De Pernas Pro Ar

Direção: Roberto Santucci
Elenco: Ingrid Guimarães, Maria Paula, Bruno Garcia, Denise Weinberg, João Fernandes, Cristina Pereira, Rodrigo Candelot, Marcos Pasquim
Brasil, 2010, Comédia, 107 minutos
Sinopse: Alice (Ingrid Guimarães) já passou dos 30, é casada com João (Bruno Garcia), tem um filho e é uma executiva bem sucedida. Na verdade, ela é uma típica workaholic, que tenta se equilibrar entre a rotina de trabalho e a família, mas perde o emprego e o marido no mesmo dia. É quando ela passa a contar com a ajuda da vizinha Marcela (Maria Paula) para mostrar que é possível ser uma profissional de sucesso sem deixar os prazeres da vida de lado. Para isso, Alice vira sócia da nova amiga em um sex shop falido, enquanto Marcela ajuda ela a descobrir os prazeres dos sex toys.

De vez em quando, o cinema brasileiro inventa de lançar uma comédia constrangedora. Nem considero Se Eu Fosse Você parte desse grupo (ok, é um filme bobo, mas não chega a ser vergonhoso), mas produções como A Casa da Mãe Joana, por exemplo. O último exemplar desses filmes que fazem o espectador se contrair na poltrona querendo se esconder é De Penas Pro Ar. Desperdiçando o carisma de Ingrid Guimarães e a possibilidade de ser bem sucedido em um assunto normalmente vulgarizado, o filme de Roberto Santucci é uma sucessão de escolhas mal executadas.
Sexo é um assunto que por si só já causa risadas em muita gente, principalmente quando você coloca vários jovens com os hormônios à flor da pele juntos em uma sala. Talvez esse grupo até consiga se divertir com De Pernas Pro Ar, já que o roteiro utiliza bastante todos os tipos de piadas sexuais possíveis. Só que, para quem deseja algo mais original ou pelo menos bem encenado, o longa-metragem deixa muito a desejar. Aliás, parece que filma tudo de forma muito amadora, com tomadas extremamente previsíveis e sem qualquer personalidade. A direção de arte, então! É trabalho de um filme caseiro de tão mal explorada…
O roteiro de De Pernas Pro Ar já é problemático. Só ele já bastaria para estragar o filme. É aquela velha ladainha da mulher que trabalha demais, não dá atenção para o marido e, de repente, é abandonada por ele e demitida de seu cargo na empresa. Ela reconstrói sua vida de maneira inusitada e, quando alcança êxito de novo, percebe que só a família é o importante na vida. Clichê até o último fio de cabelo, mas intercalado por uma temática sexual nada atraente e por uma direção que não consegue nem dar ritmo para as piadas.
O ponto alto do humor está todo no trailer (e, se você não gostou da prévia, saia correndo do filme) e De Pernas Pro Ar não apresenta nada além do que está mostrado ali. Pelo contrário, só piora. Enfim, é lamentável ver uma boa atriz como Ingrid Guimarães reduzida a um filme desses. Até dá para entender as intenções, mas nada justifica um longa sem foco, com cenas sem qualquer conexão e um roteiro tão apelativo (não no sentido sexual, mas no modo como força cada situação mesmo). Com raros momentos de graça, De Penas Pro Ar proporciona, no máximo, um sorriso amarelo. Até relevaria certos erros justificando que ele é um produto para o grande público, mas nem assim foi possível…
FILME: 4.0

Pânico 4
One generation’s tragedy is the next one’s joke.

Direção: Wes Craven
Elenco: Neve Campbell, Courteney Cox, David Arquette, Emma Roberts, Hayden Panettiere, Nico Tortorella, Adam Brody, Kristen Bell, Anna Paquin
Scream 4, EUA, 2011, Terror, 111 minutos
Sinopse: Sidney Prescott (Neve Campbell) está de volta a sua cidade natal, Woodsboro, onde sobreviveu a uma série de terríveis assassinatos. Uma vez lá, ela reencontra o xerife Dewey (David Arquette) e a jornalista Gale (Courteney Cox), agora casados, e também a prima Jill (Emma Roberts). Mas enquanto a cidade comemorava o aniversário dos crimes, novos assassinatos começam a acontecer e o retorno de Ghostface, o assassino da máscara, parece ser uma nova realidade para a cidade que novamente entra em pânico.

Gostaria que alguém me corrigisse se eu estiver errado, mas quando criticamos ou fazemos piada (no mau sentido) de alguma coisa, não é sinal de que faríamos tudo diferente? Vamos levar como exemplo Pânico 4. Durante vários momentos, o filme de Wes Craven tira sarro do próprio gênero e, inclusive, faz referências a outras franquias para mostrar como o terror anda desgastado. Uma personagem, por exemplo, chega a mencionar Jogos Mortais 4 como nojento e desprovido de evolução de personagens. Ora, se Pânico 4 faz tanta questão de mostrar o cansaço do gênero terror e de fazer piada das previsibilidades desses filmes, era de se esperar que o quarto volume da série não fosse, pelo menos, repetir esses aspectos que tanto critica.
Grande engano. Chega a ser até irônico acompanhar uma história que se contradiz em diversos momentos. Pânico 4, ao mesmo tempo que tira sarro dos formatos dos filmes de terror, constrói sua história justamente em torno desses moldes. Resumo da história: ri e “critica”, mas vai lá e segue justamente o que lhe serve como alvo de deboche. Por um outro lado, a boa notícia é que a franquia continua com a mesma eficiência de antes. Não vejo muita diferença entre os três primeiros filmes e, em termos de suspense, esse quarto não se difere muito dos anteriores. O mesmo tipo de desenvolvimento, repetição de resoluções, sequências de tensão já conhecidas e por aí vai… Para quem aprecia, um prato cheio, claro.
Inclusive, existem algumas melhorias. Não lembro de sequências tão tensas como as do quarto volume. Claro que elas são bem parecidas com as dos longas anteriores, mas parecem providas de um maior realismo ou, até mesmo, de maior competência em jogar sangue para todos os lados mesmo. Junto a isso, permanecem os personagens com as mesmas características: o policial pamonha que não resolve nada vivido por David Arquette, a inescrupulosa jornalista de Courteney Cox e a sofrida Sidney Prescott interpretada por Neve Campbell. No sentido de reviver a série e de matar a saudade, Pânico 4 cumpre sua missão com louvor – até porque o resultado consegue ser bem divertido, mesmo com piadas que nada acrescentam, como aquela que diz que gays não morrem em filmes de terror (?!).
No entanto, volta-se para aquela questão citada anteriomente. Aliás, devo dizer que, em determinado momento, pensei que Pânico 4 fosse, de fato, escapar das obviedades e se diferenciar dos filmes que tanto satiriza. Nos momentos finais, estava pronto para aplaudir uma decisão madura da equipe. Mas eis que eles não conseguiram ir adiante com a escolha. Faltou a coragem e a inovação que eles próprios exigem dos filmes de terror atuais. No final das contas, aqueles dois personagens cinéfilos que “racionalizam” os assassinatos através de filmes sintetizam bem o que é Pânico 4: um filme esquematizado e que não escapa da cartilha trabalhada por eles antes. Emma Roberts e sua personagem que deixa forte impressão mereciam resoluções que, de fato, viessem justificar o pôster do longa que diz existir novas regras para uma nova década. O que se viu, afinal, foi um bom remember dos filmes anteriores. Nada de novo…
FILME: 7.5

Uma Manhã Gloriosa

Direção: Roger Michell
Elenco: Rachel McAdams, Harrison Ford, Diane Keaton, Patrick Wilson, Jeff Goldblum, Jeff Hiller, Linda Powell, Joseph J. Vargas, Mike Hydeck
Morning Glory, EUA, 2010, Comédia, 107 minutos
Sinopse: Becky Fuller (Rachel McAdams) é uma produtora de televisão que foi demitida de seu programa de notícias, mas consegue uma vaga para tentar levantar a moral de outro uma nova emissora. O único problema é que para conseguir isso terá que fazer muitas mudanças, entre elas, convencer o premiado Mike Pomeroy (Harrison Ford) a apresentar matérias de moda, amenidades, de conteúdo fraco e, para piorar, ao lado de uma ex miss Arizona (Diane Keaton), seu desafeto. Com pouco tempo para reverter a queda de audiência, Beck vai ter que ser virar para driblar o humor de seu elenco, ser reconhecida profissionalmente e ainda viver um novo amor. Será que vai dar certo?

Na série 30 Rock, Tina Fey interpreta Liz Lemon, a roteirista do programa de humor The Girlie Show. Muito mais do que criar as situações que os personagens terão que encenar, ela também tem que lidar com a confusão dos bastidores e o confronto de estrelismos dos principais protagonistas do The Girlie Show, Tracy (Tracy Morgan) e Jenna (Jane Krakowski). A situação não é muito diferente em Uma Manhã Gloriosa, onde Rachel McAdams assume um papel muito parecido com o de Tina Fey. O problema é que o filme está longe de ter aquela originalidade tão presente em 30 Rock.
Com roteiro de Aline Brosh McKenna (do deliciosamente pop O Diabo Veste Prada), Uma Manhã Gloriosa dá mais uma oportunidade para Rachel McAdams protagonizar uma comédia. Ela, que foi destaque em Meninas Malvadas e no previsível mas agradável Tudo em Família, parece estar sempre condenada à posição de coadjuvante. A verdade é que, por mais que a moça tente, não consegue a ter o calibre necessário para sustentar sozinha um longa-metragem. O grande público não reconhece o seu nome e ela muito menos tem alguma característica marcante. Eficiente, mas apenas isso – e com algumas ressalvas.
O filme, entretanto, é feliz em várias escolhas. Vamos elogiar primeiro, por exemplo, a escolha do diretor Roger Michell de não apostar tanto em romance (afinal, isso seria justificável, já que ele é o diretor de Um Lugar Chamado Notting Hill) e de não incluir grandes clichês da comédia. Uma Manhã Gloriosa não resulta em uma comédia original, mas sim contida naqueles exageros que estamos acostumados a ver atualmente. O filme é beneficiado, também, pela própria temática que, de certa forma, ameniza a possibilidade do mau gosto aparecer.
Tudo está muito bem encaminhado (leia-se descompromissado e assistível) durante boa parte do filme. Mas eis que, na última meia hora, a história começa a tomar rumos desnecessários. A comédia começa a se tornar quase que apelativa (não foi muito confortável ver Diane Keaton beijando um sapo ou sendo vítima do xixi de um gambá) e os dramas começam a trazer lições de morais mais do que previsíveis. Não precisávamos ver o casal entre tapas e beijos se acertando ou, então, o personagem rabugento dando o braço a torner e falando de seus draminhas pessoais para a protagonista…
Uma Manhã Gloriosa quase coloca tudo a perder no seu ato final cheio de escolhas que poderiam ter sido evitadas. O alívio para nós espectadores é que só precisamos nos lembrar do que estávamos assistindo até então: um filme leve, sem grosserias e que serve perfeitamente para satisfazer aquela vontade de ver algo que não exige raciocíonio e que nos divirta. É assim que Uma Manhã Gloriosa funciona. Começa melhor do que acaba, mas nada preocupante para uma comédia que não tem qualquer intuito de ser marcante.
FILME: 6.5

Entrando Numa Fria Maior Ainda Com a Família
Yeah, well I have eyes too, so I’ll be watching you… watching me.

Direção: Paul Weitz
Elenco: Ben Stiller, Robert De Niro, Blythe Danner, Jessica Alba, Teri Polo, Owen Wilson, Barbra Streisand, Dustin Hoffman, Laura Dern, Daisy Tahan
Little Fockers, EUA, 2010, Comédia, 98 minutos
Sinopse: Pam (Teri Polo) e Greg (Ben Stiller) vivem felizes e são pais dos gêmeos Henry e Ashley Focker, de cinco anos. Quando todo o clã de Greg e Pam – incluindo o ex-apaixonado de Pam, Kevin (Owen Wilson) – se reúne para a festa de aniversário dos gêmeos, Greg tem que provar para o cético Jack (Robert De Niro) que ele é inteiramente capaz de ser o homem da casa. E o desafio põe Greg numa enrascada: ou ele prova para todos que vai assumir o lugar de Jack e conduzir a família ou quebra o “círculo de confiança” para sempre.

Não existe qualquer justificativa plausível que explique essa segunda continuação de Entrando Numa Fria. O primeiro foi bem divertido, mas o segundo já não trazia o mesmo vigor (ainda que trouxesse novos personagens e certa “razão” para existir). O terceiro filme, por outro lado, traz um enredo completamente comum e que, em nenhum momento, demonstra qualquer motivo para que essa história tenha sido contada.
O problema já começa pelo tom das piadas. Agora a equipe inventou que vômito, arroto e ereções são os ingredientes para uma boa comédia. Não sei qual a quantidade de amor próprio de Robert De Niro, mas, a julgar por Entrando Numa Fria Maior Ainda Com a Família, podemos dizer que é quase zero. Ok, nos outros filmes ele se divertia e tudo mais… Mas será mesmo que o ator de marcantes atuações como O Franco Atirador e Touro Indomável precisava se rebaixar em, por exemplo, cenas de socos e pontapés com Ben Stiller numa piscina de bolinhas?
Em suma, o vigor já não é mais o mesmo – e não só no que se refere a Robert De Niro ou a todo o elenco (nem Ben Stiller parece mais se divertir com a brincadeira), mas também ao enredo. A rivalidade entre os personagens principais já saturou e todas as piadas possíveis já foram exploradas. Constata-se, então, que Entrando Numa Fria virou uma típica comédia pastelão norte-americana: comercial, com piadas bobas e conflitos ainda mais bobocas.
Para não me acusarem de rabugento, digo que até existem momentos de descontração (vindos, claro, do elenco – afinal, não podemos nos esquecer que os atores são bons). No entanto, fica complicado ter boa vontade com uma franquia que já esgotou suas ideias e que faz uma segunda continuação sem uma história que, de fato, sustente um filme. Os acontecimentos de Entrando Numa Fria Maior Ainda Com a Família são fracos, assim como o produto final. Espero que parem por aqui, sinceramente.
FILME: 5.5

Cópia Fiel

Direção: Abbas Kiarostami
Elenco: Juliette Binoche, William Shimell, Jean-Claude Carrière, Agathe Natanson, Gianna Gianchetti, Adrian Moore, Angelo Barbagallo
Copie Conforme, França, 2010, Drama, 106 minutos
Sinopse: James Miller (William Shimell) é um filósofo inglês que vai a uma pequena cidade da Toscana apresentar seu livro sobre o valor da cópia na arte. Chegando lá, encontra Elle (Juliete Binoche), uma francesa que é dona de uma galeria de arte há muitos anos, que vive com seu filho pré-adolescente (Adrian moore). Eles passam a tarde juntos. Ao mesmo tempo em que vão se conhecendo, começam a desenvolver um complexo jogo de interpretação de personagens.

Sei que vou despertar iras descontroladas após esse comentário, mas devo dizer que Cópia Fiel é um filme admirado por um número significativo de cinéfilos pedantes. Ou seja, é filme de arte, que fala sobre arte e que questiona arte. Portanto, todo mundo tem que adorar. Caso contrário, você não entende nada de cinema e muito menos compreendeu o que o diretor quis dizer. Então, é com muito receio que escrevo sobre esse Cópia Fiel, um longa-metragem cheio de altos e baixos e que funciona melhor na teoria do que na prática. O filme recebeu maior destaque mundial por ter vencido a Palma de Ouro de melhor atriz em Cannes para a francesa Juliette Binoche.
Partindo do mesmo argumento que o documentarista brasileiro Eduardo Coutinho utilizou em Jogo de Cena (o jogo entre ficção e realidade), o filme de Abbas Kiarostami demora para mostrar ao público quais são as suas reais intenções. O resultado chega a ser particularmente torturante até a metade, onde longas cenas tomam forma com milhares de diálogos sobre crítica, arte e afins. Ok, isso é necessário para preparar o espectador para o que o filme está prestes a colocar em debate, mas precisava ocupar tanto tempo e apostar em conversas tão cansativas?
A partir do momento em que os personagens param em uma cafeteria da Itália, a situação de tédio é revertida. Nesse momento, o clima de Cópia Fiel fica muito mais instigante e o filme passa a fluir com mais dinamismo. Portanto, a ótima química entre Juliette Binoche e William Shimell passa a ser instrumento fundamental para situar o espectador na misteriosa situação em que os personagens estão envolvidos. Afinal, os personagens estão representando ou, de fato, falando sobre uma história deles próprios?
Binoche, claro, sai beneficiada por ter o papel mais sentimental e expressivo. Shimell não fica muito atrás, mas o brilho é quase todo de Binoche, que já sai ganhando por ter uma sinceridade muito grande em suas expressões. A francesa sempre foi uma atriz que passa muita humanidade e aqui não é diferente. Binoche e Shimell são vitoriosos na hora de transmitir para o espectador tudo aquilo que o roteiro tem certa dificuldade em passar em vários momentos.
Cópia Fiel, como já citado, torna-se um produto cinematográfico muito mais interessante na teoria do que na prática. As discussões geradas pelo diretor Kiarostami são intrigantes. O filme nem tanto. Na realidade, não é aquele tipo de história que necessita de revisões para ser melhor analisado, como Dúvida, por exemplo. Cópia Fiel é objetivo no que deseja passar (leia-se questionamentos), mas não é brilhante nos meios que utiliza para alcançar isso. O resultado, afinal, está longe de ser o que dizem por aí. Filme para se debater, não necessariamente para se admirar. E aí, devo ser levado em menor consideração só por causa disso?
FILME: 6.5
