Mais de duas décadas depois e agora em dose única, “Kill Bill” está de volta aos cinemas com sangue, adrenalina e… amor!

Sei que, pela proximidade do Oscar, eu deveria estar falando sobre o que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood deverá aprontar na cerimônia do próximo domingo (12), mas fui ver Kill Bill: The Whole Bloody Affair no cinema e veio uma vontade incontrolável de falar sobre essa versão unificada de Quentin Tarantino para os dois filmes – Kill Bill: Vol. 1 e Kill Bill: Vol. 2 – lançados em 2003 e 2004, respectivamente. À época, por pressões comerciais e exigências do famigerado produtor Harvey Weinstein, Tarantino precisou dividir em dois o seu longa-metragem então concebido como uma experiência única. A imposição do lançamento nesse formato nunca foi segredo e, agora, mais de 20 anos depois, quando vemos a versão em um só filme, dá para entender o porquê. Ainda que tenham sido aclamados com o mesmo entusiasmo, os dois capítulos de Kill Bill se engrandecem ainda mais quando condensados.

Há, no entanto, um adendo a ser feito: o marketing dá conta de que The Whole Bloody Affair seria uma experiência nova por ter cenas adicionais, o que não é exatamente uma verdade. Com exceção da versão estendida do anime envolvendo a origem da rainha do crime O-Ren Ishii (Lucy Liu), o que se acrescenta são apenas poucos segundos a algumas sequências, como pequenos alívios cômicos na batalha da Noiva (Uma Thurman) com os Crazy 88. A mudança mais significativa se dá em termos de estrutura: enquanto o Vol. 1 terminava com uma grande revelação – pensada, diga-se de passagem, exatamente para estimular o público a ver o Vol. 2 que seria lançado cerca de um ano depois –, The Whole Bloody Affair abre mão dessa sequência para deixar que o público ainda leigo na história descubra o tal segredo junto com a protagonista, somente no terço final, o que fortalece os traços essencialmente dramáticos que a história adota em seus momentos derradeiros.

Em síntese, Kill Bill é sobre uma ex-assassina profissional que, após acordar de um coma de quatro anos, decide se vingar do esquadrão responsável por sua quase-morte e liderado pelo Bill do título. Na divisão da obra, o primeiro volume se apresentava, inegavelmente, como uma obra mais violenta, pop e frenética, enquanto o segundo desacelerava em muitos aspectos, quase como uma antítese do que havíamos visto até então – não à toa, o clímax envolvendo o ato de, enfim, matar Bill (David Carradine) está envolto em diálogos e sentimentos, longe, por exemplo, da sanguinolência e da brutalidade com que todas as outras mortes se deram. A disparidade de estilos afetou, durante muitos anos, o meu envolvimento a saga da protagonista, pois nunca nutri pela segunda parte o mesmo entusiasmo que eu tinha pela primeira, algo que, hoje, ao me deparar com The Whole Bloody Affair, vejo que foi problema direto da decisão comercial que separou a obra como um todo.

Daqui para frente, contudo, o que ficará na minha memória é a experiência de ter assistido ao filme como ele foi concebido no papel. E é algo que faz toda a diferença, pois, tendo visto todos os acontecimentos de uma tacada só e sem a espera entre um lançamento e outro, os próprios descompassos que eu sentiam se torna uma qualidade. Toda a brutalidade vertiginosa da primeira parte vai gradativamente se tornando mais humana e ramificada em seus propósitos, culminando em uma série de relações interpessoais para lá de tortas e conflituosas, sejam as dos negócios mortais estabelecidos pelo Esquadrão Assassino de Víboras Mortais ou das relações afetivas, começando, claro, pela relação da Noiva com Bill. Em aproximadamente 4h30min, Tarantino desenha as transformações da trama com calma e criatividade, sem usar reviravoltas como meras muletas, mas sim como forma de trazer nuances para vários personagens que não chegamos a conhecer em meio aos deliciosos baldes de sangue e violência do primeiro ato. As horas de The Whole Bloody Affair não se fazem sentir e estão, a todo momento, trabalhando a favor de uma grande construção dramática.

Antes ou depois de Kill Bill, não faltaram reverências a Quentin Tarantino, que levou para casa da Palma de Ouro ao Oscar por filmes como Pulp Fiction e Django Livre. Seu último longa, Era Uma Vez… Em Hollywood rendeu a Brad Pitt todos os prêmios de melhor ator coadjuvante em 2020. Não acho que sua fase mais recente seja das mais interessantes. Pelo contrário: o que não me falta é desinteresse por um Tarantino cujo cinema se tornou consciente demais de si próprio, resultando em trabalhos tão interessantes quanto verborrágicos, como Os Oito Odiados, e cuja persona tem proferido um punhado de bobagens, a exemplo de seu depoimento depreciando, aleatoriamente, o grande desempenho de Paul Dano em Sangue Negro. Nada, contudo, afeta minha admiração por Kill Bill, que considero seu auge como contador de histórias. Em nenhum outro trabalho Tarantino amalgamou ocidente e oriente, samurais e caubóis, sangue e lágrimas ou amor e vingança com tanta disciplina e criatividade, sem fazer de The Whole Bloody Affair uma homenagem genérica a diversos gêneros e cineastas. É trabalho fino e de muitas constelações alinhadas no momento certo.

Todo esse universo não seria possível sem a presença de outra figura fundamental no processo de concepção de Kill Bill: a atriz Uma Thurman. Mais do que a protagonista, Thurman imaginou a personagem da Noiva junto a Tarantino antes mesmo da concepção do roteiro. E não é só com distância que a imensidão da atriz como a estrela do longa se faz notar: mesmo no lançamento do primeiro volume, a performance de Thurman já se estabelecia como um parâmetro para a posteridade tamanha a sua entrega física, dramática e versátil. O tempo só tornou ainda mais icônica uma performance sempre lembrada em Hollywood, como constatado em uma entrevista recente de Charlize Theron. Estrela do também memorável Mad Max: Estrada da Fúria, Theron falou que Uma Thurman em Kill Bill sempre foi a sua “sensei”, o que faz todo sentido comparado tudo o que as duas fizeram de marcante como protagonistas de suas duas obras. Se o Oscar vem quebrando preconceitos com o gênero de terror ao indicar com mais frequência nomes como Demi Moore (A Substância) e Amy Madigan (A Hora do Mal), o próximo passo é rever a relação com o gênero de ação, para que as próximas Uma Thurman e Charlize Theron não sejam mais uma vez também absurdamente ignoradas.

E, não menos importante, ao voltar a Kill Bill, me peguei pensando sobre o quanto a saga também é sobre… Amor! Dos mais tortos, cruéis e mortais, é verdade, mas, ainda assim, amor. Permito-me aqui abraçar o spoiler. Na reta final, a Noiva encontra um antigo conhecido de Bill que, enfim, lhe dará informações sobre onde está aquele que é último alvo da sua lista de vingança. Ao receber a localização com facilidade suspeita, ela questiona a veracidade dos fatos, ao que o personagem responde: “Ele gostaria que eu a ajudasse. Afinal, como a reencontraria novamente?”.  Já é o indício de que o último encontro do filme se dará não com violência, mas sim como o acerto de contas envolvendo uma série de ressentimentos, mágoas e respostas desproporcionais aos rumos tomados por um relacionamento outrora romântico. Não deixa de ser a inversão definitiva de expectativas que Tarantino guarda para uma saga recheada de surpresas por si só e que, entre cenas de ação muitíssimo bem coreografadas e o extremo bom gosto para a seleção de uma coletânea de canções na trilha sonora, acaba sendo, ao fim e ao cabo, sobre como o amor pode ser, ironicamente, um sentimento destrutivo e com muito mais sangue do que aquele bombeando os nossos corações.

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