Como Esquecer
O que será que é o contrário do amor?

Direção: Malu de Martino
Elenco: Ana Paula Arósio, Murilo Rosa, Natália Lage, Arieta Corrêa, Bianca Comparato, Pierre Baitelli, Ana Kutner, Lia Racy, Ana Baird
Brasil, 2010, Drama, 100 minutos
Sinopse: Júlia (Ana Paula Arósio) é professora de literatura inglesa e não se conforma de ter sido abandonada por sua companheira Antônia depois de 10 anos de relacionamento. Agora, de mal com a vida, ela luta para enfrentar os fantasmas das recordações e para isso vai contar com o apoio do amigo Hugo (Murilo Rosa), um gay viúvo, com quem irá dividir um novo lar e tentar aprender que a vida segue em frente e os sentimentos perduram.

Não é muito fácil, no cinema brasileiro, encontrar filmes que conseguem construir histórias introspectivas e que, ao mesmo tempo, possuem o dom de falar de literatura e realizar reflexões sem transmitir uma sensação didática. É por isso que Como Esquecer termina como uma experiência surpreendente. Ao narrar de forma natural a solidão de dois homossexuais que perderam, cada um ao seu modo, os seus respectivos parceiros, o filme da diretora Malu de Martino traz um caráter reflexivo muito eficiente e, acima de tudo, verossímil.
Só de conseguir o feito de não parecer falso nesse aspecto, Como Esquecer já merecia reconhecimento. Ora, trazer algumas dicussões sobre a obra de, por exemplo, Emily Brontë e Virginia Woolf, e ainda fazer um retrato da solidão construído por narrações em off não é tarefas das mais fáceis. E, ainda que o filme esteja longe de ser um primor nesse sentido, pelo menos consegue estar acima da média de tantos longas nacionais que se afundam em questionamentos existencialistas que soam falsos até mesmo para o pior livro de auto-ajuda.
Claro que a constante presença da narração em off e que a insistência de frases de efeito podem incomodar muitas pessoas (e, em alguns momentos, o filme, de fato, soa meio formulaico), mas nada que chegue a incomodar o espectador que está disposto a encarar essa história que também é muito sutil na abordagem sexual. Como Esquecer está longe de fazer caricatura dos gays ou de apelar para ferramentas sexuais (leia-se cenas mais apelativas nesse aspecto). É um tapa na cara, por exemplo, do também brasileiro – e péssimo – Do Começo ao Fim.
Com tantos aspectos positivos, fica fácil acompanhar esse filme bem escrito e também interpretado com precisão. Ainda que antiquado em alguns setores (parece que foi filmado na década passada), consegue se sair muito bem naquilo que é primordial: o conteúdo. Como Esquecer não é para o grande público e muito menos se propõe a ser um longa pronto para vender a causa gay. É um conto sobre solidão, pessoas difíceis e o momento certo de abandonar a dor. Brilhante e revolucionário? Nem pensar. Mas quem disse que precisa ser assim para ser bom?
FILME: 8.0

Água Para Elefantes
As long as we can walk, we play.

Direção: Francis Lawrence
Elenco: Robert Pattinson, Reese Witherspoon, Christoph Waltz, Hal Holbrook, Paul Schneider, Mark Povinelli, Richard Brake, Donna W. Scott, Sam Anderson
Water for Elephants, EUA, 2011, Drama/Romance, 120 minutos
Sinopse: Jacob Jankowski (Hal Holbrook) já passou dos 90 anos e não consegue esquecer seus momentos da juventude nos anos 30, período difícil da economia americana, que o levou a trabalhar num circo. Foi lá, enquanto era jovem (Robert Pattinson) e um ex estudante de Veterinária, que ele conheceu a brutalidade dos homens com seus pares e também com os animais, mas encontrou a mulher por quem se apaixonou. Marlena (Reese Whiterspoon) era a Encantora dos Cavalos, a principal atração e esposa do dono do circo: August (Christoph Waltz) um homem carismático, mas extremamente perigoso quando suas duas paixões estavam em jogo.

De todos os filmes que já conferi com Robert Pattinson, esse deve ter sido aquele em que o ator menos me incomodou com sua presença. Para falar bem a verdade, Pattinson está longe de ser um problema em Água Para Elefantes. O incômodo é outro: o triângulo amoroso. Reese Witherspoon, Christoph Waltz e Robert Pattinson não possuem absolutamente nada em comum e é visível a falta de química entre eles. O longa de Francis Lawrence já tem contra si o fato de ser meio antiquado, mas a situação se agrava com atores que não mostram sintonia.
Transportando o espectador para o mundo dos circos (mas sem aquele belíssimo apuro estético que Tim Burton conseguiu em Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas, por exemplo), Água Para Elefantes faz de tudo para contar uma história de amor ao estilo antigo, onde o casal vive um romance proíbido e é ameaçado por um cruel vilão que tem completo domínio sobre a mocinha e sobre o lugar onde ela trabalha. Essa história já foi contada milhares de vezes (Baz Luhrmann que o diga, em Moulin Rouge!), mas Água Para Elefantes deixa a sensação de estar parado no tempo.
Esse é um filme que poderia ter funcionado em décadas passadas – e podem acreditar que ele teria vários fãs – mas hoje soa ultrapassado. A culpa não é apenas dos atores (e não estou apontando ninguém em individual e sim a falta de química entre eles), mas também do roteiro de Richard LaGravenese, que conduz tudo da maneira mais linear possível. No final das contas, Água Para Elefantes além de ser muito açucarado em seu romance (o que deve ser atraente para determinados públicos) é também insosso. Que mistura de sensações, hein?
FILME: 6.0

A Minha Versão do Amor
This is the paternal wisdom I’m gonna get?

Direção: Richard J. Lewis
Elenco: Paul Giamatti, Rosamund Pike, Dustin Hoffman, Minnie Driver, Rachelle Lefevre, Scott Speedman, Macha Grenon, Thomas Trabacchi, Clé Bennett
Barney’s Version, EUA, 2010, Drama, 134 minutos
Sinopse: Barney Panofsky (Paul Giamatti) tem 65 anos e trabalha em uma produtora de TV. Inconformado com a separação, ele se diverte azucrinando o novo marido de sua ex-esposa. Por ficar muito sozinho, já que seus filhos estão crescidos, ele passa a relembrar fatos do passado. De como se casou com Clara (Rachelle Lefevre), ao acreditar que ela estava grávida de um filho seu, e, um ano depois, com sua segunda esposa (Minnie Driver). No mesmo dia do casamento ele conhece e se apaixona por Miriam (Rosamund Pike). A partir de então Barney tenta conquistá-la a todo custo, passando por cima de seu casamento. Para atingir seu objetivo ele contará com a ajuda não intencional de Boogie (Scott Speedman), seu melhor amigo.

A Minha Versão do Amor é aquele tipo de filme que narra os amores e os conflitos de um personagem através das décadas. Numa comparação bem aleatória, lembra o estilo de O Amor nos Tempos do Cólera. Só que histórias como essa precisam de protagonistas envolventes e sedutores e não difíceis como Barney (Paul Giamatti), o indeciso e perdido protagonista de A Minha Versão do Amor. Ao contrário de seu intérprete, Barney não tem a força necessária para sustentar sozinho a simpatia de um longa-metragem que já tem contra si uma duração exacerbada.
Barney casa e, no dia do próprio casamento, já está apaixonado por outra mulher. Quando alcança o que deseja, comete uma traição. Ele tem ataques repentinos de insatisfação e não controla muito bem o que diz. Ok, se é difícil simpatizar com Barney, pelo menos temos Paul Giamatti para compensar esse problema. Ele, que chegou a vencer o Globo de Ouro de melhor ator em comédia/musical por esse filme, certamente é o ponto alto desse filme que não ousa em sua estrutura – é o típico drama que vai e volta no tempo sem grandes surpresas.
Contando com Giamatti no topo do elenco, A Minha Versão do Amor ainda ganha pontos no excelente desempenho de Rosamund Pike e nas cenas do impagável Dustin Hoffman. Eles são uma excelente razão para se assistir a esse filme que tem na sua exagerada duração o seu maior problema. São mais de duas horas para contar uma história que está longe de ser extraordinária ou apaixonante como o roteiro pensa que é. A Minha Versão do Amor é simples e, inclusive, se fosse objetivo e sem tantos rodeios, poderia ser um pouco mais interessante…
FILME: 6.5

Namorados Para Sempre
I didn’t want to be somebody’s husband and I didn’t want to be somebody’s dad. That wasn’t my goal in life. But somehow it was.

Direção: Derek Cianfrance
Elenco: Michelle Williams, Ryan Gosling, Faith Wladyka, John Doman, Mike Vogel, Marshall Johnson, Jen Jones, Maryann Plunkett, James Benatti
Blue Valentine, EUA, 2010, Drama, 112 minutos
Sinopse: Casados há vários anos e com uma filha, Cindy (Michelle Williams) e Dean (Ryan Gosling) passam por um momento de crise, vendo o relacionamento ser contaminado por uma série de incertezas. Dispostos a seguir em frente, os dois tentam superar os problemas, buscando no passado e no presente os motivos que o mantiveram unidos até este momento e os fizeram se apaixonar um pelo outro.

Quem escolheu o título Namorados Para Sempre para representar Blue Valentine no Brasil deveria ser processado. Sério. Das péssimas versões brasileiras para os nomes originais desse ano, essa é a mais absurda de todas. Essa história está longe de ser romântica ou de falar sobre a felicidade de um relacionamento a dois. Pelo contrário, Namorados Para Sempre traz um olhar desesperançoso e amargo do amor, onde o roteiro está preocupado em mostrar o cotidiano de um casal que está desmoronando um pouco mais a cada dia.
Nem mesmo o início do relacionamento do casal chega a ter um teor muito romântico ou feliz. Namorados Para Sempre é negativo do início ao fim. Como fã convicto desse tipo de tratamento, aprovei completamente o estilo adotado pelo diretor Derek Cianfrance. Ele cria um filme que não traz questionamentos inéditos, mas que consegue fazer dramaticidade mais do que satisfatória com o que está trabalhando. O resultado se afasta do enganoso título brasileiro e apresenta um longa-metragem independente dirigido ao público adulto que está disposto a acompanhar uma história de amor problemático.
Mesmo que o roteiro seja bom, não existe outro aspecto tão interessante como a ótima sintonia entre o casal Ryan Gosling e Michelle Williams. Ela, indicada ao Oscar por seu desempenho, tem o papel de mais destaque – e também o mais difícil. Muito humana e verdadeira, Williams consegue ser até superior ao seu colega Gosling (que já provou ser um ator incontestável em longas como A Garota Ideal). A química entre os dois é ótima e, mais do que nunca, isso é muito importante, já que eles estão representando uma história de amor dolorosa. Eles, junto com o roteiro, entregam um bom filme que está sendo vendido da maneira errada e com muito descaso. Merecia uma divulgação melhor.
FILME: 8.0

A Garota da Capa Vermelha
If you love her, you’ll let her go.

Direção: Catherine Hardwicke
Elenco: Amanda Seyfried, Gary Oldman, Julie Christie, Virginia Madsen, Shiloh Fernandez, Max Irons, Lukas Haas, Shauna Kain, Michael Hogan
Red Riding Hood, EUA, 2011, Suspense, 100 minutos
Sinopse: Idade Média. Valerie (Amanda Seyfried) é uma jovem que vive em um vilarejo aterrorizado por um lobisomem. Ela é apaixonada por Peter (Shiloh Fernandes), mas seus pais querem que se case com Henry (Max Irons), um homem rico. Diante da situação, Valerie e Peter planejam fugir. Só que os planos do casal vão por água abaixo quando a irmã mais velha de Valerie é assassinada pelo lobisomem que ronda a região.

Há muito tempo já podemos notar que o cinema está vivendo uma forte crise de personalidade. Contudo, desde o ano passado, a situação está se agravando. Nunca vimos continuações tão desnecessárias, adaptações que nada acrescentam ou até mesmo longas com ideias novas, mas ruins. Um dos expoentes dessa fase sem inspiração da sétima arte é o pavoroso A Garota da Capa Vermelha, uma catastrófica interpretação do conto de Chapeuzinho Vermelho com clima de Crepúsculo e A Vila. Dirigido pela perdida Catherine Hardwicke, que um dia conseguiu nos enganar com o bom Aos Treze, o filme é um amontoado de escolhas erradas.
Capaz de causar dor de cabeça até no mais paciente dos espectadortes, A Garota da Capa Vermelha não acerta em nenhuma investida. Se tenta fazer qualquer referência ao conto de Chapeuzinho Vermelho, cai no ridículo – a cena de Julie Christie com dentes, olhos e boca grande como lobo mau no sonho da protagonista é constrangedora. Quando aposta no romance, desenvolve mal os personagens e ainda apresenta um triângulo amoroso formado por jovens sem qualquer carisma. Na hora do suspense, cria uma tensão pobre e clichê sobre “em quem devo confiar?”. Ou seja, A Garota da Capa Vermelha tenta ser um pouco de tudo, mas, no final, não consegue ser absolutamente nada.
Carente de ritmo, o roteiro desperdiça até mesmo as chances do elenco. Ao passo que Amanda Seyfried já mostrou que é atriz de um tipo só, coadjuvantes como Julie Christie e Gary Oldman (esse sofrendo com o personagem caricato e vilanizado do jeito mais exagerado possível) permanecem como figuras sem qualquer eficiência. É uma pena que nem o clima do vilarejo faça uma boa ambientação (algo que M. Night Shyamalan realizou com maestria em A Vila)… No final, A Garota da Capa Vermelha ainda apresenta resoluções pífias e um romantismo barato para solocionar a paixonite da protagonista. O horror, o horror!
FILME: 1.0
