praticamente uma coadjuvante na história e as cenas em que ela descobre os escândalos sexuais do marido já justificariam um maior destaque para a atriz.

Já para quem assistiu A Rainha, o telefilme de Richard Loncraine é um completo genérico. A equipe é praticamente a mesma, incluindo o roteirista Peter Morgan, o compositor Alexandre Desplat (em mais uma notável trilha sonora) e alguns atores do elenco. Por isso, fica aquele forte sentimento de que The Special Relationship só reciclou o formato dirigido por Stephen Frears em A Rainha. Se formos analisar por esse ponto de vista, o resultado pode ser considerado formulaico e óbvio. Claro que é impossível comparar de forma igualitária duas obras de formatos diferentes, mas as intenções de estilo são praticamente as mesmas. Só que The Special Relationship é mais limitado exatamente por ter sido feito para a TV, ainda que seja mais uma caprichada produção da HBO.

Se em determinados momentos a produção estrelada por Dennis Quaid e Michael Sheen não consegue balancear com pleno êxito a sua proposta principal (a próxima relação de confiança entre Tony Blair e Bill Clinton) com as abordagens mais políticas e didáticas, pelo menos tem o dom de resultar em um produto interessante dentro de seu gênero. As falhas estão ali presentes e o telefilme tem algumas limitações, mas nada que vá afastar aquele público que procura por histórias assim. The Special Relationship bem que tenta ser A Rainha versão 2.0, mas, como o formato é diferente, não tem estofo suficiente para conseguir esse título. Ainda assim, merece uma conferida daqueles que gostam do formato.

FILME: 7.5


O Solteirão

– He’s tender and sweet and smart and funny and a million things that you aren’t.

– I was once, honey. It doesn’t last.

Direção: Brian Koppelman e David Levien

Elenco: Michael Douglas, Jenna Fischer, Mary-Louise Parker, Susan Sarandon, Danny DeVito, Jesse Eisenberg, Imogen Poots

Solitary Man, EUA, 2009, Drama, 90 minutos

Sinopse: Há seis anos atrás, Ben Kalmen (Michael Douglas) descobriu que tem um problema cardíaco. Foi a partir de então que sua vida degringolou de vez. Sua famosa concessionária de carros foi à falência, graças à descoberta de um golpe. Seu casamento com Nancy (Susan Sarandon) também foi por água abaixo, já que Ben passou a ter diversos casos. Sem dinheiro e com o nome na lama, hoje ele conta com a filha Susan (Jenna Fischer) e o neto, mas enfrenta resistência do genro Gary (David Costabile).

Em O Solteirão, Michael Douglas faz novamente o papel de um sujeito cafajeste e que engana as pessoas – incluindo sua própria família. Se o Gordon Gekko do recente Wall Street – O Dinheiro Nunca Dorme tinha esse perfil porque era ganancioso e sedento por poder, o Ben Kalmen de O Solteirão tem esse jeito simplesmente porque não consegue ter outro perfil, ele é assim (e não faz a mínima questão de mudar essa situação). Apesar dessas diferenças, tanto os filmes quanto os personagens não se repetem em suas propostas. As abordagens são diferentes.

O péssimo título brasileiro para Solitary Man nada diz sobre o estilo desse filme da dupla Brian Koppelman e David Levien. Quem acha que encontrará uma história cômica, onde o personagem se envolve a todo minuto com mulheres lindas ao estilo Alfie – O Sedutor pode ter uma bela surpresa. O Solteirão tem todo o seu foco no caráter mentiroso do personagem e como ele decepciona as pessoas em sua volta. Ou seja, essa produção pode ser vítima de uma divulgação errada. Na realidade, independente de como é vendido, o filme não ganha nem perde muita coisa por isso.

Digo isso porque O Solteirão é apenas regular em praticamente todos os aspectos. Como drama, não consegue ir muito além da velha história do homem que não consegue se conectar com ninguém e que tende a machucar seus familiares e amigos. Uma história batida e que é tratada de forma corriqueira, incluindo o personagem de Douglas, que está longe de ser magnético como o ótimo Gekko de Wall Street. O ator, por sinal, é, de fato, o grande destaque do filme, uma vez que o elenco de suporte (Danny Devito, Jenna Ficher, Susan Sarandon e Mary-Louise Parker) são mal aproveitados e não possuem o espaço em cena que mereciam.

No balanço final, ao menos para mim, fica a sensação de que O Solteirão não inova e entrega um filme que todos nós já vimos em algum momento da vida. Ainda que esteja longe de ser um filme ruim, a produção nunca engata e fica naquele nível do satisfatório educado. Ou seja, são poucos os que vão reclamar e também são poucos os que vão elogiar. É apenas ok. Se tivesse um roteiro mais original ou, então, um melhor aproveitamento do elenco de suporte, seria bem mais do que uma opção de dvd para se ver sem exigências.

FILME: 7.0


Atividade Paranormal 2

Direção: Tod Williams

Elenco: Sprague Grayden, Brian Boland, Katie Featherson, Micah Sloat

Paranormal Activity 2, EUA, 2010, Suspense, 91 minutos

Sinopse: Kristi (Sprague Grayden), irmã de Katie (Katie Featherston), teve recentemente um filho com Daniel (Brian Boland), que já era pai de uma adolescente. Um dia, ao chegarem em casa, a encontram completamente revirada. Tentando evitar que a situação se repita, Daniel compra um sistema de segurança que instala câmeras em diversos cômodos e no lado de fora da casa. Ao mesmo tempo o casal e a adolescente têm por costume filmar tudo o que acontece ao seu redor. Até que um dia situações estranhas começam a acontecer, o que faz com que o trio acredite que a casa é mal assombrada.

O que comentar sobre um filme que não tem qualquer relevância como cinema? Pois, então, assim é Atividade Paranormal 2, um produto audiovisual que nada acrescenta ao mundo do cinema e que só mostra como certas produções não passam de caça-níqueis sem qualquer propósito além de faturar dinheiro e de se aproveitar de algo que fez sucesso anteriormente. Se o primeiro longa era questionável, ainda tinha alguns méritos, já que conseguia movimentar o imaginário do espectador para causar algumas tomadas de suspense. A continuação, por um outro lado, não faz nada disso e apresenta cenas isoladas, gratuitas e ineficientes.

Logo quando assisti o primeiro filme, comentei que tinha visto sustos, mas não cinema. Essa característica fica ainda mais evidente com o segundo volume, onde a falta de linguagem cinematográfica é gritante. Atividade Paranormal 2 é uma brincadeira (sem graça, por sinal). Nada tem conexão, os sustos – que aqui quase não existem – são previsíveis, a enrolação é infinita e a originalidade é nula. Ou seja, todos aqueles defeitos que já existiam antes se acentuam, principalmente no que se refere aos rodeios que a história faz só para cumprir o tempo de duração para ser considerado um longa-metragem. Sem falar, claro, de uma pobre conexão com a história anterior que não traz resultado algum.

Os momentos finais, que copiam descaradamente o estilo [REC] de filmagem no escuro com câmera na mão, apostam em muita confusão, barulhos e gritos. O que, de certa forma, muda um pouco toda a sensação de monotonia que fica durante a projeção. Mas isso não é o suficiente para justificar algo completamente inexpressivo como Atividade Paranormal 2. Aqui não existe nada de novo, a não ser a revolta que o resultado causa no espectador – que, ao final, vê que pagou para ver mais do mesmo só que piorado e ainda mais sonolento e idiota. O pôster diz que as nossas noites de insônia voltaram com esse filme. Realmente, acho que não vou nem conseguir dormir pensando que coloquei dinheiro e tempo fora com esse que é o pior produto do cinema em 2010…

FILME: 1.0


O Último Mestre do Ar

He will begin to change hearts, and it is in the heart that all wars are won.

Direção: M. Night Shyamalan

Elenco: Noah Ringer, Dev Patel, Nicola Peltz, Jackson Rathbone, Shaun Toub, Aasif Mandvi, Cliff Curtis, Seychelle Gabriel

The Last Airbender, EUA, 2010, Aventura, 103 minutos

Sinopse: O mundo é dividido em quatro nações: a Nação do Fogo, o Reino da Terra, a Tribo das Águas, e os Nômades do Ar. A cada geração surge uma pessoa que possa controlar os quatro elementos (terra, água, fogo e ar) e que domine as artes marciais. Essa pessoa é o Avatar.Quando a Nação do Fogo ataca as outras três nações a fim de escravizá-las, o Avatar desaparece, retornando cem anos depois e partindo em busca da libertação das nações.

M. Night Shyamalan é um dos casos mais bizarros que Hollywood já teve a oportunidade de ver. Aclamado em seu primeiro longa-metragem como o novo Hitchcock, ganhou sucesso mundial por seus filmes bem realizados. Mas, de uma hora para a outra, sucumbiu ao fracasso. Alguns dizem que essa má fase começou com A Vila (discordo, é o melhor trabalho do diretor), mas é fato que virou quase uma unânimidade que a partir de A Dama na Água ele nunca mais fez um filme decente. Se Fim dos Tempos já era um sinal preocupante na carreira do indiano, O Último Mestre do Ar chega para afirmar, de uma vez por todas, que Shyamalan é uma das maiores enganações do cinema contemporâneo.

Defendi Shyamalan até onde pude, mas seus dois últimos trabalhos só comprovam o quanto ele perdeu a mão. Fico me perguntando como um diretor que já demonstrou tanto talento consegue chegar onde ele chegou… Para não dizer que a culpa é de suas histórias mirabolantes ou de suas ideias originais, o diretor/escritor/produtor aceitou fazer O Último Mestre do Ar, que é baseado em uma famosa série de desenhos animados chamada Avatar. Se o objetivo era castrar o estilo do diretor, isso foi alcançado. Não existe qualquer vestígio nessa história que nos dê algum sinal de que ela está sendo comandada por M. Night Shyamalan. Por isso mesmo, talvez, a culpa pelo fracasso nem seja tanto dele, mas sim da história.

Não sei até que ponto o público infantil vai conseguir embarcar nessa história ou até onde o público adulto vai ter paciência para acompanhar uma trama tão insossa e desinteressante. Isso mesmo, o maior defeito de O Último Mestre do Ar é o enredo sem personalidade. A proposta é boa, mas o desenvolvimento é mal estruturado. O roteiro dá mil voltas nos mesmos diálogos, aposta em inúmeros efeitos especiais (e mesmo que eles sejam usados de forma gratuita e não sejam espetaculares temos que concordar que são um ponto a ser destacado) e nem chega a funcionar como fantasia. A direção inexpressiva também não ajuda em nada, deixando o resultado ainda mais desinteressante e decepcionante.

O que fica provado com O Último Mestre do Ar é que não adianta tirar o lado autoral de um profissional e colocá-lo para conduzir uma história totalmente diferente de seu estilo a fim de salvá-lo. Shyamalan realmente está no fundo do poço e não será assim que ele conseguirá sair dessa situação. Esse novo trabalho, além de ser mais um tropeço em sua carreira, também vem para comprovar que ele não tem versatilidade. Basta mudar de estilo que Shyamalan perde toda a sua personalidade como realizador. O Último Mestre do Ar, então, não só é um produto cinematográfico de péssima qualidade, como também mais um passo do diretor rumo ao total esquecimento.

FILME: 5.0