Ponto Final
O vazio não é sinal de tristeza… É estímulo para sonhar e escrever uma outra história.

Direção: Marcelo Taranto
Elenco: Roberto Bomtempo, Hermila Guedes, Othon Bastos, Dedina Bernadelli, Silvio Guindane, Julia Bernat
Brasil, 2011, Drama, 103 minutos
Sinopse: Os sentimentos de culpa e indignação do executivo Davi (Roberto Bomtempo) servem de fio condutor de Ponto Final. Sua filha Beatriz (Julia Bernat), vítima da violência, era uma jovem que acreditava na boa índole dos brasileiros e a vocação do Brasil para o amor. Era aqui que iriam acontecer as grandes mudanças. O pai, ao contrário, sempre achou este país uma vergonha, por valorizar que há de pior e mais medíocre na sociedade. Para Davi, a própria vida nos obriga a fechar sentimentos e bens materiais. Assim, nesses dias de tantos medos e desconfianças, em que, cada vez mais, o ser humano sente necessidade de trancar tudo o que tem, trancando-se a si mesmo, a história aborda a superação da perda e a capacidade que as pessoas têm para enfrentar as adversidades.

Se você tiver acesso ao roteiro de Ponto Final, não perca a oportunidade e leia tudinho. Pronto. Não há razão para assistir ao filme. Agora, de maneira alguma estou dizendo que as surpresas do filme seriam estragadas se você já soubesse de todos os fatos da história. Esse meu conselho, na realidade, é pra poupar você de um grande sofrimento. Por quê? Ora, Ponto Final, do diretor Marcelo Taranto, transmite a incômoda sensação de que apenas copiou frases de livros de auto-ajuda e colocou na boca dos atores. Então, é mais fácil ler o roteiro e copiar as frases de efeito para colocar no Twitter ou no Facebook…
Sim, confundir linguagens é um erro que pode ser fatal. Se muitos diretores são criticados por dar ênfase demais ao tom teatral em obras cinematográficas (é o caso, por exemplo, de John Patrick Shanley, em Dúvida), também existem aqueles que se perdem em narrativas literárias (ou pomposas) demais. Tudo o que é dito pelos atores em Ponto Final soa falso: todos falam corretamente, como se tivessem decorado uma gramática. Além, claro, de todo aquele ar poético… Haja paciência, então, para aguentar tanta encenação nesse filme que parece ter o dobro de duração do que realmente tem.
Porém, os problemas não param por aí, principalmente ao complicar uma história muito simples, já que o roteiro faz questão de ir e voltar no tempo, deixando tudo ainda mais confuso. Acrescente a isso imaginações dos personagens, repetições e tantas outras decisões que não ajudam em nada. Ponto Final era sobre o luto de um pai que acaba de perder a filha e que, agora, não consegue superar a dor e resolve se revoltar contra o Brasil devido às circunstâncias da morte de sua filha. Pretexto para choradeiras sem efeito (o luto é demonstrado de forma fria) e discursos políticos previsíveis.
Bem que Roberto Bomtempo, Hermila Guedes e Othon Bastos tentaram… No entanto, não foi o suficiente para tirar Ponto Final da gigantesca decepção. Já comentei por aqui que pior que filme ruim é filme chato. É o caso desse longa de Taranto – que, também, tem uma montagem mal resolvida, onde certos cortes parecem anunciar o desfecho milhares de vezes. Monótono, esse trabalho não transmite emoção, confunde, irrita e mostra que um filme não se faz a partir de frases bonitas e bem proclamadas. Um bom resultado vai muito além disso…
FILME: 3.0

* Exibido no 39º Festival de Cinema de Gramado
Melancolia
Life is only on Earth. And not for long.

Direção: Lars Von Trier
Elenco: Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg, Kiefer Sutherland, Alexander Skarsgård, John Hurt, Charlotte Rampling, Stellan Skarsgård, Cameron Spurr, Brady Corbet
Melancholia, Dinamarca/Suécia/França/Alemanha, 2011, Drama, 136 minutos
Sinopse: Um planeta chamado Melancolia está prestes a colidir com a Terra, o que resultaria em sua destruição por completo. Neste contexto Justine (Kirsten Dunst) está prestes a se casar com Michael (Alexander Skarsgard). Ela recebe a ajuda de sua irmã, Claire (Charlotte Gainsbourg), que juntamente com seu marido John (Kiefer Sutherland) realiza uma festa suntuosa para a comemoração.

Lars Von Trier nunca quis amenizar a sua fama de difícil. Recentemente banido de Cannes (numa atitude exagerada do Festival, vale comentar), o diretor traumatizou atrizes, como Nicole Kidman, que anunciaram sofrer nas mãos dele. Tal personalidade forte e complicada também está evidente em quase todos os trabalhos de Lars Von Trier. Gostar ou não dele é uma questão extremamente pessoal, uma vez que seus trabalhos, independente de serem bons ou ruins, possuem características únicas. O “ame ou odeie” envolvendo o diretor dinamarquês se acentuou ainda mais nos últimos anos, desde Dogville até Anticristo, longas que apresentavam muitas polêmicas e que, por diversas vezes, pareciam evidenciar uma certa vontade de Trier de chamar ainda mais atenção. Por sorte, Melancolia foge desse grupo: o filme estrelado por Kirsten Dunst é até comedido para os padrões do diretor.
Nos primeiros momentos do filme, tudo parecia indicar para uma nova versão de Anticristo. Ou seja, um prólogo lindamente conduzido e o anúncio de que a história seria divida em partes. Só que, na medida em que Melancolia avança, pode-se até estranhar o jeito de Von Trier apresentar os dramas de seus personagens e todos os dilemas que estão escondidos nas entrelinhas. O estilo dele está ali (até hoje mantem aqueles cortes ligeiros e que nunca deixam de causar estranhamento), mas as ousadias estão amenizadas. Não encontramos aqui, por exemplo, a ambientação pretensiosa de Dogville ou muito menos a loucura dos personagens de Anticristo. Melancolia é, na realidade, um drama bem conduzido em todos os sentidos: os personagens são aprofundados na medida exata e os acontecimentos possuem o teor necessário de dramaticidade. Gratificante ver um Lars Von Trier mais acessível e que apresenta complexidades mais atraentes para o público que não se identifica tanto com sua filmografia – como é o meu caso.
Uma jogada muito interessante de Melancolia é dividir a história em duas partes. E o mais importante: anunciar essa divisão. O enredo está, de fato, divido. Na primeira parte, o casamento de Justine (Kirsten Dunst) e todos os dramas pessoais dos convidados nos bastidores. Na segunda, a angústia de Claire (Charlotte Gainsbourg) ao saber que o planeta Melancolia está, possivelmente, prestes a colidir com a Terra e acabar com a vida humana. Assim, temos um filme muito reflexivo até a metade e, depois, uma experiência até mesmo angustiante. O diretor se sai muito bem nas duas abordagens, explorando sempre a belíssima ópera de Richard Wagner para Tristão e Isolda, que serve como ferramenta musical, e as belas imagens proporcionadas por esse planeta que, de certa forma, guia a história. Com isso, claro, destaca-se também o elenco, desde as vencedoras da Palma de Ouro, Kirsten Dunst e Charlotte Gainsbourg, até o elenco de suporte.
Melancolia, em sua conclusão, prova que Lars Von Trier sabe sim realizar dramas bem pontuados sem ter que ficar utilizando cenas polêmicas ou usando outros tipos de alegoria que fazem com que seus filmes sejam discutidos em todos os cantos. E foi assim que o diretor, pela primeira vez, me conquistou de verdade: utilizando todo o seu talento plástico (que sempre esteve evidente em outras obras) em prol de uma trama igualmente competente e envolvente. Se os acertos do diretor se expandiram, alguns erros continuam ali presentes. Melancolia ainda é cinema que não agrada a todos e o seu desenvolvimento pausado pode, sem dúvida, afastar muita gente. Só que a história envolve e nunca sai dos trilhos. É, portanto, uma satisfação constatar que esse diretor inspirado que há tanto tempo diziam ser merecedor de celebrações realmente existe. Só espero que não seja apenas dessa vez que ele tenha aparecido para mim…
FILME: 8.5

NA PREMIAÇÃO 2011 DO CINEMA E ARGUMENTO:


Polêmica sem discussão

País do Desejo, exibido pela primeira vez no Brasil na 39ª edição do Festival de Cinema de Gramado, é um filme estranho. O diretor Paulo Caldas seleciona várias polêmicas, atira tudo no ventilador e deixa que o espectador crie as discussões. Não existe conteúdo nesse longa-metragem e sim uma vitrine apresentando vários assuntos controversos que são costurados de forma simplória pelo roteiro. Aborto, estupro, doação de órgãos e questões religiosas são tópicos explorados com muita superficialidade por um filme que carece de consistência. Chega até a incomodar a forma como País do Desejo faz questão de criar um amontoado de situações que causam inúmeras discussões.
Chegando ao cúmulo de mostrar uma japonesa comendo hóstias com ketchup enquanto está lendo um mangá pornô, o roteiro também comete outros deslizes completamente amadores. Vamos citar pelo menos dois que são gritantes. Primeiro, o fato de que a personagem de Maria Padilha faz hemodiálise há dez anos e não tem qualquer fragilidade física aparente. Ela usa lindos vestidos com decotes e tem uma aparência bem saúdavel para alguém que está há tanto tempo se tratando. O segundo (e pior) é criar um romance sem dar qualquer aviso prévio. Os personagens conversam uma vez e, poucos minutos depois, o roteiro anuncia que existe uma paixão ali. Uma paixão tão avassaladora que muda os valores dos personagens. Assim, de uma hora pra outra.
Difícil engolir problemas que poderiam ser facilmente contornáveis. O que acontece é que, como já dito, a vontade do longa não é contar bem uma história e sim fazer barulho. E isso fica evidente até para os menos críticos, que podem notar cenas mais compridas do que o necessário (notem o padre de Fábio Assunção caminhando em câmera lenta com seus cabelos esvoaçantes no corredor do hospital) e decisões abruptas que não convencem. São erros que, se inexistentes, deixariam País do Desejo no nível do satisfatório. Mas não dá para perdoar deficiências tão amadoras. Por isso, o resultado termina como extremamente raso e superficial. Criar polêmica não basta. Além de discuti-la, a missão de um filme também é de, no mínimo, encená-la de forma convicente…
Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual

Direção: Gustavo Taretto
Elenco: Javier Drolas, Pilar López de Ayala, Rafael Ferro, Carla Peterson, Inés Efron, Adrián Navarro, Romina Paula
Medianeras, Argentina, 2011, Drama, 95 minutos
Sinopse: Mariana (Pilar López de Ayala), Martin (Javier Drolas) e a cidade. Os dois vivem na mesma quadra, em apartamentos um de frente para o outro, mas nunca conseguem se encontrar. Eles se cruzam sem saber da existência do outro. Ela sobe as escadas, ele desce as escadas; ela entra no ônibus, ele sai do ônibus. Eles frequentam a mesma videolocadora, sempre com um stand de filmes os separando. Eles sentam na mesma fileira em um cinema, mas a sala é escura. A cidade que os coloca juntos é a mesma que os separa.

Ninguém deve se preocupar ao assistir a Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual e ficar se questionando de ele não lembra outro filme. O longa argentino utiliza muitas ferramentas de (500) Dias Com Ela para narrar sua história – mas sem nunca copiar o trabalho do diretor Marc Webb. No trabalho de Gustavo Taretto, acompanhamos as vidas de duas pessoas que nem se conhecem, mas que moram muito perto e possuem muitas angústias em comum. Ela, que acaba de sair de um relacionamento fracassado, está remoendo as lembranças com o antigo namorado. Ele, que praticamente só se envolve com internet, foi abandonado pela namorada e agora tenta se adaptar a sua nova vida. Reflexões sentimentais, dramas humanos e humor leve. Tudo isso nessa grata surpresa do cinema argentino.
O início de Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual já anuncia uma história muito dinâmica. Apresentando uma inteligente e eficaz narração em off (que se alterna entre os personagens durante todo o filme, sem nunca perder a originalidade), fala sobre as incoerências da arquitetura de Buenos Aires. Os prédios de tamanhos desproporcionais, a forma como a cidade ignora a natureza e o desencontro de estilos são, de certa forma, uma referência para aquilo que o diretor está prestes a ilustrar: como pessoas tão parecidas e que moram tão perto ficam sem se conhecer em função da falta de alguma ajuda do destino. Encontramos pessoas diferentes a todo momento, mas quase nunca aquelas que poderiam realmente nos ascrescentar algo. Ou seja, originalidade é a palavra-chave de Medianeras, que nunca cai em clichês e constantemente dá provas de que faz escolhas certas.
Essa história, no entanto, não seria a mesma se o filme não tivesse dois atores tão seguros no papel. Javier Drolas e Pilar López de Ayala, cada um ao seu modo, criam figuras que possuem histórias e sentimentos em comum, mas que, em nenhum momento, parecem cópias um do outro. É fácil torcer pelos dois. Não importa se eles vão vicar juntos ou não, mas queremos que encontrem a felicidade. Se não for possível que o destino os una, pelo menos que dê um jeito de cada um se livrar de suas frustrações. Isso é mais um reflexo de um roteiro bem contruído: separados ou juntos, os personagens funcionam. É maravilhoso que um complete a linha dramática do outro, mas também é igualmente satisfatória a forma individual da narrativa de cada um.
O empecilho, para alguns, pode ser o mesmo que o apresentado por (500) Dias Com Ela: é uma história que pode ser apreciada mais pelos jovens do que pelos adultos (muitos dizem que o filme não tem profundidade, o que não é verdade). Só que isso é apenas detalhe, uma vez que Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual é original e eficiente como cinema. Independente do público, deve ser um consenso que esse filme é mais uma prova de talento dos nossos vizinhos argentinos… Porque, sinceramente, dá gosto de ver um trabalho tão atual e dinâmico, que, além de mexer com algumas lembranças (a referência ao livro Onde Está Wally? é ótima), encerre tudo de forma incrivelmente agradável ao som de Ain’t No Moutain High Enough. Mais do que recomendado.
FILME: 8.5

* Exibido no 39º Festival de Cinema de Gramado
Vejo Você no Próximo Verão
I am for you.

Direção: Philip Seymour Hoffman
Elenco: Philip Seymour Hoffman, Amy Ryan, John Ortiz, Daphne Rubin-Vega, Richard Petrocelli, Thomas McCarthy, Lola Glaudini, Trevor Long, Stephen Mailer
Jack Goes Boating, EUA, 2010, Drama, 91 minutos
Sinopse: Jack (Philip Seymour Hoffman) é um motorista de limusine e é amigo do seu companheiro de trabalho, Clyde (John Ortiz). Clyde é casado com Lucy (Daphne Rubin-Vega), que é amiga de Connie (Amy Ryan). Clyde apresenta Connie a Jack, e ele encontra nessa relação um motivo para dar uma guinada em sua vida: procurar uma nova profissão, aprender a cozinhar e se esforçar para realizar um desejo de Connie: um passeio de barco no verão. Enquanto a relação entre Jack e Connie vai se tornando cada vez mais sólida, o casamento de Clyde e Lucy está prestes a ruir.

Não costumo ter muitas expectativas com projetos dirigidos por atores, principalmente quando a pessoa em questão está assumindo pela primeira vez a cadeira de diretor. Por sorte, conferi Vejo Você no Próximo Verão somente por causa da história e nem fiquei sabendo que Philip Seymour Hoffman era o responsável pela obra. Com isso, foi ainda maior a minha admiração por esse filme quando, nos créditos finais, constatei que ele era dirigido pelo ator. Dessa maneira, pelo menos para mim, Hoffman é um ator excepcional e, agora, um nome a ser observado como diretor.
O filme mostra o relacionamento de duas pessoas desajustadas, mas que, ao se conhecerem, encontram uma luz no fim do túnel e uma razão para mudar. Vejo Você no Próximo Verão trabalha com muita sensibilidade os problemas emocionais de dois protagonistas que poderiam facilmente cair na caricatura. Ainda bem que isso não acontece! É surpreendente a forma como os personagens de Philip Seymour Hoffman e Amy Ryan são tratados de forma muito humana e nunca se tornam estereotipados. São figuras que o cinema já mostrou várias vezes e que Vejo Você no Próximo Verão faz questão de aproximar da realidade.
Na história, também existe outro casal, interpretado por John Ortiz e Daphne Rubin-Vega. Seus papeis são justamente o oposto dos já citados: pessoas que não possuem problemas em se socializar e que não têm dificuldades em, por exemplo, executar um trabalho ou expressar sentimentos. Só que, enquanto Jack e Connie de Hoffman e Ryan estão em curva ascendente no relacionamento afetivo, Cyde e Lucy estão desmoronando. E, mais uma vez, o roteiro acerta ao nunca apresentar extremos ou deixar batida demais a forma como esses opostos são trabalhados.
Vejo Você no Próximo Verão, além de ter excelentes interpretações de Philip Seymour Hoffman e Amy Ryan (ambos formando mais uma dupla maravilhosa, depois de Ryan Gosling e Michelle Williams em Namorados Para Sempre), é uma obra muito melancólica, principalmente porque a trilha instrumental de Grizzly Bear e a coletânea que traz Cat Power, DeVotchKa, entre outros, faz questão de dar esse tom junto junto com o roteiro e a direção. A neve e o inverno também estão ali para dar ainda mais essa sensação. Mas, como já dito, tudo sem ser piegas.
A primeira exibição de Vejo Você no Próximo Verão aconteceu no festival de Sundance e o filme percorreu timidamente os maiores circuitos. É óbvio que um longa desse estilo (independente, mas sem aquele tom muito alternativo que limita a percepção de muitos) não ganharia amplitude comercial. No entanto, merecia ter maior apreço do público e da crítica que tanto valoriza esse tipo de cinema. Tenho certeza que muitos vão se surpreender com essa obra de Philip Seymour Hoffman. Ele ainda não está 100%, mas, sem dúvida alguma, está num caminho muito promissor como diretor!
FILME: 8.5
