Um Dia
If I can’t talk to you, then what is the point of you? Of us?

Direção: Lone Scherfig
Elenco: Anne Hathaway, Jim Sturgess, Patricia Clarkson, Jodie Whittaker, Rafe Spall, Tom Mison, Joséphine de la Baume, Ken Stott, Heida Reed
One Day, EUA/Inglaterra, 2011, Romance, 107 minutos
Sinopse: Vinte anos. Duas pessoas. Em Um Dia, Emily (Anne Hathaway) e Dexter (Jim Sturgess) se conhecem e, a princípio, assumem que não dariam certo juntos. Tentando manter uma amizade, os dois convivem durante anos, mas um sentimento diferente sempre permanece escondido. Diversas situações levam os dois personagens a uma conclusão: eles foram feitos um para o outro. Mas será mesmo que a vida está disposta a juntá-los?

Um Dia começa em 15 de julho de 2006. Na primeira cena, acompanhamos Emily (Anne Hathaway) andando de bicicleta por uma rua. O calendário, então, muda e o filme volta para o dia 15 de julho de 1986. Qualquer cinéfilo mais experiente – e diria que até os menos dedicados – já conseguem deduzir que, quando uma história começa a partir de certo ponto na primeira cena para, depois, voltar no tempo, é porque algo vai acontecer. Na maioria das vezes, envolve um final trágico ou uma trama mirabolante para explicar como tudo chegou surpreendentemente naquele ponto. É exatamente por esse começo já indicando que algo pode acontecer a qualquer momento que Um Dia se torna previsível. Desconfiamos que algo vai acontecer, principalmente quando o filme é definido por vários que o assistem como “lindo” e “triste”. Só incomoda o fato de que Um Dia é triste por razões erradas e óbvias, perdendo a oportunidade de fazer algo diferente e genuinamente doloroso.
Dirigido por Lone Scherfig com um charme habitual (mas não o suficiente para se igualar ao ótimo Educação), Um Dia é sobre as idas e vindas de duas pessoas que, a princípio, pensam ser somente amigas mas que, com o passar dos anos, percebem que existe muito mais do que apenas amizade entre elas. É uma temática batida, é verdade, mas que, se trabalhada com os devidos toques de melancolia e sutileza, consegue ir além de um mero filme romântico bem construído: pode até mesmo fazer com que a identificação do público com a história seja um grande ponto a favor. E se a narrativa estruturada em anos (o longa ilustra de 1986 a 2006 o relacionamento dos personagens) poderia ser um problema, não é o que acontece aqui. O divisor de águas está na abordagem do tema. Enquanto os mais românticos encontram em Um Dia um filme água com açúcar, os que esperam algo mais consistente do ponto de vista dramático podem se decepcionar com a falta de profundidade.
A culpa está longe de ser dos protagonistas, até porque Anne Hathaway prova, cada vez mais, ser uma figura extremamente iluminada e carismática. O que define a aceitação do filme é o gosto pessoal de quem o assiste. Se você procura romance, encontrará. Agora, se você, assim como eu, procura algo mais emotivo que não seja tão tendencioso para o lado romântico, pode até existir certa decepção. E essas duas abordagens estão claramente dividias: na primeira metade, o longa se dedica inteiramente a mostrar a juventude dos protagonistas e como o laço entre os dois começou a ser formado; na segunda, já se preocupa em mostrar como eles, já maduros e com vidas estabelecidas, ainda procuram, apesar dos erros, algum tipo de paz emocional. Um Dia acerta justamente quando fala sobre os sonhos perdidos, sobre aquilo que não deu certo ou sobre certas coisas que, talvez, não sejam mais possíveis de se colocar em prática (o segmento do ano 2000 evidencia bem isso). Só que, infelizmente, o longa de Lone Scherfig está mais preocupado em utilizar as ferramentas de romance e de fazer com que o espectador torça pelos dois. Assim, percorre o caminho que tem mais aceitação mas que, como sabemos, paga o preço por ser previsível.
Um Dia, que acerta na escolha de atores e na forma como estrutura a narrativa, perde pontos somente nessa essência previsível em que insiste colocar a todo momento. A história pode ser, como já disseram, bonita, mas não sei até que ponto isso vale quando podemos prever tudo o que está prestes a acontecer. Longe de mim dizer que Um Dia é uma má opção – só desejaria que essa história fosse triste por outras razões e não por um fato óbvio e até mesmo gratuito. De qualquer forma, excetuando essas minhas implicâncias, pode-se dizer que Um Dia acertará em cheio aqueles que gostam de romances açucarados. Não só em função da estética, das locações (Paris presente novamente!), de Anne Hathaway ou dessa aposta constante na simpatia pelos dois personagens. Mas porque é um filme que tem todos os elementos para agradar seu público-alvo. O restante deve se contentar com um filme que está no limite do satisfatório e que não cruza essa barreira por ter certo receio em ousar com outro tipo de infelicidade que não seja a do desfecho – que simplifica demais uma história que poderia ter ido além.
FILME: 7.5

Os Muppets
We all agreed, celebrities aren’t people.

Direção: James Bobin
Elenco: Jason Segel, Amy Adams, Chris Cooper, Alan Arking, Jack Black, Emily Blunt, Whoopi Goldberg, John Krasinski, Zach Galifianakis, Jim Parsons, David Grohl, Selena Gomes. Com as vozes de: Steve Whitmire, Eric Jacobson, Dave Goelz, Bill Barretta, David Rudman, Matt Vogel, Peter Linz
The Muppets, EUA, Comédia, 98 minutos
Sinopse: Walter (voz de Peter Linz), fã dos Muppets, viaja junto com seus amigos Gary (Jason Segal) e Mary (Amy Adams) para Los Angeles. Lá, eles descobrem que Tex Richman (Chris Cooper) quer destruir o Muppet Theatre para explorar o petróleo que recém foi descoberto no local. O trio, então, devide salvar o lugar. Para tanto, reúnem mais uma vez os Muppets, com o objetivo de realizar um programa de TV que consiga arrecadação de dez milhões de dólares.

Algo que pode ser concluído com Os Muppets é que desenhos e filmes infantis estão dialogando tanto com as crianças quanto com os adultos. Se Up – Altas Aventuras tinha uma cena arrasadora sobre a brevidade de nossa existência e Toy Story 3 falava sobre as dores e felicidades de crescer, Os Muppets vem para mostrar que sempre é possível recuperar o passado e que nada está perdido para sempre – basta um puquinho de vontade e determinação para trazer tudo de volta ao presente. Ok, o filme de James Bobin é menos consistente e contundente na sua mensagem do que as animações da Pixar, mas nem por isso deixa de ter seus momentos especiais e, principalmente, de carisma – atribuídos quase que inteiramente aos espetaculares personagens.
É isso mesmo, Os Muppets é todo de Kermit, Piggy, Walter e cia. Sem eles, o filme não teria nem metade da graça que tem. Essa afirmação é baseada no fato de que a história vivida pelos icônicos personagens é óbvia, previsível e até mesmo boba. Incomoda muito a fragilidade da história, que parece ser aleatória, sem muita consistência. Qualquer situação é motivo para piadas ou para alguma trapalhada. É um fiapo de história conduzindo um filme que, em diversos momentos é até meio perdido (notem como as figuras de Jason Segel e Amy Adams alternam entre os papeis de figurante-entra-mudo-sai-calado e de destaque com tramas superficiais) e que, por diversas vezes, aposta em bobeiras: é aquele velho esquema onde um personagem fica o filme inteiro martelando outro para não esquecer de algo e este vai lá e… Esquece!
Ou seja, consistência não é algo que existe em Os Muppets. Só que, sinceramente, não dá para esperar isso de um filme que, claramente, quer ser um remember para o público que já está familiarizado com os personagens e, principalmente, uma diversão para conquistar a parcela infantil. Todas ferramentas de humor são usadas quase que exlusivamente para agradar as crianças – com uma ou outra referência diferente que elas sequer vão entender, como a de miss Piggy fazendo uma paródia de Anne Wintour e Emily Blunt reprisando seu papel de O Diabo Veste Prada como mais uma mal humorada secretária que lida com a chefe megera. Tudo bem básico e inocente, algo que também se reflete nas interpretações de Amy Adams (sempre a mocinha inocente e meiga) e Jason Segal (menos eficiente do que o protagonista deveria ser).
Só que os humanos são o que menos interessa. O show mesmo é dos muppets que conquistam não apenas por seus visuais simplistas, mas por suas personalidades. Figuras encantadoras que sustentam o filme e que, mais importante de tudo, tornam agradável um enredo que, se fosse mostrado em qualquer outro desenho corriqueiro, seria completamente aborrecido. É esse sentimento de nostalgia e de carinho despertado pelos muppets que tornam a experiência tão válida. Entrando no clima deles, conseguimos até encontrar emoção nas lições de moral. Os Muppets, por fim, é isso: leve, sem ousadias, plano e previsível. Mas agradável e inocente como poucas obras do gênero conseguem ser. Tudo isso com uma notável ajuda da ótima trilha sonora – sempre no ponto, transitando da comédia ao drama (sendo Pictures in My Head a minha favorita). Se, após 12 anos sem filme, os muppets queriam retornar, conseguiram esse feito com saldo positivo. Crianças e fãs dos personagens podem se dar por satisfeitos.
FILME: 8.0

NA PREMIAÇÃO 2011 DO CINEMA E ARGUMENTO:

Contos argentinos

Já virou uma espécie de lei: filme argentino é filme maravilhoso. Ok, não podemos negar que os nossos vizinhos são, realmente, muito bons e que muito frequentemente encantam com a facilidade de fazer maravilhas com histórias completamente simples, sobre as pequenas coisas da vida. Só que também precisamos reconhecer que nem tudo que vem da deles é necessariamente um espetáculo. É o caso de Um Conto Chinês, que, como muitos exemplares do País, foi ovacionado pelo público. A diferença é que, aqui, o resultado chega a decepcionar. Estrelado pelo George Clooney argentino Ricardo Darín – que, assim como o norte-americano, faz mil filmes e tem sempre a mesma (eficiente) cara, esse longa de Sebastián Borensztein é, no máximo, agradável. Principalmente num ano em que a narrativa jovem e assuntos mais contemporâneos alcançaram notável desempenho em outro filme vindo do país, Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual.
Um Conto Chinês começa de forma peculiar, com um misto de curiosidade e comédia. Numa bela tarde ensolarada, um casal está num pequeno barco na China. Ele se vira, pega as alianças que estão dentro de uma cesta e se prepara para pedir a moça em casamento. Mas, quando o chinês volta para a amada, uma vaca cai na cabeça dela, matando a pobre chinesa. A partir daí, a história desse rapaz se cruza com a de Roberto (Ricardo Darín), um rabugento argentino que é dono de uma ferragem. E contar qualquer outro detalhe pode estragar Um Conto Chinês, exatamente porque o filme se desenvolve sem qualquer surpresa. É certo que encontramos aqui as sutilezas do cinema argentino, bem como a forma de mostrar enredos de “gente como a gente”. O problema é que o filme é repetitivo, girando em torno de um mesmo assunto o tempo inteiro, sempre sem inovar ou sequer instigar como a cena inicial.
Tal sensação de lugar-comum também fica evidente porque Um Conto Chinês mostra uma situação que já estamos cansados de ver: aquela em que um homem extremamente mal humorado tem sua vida alterada em função de um estranho – e, nesse caso, é fácil lembrar de Gran Torino, já que, em ambos os filmes, o rabugento começa a conviver com um oriental! O coringa que está na manga de Um Conto Chinês é mesmo Ricardo Darín, uma figura que sempre desperta interesse, mesmo quando o filme é apenas regular, como é o caso desse. Com conclusões menos originais do que o esperado, essa experiência cinematográfica agradou muitas pessoas, entrando para a lista dos filmes argentinos venerados. No entanto, acredito que, como já mencionado, seja apenas consequência dessa onda que se instalou de que todo e qualquer longa dos nossos vizinhos é excepcional. Na maioria das vezes, concordo. Dessa vez, não vi o porquê de Um Conto Chinês receber tantos elogios. Não que seja ruim, só é bem menos do que todos apontaram.
A Saga Crepúsculo: Amanhecer – Parte 1
No measure of time with you will be long enough.

Direção: Bill Condon
Elenco: Kristen Stewart, Robert Pattinson, Taylor Lautner, Peter Facinelli, Sarah Clarke, Billy Burke, Kellan Lutz, Anna Kendrick, Ashley Greene
The Twilight Saga: Breaking Dawn – Part 1, EUA, 2011, Romance, 117 minutos
Sinopse: Finalmente chega a hora de Bella (Kristen Stewart) e Edward (Robert Pattinson) oficializarem seu romance com um casamento, o que desperta, claro, a tristeza de Jacob (Taylor Lautner). Só que o casamento traz diversas consequências tempestuosas para o casal, já que ambos precisam enfrentar uma nova revolta dos lobisomens e uma gravidez que pode colocar em risco não apenas a vida de Bella, mas a própria convivência no clã dos Cullen.

Antes de qualquer comentário sobre A Saga Crepúsculo: Amanhecer – Parte 1, é necessário compreender o contexto em que o filme está inserido no mundo cinematográfico. Ocupando 50% das salas brasileiras, a primeira parte do último filme da saga comprova que Crepúsculo deixou de ser apenas um filme – é, também, um evento cinematográfico. Indepedente da qualidade e de ser fã ou não, Crepúsculo toma conta de blogs, críticas, TV, rodas de conversa e jornais. Para estar atualizado com cinema, é necessário comentar o filme. Não foram apenas as fervorosas fãs dos livros de Stephenie Meyer que originaram tudo isso, mas também os próprios haters da história, que fazem muito barulho ao criticar o filme com depreciações bombásticas, ironias e piadas envolvendo o romance de Bella (Kristen Stewart) e Edward (Robert Pattinson). Se a saga se tornou tão comentada, a “culpa” é de todos. É aquele velho ditado: falem mal, mas falem de mim. Por fim, os números já mostram o bastante: o primeiro filme arrecadou 392 milhões mundialmente, enquanto o mais recente consegue quase bater facilmente essa marca em apenas uma semana de exibição.
É redundante comentar certos defeitos da saga. Em Amanhecer – Parte 1, por exemplo, sabemos que o elenco estará péssimo. Assim como sabemos tantas outras coisas que nunca mudarão nesse enredo que acabará muito em breve. Por isso mesmo, você assiste aos filmes por conta e risco, já ciente de tudo o que possivelmente aparecerá na tela. A verdade é que assistimos aos filmes (algo que muitos não querem admitir), mesmo sabendo de como podem ser ruins. O que interessa mesmo é poder compartilhar opiniões sobre o assunto do momento, muitas vezes despertando as iras dos fãs ou, então, concordando com aqueles que também não aprovam os longas. E Amanhecer – Parte 1 é exatamente isso: mais do mesmo, nada de novo. Quando escrevi sobre Eclipse, comentei sobre a impressionante falta de expressão da série, que, mesmo com tantos diretores distintos (Catherine Hardwicke, Chris Weitz, David Slade e, agora, Bill Condon) parece ser a mesma do início. Como sempre, no mais recente filme da saga, essa sensação fica presente. Algumas história merecem mais tempo e, por que não, divisão de filmes (em Harry Potter deu certo). Mas, para Crepúsculo, não vejo o porquê de tal necessidade – a não ser, claro, a financeira.
A moral é que o primeiro bloco de Amanhecer – Parte 1, que abrange o casamento e a lua-de-mel do casal, justifica muito bem o porquê das meninas serem apaixonadas pela história. Nesse bloco, estão presentes todos os elementos românticos juvenis para conquistar tal público: trilha embalando momentos de paixão, confissões sentimentais, emoção no casamento e por aí vai… E, até aí, o trabalho de Bill Condon se apresenta de forma satisfatória ao fisgar os corações das meninas. O problema, no entanto, vem depois, onde o filme muda drasticamente de abordagem. O que antes era paixão, agora pode muito bem ser considerado loucura. Não só no que se refere ao comportamento completamente autodestrutivo de Bella só para satisfazer o seu amado e preservar tudo o que eles vivem juntos, mas também a própria forma como ela é tratada pelos membros da família de seu noivo. Chega num certo ponto em que Bella parece uma cobaia: ela bebe sangue de canudinho, recebe injeções e quase não tem nenhuma influência nos rumos de sua vida, onde todos dão palpite deliberadamente sobre o que fazer com ela.
Amanhecer – Parte 1 gira praticamente em torno de dois fatos: o casamento e a gravidez de Bella, comprovando a grave dificuldade da série de não conseguir criar assuntos. Já não é de hoje que os filmes não demonstram consistência do ponto de vista de conteúdo, mas aqui a falta de ação (tanto literal quanto dos personagens) toma conta. É aquela repetição de sempre: Bella é a garota mais especial do mundo, traz intriga mas é amada pela maioria e deve ser defendida até o último minuto. Enquanto isso, o lobisomem Jacob (menos descamisado do que o habitual) parece ser o único com bom senso na história toda. O problema mesmo fica, dessa vez, com o personagem Edward, que nunca esteve tão inconsequente (notem como ele manda a esposa fazer aborto sem sequer perguntar a opinião dela) e como seus dramas são extremamente rasos, a exemplo da cena em que revela, logo no início, um terrível (?!) segredo em que ele, no passado, foi uma espécie de Dexter, o assassino justiceiro do seriado do canal Showtime, matando pessoas ruins para satisfazer sua necessidade de sangue.
É verdade que, como muitas fãs apontam, os personagens são assim porque os livros os definem de tal maneira. Só que estamos falando de cinema. Um filme precisa ser verossímil não apenas para quem leu a obra original, mas também para os leigos que acompanham a história. Portanto, é no mínimo difícil compreender como um casal tão inexpressivo causa tanta polêmica na história e como um lobisomem, visivelmente deslocado naquele mundo submerso em formol, deseja tanto uma figura desagradável. Jacob, por sinal, é um caso à parte. Interpretado pelo jovem Taylor Lautner, o personagem é o que dá certa vitalidade para a história – algo que, inclusive, nos fez crer que eram méritos de Lautner, o que não é verdade, visto a péssima atuação dele no recente Sem Saída. O personagem Jacob representa a paixão que Edward não consegue expressar, a vitalidade física e sentimental que falta no vampiro. Se ele era o fôlego disso tudo, agora é colocado no lixo com uma historia simplesmente absurda envolvendo um bebê. Conseguiram destruir aquilo que existia de menos pior na saga.
O que se tira de Amanhecer – Parte 1 é a certeza de que os filmes são eventos que não podem ser combatidos. Mais uma prova de que opinião não diz nada e que é o dinheiro que comanda tudo. Crepúsculo não vai mudar (e agora já é tarde demais para isso) e, por isso mesmo, não vale a pena perder a paciência ofendendo a história a todo custo ou desdenhando quem a assiste. Para quem não gosta, assim como eu, fica o recado: nós já sabemos como se configura um filme da saga e o jeito, agora, é apenas aproveitar a experiência para compartilhar opinião com os outros. Como já dito, estamos falando de um evento, quer você goste ou não. E Amanhecer – Parte 1 tem todos os ingredientes que fizeram o filme dar certo para quem gosta e errado para quem odeia. Exatamente por isso, termina como “mais” um filme sobre Edward e Bella. É exatamente aquilo que esperamos. Nem mais nem menos. E só pra constar que, como prometido no meu texto de Eclipse, não dei dinheiro para Crepúsculo, assisti Amanhecer – Parte 1 através de um convite. Promessa cumprida!
FILME: 5.5

Tarde Demais
You and your red pen!

Direção: Shawn Ku
Elenco: Michael Sheen, Maria Bello, Kyle Gallner, Bruce French, Austin Nichols, Deidrie Henry, Alan Tudyk, Moon Bloodgood, Michael Call
Beautiful Boy, EUA, 2010, Drama, 100 minutos
Sinopse: Bill (Michael Sheen) e Kate (Maria Bello) são surpreendidos com a notícia de que a universidade onde o filho Sammy (Kyle Gallner) estuda foi alvo de um massacre. A chegada dos policiais confirma que Sammy está morto, mas traz ainda outra notícia estarrecedora: ele foi o causador do massacre. Entre a tristeza pela perda do filho e o choque diante da verdade, Bill e Kate tentam encontrar um motivo para que Sammy tenha cometido este ato. Ao mesmo tempo, eles precisam encontrar forças para seguir adiante, tendo que enfrentar as acusações dos familiares das vítimas e ainda a própria culpa que sentem.

Antes de aceitar o papel de Grace no filme Em Busca de Uma Nova Chance, Susan Sarandon não escondeu a sua relutância em interpretar mais uma mãe que acabara de perder o filho. A atriz, que nos últimos tempos, participou de três filmes onde fazia o papel de uma mãe que estava de luto pela morte de um filho, deveria estar mais do que certa em ser relutante: se o sofrimento do personagem já é visível na tela, imagine, então, o do ator, que precisa passar meses vivendo tais dramas. Tarde Demais, com Michael Sheen e Maria Bello, é mais um filme sobre esse assunto que nos faz refletir sobre como deve ser difícil para um ator mergulhar em tanto sofrimento. Principalmente quando o filme, como é o caso desse, consegue transmitir todas as angústias das figuras que estão na tela.
Aliás, esse é o primeiro passo para um filme sobre a perda de um filho dar certo: conseguir fazer com que o espectador sinta os dramas. Milhares de histórias já foram contadas no gênero, portanto, é no mínimo louvável a vitória de um diretor que ainda consegue envolver o público nessa tristeza. Tarde Demais, ainda que com ressalvas, entra no seleto grupo de filmes que transmite todo e qualquer sentimento dos personagens. E as circunstâncias tornam a história desse filme ainda mais incômoda: os pais não apenas perderam o filho, mas como também o perderam numa chacina onde ele era o assassino! Ou seja, se já não bastasse a missão de se desvencilhar dos clichês de perdas, Tarde Demais também teria que ser cauteloso ao lidar com uma história extremamente delicada e que poderia cair em discussões morais bobas.
Por sorte, o diretor Shawn Ku consegue tratar tudo com a devida dosagem. Aqui, encontramos questões importantes sendo desenvolvidas com precisão, como o respeito ao sofrimento, a responsabilidade na criação dos filhos e até que ponto os pais devem perdoar certas atitudes. O tema, que é muito atual, é colocado à mostra, mas nunca aprofundado em excesso: Tarde Demais deixa para que o espectador faça as suas interpretações. O que interessa aqui é a jornada dos pais, partindo da mistura de choque e dor ao receber a notícia de que o filho, além de ser suicida, é criminoso, até questões mais banais, como arrependimentos que não podem mais ser consertados. No meio disso tudo, ainda encontramos um casal que, antes de tal fato, enfrentava um período de silêncio, à beira de uma separação. A falta de comunicação entre os dois se mostra contundente no momento dessa nova dor, já que ambos têm uma imensa dificuldade em até mesmo dar um abraço para trazer conforto perante a perda do filho.
Tarde Demais deve ser valorizado pelas boas escolhas e pela forma contida que narra os fatos (notem a economia na trilha sonora e como as “explosões” dos personagens nunca soam apelativas), mas também deve ser criticado por optar pela obviedade em alguns momentos. E eles são vários, como a esposa sentimental enfrentando o marido que sofre em silêncio, a dor como forma de aproximar um casal afastado e como ambos tentam culpar um ao outro pela atitude do filho. São abordagens quase inevitáveis nesse temática, mas que o filme nunca deixa que se tonem aborrecidas. No entanto, isso não quer dizer que o longa tenha tantos méritos a ponto de se diferenciar com sobras de outros exemplares. Se fosse para recomendar o filme, seria mais pelos ótimos desempenhos de Michael Sheen e Maria Bello, ambos visivelmente submersos nas dores de seus personagens. E, como é sempre de se esperar em filmes desse estilo, são especialmente eles que fazem tudo valer a pena.
FILME: 7.5
