“O Aprendiz” é recorte muito bem calibrado de como Donald Trump moldou sua maneira de agir no mundo

 Admit nothing, deny everything.

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Direção: Ali Abbasi

Roteiro: Gabriel Sherman

Elenco: Sebastian Stan, Jeremy Strong, Maria Bakalova, Martin Donovan, Catherine McNally, Charlie Carrick, Ben Sullivan, Mark Rendall, Joe Pingue, Ron Lea, Edie Inksetter, Matt Baram, Moni Ogunsuyi

The Apprentice, Canadá/Dinamarca/Irlanda, 2024, Drama, 122 minutos

Sinopse: O jovem Donald Trump (Sebastian Stan), ansioso para fazer seu nome como o ambicioso segundo filho de uma família rica na Nova York dos anos 1970, cai sob o feitiço do implacável advogado Roy Cohn (Jeremy Strong).

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Donald Trump (Sebastian Stan) se orgulha de, em certa medida, ter domado Ivana (Maria Bakalova), sua esposa que, durante muito tempo, antes do matrimônio, resistiu às insistentes investidas do hoje ex-presidente dos Estados Unidos. Ainda que tenha preservado boa parte de sua forte personalidade após o matrimônio, ela acaba se tornando, como tudo na vida do empresário, uma mera conquista. “Ao menos consegui que ela colocasse silicone”, diz ele, quando perguntado sobre sua relação com Ivana. Silicone esse que, tempos depois, em outra cena, ele desprezaria, dizendo que não sente mais atração pela esposa, inclusive por seus “seios de plástico”.

A relação específica entre os dois é a perfeita representação de como Trump encara o mundo: tudo e qualquer coisa são apenas uma conquista, um jogo, uma queda de braço. E O Aprendiz, do diretor iraniano Ali Abbasi, incorpora sua perspectiva torpe e egocêntrica diante do mundo para narrar a sua ascensão no mercado imobiliário de Nova York em meados dos anos 1970, começando pela construção da ambiciosa Trump Tower até os vários cassinos inaugurados por ele após uma série de sucessivas conquistas. Não se trata de um longa sobre o corrompimento de um iniciante ou da tentativa de humanização de um homem conhecido por seus absurdos, mas pura e simplesmente de imaginar a vida de Trump a partir da sua própria maneira de ver as coisas.

É importante ressaltar isso porque ao menos metade de O Aprendiz, assim como o seu próprio título, reside no período em que o personagem se vê às voltas com Roy Cohn (Jeremy Strong), polêmico advogado que apadrinhou Trump e lhe mostrou todos os caminhos vis e escusos para se vencer na vida. O jovem protagonista aprende com Cohn, entre outras coisas, que nunca se deve admitir derrota e que parte da vitória está no ato de intimidar e ameaçar, sem se importar com que os outros pensam. Ajustados ou não para fins dramáticos, conforme os letreiros iniciais anunciam, todos os momentos são fidelíssimos a Trump como viemos a conhecê-lo na vida pública.

Sua essência está inteirinha ali, e não é difícil imaginar que ele realmente teria certas reações na vida privada, como quando, discutindo com Ivana, ele perde por completo o controle ao ouvir da esposa que seus cabelos estão caindo. O Aprendiz mostra que, para Trump, tudo é sobre Trump — seu nome está no ambicioso hotel a ser construído ou, então, nas abotoaduras de diamantes presenteadas a Roy Cohn — e que nunca há palavra mais importante que sua, inclusive diante de decisões médicas. Trata-se de uma realidade alternativa, onde, para ele, a verdade se torna flexível. É uma escalada que o filme delineia com habilidade, tornando perfeitamente compreensível o engrandecimento do aprendiz para cima de Cohn, criador que acaba engolido por sua própria criação.

O roteiro de Gabriel Sherman cerca o personagem de pessoas que testemunham essa transformação e, em situações mais críticas, contrapõem-se ao seu comportamento, o que é importante para que O Aprendiz não perca de vista os desvios de um homem desde cedo tomado pelo ego e pela ideia de que não existem leis, mas sim negociações para qualquer assunto ou problema. Mesmo a difícil relação com o pai não cai em estereótipos, pois Trump jamais sucumbe ou se vitimiza diante da figura do pai — pelo contrário, quase faz coisas como se quisesse dar um troco em seu progenitor e mostrar como suas escolhas são melhores que a dele.

Abbasi compõe uma estética eficiente para emoldurar O Aprendiz. Além da atmosfera setentista e granulada, a câmera captura tudo com um tom documental, como se estivesse ali de forma intrusiva, lançando luz sobre reações que não veríamos em um registro tradicional, bem ao estilo do seriado Sucession. Isso é prato cheio, claro, para as performances. Na pele de Trump, Sebastian Stan alcança um equilíbrio raro, emulando tiques e trejeitos (vale reparar nos movimentos da boca, iguais ao do biografado) sem deixar o mimetismo se tornar uma muleta de interpretação. Pelo contrário: sua versão do ex-presidente é crível e instigante. Tão bom quanto é o trabalho de Jeremy Strong como Roy Cohn, que cria uma figura incômoda em diversas frentes, da índole predadora ao desmoronamento físico e emocional (e a cena de seu último aniversário é uma das melhores do filme).

Na sequência final, encontramos o protagonista concedendo um depoimento ao jornalista que está prestes a escrever sua biografia. Trump, por estar pagando a realização do projeto, escolhe o que omitir ou priorizar. Para tanto, destila posicionamentos, um deles, curiosamente, sendo o de que governar é para perdedores e de que, mesmo amando negociar, jamais entraria na política. Entre as contradições e as ambições expostas ali, O Aprendiz termina com esse homem em pé, do alto do seu escritório envidraçado, olhando para uma bandeira dos Estados Unidos no horizonte. Não há mais nada a ser contado — sabemos muito bem, a partir dali, mais do que o futuro reservava à Trump. Sabemos, acima de tudo, o que o mundo, dividido, acompanharia com doses esquizofrênicas de horror ou idolatria.


“The Apprentice” is a Well-Calibrated Snapshot of How Donald Trump Shaped His Approach to the World

Donald Trump (Sebastian Stan) takes pride in having, to some extent, “tamed” Ivana (Maria Bakalova), his wife, who long resisted his persistent advances before marriage. Although she has kept much of her strong personality after marriage, she ends up becoming, like everything in the businessman’s life, a mere conquest. “At least I got her to get implants,” he remarks when asked about his relationship with Ivana. Those implants, later on in another scene, he dismisses, saying he’s no longer attracted to her, including her “plastic breasts.”

Their specific relationship perfectly captures Trump’s view of the world: everything and everyone are simply conquests, a game, a test of wills. And The Apprentice, directed by Iranian filmmaker Ali Abbasi, adopts his warped, egocentric worldview to depict his rise in New York’s real estate market in the mid-1970s, from the construction of the ambitious Trump Tower to the multiple casinos he opened after a series of successive triumphs. This isn’t a film about a newcomer’s corruption or an attempt to humanize a man known for his absurdities; rather, it’s purely about imagining Trump’s life through his own lens.

It’s essential to highlight this because at least half of The Apprentice, as the title suggests, centers on the period when Trump is under the guidance of Roy Cohn (Jeremy Strong), the controversial lawyer who mentored Trump and showed him every vile and dubious pathway to success. Among other things, Cohn teaches the young protagonist that one must never admit defeat and that part of winning is about intimidating and threatening without caring what others think. Though dramatized, as indicated by the opening credits, every moment is true to the Trump we’ve come to know in public life.

His essence is entirely there, and it’s easy to imagine him having similar reactions in private life, such as when, in an argument with Ivana, he completely loses control upon hearing her mention his thinning hair. The Apprentice demonstrates that, for Trump, everything is about Trump—his name is on the ambitious hotel to be built or on the diamond cufflinks given to Roy Cohn—and there’s never a word more significant than his, even in medical decisions. It’s a reality where, to him, truth becomes flexible. The film skillfully outlines this escalation, making the apprentice’s rise over Cohn, the creator being swallowed by his own creation, feel natural.

Gabriel Sherman’s screenplay surrounds the character with people who witness this transformation and, in more critical situations, challenge his behavior, which helps keep The Apprentice grounded in the deviations of a man seized early on by ego and the idea that there are no laws, only negotiations for any issue or problem. Even the fraught relationship with his father doesn’t fall into stereotypes; Trump never succumbs or plays the victim under his father’s shadow—quite the opposite, almost making moves as if to one-up his father and show that his choices are superior.

Abbasi crafts an effective aesthetic to frame The Apprentice. Alongside the grainy 1970s atmosphere, the camera captures everything with a documentary-like tone, as if intrusively present, shedding light on reactions not usually seen in a traditional portrayal, very much in the style of Succession. This naturally becomes a feast for the performances. As Trump, Sebastian Stan finds a rare balance, emulating mannerisms and tics (watch his mouth movements, identical to the real Trump’s) without letting mimicry become a crutch. On the contrary, his version of the former president is believable and intriguing. Equally compelling is Jeremy Strong as Roy Cohn, creating a disturbingly multifaceted figure, from predatory inclinations to physical and emotional decay (his last birthday scene is among the film’s best).

In the final sequence, we see Trump giving an interview to the journalist who is about to write his biography. Since Trump is funding the project, he decides what to omit or prioritize. He uses the opportunity to share his views, one of which, interestingly, is that governing is for losers and that, while he loves negotiating, he would never enter politics. Between the contradictions and ambitions revealed in that moment, The Apprentice ends with this man standing in his glass-walled office, looking out at an American flag on the horizon. There is nothing more to tell – we know well what the future held for Trump from that point onward. Above all, we know what the world, divided, would witness with schizophrenic doses of horror or idolization.

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