Cinema e Argumento

O Espetacular Homem-Aranha

We all have secrets: the ones we keep… and the ones that are kept from us.

Direção: Marc Webb

Roteiro: James Vanderbilt, Alvin Sargent e Steve Klose, baseado na história de James Vanderbilt e nos quadrinhos de Stan Lee e Steve Ditko

Elenco: Andrew Garfield, Emma Stone, Rhys Ifans, Martin Sheen, Sally Field, Irrfan Khan, Denis Leary, Campbell Scott, Embeth Davidtz, Max Charles

The Amazing Spider-Man, EUA, 2012, Aventura, 126 minutos

Sinopse: Peter Parker (Andrew Garfield) é um rapaz tímido e estudioso, que inicou há pouco tempo um namoro com a bela Gwen Stacy (Emma Stone), sua colega de colégio. Ele vive com os tios, May (Sally Field) e Ben (Martin Sheen), desde que foi deixado pelos pais, Richard (Campbell Scott) e Mary (Embeth Davidtz). Certo dia, o jovem encontra uma misteriosa maleta que pertenceu a seu pai. O artefato faz com que visite o laboratório do dr. Curt Connors (Rhys Ifans) na Oscorp. Parker está em busca de respostas sobre o que aconteceu com os pais, só que acaba entrando em rota de colisão com o perigoso alter-ego de Connors, o vilão Lagarto. (Adoro Cinema)

É estranho assistir aos emaranhados de teias tomando conta dos créditos iniciais de O Espetacular Homem-Aranha e constatar que não existe mais o emblemático tema criado pelo compositor Danny Elfman. Ele faz falta. Entretanto, essa ausência é apenas o início de muitas outras que serão sentidas ao longo desse reboot. Primeiro é preciso lembrar que a franquia Homem-Aranha comandada por Sam Raimi deu certo por uma razão – em especial os dois primeiros exemplares (sendo o segundo, até hoje, uma das adaptações que mais entendeu o espírito de diversão dos quadrinhos). Proveniente de uma época em que o cinema ainda não lançava dinheiro para o alto com qualquer proposta boba de adaptação, os longas protagonizados por Tobey Maguire eram, de fato, muito interessantes. Mesmo com algumas falhas, eles empolgavam, dialogavam com o espectador. Já o reboot de Marc Webb é mais um exemplar banal de super-herói nessa multidão de filmes idênticos do gênero no cinema recente.

O Espetacular Homem-Aranha levanta, óbvio, a discussão sobre qual a hora certa para se reinstalar uma franquia. E, ao meu ver, o filme estrelado por Andrew Garfield e Emma Stone confirma a hipótese de que contar a mesma história poucos anos depois dela já ter sido apresentada não é lá muito interessante. Digo isso porque até é possível se desligar dos filmes de Sam Raimi, mas a trama é tão idêntica em vários aspectos narrativos que é praticamente inevitável não fazer comparações. Ora, no reboot, acompanhamos o garoto que apanha na escola e que depois é picado por uma aranha. Ele descobre novos poderes e flerta com uma mocinha aparentemente inalcançável. É o gênio da ciência que se envolve com outro gênio e depois descobre os perigos disso. Sofre uma perda familiar, elabora um uniforme e resolve virar justiceiro. Procurado pela polícia, amado pelo povo. Enfim, a mesma história. Contada toda de novo. E inferior ao que Raimi criou em quase todos os aspectos. Sim, reboot significa recomeço. Mas, nesse caso, um recomeço prematuro demais que atrapalha uma nova percepção do enredo.

Não existe razão para O Espetacular Homem-Aranha existir – a não ser, claro a financeira. Nunca li os quadrinhos e não sei se essa versão foi mais fiel que as anteriores. No entanto, como fã de cinema, não consegui me envolver com tal repetição. É claro que Andrew Garfield e Emma Stone são infinitamente melhores que Tobey Maguire e Kirsten Dunst – tanto em termos de atuação quanto na capacidade de apresentar uma adorável química -, mas, de resto, nada é muito inspirado. Culpa nem tanto do diretor, mas sim do roteiro, mais preocupado em ser piadista (irritante norma dos filmes de heroi: todos têm que ter, no mínimo, uma piada a cada cinco minutos) do que cuidar de detalhes básicos, como o descaso com alguns personagens (em certo ponto, nem lembramos mais que a tia May de Sally Field existe) e a má construção do vilão, uma figura desenvolvida superficialmente e que, quando recebe foco, é só para causar barulho, correria e destruição – além de sofrer com efeitos visuais que poderiam ser mais caprichados.

A aventura foi deixada um pouco de lado para que O Espetacular Homem-Aranha falasse mais sobre a personalidade de Peter Parker e os dramas que o assombram desde o sumiço de seus pais na infância. Com esses moldes, portanto, é estranho constatar que, mesmo com quase 2h20 de duração, nada que nós não saibamos sobre o protagonista tenha sido dito. Sem falar, ainda, dos clichês que nunca são colocados de escanteio: a promessa feita no leito de morte, a redenção do bad boy na escola, etc. Essas bobeiras deram certo antes, mas, para um filme que deseja reinstalar uma franquia, tais abordagens poderiam ser minimizadas, principalmente quando a história carece de um espírito diferenciado em uma época onde, como já mencionado, todos os filmes de heróis parecem iguais. Portanto, com sua história repetida e sem novidades, O Espetacular Homem-Aranha faz sentir a sua longa duração.

Não quero me expressar mal e fazer entender que o segundo long de Marc Webb é ruim. Não, não é. Tem suas virtudes (o casal, a história em si que é sempre agradável, a boa produção), mas sofre por quase nos obrigar a fazer comparações com os outros filmes existentes do protagonista. Sim, dessa vez, o reboot prematuro prejudicou a percepção de toda uma parcela de público. Não tenho qualquer receio de dizer que me incluo nesse grupo e que não consegui me livrar das amarras dos filmes anteriores de Raimi. Especialmente porque sou um entusiasta deles. Talvez, O Espetacular Homem-Aranha faça sucesso entre a nova geração (não em termos de bilheteria, porque isso não conta mais como termômetro), mas para quem teve uma pré-adolescência marcada por uma franquia que foi um dos pontapés para o sucesso dos herois que vemos hoje em dia, o trabalho de Webb não se diferencia de seus semelhantes.

FILME: 6.0

Emmy 2012: indicados

“Breaking Bad” não lidera indicações, mas conseguiu vaga em novas e importantes categorias, o que pode levar o programa a uma possível consagração.

Hoje peço licença para falar um pouco sobre TV. O motivo? Saíram os indicados ao Emmy 2012. Como sempre, a lista é cheia de surpresas e bastante imprevisível. A entrega dos prêmios acontece no dia 23 de setembro. Para conferir a lista completa, clique aqui. Abaixo, breves comentários sobre os indicados:

– Sete atrizes indicadas em atriz de comédia. Melissa McCarthy está lá. Laura Linney não. Em que mundo vivemos?

– Jane Krakowski arrasou na sexta temporada de 30 Rock, mas ficou de fora da disputa de atriz coadjuvante.

– Kathryn Joosten foi o coração do último episódio de Desperate Housewives e a indicação foi meio exagerada. Mas não é de hoje que os votantes têm um fraco pela atriz. Imagina agora, então, que a indicação é póstuma.

– A terceira temporada de Modern Family foi bem fraca. O entusiasmo dos votantes poderia ser menor. E menos para The Big Bang Theory também. Muito menos…

– Breaking Bad cresceu bastante desde o último ano. Inclusive, conseguiu novas indicações em categorias de atuação. E a melhor delas é a do clássico tio Salamanca como ator convidado. Mas que todos os atores ganhem, eles merecem! E a série também.

– Glenn Close voltando na disputa. Pena que ela não tem muito o que fazer na fraquíssima quarta temporada de Damages.

– Ainda insistem em Michael C. Hall… Mas pelo menos esqueceram a série de uma vez por todas.

– Downton Abbey é sensação no Emmy mesmo. E a melhor notícia é o reconhecimento para Michelle Dockery e Maggie Smith.

– O que viram em Hemingway & Gellhorn? É o telefilme mais chato em muitos anos!

– Adoro Emma Thompson, mas quem comanda The Song of Lunch é Alan Rickman. O prêmio de melhor atriz vai, claro, para Julianne Moore. Vitória mais aguardada!

– Game Change, por sinal, pode ganhar tudo que não vou ficar triste.

– Não vejo American Horror Story, mas fiquei feliz pela indicação de Frances Conroy, uma atriz excepcional.

Sombras da Noite

If a man can become a monster, then a monster can become a man.

Direção: Tim Burton

Roteiro: Seth Grahame-Smith, baseado na série homônima de Dan Curtis

Elenco: Johnny Depp, Michelle Pfeiffer, Chlöe Grace Moretz, Eva Green, Helena Bonham Carter, Jackie Earle Haley, Christopher Lee, Alice Cooper, Ray Shirley

Dark Shadows, EUA, 2012, Comédia, 113 minutos

Sinopse: 1752. Joshua (Ivan Kaye) e Naomi Collins (Susanna Cappellaro) deixam a cidade inglesa de Liverpool juntamente com o filho, Barnabás, rumo aos Estados Unidos. A intenção deles era escapar de uma terrível maldição que atingiu a família. Vinte anos depois, Barnabás (Johnny Depp) é um playboy inveterado que tem a cidade de Collinsport aos seus pés. Após seduzir e partir o coração de Angelique Bouchard (Eva Green), sem saber que era uma bruxa, ele é transformado em vampiro e preso numa tumba por dois séculos. Quando enfim desperta, dois séculos depois, encontra sua propriedade em ruínas e os poucos familiares ainda vivos escondem segredos uns dos outros. Em meio a um mundo desconhecido, Barnabás se interessa por Victoria Winters (Bella Heathcote), a tutora do jovem David (Gulliver McGrath). (Adoro Cinema)

Tim Burton sabe dar visual a um filme. Só que há um bom tempo já deixou de saber contar uma história. Sweeney Todd, por mais interessante que seja, chama mais atenção pelo lado do musical do que pelo desenvolvimento da trama em si. Alice no País das Maravilhas, então, melhor deixar de lado para não remoer aquela enorme decepção… Por isso, não é surpresa alguma Sombras da Noite causar tanta preguiça e má vontade. Só que a situação é pior do que se esperava: além de ser um dos piores filmes da carreira do diretor, essa nova parceria entre Tim Burton e Johnny Depp só atesta o quanto o primeiro esqueceu de que antes se prioriza a  história para depois  dar atenção ao visual, e como o segundo já decidiu que atuará para sempre no piloto-automático.

Sombras da Noite traz, novamente, um Tim Burton inexpressivo, submerso em uma acomodada repetição de estilo e visual. Só que agora tudo dentro de uma história completamente bagunçada. Ao adaptar a série de TV homônima para o cinema, o diretor, em parceria com o roteirista Seth Grahame-Smith, orquestrou uma história que sofre, justamente, por ter traços episódicos demais. São personagens demais e foco de menos. Nenhuma figura de Sombras da Noite é bem desenvolvida, nem mesmo o próprio protagonista Barnabas Collins (Depp). O filme, assim, é uma miscelânea desinteressante de vários tipos bizarros e situações avulsas. Falta história no filme – e isso, claro, afeta diretamente o ritmo, que se torna arrastado em função da falta de um conflito condutor no roteiro.

Quem é mais benevolente e consegue deixar o senso crítico de lado até pode se divertir com a proposta de humor do filme. Mas, sinceramente, não consegui embarcar em piadas que já foram exploradas à exaustão no cinema, especialmente aquelas do homem que acorda depois de muito tempo e não entende nada de carros, tecnologia e novos comportamentos da sociedade. Definitivamente, originalidade não é a palavra-chave do filme. Já quando tenta dar alguma dimensão dramática ou de suspense para a história, Sombras da Noite usa truques artificiais e sem impacto, como a boba revelação envolvendo um lobisomem e despedidas indiferentes de alguns personagens (Helena Bonham Carter, por exemplo, sai repentinamente da história sem qualquer efeito interessante para o enredo).

O elenco tenta. E parece que eles estão mesmo se divertindo. Só que não nos convidam para a diversão. Ainda vale destacar algo que é de deixar qualquer um profundamente triste: a acomodação de Johnny Depp. Sem entregar um desempenho inovador desde sabe-se lá quando, o ator constrói um Barnabas Collins que nada mais é do que uma infinita variação de trejeitos de outros personagens seus, como o capitão Jack Sparrow (percebam o jeito de andar, as caretas de surpresa, o jeito de mover a boca). Se fosse para eleger alguém que mais se destaca, certamente seria Eva Green – mais pelo que o papel proporciona do que por maiores brilhantismos dela. Ah, e ainda temos a personagem da velhinha avulsa que não diz uma palavra sequer, mas que por ser justamente aleatória tem seu valor.

Se a direção de arte continua boa – mas não inovadora – e o clima sombrio característico do diretor também, por outro lado tais escolhas não surtem mais o mesmo efeito. Inclusive, com Sombras da Noite, é válido questionar até mesmo a capacidade de Burton de fazer homenagens: proposital ou não (e se não for, a situação fica ainda pior), uma das cenas finais é cópia descarada de um momento de A Morte Lhe Cai Bem, do diretor Robert Zemeckis. Só que, se o filme estrelado por Meryl Streep, Goldie Hawn e Bruce Willis era espirituoso e ria de suas próprias bobagens, Sombras da Noite já não consegue ter essa mesma inspiração. Aliás, perto dessa pequena tragédia de Burton, A Morte Lhe Cai Bem pode muito bem ser considerado até obra-prima.

FILME: 4.5

O que passou…

AMOR À PRIMEIRA VISTA (Falling in Love, 1984, de Ulu Grosbard): De todos os filmes menores que Meryl Streep protagonizou nos anos 1980, esse é o que menos sobreviveu com qualidade. Hoje, Amor à Primeira Vista soa antiquado, sem graça e com pouquíssimo a dizer. Talvez até para os padrões da época já tenha sido mediano, mas, com o tempo, só teve suas fragilidades evidenciadas. Devemos ser sinceros e admitir que o longa de Ulu Grosbard está longe de ofender ou sequer ser ruim, mas com Meryl Streep, Robert De Niro e Dianne Wiest, o resultado poderia – e merecia – ser bem superior. Entretanto, é apenas um romance inexpressivo com leves toques de drama. E a mistura nunca empolga. 6.0/10

A DIFÍCIL ARTE DE AMAR (Heartburn, 1986, de Mike Nichols): Se Amor à Primeira Vista não envelheceu muito bem, A Difícil Arte de Amar pode dizer que conseguiu preservar parte de seus pontos positivos. Talvez seja mérito do roteiro da recém falecida Nora Ephron. Ela não é uma grande roteirista, mas levanta questões sempre pertinentes sobre relacionamentos com certa eficiência. Aqui não é diferente: Meryl Streep e Jack Nicholson dão vida à essa história de casamento e traição inspirada na vida da própria Ephron. É uma comédia dramática extremamente simples que traz Meryl Streep mais “gente como a gente” do que nunca e um Jack Nicholson igualmente à vontade. Só não ser muito crítico para aproveitar o resultado… 7.5/10

A FILHA DE GIDEON (Gideon’s Daughter, 2005, de Stephen Poliakoff): Antes de mais nada, A Filha de Gideon é uma grande chance para Bill Nighy, um ator pouco aproveitado e que, nesse filme, está sublime – inclusive, mereceu o Globo de Ouro que recebeu pelo seu trabalho. Ele é o protagonista desse telefilme da BBC sobre o cotidiano de um famoso publicitário que precisa lidar com seus clientes, a falta de comunicação com a filha e a nova amizade que começou com uma mulher que acabou de perder o filho. É uma história muito sutil, interpretada por um elenco de qualidade (além de Nighy, tem Emily Blunt, Miranda Richardson e Tom Hardy) e que sabe a medida certa para os dramas que apresenta – inclusive no uso da excelente trilha. 8.0/10

O GAROTO DA BICICLETA (Le Gamin au Vélo, 2011, de Jean-Pierre e Luc Dardenne): Não é nenhum exagero fazer comparações entre Tão Forte e Tão PertoO Garoto da Bicicleta. Ambos falam sobre crianças extremamente geniosas que lidam com a ausência de uma figura paterna e que, em jornadas solitárias, não parecem precisar da ajuda das mulheres presentes em suas vidas. Só que se o primeiro é (injustamente) acusado de ser muito melodramático, o segundo não me instigou por ser justamente o oposto: racional, clínico, quase frio. Principalmente porque é difícil ter compaixão pelo protagonista. É de se admirar sempre a abordagem naturalista dos irmãos Dardenne. No entanto, falta algo em O Garoto da Bicicleta, que também tem um ato final muito abrupto e sem grandes surpresas. 7.0/10

IDENTIDADE PARANORMAL (Shelter, 2009, de Måns Mårlind e Björn Stein): É só ver o pôster do filme ou ler a sinopse para pressentir a bobagem que é Identidade Paranormal, lançado diretamente em home video aqui no Brasil. E o que você pensou sobre o filme está certo – elevado ao cubo. Não entendo que tipo de diretor consegue fazer um filme tão horrível quando tem duas duas atrizes do calibre de Julianne Moore e Frances Conroy no elenco. Já é sabido que as duas constantemente estão envolvidas em bombas, mas ambas poderiam ter evitado essa desgraça… Identidade Paranormal tem uma história boba (sempre a psiquiatra que vira investigadora, né?), suspense nulo, resoluções que seguem um caminho completamente inverso do que a história estava seguindo e uma direção completamente amadora. Enfim, no início até parece um filme ruim para se ver de madrugada – mas, aos poucos, revela que nem isso consegue ser. 2.0/10

LAS MALAS INTENCIONES (idem, 2011, de Rosario Garcia-Montero): Assisti no Festival de Cinema de Gramado do ano passado, e foi um dos longas da mostra competitiva latina que mais me agradou. Las Malas Intenciones, já exibido também no Festival de Berlim, é um filme peruano que tem muito a ver com O Labirinto do Fauno no que se refere ao seu foco narrativo: aqui, os dramas são contados a partir do ponto de vista de uma menina mais esperta do que outras de sua idade, enquanto os adultos servem apenas de suporte para seus dilemas. Indispensável elogiar a jovem Fátima Búntix, que segurou muito bem o filme com um desempenho exemplar. Ela, como a inteligente Caetana, que acha necessário morrer no dia em que seu novo irmão nascer, incorpora com precisão todas as boas situações criadas por esse excelente drama. 8.0/10

Prometheus

How far would you go to get your answers?

Direção: Ridley Scott

Roteiro: Jon Spaihts e Damon Lindelof

Elenco: Noomi Rapace, Michael Fassbender, Charlize Theron, Idris Elba, Guy Pearce, Sean Harris, Logan Marshall-Green, Rafe Spall, Emun Elliott, Kate Dickie

EUA, 2012, Ficção Científica, 124 minutos

Sinopse: Uma equipe de exploradores descobre novos indícios sobre as origens da humanidade na Terra, levando-os a uma aventura impressionante pelas partes mais sombrias do universo. Eles deverão vencer uma batalha cruel para salvar o futuro da raça humana. O nome do filme, Prometheus, é também o nome da aeronave utilizada por um grupo seleto de pessoas para investigar os fragmentos do “DNA alienígena”. (Adoro Cinema)

Ridley Scott não mexia com o mundo da ficção científica desde os anos 1980, quando realizou filmes visionários e marcantes como Blade Runner – O Caçador de Androides Alien – O Oitavo Passageiro. Durante esse hiato, o diretor parece ter desperdiçado suas ideias em filmes que não davam uma linha consistente a sua carreira. Claro que existem importantes exceções (e o maravilhoso Thelma & Louise é a maior delas), mas se formos olhar atentamente ao que ele realizou mais especificamente nos últimos anos, podemos encontrar produções datadas (Cruzada), inexpressivas (Um Bom Ano) e bastante decepcionantes (Hannibal). Esse potencial até então diluído do diretor agora ganha chance em Prometheus, que marca retorno de Scott ao mundo da ficção científica. E, mesmo que esteja longe de representar um de seus momentos superlativos, consegue, facilmente, ser o mais interessante em muitos últimos anos.

Prometheus foi originalmente pensado para ser um prequel de Alien – O Oitavo Passageiro, mas, depois, foi realizado como uma obra inteiramente original. E não estranhe se você vê-lo como, de fato, um prequel de Alien. Isso porque Prometheus, passado em um universo muito semelhante ao do filme original e com referências a ele, traz vários dos elementos que fizeram Scott alcançar sucesso com essa história que, posteriormente, teve três outros longas e algumas bobagens aleatórias como Alien vs. Predador. Agora, em uma época completamente diferente, o diretor, de certa forma, retorna a esse mundo. E o resultado é extremamente interessante em vários sentidos. A verdade, porém, é que Prometheus traz os tradicionais pontos positivos e negativos dos blockbusters da atualidade.

O que devemos afirmar, indiscutivelmente, é que, apesar da média de qualidade dos filmes de hoje, o cinema nunca viveu uma época tão cheia de perfeição em termos de tecnologia. Ciente disso, Prometheus usa e abusa de tudo o que os efeitos visuais podem oferecer a favor de uma história. Logo na primeira cena já somos brindados com uma ótima introdução cheia de impacto visual e, ao longo do filme a estética fica ainda mais avassaladora. Os efeitos cumprem a sua missão não só de trazer impacto para aquele mundo, mas também de tornar tudo palpável, próximo da realidade. O visual de Prometheus é impecável: parece que nada foi criado em computador e que tudo aquilo que se constrói na tela existia mesmo durante as gravações. Tudo isso torna a experiência um verdadeiro deleite visual, digno de ser conferido na maior tela possível. E tela de cinema, pois metade das impressões deixadas por Prometheus serão perdidas em home video.

Ok, o filme de Ridley Scott impressiona na construção visual de seu mundo e é uma excelente pedida para quem gosta de ir ao cinema para sentir-se impressionado com elementos técnicos. Mas agora vamos aos fatos que quase colocam Prometheus no lugar-comum dos blockbusters: o roteiro. Assim como James Cameron, Scott prefere apostar na habilidade de transmitir emoções através do trabalho audiovisual. Por isso, se analisado individualmente, o roteiro da dupla Jon Spaihts e Damon Lindelof fica devendo em muitos aspectos: os personagens não são devidamente aprofundados, a história demora a engrenar, as discussões propostas não são consistentes como poderiam ser e a trama ainda cai na necessidade de sempre ter sempre um antagonista (no caso, a personagem vivida por Charlize Theron, completamente avulsa deslocada). Assim, parece que falta algo em Prometheus: talvez algo mais complexo e menos dispersivo, já que, em certos momentos, parece que a história se resume ao mero relato de uma expedição.

Em contrapartida a todos os elementos negativos, a boa notícia é que Prometheus não é uma exploração. Bem pelo contrário: os méritos visuais e, por que não, sensoriais do longa são tão interessantes que os pontos positivos acabam compensando os negativos. O filme cumpre sua missão de entreter o espectador, fazendo com que ele fique não só impressionado com tantos elementos visuais mas também com o coração na mão em momentos de tirar o fôlego, como aquele em que acontece uma tensa cesariana ou quando uma gigantesca tempestade atinge o ambiente onde estão os personagens. Com tudo isso a favor da história, a falta de uma linha dramática definida ou a incompletude de certas intenções de Prometheus pouco vão atrapalhar essa experiência que merece ser vista em tela grande. Sorte ou não, dessa vez os pontos positivos venceram.

FILME: 8.0