“Hamnet” é sobre o homem, não o ícone — e, mais ainda, sobre a mulher que definiu a sua vida

The rest is silence.

Direção: Chloé Zhao

Roteiro: Chloé Zhao e Maggie O’Farrell, baseado no romance “Hamnet: A Novel of the Plague”, de Maggie O’Farrell

Elenco: Jessie Buckley, Paul Mescal, Emily Watson, Joe Alwyn, Jacobi Jupe, Noah Jupe, Olivia Lynes, Bodhi Rae Breathnach, David Wilmot, Freya Hannan-Mills, Dainton Anderson, James Skinner, Louisa Harland

Hamnet, Reino Unido/Estados Unidos, 2025, Drama, 125 minutos

Sinopse: Um dos mais importantes escritores do cânone ocidental, William Shakespeare (Paul Mescal) vive uma tragédia ao lado de sua esposa Agnes (Jessie Buckley) quando o casal perde o filho de 11 anos para uma das várias pragas que assolaram o século XVI. Hamnet era o nome do menino. Explorando os temas da perda e da morte, o filme acompanha a rotina e o dia a dia de uma família, as alegrias e as tristezas de viver numa pequena vila na Inglaterra do passado e a história de amor poderosa que inspirou a criação da peça Hamlet.

Há poucas certezas e muitas conjecturas no que se sabe sobre a vida pessoal do dramaturgo inglês William Shakespeare (1564 – 1616). Tanto que a escritora Maggie O’Farrell e a diretora Chloé Zhao, tomaram a liberdade de abraçar a imaginação na confecção do roteiro de Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, que deixa quase em segundo plano o Shakespeare autor para adentrar as possibilidades de quem ele teria sido como um homem comum. E o ponto de vista adotado pelo longa não poderia ser mais humano em sua cotidianidade: o de Agnes (Jessie Buckley), mulher com quem William (Paul Mescal) escolheu viver sua vida e com quem teve três filhos.

Conhecendo-se a filmografia da chinesa Chloé Zhao, a abordagem não vem como nenhuma surpresa. Pelo contrário: a delicadeza inerente aos seus trabalhos autorais distancia Hamnet da ideia que temos de uma mera cinebiografia para aproximá-lo de um drama palpável e muito próximo do espectador. Ou seja, não se trata de uma obra que pretende reverenciar o ícone William Shakespeare e olhar pela fechadura de sua vida íntima. Todos saem ganhando: Zhao, que pode fazer um filme com a sua assinatura; e a própria plateia, que não se vê enredada em mais uma cinebiografia pretensiosa ou enfadonha.

Se, por um lado, a estrutura do texto nem sempre funciona — Hamnet avança a partir de inúmeras elipses, o que suprime a reverberação de determinadas construções dramáticas —, todo o resto compensa eventuais efeitos colaterais, como o próprio ritmo da história. Isso é perceptível desde a primeira cena, centrada em Agnes e já fundamental para entendermos o quanto sua relação com a natureza e com o místico terá papel importante na relação com William e até mesmo na tragédia que acometeu um dos seus três filhos. Tragédia essa que acabou levando o dramaturgo a criar Hamlet, possivelmente sua obra mais icônica.

Como a observação do encontro entre duas pessoas comuns, Hamnet nos apresenta a uma Agnes deslocada, tida em sua cidade como “a filha de uma bruxa da floresta”, em função do poder que teria de ver o futuro das pessoas apenas ao tocar em suas mãos. Em casa, excetuando a relação com o irmão, tem pouca conexão com a família, que já lhe cobra um casamento. Em William, ela encontra um semelhante: tutor de latim, ele também tem lá seus percalços familiares e confessa ter dificuldade em se comunicar com as pessoas. A aproximação é imediata, e Agnes logo entende que tudo se dá porque ele o ama porque aquilo que ela é, não por aquilo que os outros querem que ela seja.

Não tarda para que Hamnet comece a desconstruir o relacionamento, a começar pela maneira com que explora a insatisfação de William consigo mesmo. Ele teme beber demais, ter rompantes violentos ou, quem sabe, precisar de uma morada em Londres onde possa desenvolver seu lado de autor. Agnes aceita e o que vem dessa decisão muda para sempre a dinâmica entre os dois: longe de casa, ela terá filhos sem a presença do marido — e, eventualmente, perderá um deles amparada apenas pela sogra, vivida por Emily Watson em papel pequeno, mas de presença forte.

Entre as várias elipses do filme, Chloé Zhao ora encena a sinergia muito verossímil de uma família feliz quando William está presente, ora o profundo abismo em que Agnes se encontra com a ausência de um homem cujo trabalho ela sequer conhece — enquanto imaginava que Shakespeare escrevia uma comédia, ele estreava, na verdade, uma tragédia que, antes mesmo de estrear, já despertava o boca-a-boca do público londrino. É um arco sempre doloroso o do casal outrora feliz que se desintegra, ainda mais quando acometido por um luto indescritível, e Zhao, sabendo disso, faz o mínimo de intervenções técnicas ou estéticas para sublinhar o drama.

Há quem diga que o filme manipula emoções e que se regozija no sofrimento dos personagens para ensaiar algum estofo. Assim como nos recentes Morra, Amor e Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria — outras duas obras que, cada uma à sua maneira, discute o pesado fardo da maternidade —, discordo de tal afirmação porque sou profundamente solidário aos dramas das personagens e, como homem, acredito ser no mínimo pretensioso ou equivocado o conceito de tentar dimensionar as profundezas dos dilemas femininos, em especial os maternos. Para mim, foram três sessões que só me trouxeram ainda mais empatia pelas mulheres.

Gostando-se ou não de Hamnet, creio ser impossível sair ileso à sequência final, que coloca no palco, enfim, o Hamlet de William Shakespeare como viemos o conhecer em sua influência dramatúrgica mundial. Ao mesmo tempo, tudo ganha um novo sentido ali depois de tudo que testemunhamos. É quando Zhao termina seu longa no auge, por diversas razões. Talvez porque ali estejam melhor exemplificadas as maravilhosas performances de Jessie Buckley e Paul Mescal. Ou, então, porque ela reverbera a sempre comovente mensagem de como a arte é capaz de expurgar e ressignificar as dores mais intransponíveis. Contudo, desconfio que seja mesmo porque ali estão concentrados, de vez, os sentimentos mais verdadeiros e profundos que Chloé Zhao e Maggie O’Farrell quiseram extrair do específico mundo de Shakespeare para que se tornassem universais, como todo bom drama produzido pelo cinema.

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