Cinema e Argumento

Esposa de Mentirinha

Direção: Dennis Dugan

Elenco: Adam Sandler, Jennifer Aniston, Brooklyn Decker, Nicole Kidman, Nick Swardson, Bailee Madison, Griffin Gluck, Dave Matthews, Kevin Nealon

Just Go With It, EUA, 2011, Comédia, 117 minutos

Sinopse: Danny Maccabee (Adam Sandler) queria um relacionamento sério, mas foi infeliz em sua tentativa de casamento. Para driblar a carência, passa a vivenciar somente namoricos e transas sem o menor compromisso. Assim, ele toca sua vida como cirurgião plástico bem sucedido, tendo sua melhor amiga Katherine (Jennifer Aniston), mãe solteira de um casal de pirralhos, como fiel escudeira. Mas um dia ele conhece a jovem Palmer (Brooklyn Decker) e a paixão toma conta de ambos. Disposto a se casar com ela, Danny pisa na bola quando, para conquistá-la, inventa que é marido da amiga, pai das crianças e que vai se separar. Começa então uma verdadeira aventura amorosa recheada de confusões de todos os tipos.

Nem me lembrava da última vez que assisti a um filme de Adam Sandler. Gostava dele quando tinha meus 13 anos de idade e adorei, por exemplo, Como Se Fosse a Primeira Vez. O tempo passou, eu cresci e pude perceber que Adam Sandler é  um péssimo sujeito. Não só tem o dom de fazer sempre o mesmo tipo de filme como também consegue tornar quase que insuportável um longa que, talvez, seria diferente sem a sua presença. Porque, sejamos sinceros, Esposa de Mentirinha é um filme perdido – mas, certamente, seria mais assistível caso Sandler não estivesse presente.

Partindo da velha premissa de um protagonista que começa contando uma pequena mentira, mas que, aos poucos, está cada vez mais submerso nesse mundo, Esposa de Mentirinha tenta de tudo para ser uma boa comédia. Excetuando fatos absurdos e irrelevantes para o gênero (o protagonista é infinitamente rico e ninguém parece perceber que ele é um completo imbecil), o diretor Dennis Dugan tenta fazer um feel good movie de férias com personagens excêntricos. Dá para fazer com qualidade? Claro qie sim,  até o episódio especial de Chaves em Acapulco conseguiu provar isso! Mas muita coisa dá errada em Esposa de Mentirinha

A principal delas é não saber qual o limite da excentricidade. Dá para engolir personagens sem noção, mas é difícil conviver com figuras que, de tão bizarras, chegam a ser ridículas – em especial o insuportável personagem de Nick Swardson. De resto, podemos citar situações bobas (até respiração boca-a-boca com uma ovelha!), falta de conexão entre as cenas e por aí vai… Jennifer Aniston está ali fazendo o que pode – e ela é um ponto positivo, vale ressaltar – assim como Nicole Kidman aparece bem à vontade em cena, fazendo um papel diferente do que lhe é oferecido. O destaque também vai para a garota Bailee Madison, sempre impagável toda vez que aparece.

No entanto, nada é capaz de apagar a inconveniência de Adam Sandler. Ele, que hoje tem 45 anos de idade, interpreta sempre o mesmo tipo e já demonstra estar batido (ou seria “velho”?) para histórias assim. Exagerado, sem carisma e inconvicente, ele coloca quase tudo a perder em Esposa de Mentirinha. Sem ele, o filme seria uma bobagem assistível repleta de defeitos perdoáveis – aquela comédia com exageros e que aposta no romance para concluir a história.  Contudo, a presença de Sandler faz questão não apenas de evidenciar esses defeitos, mas também de maximizá-los.

FILME: 5.5

Deixe-me Entrar

I told you we couldn’t be friends.

Direção: Matt Reeves

Elenco: Kodi Smit-McPhee, Chloe Moretz, Richard Jenkins, Cara Buono, Elias Koteas, Sasha Barrese, Dylan Kenin, Chris Browning, Ritchie Coster

Let Me In, EUA, 2010, Suspense, 115 minutos

Sinopse: Owen (Kodi Smit-McPhee) é um garoto solitário, que vive com a mãe e é sempre provocado pelos valentões da escola. Um dia ele conhece, perto de sua casa, Abby (Chloe Moretz). Sempre nas sombras, ela aos poucos de aproxima de Owen e logo se tornam amigos. Só que Abby possui um segredo: ela é muito mais velha que sua aparência indica e necessita de sangue para sobreviver. Para consegui-lo, seu acompanhante (Richard Jenkins) realiza assassinatos na surdina, de forma a retirar o sangue das vítimas e levá-lo para Abby.

Raramente refilmagens norte-americanas de filmes estrangeiros funcionam, principalmente quando elas são feitas às pressas e pouco tempo depois do original ter recebido destaque. Se Quarentena, remake do maravilhoso terror espanhol [REC] foi um exemplo de como isso pode dar errado, Deixe-me Entrar vem para trazer algumas surpresas. Derivado do sueco Deixe Ela Entrar, de 2008, esse remake de Matt Reeves prova que copiar a ideia de outros países, às vezes, pode funcionar.

Talvez fosse justamente essa veia mais comercial que impedia Deixe Ela Entrar de ser um grande filme. O original tinha suas boas ideias, mas não apresentava o ritmo necessário para atingir um grande público. Ele se alternava entre o suspense e o drama humano, o que afastava aqueles que procuravam uma história mais dinâmica no mistério. Deixe-me Entrar corrigiu isso e apresentou um resultado mais abrangente. Claro que muito se perde – as estéticas norte-americanas para o suspense não são lá tão originais e aqui isso fica presente na irregular trilha de Michael Giacchino, que varia entre a diversidade e o previsível – mas, no geral, mostra-se mais eficiente que o original.

Sorte que a história, na transição de países, não perdeu aquilo que era o seu principal foco: a relação entre os dois personagens principais. E esse é outro aspecto muito interessante dessa refilmagem. Trazendo dois ótimos atores para os jovens papeis (Kodi Smit-McPhee, de A Estrada, e Chloe Moretz, de Kick-Ass), o enredo ficou ainda mais verossímil por causa deles. Eles seguram o filme com segurança, especialmente porque os coadjuvantes não possuem tanta importância – e Richard Jenkins, por exemplo, tem pouco a fazer com seu papel limitado.

Mesmo que levemente superior ao filme sueco, Deixe-me Entrar não consegue se desvencilhar da incômoda sensação que deixa de trabalho requentado. Não existe nada de muito novo (a não ser, como já mencionado, um tratamento maior de suspense) e fica mais do que claro que não existem razões artistícas para esse filme ter sido feito. Como sempre, é uma jogada comercial. Existem cenas idênticas, assim como as resoluções. Com isso, Deixe-me Entrar não consegue contar nada além de uma história repetida. Se fosse o original e não a cópia, certamente seria ainda mais interessante…

FILME: 8.0

Em Um Mundo Melhor

Direção: Susanne Bier

Elenco: Mikael Persbrandt, Trine Dyrholm, Ulrich Thomsen, Markus Rygaard, William Jøhnk Nielsen, Camilla Gottlieb, Satu Helena Mikkelinen, Kim Bodnia

Hævnen, Dinamarca/Suécia, Drama, 119 minutos

Sinopse: Anton (Mikael Persbrandt) é um médico que trabalha em um campo de refugiados na África. Ele divide seu tempo entre os dias que passa trabalhando e outros em casa, em uma pacata cidade na Dinamarca. Anton tem dois filhos com Marianne (Trine Dyrholm), de quem está se separando contra a vontade. Elias (Markus Ryggard), seu filho mais velho, sofre com a perseguição no colégio de um garoto maior que ele. A situação muda quando conhece Christian (William Johnk Nielsen), que perdeu a mãe recentemente e acaba de se mudar para o local. Após defender Elias, Christian é agredido. Como vingança, dá uma surra no garoto e o ameaça com uma faca. A partir de então Elias e Christian se tornam grandes amigos. Só que um plano de vingança mais ousado coloca em risco a vida de ambos.

Em Um Mundo Melhor começa parecendo um filme convencional, como se a diretor Susanne Bier estivesse ainda reproduzindo as obviedades do melodrama que apresentou no cinema norte-americano em Coisas Que Perdemos Pelo Caminho. Logo no início, acompanhamos um médico olhando crianças africanas correndo, felizes e sorridentes, atrás de seu caminhão. Essa é uma cena clássica de filmes passados na África. Por isso, Em Um Mundo Melhor deixava a sensação que seria mais uma dessas histórias previsíveis ou, então, de monotonia como Lugar Nenhum na África. O filme, entretanto, segue um caminho bem diferente.

Essa produção vencedora do Oscar 2011 de melhor filme estrangeiro pouco se foca no trabalho do protagonista como médico na África (isso é só uma storyline secundária), mas sim em dramas humanos sobre relacionamentos encenados em uma pequena cidade da Dinamarca. Dramas que, por sinal, são muito interessantes e consistentes, versando sobre os mais diversos assuntos como casamentos despedaçados, a dor de um filho ao ter perdido a mãe, bullying e a falta de comunicação em uma família. Nada fora do lugar, tudo dosado com a devida intensidade, trazendo um ritmo dinâmico para essa história que deve ser facilmente acessível a todos.

Em Um Mundo Melhor ainda tem a seu favor personagens muito complexos, que trabalham em plena sintonia com os acontecimentos criados para eles. Se os adultos expressam, sem qualquer artificialidade, os dilemas de pessoas maduras (em especial o casal que está passando por um processo de separação), as crianças exemplificam com eficiência as consequências de descobertas perigosas e a falta de compreensão do mundo adulto. São personagens que nunca fogem da realidade e que, pelo excelente trabalho de elenco, se tornam ainda mais verdadeiros, com destaque para a revelação do jovem William Jøhnk Juels Nielsen. Susanne Bier, portanto, uniu dramas envolventes com personagens bem escritos e situações atraentes, que variam entre a tensão e o drama sentimental.

Outro mérito de Em Um Mundo Melhor é conseguir fazer, sem dificuldade alguma, a transição entre adultos e personagens. Nenhuma abordagem se sobrepõe à outra e, quando se cruzam, possuem a mesma eficiência de quando trabalhadas separadamente. Claro que ainda existem situações avulsas, como a do maquiavélico africano que violenta mulheres grávidas, mas nada que tire o excelente ritmo do longa dinamarquês. Apesar de tantas virtudes e acertos, Em Um Mundo Melhor é um filme momentâneo. Assim, é fácil apreciar o filme na hora e se envolver com cada história contada por ele. Porém, os créditos finais chegam e, minutos depois, parece que o filme não está mais com você. Nesse sentido, não é tão eficiente como poderia ser. Mas, convenhamos, quem dá grande importância a isso quando ele funciona justamente quando tem que funcionar: na hora em que estamos sentados à sua frente?

FILME: 8.5

Capturing Mary

The worst of all possible thoughts: what might have been.

Direção: Stephen Poliakoff

Elenco: Maggie Smith, David Williams, Ruth Wilson, Danny Lee Wynter, Gemma Arterton, Michael Byers, Max Dowler, Jack Berkeley, Rebecca Bottone

Inglaterra, 2007, Drama, 98 minutos

Sinopse: Um jovem (Danny Lee Wynter) leva uma velha senhora (Maggie Smith) a uma profunda exploração de seu passado, para um época quando, ainda jovem e famosa escritora, conheceu um estranho que afetou a sua vida para sempre.

Quando menos esperamos, surge um certo alguém em nossas vidas que muda toda a nossa história. Pode ser aquele amigo especial ou, então, um grande amor. Para Mary (Maggie Smith), a situação não é bem assim. A vida dela foi transormada, é verdade. Porém, ela faz parte daquela parcela que tem sua vida afetada por pessoas “negativas”. Depois que conheceu um homem numa festa de elite, ela nunca mais foi a mesma. Mary teve bloqueio criativo, perdeu empregos e viveu com ansiedade por muito tempo após um único encontro com esse homem. Ele era misterioso e encantador, mas não no bom sentido.

Capturing Mary, então, faz o retrato de uma vida interrompida. A Mary de Maggie Smith nunca conseguiu viver em paz em função desse sujeito que a assombrou durante tantos anos a sua memória. O problema é que esse telefilme não define muito bem as razões da protagonista sentir-se tão incomodada com o outro personagem. Afinal, ela estava apaixonada, fragilizada ou escandalizada?  Então, acompanhamos com interesse o que se sucedeu na vida de Mary, mas nunca compreendemos muito bem a razão dos sentimentos da personagem.

Adotando aquele clássico estilo da velhinha que conta uma história de sua juventude para um personagem mais novo, Capturing Mary é uma produção da TV inglesa que recebeu destaque em função de Maggie Smith (indicada ao Emmy de melhor atriz por sua interpretação aqui). Não é todo dia que temos a honra de assistir a um trabalho dessa excelente veterana. Assim, é, no mínimio, recompensador acompanhar Capturing Mary por causa de Maggie. É certo que o filme não lhe dá grandes chances (ela nada mais é do que uma narradora de fatos). Entretanto, a atriz tem aquela humanidade que é transmitida com um simples olhar. Sua presença basta.

Elegante em seu trabalho técnico (destaque especial para os ótimos figurinos), Capturing Mary traz aquela habitual qualidade britânica no que se refere ao seu formato – tanto na técnica quanto na narrativa. A belíssima trilha de Adrian Johnston (vencedora do BAFTA) também é outro atestado de qualidade. Capturing Mary, no balanço final, tem saldo positivo. A ressalva é que, se tivesse explorado melhor as motivações sentimentais de sua protagonista e se não apresentasse um formato tão limitado dramaticamente para Maggie Smith, teria sido um filme mais interessante.

FILME: 7.5

Como Você Sabe

Happiness in life is about finding out what you want and learning how to ask for help to get what you want.

Direção: James L. Brooks

Elenco: Reese Witherspoon, Paul Rudd, Owen Wilson, Jack Nicholson, Kathryn Hahn, Mark Linn-Baker, Lenny Venito, Molly Price, Ron McLarty

How Do You Know, EUA, 2010, 121 minutos

Sinopse: Lisa Jorgenson (Reese Witherspoon) reencontrou o amigo de longa data George (Paul Rudd) no meio de uma crise em seu relacionamento com Manny (Owen Wilson). Enquanto Manny pelo coração de sua amada, George encara um tremendo problema financeiro, que só serve para temperar ainda mais esse complicado e divertido triângulo amoroso.

James L. Brooks é um sujeito que conquista as pessoas com um talento que poucos possuem. Vejam só: ele cria histórias completamente comuns sobre personagens do dia-a-dia e, a partir de uma abordagem linear e previsível, faz interessantes análises sobre relacionamentos humanos. Laços de Ternura e Melhor é Impossível comprovam esse estilo do diretor. No entanto, em alguns casos, uma mesma fórmula não dá certo a vida inteira. Espanglês já foi um aviso disso e, agora, Como Você Sabe aponta que, talvez, o momento do diretor abandonar esse estilo já chegou.

Para um filme estrelado por dois atores reconhecidos da comédia, Como Você Sabe tem muito pouco de humor. É uma propaganda enganosa. Se você pensa que encontrará uma história divertida e com piadas “comerciais”, pode mudar de ideia. O longa de James L. Brooks, na verdade, é interminável (ele sempre tem a chata mania de levar mais de duas horas para contar uma história), sem sal, inexpressivo e monótono. Não dei uma risada o filme inteiro e acompanhava com muita impaciência esse enredo fraquíssimo estrelado por personagens desprovidos de carisma.

Portanto, Como Você Sabe já começa errando na história, que é totalmente sem força (afinal, a principal abordagem é a comédia, o triângulo amoroso ou o drama?). Além disso, os pers0nagens são mal desenvolvidos, unilaterais, sem grandes variações e apáticos. Tudo isso resulta em desperdício de elenco, roteiro e diretor. Em suma, é um filme que tenta ser uma comédia com reflexões e dramas pessoais, mas nada dá certo. Falta ritmo e carisma para esse trabalho pobre em argumentos e criatividade. Nada acontece em Como Você Sabe. E essa é a pior sensação que pode existir em um filme.

Não sei qual público vai conseguir apreciar esse resultado bocejante. De verdade. A inexpressividade é tanta que não dá nem para definir a quem Como Você Sabe é dirigido. Aos fãs de James L. Brooks? Aos que gostam de comédias contidas? Ao público de Reese Witherspoon, Paul Rudd, Owen Wilson e Jack Nicholson? Não sei. O filme é corretinho e tudo mais (lamento ver um elenco satisfatório envolvido nesse projeto), mas nunca dá sinais de que está sequer perto de decolar. Tedioso, Como Você Sabe é para ser esquecido de tão irrelevante. Atenção, mr. Brooks, hora de trocar o disco!

FILME: 4.5